Distribuição: Mercado se ajusta às novas circunstâncias

Cadeias logísticas recuperam equilíbrio e mercado se ajusta às novas circunstâncias

A poeira da tempestade provocada pela pandemia do coronavírus já assentou. As cadeias logísticas internacionais operam quase sem restrições, devolvendo regularidade ao comércio internacional. Com isso, a distribuição de produtos químicos – que conseguiu manter o abastecimento aos clientes mesmo nos períodos mais críticos – está se adaptando aos novos parâmetros de mercado.

O grande ajuste aconteceu no ano passado. Desde a eclosão da pandemia, no início de 2020, todas as cadeias produtivas mundiais passaram a operar com estoques elevados, medida de segurança contra possíveis apagões de suprimento. Desde julho do ano passado, porém, começou a ficar claro que a situação tendia à normalização. Some-se a isso o baixo desempenho econômico chinês, com a consequente redução de consumo, e o resultado foi a retração de preços. A mudança na sinalização de mercado virou a chave na orientação dos negócios: começou assim a temporada da liquidação de estoques, desde os fabricantes até os clientes. Agora se espera que todo esse volume de produtos seja consumido para a retomada do ritmo tradicional dos negócios.

“O Perfil da Distribuição Química que divulgamos no ano passado indicou que o setor obteve faturamento recorde em 2021, estimado em US$ 6,5 bilhões”, afirmou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

“Ainda não temos os dados finais do Perfil relativo a 2022, mas tudo indica que esse ano também foi muito bom para o comércio, porém é preciso verificar o impacto das flutuações cambiais e da queda de preços globais nos resultados dos distribuidores; talvez a movimentação física dos produtos químicos pelo setor seja um indicativo mais adequado.”

O Perfil relativo a 2021 apontou que a distribuição obteve lucro médio de 6,21%, o melhor dos cinco anos anteriores. Medrano explicou o bom resultado como decorrência da elevação do faturamento (quase 20% acima do registrado em 2020), que diluiu o peso dos custos fixos.

Em contrapartida, a participação do canal de distribuição sofreu ligeira redução em 2021, em relação às vendas totais da indústria química. De 2011 a 2020, o comércio respondeu por uma fatia de 11% a 12,5% do mercado, percentual que ficou em 9,58% em 2021. “Esse indicador é calculado sobre o valor da mercadoria que teve variações muito grandes no período; em volume físico, essa variação não foi tão grande”, explicou.

Medrano: setor tem presença marcante de pequenas empresas ©QD Foto: QD Produções
Medrano: setor tem presença marcante de pequenas empresas

“O cliente da distribuição são as diversas cadeias industriais e todo o setor industrial do Brasil está perdendo mercado e participação no PIB; nós gostaríamos muito que a indústria crescesse muito mais”, salientou Medrano.

Falta atualização tecnológica e inserção nas cadeias globais de comércio para que a indústria conquiste seu espaço, como se verifica com a atividade agropecuária. “Isso acontece em toda a América do Sul, não se aproveitaram as oportunidades comerciais entre os países da região e todos – com exceção do México, ligado aos Estados Unidos – ficaram fora das cadeias globais de valor, abrindo espaço para a entrada da China como grande parceira”, afirmou. Medrano defende a política de formação de blocos econômicos regionais e aponta a disfuncionalidade do Brexit para economia inglesa. “A Covid levou vários países a fechar suas economias, agora eles começam a se abrir novamente, mas há uma onda protecionista muito forte para estimular a produção local”, salientou.

Medrano aponta que o Brasil precisa ficar atento às mudanças de paradigmas mundiais, por exemplo, na redução do consumo de combustíveis fósseis e da pegada de carbono das indústrias. “Enquanto isso, ainda estamos discutindo reforma tributária e nem começamos a falar em educação, saúde e insegurança jurídica, estamos muito atrasados”, lamentou.

Novo governo

Depois dos bons resultados dos anos anteriores, 2023 começou com dificuldades. “O mercado está andando devagar, ainda faltam algumas definições do novo governo sobre a economia, e o comércio tradicional está sofrendo, a exemplo das Lojas Americanas, muito embora as vendas por e-commerce estejam crescendo”, comentou. Pelo menos, Medrano pode comemorar a manutenção do Marco de Saneamento Básico sem as alterações propostas pelo Executivo. “O Congresso fez bem em rejeitar as mudanças e garantir segurança jurídica para essa atividade essencial que terá um volume importante de investimentos nos próximos anos”, salientou.

