Distribuição – Setor cresce na Europa e nos EUA, mas normas elevam os custos

Realizado em março, no Tivoli Eco Resort, na Praia do Forte, Bahia, o Encontro Brasileiro da Distribuição Química (EBDQuim) cumpriu seu propósito de reunir grande parte das empresas do setor, intensificando relacionamentos e abrindo a possibilidade de negócios, além de contar com a presença de representantes de grandes indústrias químicas nacionais e estran-geiras, bem como de órgãos governamentais. Ao mesmo tempo, o encontro permitiu enxergar alguns aspectos relevantes do comportamento do mercado químico mundial e a movimentação das associações congêneres da distribuição na Europa e nos Estados Unidos.

Miguel Mantas, diretor-geral e membro do comitê executivo da Oxea, empresa química com sede na Alemanha, formada pela união de negócios segregados pela Hoechst, Celanese e Degussa – detentora da segunda maior capacidade mundial de processos OXO (para produção de álcoois sintéticos de cadeia longa), atrás apenas da Basf, porém é a maior supridora do mercado –, informou que a economia mundial crescerá perto de 3% neste ano. “Onde está a crise?”, perguntou. Ele salienta que a crise financeira iniciada nos EUA em 2008 realmente se espalhou pelo mundo, mas os países ditos emergentes mantêm a média de crescimento de 6% ao ano. “Os Estados Unidos estão crescendo, até o Japão vai crescer, só a Europa está em contração”, afirmou.

Na Europa, a ocupação das capacidades produtivas químicas caiu em 2011, deixando saudades da média histórica de 80%. “Na Alemanha, a ocupação de capacidades segue elevada, mas o país exporta mais da metade do que fabrica”, ponderou Mantas, português de nascimento.

Para espanto geral, ele informou que a indústria química europeia registrou crescimento de 2% em 2011, exatamente igual à sua média histórica. A explicação para esse comportamento extraordinário se encontra no fato de a região responder por 44% das exportações mundiais de químicos, ficando a Ásia no segundo lugar, com 33%. “Com a receita das exportações, a indústria química europeia reagiu bem à crise de 2008/09”, comentou.

Com o primeiro impacto desse momento crítico, o setor químico decidiu tomar logo os remédios amargos: consolidou negócios, cortou salários, queimou estoques para gerar caixa, mas deu “a volta por cima”.

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Mantas: exportações sustentam atividade química europeia

Mantas, no entanto, recomenda atitudes cautelosas. Ele aponta para o fato de as economias dos dez países mais desenvolvidos seguirem altamente alavancadas, com déficits crescentes, com destaque negativo para o Japão e o Reino Unido. Além disso, o mundo terá um ano cheio de eleições majoritárias, nos Estados Unidos, França, Rússia, México e também na China, ou seja, mais da metade da população mundial irá às urnas. Não é um ambiente propício para mudanças. Há outros riscos implícitos, como a escassez do suprimento de água, que pode gerar dificuldades no longo prazo.

“Adotamos uma visão proativa para lidar com os riscos”, disse Mantas. A Oxea, com faturamento na casa dos dois bilhões de dólares, tomou medidas para assegurar uma posição competitiva: controlou os seus custos, manteve participação suficiente nos mercados para mitigar vulnerabilidades circunstanciais e garantir alta taxa de ocupação de capacidades, aumentou sua integração vertical a jusante (agregando mais passos na cadeia de produção), e ainda aplicou seu arsenal tecnológico para gerar inovações e promover o crescimento orgânico. “Mantemos o foco nos clientes, oferecendo a eles acesso global e ágil, além de acelerar investimentos em mercados emergentes”, comentou.

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Eberhard: custos crescentes impõem aumento de escala

Tamanho importa – Consultor e atual proprietário da suíça Districonsult, Günther Eberhard entende que as distribuidoras precisam ser grandes para suportar o custo dos serviços demandados pelo mercado e também para atender aos rigores dos sistemas regulatórios, ambos exigindo contar com pessoal especializado (e caro) em casa.
O especialista apresentou dados que evidenciam que a distribuição química mundial teve bons resultados em 2011, em especial na Europa, e deve seguir crescendo em 2012. “O outsourcing está crescendo e usando cada vez mais o canal de distribuição”, explicou. Além disso, o sucesso do lançamento das ações da Brenntag em 2010 atraiu a atenção dos investidores para o setor.

Ao mesmo tempo, Eberhard verifica que a distribuição oferece mais serviços para clientes e distribuídas, ou seja, assume custos adicionais. Ele verificou que 36% dos distribuidores europeus possuem laboratórios próprios para apoio aos clientes e 51% esperam tê-los até 2015, principalmente quando atendem os setores de cosméticos e de alimentos. “As especialidades químicas, em geral, pedem prestação de serviços que necessitam de estrutura cara”, advertiu.

