Distribuição química: Ajustes geram expectativas positivas

Ajustes de mercado realizados em 2023 e estímulos econômicos geram expectativas positivas

A distribuição química espera obter melhores resultados em 2024, depois de enfrentar muitas turbulências em 2023, ainda resultantes dos impactos da Covid-19 nos fluxos logísticos internacionais, situação piorada pelo prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia e pelos conflitos do Oriente Médio

“Podemos dizer que 2023 foi uma volta à normalidade, depois de dois anos excepcionais para o comércio químico, tanto em preços, quanto em intensidade de demanda”, considerou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

A acomodação dos preços internacionais e a retração da demanda redundaram em uma redução estimada em 20% no faturamento setorial cotado em dólares.

Em outros tempos, uma variação dessa magnitude provocaria um maremoto no setor. “As coisas não são mais como eram há 30 anos, os distribuidores químicos se profissionalizaram, estão capitalizados e conseguiram se adaptar rapidamente às mudanças de mercado”, comentou Medrano.

Além disso, cumpre ressaltar que muitas companhias do setor fazem parte de grandes grupos internacionais, muitos dos quais comandados por fundos de private equity, com gestão aprimorada para oferecer melhores taxas de retorno aos investimentos.

As incertezas globais, como os ataques aos navios mercantes que passam pelo Mar Vemelho, são avaliadas pelas companhias que se posicionam segundo suas estratégias de negócios.

Distribuição: Ajustes de mercado geram expectativas positivas ©QD Foto: iStockPhoto
Medrano: extensão da validade de químicos reduzirá perdas

“Alguns preferem apostar nas commodities, que têm grandes volumes e fortes flutuações de preços; outros preferem reforçar a posição nas especialidades químicas, com menos volume e preços mais estáveis”, disse o dirigente setorial.

Há incertezas de outras naturezas, a começar pela crescente onda neoprotecionista, formada para reduzir a dependência de suprimentos vindos da China. “A opção pelo nearshoring (buscar fornecedores mais próximos) é uma realidade, pois a pandemia mostrou a fragilidade de uma situação na qual há apenas um fornecedor, mas quem vai montar fábricas químicas novamente na Europa e nos Estados Unidos?”, indagou. “O México está ampliando capacidades produtivas químicas, mas são investimentos de companhias chinesas.”

Enquanto a China perde um pouco do seu brilho como “fábrica do mundo”, a Índia vem paulatinamente ampliando sua capacidade de produção e qualidade. “A Índia é uma potência ascendente, pode ser o principal fornecedor alternativo à China”, avaliou. China e Índia têm se beneficiado com o bloqueio econômico ocidental imposto à Rússia como resposta à invasão da Ucrânia. “Eles compram gás e petróleo russo com descontos muito altos em relação ao mercado.”

Olhando para o setor industrial como um todo, Medrano aponta que o Brasil poderia ampliar sua capacidade produtiva com foco em clientes internacionais. “No passado, quando teve forte proteção governamental, nossa indústria não se preocupou em ser competitiva em escala global e não conseguiu se adaptar à abertura do mercado”, disse. “O comércio químico, no entanto, tem uma dinâmica própria e se ajusta rapidamente, com grande flexibilidade e arrojo, mas é preciso lembrar que ele faz parte das cadeias produtivas às quais fornece insumos.”

Medrano também apontou que a indústria brasileira é dependente de tecnologia importada e, com poucas exceções, tem baixa escala de produção, fatores que dificultam investimentos locais. “Os consumidores hoje compram diretamente da China, pela internet, os produtos que querem, com preços baixos, são eles que mandam no mercado”, avaliou.

Além disso, o perfil do consumo atual está mudando. “As pessoas querem menos desperdícios, com mais esforços de economia circular e novos parâmetros de sustentabilidade e qualidade de vida, isso tem reflexos no consumo de produtos químicos também”, comentou.

A chamada transição energética é um exemplo. “O crescimento das vendas de carros elétricos pode alterar o balanço da produção futura de óleo e gás”, considerou Medrano.

Futuro em construção


As eleições no âmbito municipal tendem a aquecer a economia brasileira e a aumentar o consumo de insumos químicos. “Em geral, os governos gastam mais nos anos eleitorais, mas a conta chega depois”, alertou Medrano.

Como afirmou, 2024 depende da condução da economia nacional e das reformas sempre anunciadas, mas adiadas. “Conseguiram fazer a reforma tributária, mas ainda faltam as leis regulamentadoras e o prazo de adaptação é de dez anos, é positivo, mas vai demorar para dar algum resultado”, avaliou. “E a reforma administrativa, ficou para quando? É preciso reduzir a despesa primária, senão a conta não fecha.”

É importante para a distribuição acompanhar a evolução do poder de compra da população, porque isso se reflete no aumento do consumo. O dirigente setorial elogiou o esforço do governo para reduzir o endividamento da população, mas ficou faltando um sistema pra educação financeira, para evitar nova contratação de dívidas.

O perfil das empresas do setor já foi muito alterado ao longo das últimas décadas. “Os distribuidores no Brasil crescem mais por meio de fusões e aquisições do que de forma orgânica, ainda há empresas internacionais chegando por aqui, como a Barentz, que comprou a Metachem no ano passado”, apontou.

Sempre que ocorrem movimentos de concentração de negócios, surgem pequenas empresas que se interessam por nichos de mercado que poderiam ficar desatendidos. “Esses nichos podem ser trabalhados por empresas pequenas com sucesso, mas verificamos que elas chegam a um teto de negócios rapidamente e, quando se tornam mais visíveis, são incorporadas pelos grandes players”, comentou.

Distribuição: Ajustes de mercado geram expectativas positivas ©QD Foto: iStockPhoto

Medrano observa que o fluxo global de informações se tornou muito rápido e diversificado, tanto entre concorrentes, quanto entre os clientes. “O cliente sabe tudo o que está acontecendo no mercado e quanto vale o produto que deseja comprar”, ressaltou.

O movimento de fusões e aquisições reduziu o quadro de associados da Associquim, mas o presidente da entidade informa que as comapanhias remanescentes mantêm o apoio aos trabalhos, enxergando neles grande valor, pela importância da representação setorial junto aos governos e órgãos internacionais, além da defesa de interesses comuns. “Estamos acompanhando a reforma tributária e seus efeitos no setor, bem como os movimentos ligados à reforma trabalhista; oferecemos assistência ao setor e temos grupos de trabalho nas áreas de recursos humanos, tributação, meio ambiente e outros”, salientou.

Um trabalho que será desenvolvido em 2024 diz respeito à extensão do prazo de validade de produtos químicos, um tema importante para o setor. “Estamos lutando, ao lado da indústria química, para que as normas sejam mais adequadas, evitando que produtos ainda úteis sejam incinerados”, comentou. A Associquim participa do Grupo de Trabalho formado pela Cetesb, ao lado de várias entidades, para a condução desse tema. “A gestão anterior da Cetesb estava bem engajada nessa atividade, pedimos para que a nova gestão mantenha o trabalho do GT para orientar a elaboração das normas”, ressaltou.

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