A sempre prometida reforma tributária segue em discussão no Legislativo, sem prazo para terminar. Da mesma forma, os juros seguem elevados tornando as operações de crédito mais arriscadas e caras. “O avanço das reformas prometidas pode trazer resultados mais rapidamente, ou mais lentamente”, disse.

Enquanto isso, o apetite dos fundos de investimento pelas empresas de distribuição do Brasil segue forte. As recentes aquisições da Vogler (pela Azelis), Metachem (Barentz), Cosmoquímica e Plury Química (ambas pela Manuchar), antecedidas por Quimisa (Brenntag), Sweetmix (Univar), entre outras, comprovam a atratividade do setor por aqui. “Mesmo nesses grandes players há mudanças nos fundos controladores acontecendo, será que isso trará alterações de foco?”, indagou.

“O Brasil é um país complicado, que pode afugentar alguns investidores estrangeiros, mas é viável; essas companhias internacionais sabem que há espaço por aqui para crescer”, comentou. “Elas precisam manter o ritmo de expansão, ainda que seja por aquisições.” Olhando o Perfil publicado no ano passado, Medrano aponta que mais de 60% das empresas distribuidoras de produtos químicos são classificadas como pequenas e médias, ou seja, tem faturamento anual abaixo de US$ 50 milhões. “Quando há um movimento de concentração de mercado, os pequenos e médios se colocam em nichos nos quais são mais competitivos; o setor é cada vez mais profissional e maduro, sabe encontrar o seu lugar”, afirmou.

Futuro promissor para a distribuição química

Carlos Fernando de Abreu, CEO da Colormix Especialidades, um veterano da distribuição química, garante que o Brasil ainda apresenta muitas oportunidades de crescimento.

Abreu: mercado capilarizado dificulta operação nacional ©QD Foto: QD Produções
Abreu: mercado capilarizado dificulta operação nacional

“Temos setores econômicos muito fortes, como o agronegócio, e o país precisa de muitos produtos, além do fato de quase 70 milhões de habitantes estarem fora do mercado consumidor e precisam ser a ele incorporados”, avaliou. “O distribuidor químico é um agente do desenvolvimento do país.”

Abreu comentou que a Colormix, empresa do grupo Formitex, também controlador da BandeiranteBrazmo, foi criada em 2010 especificamente para lidar com soluções inovadoras com base em especialidades químicas. “Não dá para trabalhar com excelência em commodities e especialidades ao mesmo tempo”, explicou. O mercado local, ainda jovem, demanda mais commodities químicas, compradas em altos volumes e preços baixos, com os fabricantes se relacionando diretamente com grande parte dos clientes. “Nas especialidades, vendidas em volumes baixos, os fabricantes ficam em sua maioria no exterior; então o distribuidor é fundamental para atender os clientes com serviços adequados”, considerou.

Como explicou, há muita oferta de ingredientes, mas é preciso formular bem para se alcançar o resultado desejado. “Temos dois laboratórios no nosso site, um nosso e outro da BYK, para desenvolvimento de aplicações”, disse.

Da mesma forma, é difícil atuar com propriedade em todos os segmentos de mercado. “Alguns CEOs ficam reforçando suas companhias para atacar todos os segmentos, mas isso tem um custo enorme, exige investimentos muito pesados que nem sempre se remuneram”, salientou.

Abreu recomenda observar as características locais e compará-las com os principais modelos de negócios em distribuição química. “Nos Estados Unidos, a distribuição detém uma porcentagem maior do mercado do que na Europa, mas esta apresenta um número maior de pequenos e médios distribuidores, enquanto os americanos já consolidaram a distribuição em grandes grupos”, comparou. “Qual o melhor modelo para a distribuição brasileira? Tendemos a seguir o modelo americano, mas nossa característica de mercado capilarizado é muito diferente, cada região daqui tem suas particularidades, um distribuidor nacional precisa saber lidar com elas”, ressaltou. Essa fragmentação e diversificação aumenta muito o custo do atendimento, também prejudicado pelos altos custos logísticos de operar no país, sem falar na tributação complexa e cara. “Mesmo assim, tem muitos grupos investindo no Brasil e na América Latina, como Chile, Colômbia e Costa Rica”, afirmou. “A consolidação de negócios por aqui ainda está longe de terminar.”