O ambiente geral de negócios é otimista. “O ritmo das fusões e aquisições voltou aos níveis de antes da crise de 2008”, considerou. Ele aponta uma tendência de os fundos de investimento saírem das distribuidoras do pelotão intermediário por venda ou oferta pública de ações. No entanto, ele salienta que os órgãos antitruste dos Estados Unidos e Europa ficaram mais atentos aos movimentos de consolidação no setor comercial e podem impor restrições.

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Nordmann: momento adequado para consolidações na Europa

Momento de consolidar – A vida dos distribuidores europeus não está fácil, apesar de eles terem alcançado bons resultados de vendas em 2011. “Os custos estão crescendo e o governo alemão insiste em colocar novas regras para produtos químicos, atribuindo isso às exigências da União Europeia”, explicou Edgar Nordmann, presidente da Associação Europeia dos Distribuidores Químicos (FECC) e também diretor da distribuidora Nordmann, Rassmann, fundada em 1912.

Os efeitos da crise mundial foram pouco ou nada sentidos na Alemanha e nos países escandinavos, segundo o presidente da FECC. Caso o continente entre em recessão, os efeitos devem ser sentidos por todos, embora a economia alemã seja suficientemente diversificada para atenuá-los. Ao mesmo tempo, a atividade econômica é mais estável, sem grandes picos e vales.

Nordmann informa que, assim como no Brasil, muitos distribuidores querem operar tanto em commodities quanto nas especialidades. “São coisas diferentes e as diferenças são cada vez maiores, com regulamentações e exigências de mercado, por exemplo”, explicou. As grandes distribuidoras têm apostado nas especialidades para crescer, mas têm encontrado dificuldades para entender as diferenças culturais.

Ele entende que um momento de crise seria a ocasião ideal para promover uma consolidação empresarial na distribuição europeia. “A Europa tem mais de dois mil distribuidores ativos; é muito”, afirmou. Segundo ele, as empresas com porte entre médio e grande buscam estabelecer parcerias com outras companhias. E os acordos saem mais fácil quando as empresas têm estrutura de capital familiar.

O momento, segundo Nordmann, favorece as empresas de distribuição. “As companhias químicas querem transferir para os seus distribuidores a prestação de serviço para os clientes, mas, ao mesmo tempo, anunciam que não farão mais entregas de produtos em tambores ou em sacos, isso ficará com a distribuição”, comentou.

Ele avalia a introdução do sistema Reach de controle de substâncias químicas na Europa como “civilizado”. Os fornecedores de produtos situados fora da Europa foram avisados para se cadastrarem e todos aderiram sem problemas, segundo informou. “Não funcionou como mecanismo de reserva de mercado, serviu mesmo para dar mais segurança para os consumidores e deve continuar”, avaliou. Ele acredita que um sistema mundial com o mesmo escopo deveria ser criado.

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Skipp: distribuição responsável deveria ter alcance mundial

Novos rumos – A distribuição química norte-americana vive um momento de renovação, como explica Andrew Skipp, presidente da Associação Nacional dos Distribuidores Químicos (NACD), também presidente da Hubbard-Hall, empresa familiar que está na sexta geração de proprietários. Por um lado, a consolidação empresarial segue adiante, motivada pela necessidade de ganhar eficiência. “Os clientes querem ter menos fornecedores e, além disso, há casos de distribuidores que não têm herdeiros para prosseguir no ramo”, comentou Skipp.

Ao mesmo tempo, a indústria química americana vive um momento histórico de recuperação, com a descoberta do gás de xisto (shale gas), uma fonte de matéria-prima de baixo custo dentro do território dos EUA. “Além da expansão que isso trará no setor químico, a distribuição também será beneficiada pelo surgimento de pequenas companhias que aplicam tecnologias inovadoras, na linha da química verde”, explicou.

Do ponto de vista da NACD o momento é muito favorável, com o aparecimento de novos membros. “Surgem novas oportunidades a cada dia, mas durante a crise só aumentou o número de brokers [corretores], com mercadoria importada”, disse.

Como os aspectos regulatórios estão ficando mais incisivos, principalmente depois do atentado de 11 de setembro, com reflexos nos custos, a NACD ajuda os seus membros a lidar com eles. Isso envolve atuação com a Agência de Proteção Ambiental (EPA), OSHA e Departamento de Transportes (DOT), discutindo com o governo e também com o Congresso Nacional as medidas restritivas e seu impacto no setor. “Temos o programa Responsible Distribution com excelentes resultados para apoiar nossos pleitos”, comentou.

Além das atividades dentro do país, a NACD também apoia a criação de uma rede responsável de distribuidores ao redor do mundo, com forte relacionamento com outras associações, entre elas a Associquim. “Estamos aceitando inscrições de distribuidores de fora dos Estados Unidos”, informou.

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