Distribuição – Vendas crescem, superando os efeitos da pandemia

Alta capacidade de adaptação aos momentos de crise, apesar dos entraves logísticos

A distribuição de produtos químicos comprova sua resiliência e consegue atravessar a pandemia da Covid-19 com poucos efeitos adversos.

A vasta experiência dos empresários do setor para lidar com crises – no Brasil, principalmente – e a inerente flexibilidade do comércio químico geraram uma rápida resposta adaptativa ao novo ritmo de negócios e evitaram perdas mais significativas, como as registradas por alguns setores industriais, a exemplo do automobilístico.

Nem tudo, porém, são flores no caminho do comércio de produtos químicos. A eclosão repentina da doença causou a parada da produção de vários insumos e também das operações logísticas internacionais.

Entre março e maio de 2020, foi grande a escassez global de muitos produtos químicos, cujos preços dispararam.

Quem tinha estoque formado a preços baixos conseguiu realizar lucros, mas houve alguma frustração ao perceber que a reposição desses itens ficou ainda mais cara.

O remédio para prevenir o “ouro de tolo” foi investir mais na prospecção de fontes de suprimentos e acompanhar o comportamento dos mercados com atenção redobrada.

Como se não bastasse a dificuldade para comprar produtos, a taxa cambial registrou forte oscilação em 2020, passando dos R$ 4,30 para R$ 5,60 em menos de quatro meses, ameaçando vez por outra bater a marca dos R$ 6 no primeiro trimestre de 2021.

E, neste ano, com Joe Biden no leme dos Estados Unidos e a recuperação da economia global, a moeda americana perdeu valor e procura repouso novamente abaixo dos R$ 5,00.

Química e Derivados - Distribuição - Vendas crescem, superando os efeitos da pandemia ©QD Foto: iStockPhoto
Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim)

“Os produtos químicos, mesmo os fabricados no Brasil, são dolarizados, o estoque acaba funcionando como um hedge natural para os distribuidores”, comentou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

“Para nós, o importante é ter estabilidade, sem flutuações abruptas, como a que aconteceu em 2020”, disse. “Mas o setor já se acostumou a isso, desenvolvemos nossos anticorpos, ou seja, evitam-se riscos desnecessários, os movimentos comerciais são mais conscientes.” Tanto assim que, como salientou, quase não se vê inadimplência de distribuidores.

Os resultados de 2020, em levantamento preliminar da Associquim com seus associados, apontam uma queda de faturamento de 10% em dólares, mas um aumento significativo em reais.

“A desvalorização forte do real explica essa divergência, foi um resultado razoável, considerando as dificuldades de vários segmentos de mercado atendidos pela distribuição”, avaliou Medrano.

A rentabilidade das operações registrou uma pequena queda, resultado do aumento do custo de aquisição de produtos e dos fretes. Mas, perto de outras atividades produtivas, o resultado deve ser comemorado.

“O varejo, em geral, foi muito prejudicado, mas setores como alimentos, higiene pessoal e farmacêutico tiveram resultados excelentes”, comparou.

Quase encerrado o primeiro semestre de 2021, as dificuldades logísticas permanecem em muitas regiões do mundo.

“Alguns países se recuperaram antes dos outros e isso desbalanceou o mercado, há locais com falta de contêineres, por exemplo, mas eles estão sobrando em outros e ficam parados esperando o retorno”, disse.

Especialidades e insumos da química fina são transportados com esse tipo de equipamento, enquanto as commodities são movimentadas a granel.

Em 2020, as incertezas geradas pela pandemia mudaram o comportamento dos compradores. “Muitos clientes que importavam seus insumos passaram a se abastecer pela distribuição, porque não tinham certeza se valia a pena trazer produtos em quantidade para um mercado instável, isso pressionou ainda mais os estoques da distribuição”, comentou.

Quando a economia voltou a ganhar tração, já no segundo semestre de 2020, os compradores resolveram recompor os estoques que haviam sido consumidos. Isso resultou em uma demanda superior ao volume habitual.

“Ainda não se sabe se todos os estoques das cadeias produtivas estão recompostos, ou seja, ainda é cedo para dizer que o mercado mundial de químicos se normalizou”, avalia Medrano.

De qualquer forma, como salientou, a participação da América Latina nos fluxos de comércio globais é pequena e, até por isso, tende a sofrer mais com as restrições de fretes marítimos.

O presidente da Associquim considera essencial acompanhar a atividade econômica nacional com atenção. “A atividade da distribuição não é fim, mas é meio, nós suprimos as indústrias com insumos químicos, portanto nossos resultados refletem o desempenho dos clientes”, afirmou.

Nesse sentido, os resultados do setor em 2021 dependem da rapidez da retomada da atividade econômica. “A incerteza em relação à Covid-19 ainda é alta, a vacinação avança lentamente, o desemprego segue muito forte e afeta a classe média, com isso o consumo tende a cair”, considerou.

“E as reformas fiscal e tributária não chegam.” Com esse cenário, melhores dias virão em 2022, ano eleitoral, quando os cofres governamentais tendem a se abrir com facilidade para irrigar a economia.

“Mas nada indica que a carga tributária do Brasil vá cair, porque o déficit fiscal ainda é muito alto”, disse. A forte polarização politica também contribui para piorar o quadro, por aumentar a instabilidade.

A crise hídrica que se apresenta no momento é observada com muita preocupação por Medrano.

“A distribuição será afetada indiretamente, caso a indústria seja forçada a reduzir a produção, além disso, a eletricidade mais cara impacta os custos, isso exige ficar atento para introduzir medidas de economia de energia”, afirmou.

Ele também prevê um impacto nas indústrias eletrointensivas que abastecem a distribuição, com reflexo no preço e disponibilidade de insumos.

O lado favorável do país segue no setor primário, especialmente na agropecuária, cujas exportações mantêm elevado o superávit comercial.

A distribuição supre esse segmento com especialidades para formulação de defensivos agrícolas e alguns micronutrientes.

“As grandes commodities fertilizantes são operadas pelas cooperativas ou por trading companies que oferecem o sistema de barter”, afirmou.

A pandemia revelou um setor de distribuição bem estruturado, em todos os portes de empresas, sendo capaz de adotar diferentes regimes de trabalho, a exemplo do home office, sem interromper suas atividades.

“O uso da tecnologia da informação no setor já é realidade, isso ajudou muito, mas pensar em vender produtos químicos por e-commerce comum ainda é uma coisa distante, são produtos perigosos, exigem muitas licenças”, comentou.

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