Há novas tendências que precisam ser observadas também pelos distribuidores químicos. “Os clientes querem ingredientes limpos que possam ser usados sem prejudicar futuras exportações para países mais exigentes, nesse caso precisamos garantir essa qualidade”, salientou Abreu. “Ter produtos mais sustentáveis é fundamental, um dia todos os clientes vão preferi-los, talvez com o apoio de regulamentações mais rígidas.”

A linha de aditivos e cores (pigmentos e corantes) é o forte da Colormix Especialidades. “Nossa maior âncora é a Eckart, do grupo BYK, com seus pigmentos de efeito muito especiais, aditivos e preparações, mas também temos pigmentos em geral e suas dispersões”, explicou Abreu.

A Colormix já distribuía pigmentos inorgânicos da Ferro, companhia que foi adquirida pela Prince International Corp. que também comprou a Chromaflo, unindo-as sob a denominação Vibrantz. Esta, em 2022, comprou a unidade de produção de pastas pigmentárias e dispersões da brasileira Transcor. “Até então, nós tínhamos a linha da Ferro e produtos similares aos da Vibrantz; agora temos a linha completa e original”, disse Abreu. A linha de pigmentos orgânicos em pó, formada com diversos fornecedores, especialmente da Índia, foi mantida e até ampliada.

Commodities em foco

Também controlada pelo grupo Formitex, a BandeiranteBrazmo concentra seus negócios nas commoditites, porém não se restringe a elas.

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Marin: demanda por produtos sustentáveis está crescendo

“Também temos especialidades para cosméticos, por exemplo, isso nos permite configurar operações logísticas perfeitas para melhor atender a clientela”, afirmou o diretor Carlos Eduardo Marin.

Como explicou, como as especialidades são vendidas em volumes pequenos, o custo logístico de atendimento é muito alto quando praticado isoladamente.

Marin comentou que o impacto da pandemia e da guerra na Ucrânia mexeu com os preços dos produtos químicos em todo o mundo, mas a situação está se normalizando pelo lado da oferta. “A demanda por aqui caiu um pouco neste ano, estamos num cenário muito reativo”, afirmou. Alguns itens ainda tem suprimento instável, mas o mercado sente uma queda de preços generalizada, com a China atuando agressivamente na ponta vendedora.

A BandeiranteBrazmo não registrou maiores dificuldade para manter seus clientes abastecidos, mesmo no auge da pandemia. “Contamos com muitas parcerias fortes locais que operaram bem o tempo todo”, salientou. A busca por novas fontes de suprimento foi feita para itens em que a distribuidora não conta com contrato de distribuição com algum fabricante, a chamada bandeira.

No momento, a distribuidora observa o comportamento de vários segmentos de mercado para planejar a entrada em alguns deles em 2024 e 2025. “Temos um portfólio bem estruturado e podemos mudar a sua composição sem investimentos nas instalações, talvez em novas equipes”, avaliou.

Como informou, alguns dos grandes segmentos clientes – tintas, vernizes e adesivos – não cresceram durante a pandemia, exceto nos produtos ligados a embalagens. “As tintas automotivas não foram bem, mas ainda pior está sendo o comportamento dos agroquímicos, pressionados pela mudança de governo e com estoques muito elevados que estão sendo desovados; talvez isso melhore no segundo semestre”, comentou, apostando na resiliência do segmento.

Segundo Marin, a companhia atua no mercado brasileiro olhando para a sua capilaridade. “Queremos aprimorar nossas operações logísticas e atender novos segmentos de mercado com eficiência e qualidade”, destacou. Além da sede em Mauá-SP, a distribuidora mantém filiais em Joinville-SC, João Pessoa-PB e Simões Filho-BA.

A busca por produtos mais sustentáveis ainda é incipiente em toda a distribuição, segundo o diretor, para quem essa demanda ainda está sendo atendida diretamente por alguns fabricantes. “Já identificamos que existe um desejo de mercado por esse tipo de produto, passamos essa informação para as nossas distribuídas orientarem seus departamentos de pesquisa e desenvolvimento para atualizar o portfólio, isso demora um pouco”, considerou. “A economia pesa muito, os clientes compram só o que querem e o preço é determinante.”

A adoção do regime de trabalho remoto durante a pandemia já foi revertida na BandeiranteBrazmo no primeiro semestre de 2022. “Os resultados foram bons, mostraram que é uma alternativa operacional importante, mas a interação entre as pessoas das equipes agrega valor no dia a dia”, explicou Marin. Isso se verifica mesmo quando o pessoal é experiente, com baixa rotatividade. “Também não tivemos vantagem na redução de aluguel, pois ocupamos sede própria, em Mauá-SP”, disse.

Crescimento mantido

O grupo formado pela Química Anastacio e Anastacio Overseas (que atua em comércio e logística internacional) obteve aumento de 21% no faturamento em reais em 2022. Em dólares, o resultado também ficou positivo em quase 20%, segundo o CEO Jan Krueder.

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Krueder investe no aumento das atividades internacionais

“O segundo semestre foi marcado por uma grande desova de estoques nas cadeias produtivas e este ano começou com estoques muito baixos, sinal de que a desova foi exagerada”, comentou.

Na sua avaliação, havia uma expectativa de mercado de que a normalização das operações químicas globais coincidisse com a recuperação da demanda na China, mas isso não aconteceu. Para piorar, os Estados Unidos e a Europa passam por momento econômico difícil, com inflação e juros elevados.

A Química Anastacio, como informou, não estava com inventário excessivo em 2022 e não precisou “queimar” produtos a preços aviltados. “Não conseguimos formar estoques mais robustos desde a pandemia porque a demanda permaneceu alta o tempo todo”, comentou. Ele acredita que o movimento de mercado deve retornar aos patamares tradicionais ao longo do ano.

Krueder explicou que, quando começou a pandemia, com grande turbulência nos negócios, ele decidiu financiar a clientela, sabendo das dificuldades pelas quais todos estavam passando. “Foi um movimento ousado, pegamos todo o caixa e o crédito que pudemos nos bancos e os usamos para dar prazos mais longos e isso fidelizou os clientes, mas só pudemos fazer isso porque contávamos com um acompanhamento muito rigoroso do comportamento deles, isso minimizou o risco assumido”, comentou. “No início de 2023, conseguimos saldar todas as dívidas, ou seja, não temos despesas com juros, o que é ótimo, dado que eles estão elevadíssimos.”

No momento, o grupo concentra investimentos nas operações internacionais. “Já somos o sexto maior importador da Argentina, estamos reforçando nossa atuação no México e abrimos dois escritórios da Overseas na África, um na Nigéria e outro na África do Sul”, relatou. Ele acredita que, tanto por lá, quanto na América do Sul, a distribuição química pode crescer se oferecer um bom serviço. “A África é a América do Sul do futuro”, aposta.

A estratégia de negócios é traçada para que a distribuidora não dependa de poucos mercados e insumos, mas amplie sua faixa de atuação. “Estamos acelerando a entrada de novos produtos no portfólio dos 18 mercados em que atuamos, mantendo um ritmo acelerado de expansão”, afirmou. A Anastacio avançou em óleos de processo (para químicos, adesivos e hot melt), óleos básicos naftênicos (para pneus e borrachas) e especialidades para tintas (aditivos para UV, argilas organofílicas, negro de fumo e epóxi). “Estamos nos tornando relevantes nos óleos naftênicos, temos tancagem específica e fazemos blends”, salientou Krueder.

O mix de vendas é formado por 80% de commodities e 20% de especialidades, e a companhia tem a meta de chegar a 70/30%. “As especialidades dão um equilíbrio melhor de vendas e de rentabilidade”, explicou. Embora tenha investido nas especialidades, o volume das commodities também avançou e manteve a participação no mix.

Krueder considera que o mercado químico é um universo de possibilidades a ser explorado e a distribuição ainda tem muito espaço para crescer. “Estamos oferecendo produtos para quem já os importa diretamente, pois temos operações logísticas muito eficientes e podemos nos remunerar apenas como operadores”, afirmou.

Em todo o negócio, ele entende que a empresa precisa ser muito mais eficiente que seus fornecedores e clientes, com base em informações, inteligência de mercado, custos e financiamento. “Nosso sistema de TI reúne dados de todos os KPI e os processa adequadamente, ajudando muito a prever movimentações de mercado”, disse.

Para operar melhor com o fracionamento de produtos para farma e food, a empresa investiu na atualização da unidade situada no bairro do Anastácio, em São Paulo, onde mantém tancagem, embalagem e produção de blends de líquidos a quente e pós. “Podemos embalar como o cliente quiser”, afirmou. Também são mantidas parcerias com terceiros qualificados para produzir formulações e blends para vários segmentos de mercado. A companhia terminou de transferir os estoques da Vila Leopoldina para o amplo site de Barueri-SP. Os escritórios agora ocupam um andar de um edifício comercial moderno em Pinheiros.

“Estamos operando num sistema híbrido presencial-remoto, com 60% do pessoal no escritório e 40% em casa, em sistema de rodízio”, explicou. “O escritório novo, bonito e confortável estimula o retorno do pessoal.”

Mercado de distribuição química busca equilíbrio

Entre os distribuidores de grande porte, é comum a percepção de que o mercado nacional, bem como o global, caminha para um novo ponto de equilíbrio entre oferta e demanda. E isso tem consequências para o setor.

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Dosualdo: reforma tributária pode até inviabilizar filiais

“Passamos, entre 2020 e 2022, por um período muito complicado para as cadeias produtivas de muitos itens em função das complicações geradas pela pandemia e isso gerou algumas distorções importantes em termos de preço e abastecimento da cadeia que estão sendo corrigidas desde o segundo semestre do ano passado. Com isso, os preços estão se reequilibrando e os diversos players da cadeia de suprimentos e dos canais de distribuição de produtos acabados estão ajustando os seus estoques, que estavam em níveis elevados para preservação da continuidade de abastecimento dentro do cenário de falta de produtos que preponderou nestes últimos dois anos. Tivemos, portanto, nos últimos meses alguns ajustes que fizeram com que a oferta ficasse excessiva frente à demanda atual. Entendemos que este cenário deve estar já equilibrado ou muito próximo do equilíbrio na maior parte das cadeias de abastecimento e esperamos que não haja um exagero por parte dos diferentes agentes na redução dos estoques para que não tenhamos uma inversão do cenário, gerando novas faltas de produto. Estas oscilações geram ineficiências nas cadeias de abastecimento e o mais importante para termos um mercado mais rentável para todos é retomar um nível de previsibilidade razoável. Esta previsibilidade é construída pela comunicação transparente entre os integrantes da cadeia, é a forma como gostamos de trabalhar”, avaliou Gustavo Levy Dosualdo, diretor de distribuição da MCassab.

“A oferta de produtos está normalizada e o grande desafio é – num contexto de mercado retraído, no qual se tem baixa acurácia nas previsões de consumo por parte dos clientes – encontrar um equilíbrio no inventário a fim de oferecer ao mercado e aos clientes uma oferta competitiva”, comentou Annik Varela, managing director Latin America South da Caldic.

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Annik: estratégia é ser cada vez mais relevante aos clientes

Como apontou, “o mercado está se adaptando à nova realidade pós-pandemia. Apresentam-se globalmente cenários políticos e econômicos diversos e a cadeia química vem buscando se ajustar. Localmente não é diferente. Além das questões políticas e financeiras que vivemos, trazendo novamente muita incerteza e retração de alguns mercados, temos um contexto de aumento de oferta de produtos químicos, a China voltando com bastante agressividade a ofertar e, adicionalmente, produtores repensando seus negócios com fortes drivers financeiros”.

Alaxandre Tarantino, diretor de negócios de industrial solutions e lubricants & energy da IMCD Brasil, afirma que não existem mais restrições de oferta de produtos químicos.

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Tarantino: distribuidora busca novos produtos sustentáveis

“Nossos escritórios de sourcing em todo o mundo relataram que os mercados europeu, asiático e americano estão suficientemente abastecidos. O mesmo acontece conosco aqui no Brasil, nossos estoques mostram nosso compromisso com clientes e parceiros. O que nos diferencia é o fato de que a IMCD não é apenas um distribuidor, mas um formulador e fornecedor de soluções em especialidades químicas e ingredientes, um formulador global confiável e parceiro de distribuição para os principais produtores de especialidades químicas e ingredientes. A relação global de longo prazo que mantemos com nossos fornecedores melhora nossa prioridade na obtenção dos materiais de que necessitamos, permitindo-nos ter produtos estocados em armazéns da IMCD estrategicamente localizados para atender as necessidades de nossos clientes. Isso é um benefício para eles: quando ocorrem demandas inesperadas, ter um fornecedor local como a IMCD oferece uma rede de segurança na entrega de produtos”, afirmou.

Por sua vez, Rodrigo Santiago, managing director para o Brasil e VP commercial consumer solutons para a América Latina da Univar Solutions, o mundo atravessou o período da pandemia e iniciou uma tendência de normalização de suprimentos para grande parte das famílias de insumos químicos.

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Santiago: mercado químico tem uma dinâmica global própria

“Eventuais restrições de oferta têm se mostrado cíclicas e recorrentes ao longo das últimas décadas, o que notavelmente se acentuou durante a crise sanitária com novos desafios e rupturas na cadeia logística global”, comentou.

“Localmente, tem sido possível notar desde o quarto trimestre do último ano uma desaceleração, tanto dos mercados de consumo, quanto dos industriais. Em um panorama mais abrangente, temos um cenário que traz uma recuperação mais lenta da China pós-crise sanitária da Covid. Dada a conhecida relevância da China dentro da cadeia produtiva para os mais diversos mercados, isso acaba causando impactos na dinâmica da economia global, de forma que os sinais de demanda se mostram mais lentos, em geral. Isto posto, os preços dos insumos vêm sofrendo um ajuste dado comportamento de oferta-demanda, ainda que em ritmo não tão acelerado. Em contrapartida, existem aumentos de preços para linhas e tecnologias específicas já acontecendo neste segundo trimestre de 2023”, salientou.

Dosulado concorda com essa visão. “Ainda há cadeias produtivas em que a situação não está normalizada, mas são casos pontuais, como sempre houve historicamente. A tendência é que esses problemas pontuais sejam equacionados ao longo do tempo e certamente outros virão, mas não há perspectiva de alguma outra situação generalizada.”

Demanda fraca

O Brasil ainda está em compasso de espera, aguardando as definições de política econômica do governo. Além disso, o movimento de desestocagem das cadeias produtivas enfraqueceu o mercado, mas há sinais de recuperação.

“Os mercados em geral ainda estão instáveis do ponto de vista de demanda por causa formação de estoques mais elevados que ocorreu no período da pandemia. Os mercados se estocaram de forma distinta – um exemplo é o mercado agro, que antecipou muito as compras com receio de falta de produtos e estava na virada do ano mais abastecido do que outros segmentos, mas ao mesmo tempo é um mercado que tem mostrado perspectivas de forte consumo, isso pode acelerar o reequilíbrio”, comentou Dosualdo.

Ele salientou que a distribuidora tem o compromisso de manter seus clientes abastecidos e isso foi alcançado, mesmo durante a pandemia. “Trabalhamos de forma muito próxima e com muita comunicação para que possamos nos preparar para garantir o suprimento sem comprometer a rentabilidade; não é possível para um distribuidor manter estoques excessivos, sem garantia de demanda, e ao mesmo tempo ser competitivo em custos”, explicou. Por isso, é essencial entender o cliente e construir acordos comerciais, com boa comunicação e transparência, construindo parcerias e modelos de negócios adequados a ambos.

Quanto ao peso relativo de especialidades químicas e commodities no mix de produtos da distribuidora, Dosualdo aponta um efeito importante relacionado à oscilação de preços. “Como as commodities têm preços mais voláteis – tanto na alta, quanto na baixa – o que ocorreu foi um aumento da participação das commodities quando os preços se elevaram e a tendência é que as especialidades voltem a ganhar importância no faturamento com o recuo dos preços das commodities”, prognosticou.

Apesar das dificuldades, o mercado brasileiro segue sendo atrativo para a distribuição química, como aponta Annik Varela, com base na população, na necessidade de investimentos em infraestrutura, desempenho agropecuário e outros itens. “Temos por aqui oportunidades de crescimento em vários segmentos, além de drivers como inovação tecnológica e sustentabilidade que vêm se tornando uma realidade cada vez mais presente em todas as empresas”, afirmou. “A Caldic tem como estratégia agregar valor aos negócios de seus clientes e representadas, tendo por base a oferta de soluções, seja em commodites ou em especialidades, o nosso foco está no que e de que forma o nosso cliente precisa, independente da natureza do produto.”

Segundo Tarantino, a IMCD tem buscado alternativas sustentáveis com matérias-primas de origem renovável para atender a demanda por produtos tradicionais que serão substituídos com o tempo, muito embora a distribuidora observe que a indústria química está entrando em um momento de retração de consumo, indicando queda no nível de vendas nos próximos meses. “Melhorar o que existe, vontade de mudar e uma visão sem limites são ingredientes fundamentais para a inovação; essa atitude faz parte da nossa cultura e se aplica a todos os nossos departamentos. Podemos destacar alguns de nossos mercados, como industrial solutions, com foco no meio ambiente, como tratamento e reciclagem de água; e também pharmaceuticals, advanced materials, beauty & personal care, home care and I&I; coatings & construction, food & nutrition e lubricants & energy”, salientou.

As crises globais ou locais não impedem a atuação de longo prazo das companhias, mas até as motiva a evoluir. “Independentemente da conjuntura econômica ou de outros fatores externos que fogem ao nosso controle, o foco da Univar Solutions em especialidades químicas e ingredientes é peça-chave para que possamos proporcionar diferenciação e inovação aos nossos clientes, dentro de todos os mercados locais e verticais globais de negócios em que atuamos. Acreditamos que dessa forma podemos cumprir nosso propósito de ajudar a manter as nossas comunidades saudáveis, alimentadas, limpas e seguras”, destacou Santiago. “Para tanto, estamos constantemente ampliando a oferta de novas linhas de especialidades e ingredientes, mediante a ampliação de parcerias já existentes e novas autorizações, sempre atendendo às demandas de clientes em diferentes segmentos e indústrias.”

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Inovação em alta na distribuição de produtos químicos

A distribuição entende que a inovação em produtos e serviços é parte fundamental de seus negócios e traça estratégias para se manter cada vez mais relevante junto aos clientes. “A distribuição desenvolveu ao longo dos anos muita expertise técnica e hoje é capaz de entender os mais diversos segmentos de mercado com bastante profundidade. Na Caldic, temos especialistas em todos os mercados em que atuamos e uma de nossas responsabilidades é trazer as novas tendências aos nossos clientes, seja em sustentabilidade, novos comportamentos de consumo, ganhos de produtividade, e outros, estamos em constante contato com nossas representadas e nossos clientes para compreender suas necessidades e construir conexões, nos adaptando a qualquer cenário”, comentou Annik Varela.

A IMCD ressalta sua abordagem de mercado voltada a oferecer soluções aos clientes e não apenas especialidades e ingredientes. “Nosso portfólio de produtos é notavelmente amplo e profundo, criando um mundo de oportunidades para nossos clientes impulsionarem a inovação no mercado. Nossa posição na cadeia de suprimentos, nossa presença local e nosso amplo acesso a conhecimento e soluções globais por meio de uma infraestrutura digital baseada em nuvem aceleram o processo de inovação e reduzem significativamente os prazos de desenvolvimento”, ressaltou Tarantino. A companhia mantém uma rede global de 70 laboratórios para oferecer suporte aos parceiros de negócios com consultoria em formulação e conhecimento técnico, permitindo a tomada de decisões embasadas para a criação de produtos sustentáveis. “Nossa equipe de vendas também tem formação técnica, reforçando o compromisso com o sucesso dos clientes.”

Resultados

As companhias de distribuição conseguiram manter positivos os resultados operacionais, apesar das turbulências vividas nos últimos anos.

“Durante os últimos três anos crescemos, nos reestruturamos, investimos e hoje temos um negócio muito mais desenvolvido e robusto. Hoje, estamos presentes, de forma consistente, em diversos países ao redor do mundo e, no Brasil, em mercados que não estávamos há três anos, a exemplo das aquisições de Active (segmento magistral) e Bring (segmento food) que fizemos em 2022. Essa tendência continua e seguiremos investindo e ampliando tanto nossa capacidade operacional, quanto nossa plataforma digital, e a agenda de M&A também segue com bastante força”, informou Annik.

“Nos primeiros três meses de 2023, a IMCD, globalmente, atingiu um aumento de 6% de Ebitda, passando de 139,9 milhões de euros em 2022 para 148,5 milhões de euros, no mesmo período em 2023. Da mesma forma tivemos um aumento do lucro bruto de 8%, em comparação ao mesmo período do ano passado, atingindo 300 milhões de euros. Acreditamos que nossos esforços de manter parcerias sólidas por meio de relacionamentos de transparência e com a austeridade de nossa disciplina financeira possibilitam resultados positivos, mesmo com um cenário desafiador”, apontou Tarantino. “O Grupo IMCD cresce rapidamente, tanto organicamente, quanto por meio de fusões e aquisições. Isso é muito atraente, pois oferece oportunidades interessantes para aprender, desenvolver habilidades e realmente fazer a diferença.”

“A Univar Solutions vem crescendo de maneira consistente e acelerada nos últimos anos na América Latina e continuaremos investindo no crescimento orgânico, pela oferta de serviços e soluções aos nossos clientes, bem como expandindo nosso portfólio e cobertura geográfica por meio de aquisições estratégicas”, afirmou Santiago.

“Os últimos três anos foram bastante positivos para o mercado de distribuição. Obviamente, o preço mais elevado das commodities químicas favorece o balanço entre receitas e despesas dos distribuidores. Mas, mais do que os resultados financeiros, os últimos três anos foram muito importantes para a MCassab pelo início de nossas operações no novo complexo operacional, Jarinu-SP, bom como pelo fortalecimento de parcerias com nossas principais representadas, além do lançamento e consolidação de nossas marcas Nutor®, de pré-misturas nutricionais, e Smartpur®, para o mercado de poliuretanos. O complexo de Jarinu tem nos permitido ofertar aos clientes serviços adicionais, além de ter aumentado a nossa eficiência operacional, tanto nas áreas produtivas, quanto nos processos logísticos. Os investimentos previstos para os próximos anos estão mais relacionados ao fortalecimento dessa oferta de serviços aos clientes”, explicou Dosualdo.

Reforma tributária

Caminha a passos lentos no Legislativo o projeto de reforma tributária, capaz de facilitar a vida dos contribuintes e, de quebra, reduzir o peso dos impostos sobre alguns setores econômicos. O problema é evitar que o projeto seja desfigurado com propostas que acabem mantendo os erros e complexidades do sistema atual, senão os agravando. Os impactos atingirão a distribuição química.

“O sistema tributário atual é demasiadamente complexo. Entendemos que qualquer alteração que esteja voltada à simplificação do modelo é bem-vinda. Algumas das mudanças podem impactar o nosso setor. Hoje, por exemplo, a questão fiscal é algo importantíssimo para definir a localização de nossos centros de distribuição e as mudanças na legislação podem tornar alguma localização inviável, assim como pode tornar viável o projeto de abertura de uma filial que antes tenha sido avaliado como inviável. Precisamos acompanhar de perto e tomar as ações somente após as aprovações das mudanças”, recomendou Dosualdo.

Para Annik, o setor vai se adaptar a eventuais alterações, caso elas aconteçam. “A questão tributária sempre foi um desafio no nosso país, para qualquer setor. Na distribuição não é diferente e a história mostra que somos bastante resilientes a essas mudanças, nos adaptando com agilidade”, disse.

“Trata-se de um tema de alta relevância para toda a cadeia produtiva e que adiciona mais uma camada de complexidade no ambiente de negócios do nosso país. Estamos atentos a eventuais movimentações e eventuais desdobramentos que possam impactar de alguma forma os mercados em que atuamos”, comentou Santiago, da Univar Solutions.

Consolidações

A indústria química brasileira entrou no radar dos investidores internacionais. Com isso, algumas bandeiras tradicionais do mercado local mudaram de mãos, a exemplo da Elekeiroz (agora controlada pelo grupo OCQ), da Oxiteno (Indorama Ventures) e da BR Distribuidora (Vibra).

Dosualdo vê com normalidade a mudança dos controladores, processo considerado normal e cada vez mais frequente em todo o mundo. “Já passamos por mudanças de controle de nossas representadas e nunca tivemos problemas, embora algumas modificações de relacionamento possam ocorrer”, afirmou. “Entendo que conseguimos estabelecer um modelo dentro da MCassab que tem se mostrado muito resiliente e viável para lidar com estas mudanças e com representadas de diferentes culturas, tendo por base o entendimento da estratégia de cada representada, a participação na adaptação desta estratégia aos mercados que estão em nossas mãos, assim como ao compromisso da execução desta estratégia nestes mercados. A partir do momento que nos apresentamos como um real parceiro, comprometido de fato com o desenvolvimento do negócio de nossas representadas, as coisas fluem naturalmente para uma relação de sucesso.”

“Esse dinamismo do mercado deve continuar e é natural no cenário macroeconômico em que vivemos. Os movimentos globais de redefinição das cadeias de suprimento, a movimentação de indústrias de volta ao ocidente e um crescimento de sentimento nacionalista e protecionista também compõem a foto do momento atual. Independentemente da dinâmica dos fabricantes, a Univar Solutions está atenta e preparada a continuar oferecendo as melhores fontes de produtos químicos e ingredientes, descomplicando a gestão de inventários e permitindo que nossos clientes e fornecedores a mantenham o foco no core de seus negócios”, ressaltou Santiago.

“Esses movimentos fazem parte da história da indústria química no mundo e, no Brasil, a expectativa é que fortaleçam ainda mais a produção local. Somos muito orgulhosos das parcerias que temos com produtores locais e a sinalização é bastante positiva, tanto pelo fato da atratividade da indústria local, quanto pela possibilidade de investimento e crescimento da produção nacional de químicos”, completou Annik.

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