Distribuição: Empresas superam crise com portfólios ampliados

Química e Derivados - Distribuição: Empresas superam crise com portfólios ampliados e abertura de mercados ©QD Foto: iStockPhoto

A distribuição química brasileira não está “dormindo no ponto”. Embora, a exemplo de todas as atividades produtivas no Brasil, o setor acompanhe com muita atenção a tramitação de projetos legislativos de reformas importantes e também procure incentivar a redução de entraves burocráticos cotidianos, o comércio químico promove esforços para ampliar o rol de mercados atendidos, diversificar portfólios e reforçar laços com clientes e fornecedores. Com isso, busca o duplo objetivo de ampliar vendas e diluir riscos.

Química e Derivados - Krueder: próximo passo será montar empresa na Colômbia ©QD Foto: Divulgação
Krueder: próximo passo será montar empresa na Colômbia

Não são tarefas fáceis, nem baratas. Exigem doses crescentes de esforço e investimento. Deixar de fazê-las, no entanto, não é uma opção para quem pretende permanecer no ramo, pois a concorrência é cada vez mais acirrada.

O panorama atual é diferente do registrado pela Edição Especial de Perspectivas 2019 de Química e Derivados, publicada no início do ano, quando as expectativas do setor eram muito positivas para a economia nacional. As reformas previdenciária e tributária se apresentavam como fundamentais a ponto de não se esperar dificuldades de aprovação nas casas legislativas. O novo governo prometia dar um choque de liberdade e modernidade na economia e na sociedade, iniciando um ciclo virtuoso de desenvolvimento.

Não foi isso que se viu nos primeiros cinco meses do ano. Embora ainda se registre a confiança do empresariado no futuro do país, este parece ter ficado um pouco mais distante. As reformas não foram concluídas e o governo federal se enredou em disputas internas de alto poder implosivo, porém de baixa relevância para a atividade empresarial.

“O ano começou promissor, mas havia mais expectativas do que fatos para fundamentar o otimismo”, resumiu Érica Takeda, presidente da Brenntag Brasil. Ela informou que a demanda no primeiro trimestre apresentou forte estabilidade, com mínimo crescimento em relação ao mesmo período de 2018. Melhores resultados foram percebidos nas áreas ligadas ao agronegócio, alimentos e nutrição, cuidados pessoais e domissanitários. “Os demais segmentos apenas acompanharam a variação do PIB”, apontou.

Química e Derivados - Dosualdo: construção do centro logístico de Cajamar prossegue ©QD Foto: Divulgação
Dosualdo: construção do centro logístico de Cajamar prossegue

“O mercado químico segue o ritmo lento da economia nacional, em compasso de espera em relação às reformas econômicas necessárias para a retomada dos investimentos”, comentou Gustavo Dosualdo, diretor de distribuição da MCassab. Ele acredita que, com o êxito das reformas, o Brasil tem todas as condições para receber uma onda de investimentos e crescer acentuadamente, favorecendo o comércio químico, entre outros setores. “Entendemos que isso só começará a acontecer no último trimestre deste ano, ou ainda no início de 2020.”

“A economia brasileira está andando de lado, o PIB não deve crescer além de 1% neste ano e isso se refletirá no setor químico”, avaliou Jan Krueder, presidente da Química Anastácio. “Além disso, há turbulências globais a considerar, decorrentes da guerra comercial entre China e Estados Unidos.” Com dificuldades para acessar o mercado americano, sobram alguns produtos chineses no mundo, ainda que a demanda interna tenha aumentado por lá e algumas fábricas tenham sido desativadas por pressão ambiental. Isso derrubou o preço de várias commodities vegetais e derivadas de petróleo, enquanto as especialidades químicas sofreram menos, pois têm dinâmica de mercado diferente. “Para nós, o desafio é a precificação das mercadorias em estoque e em trânsito, precisamos considerar flutuações de oferta e demanda, mas também a taxa cambial daqui, que está muito volátil”, afirmou. Apesar disso, a empresa registrou aumento de vendas de 26% em moeda local em 2018, e espera manter o ritmo de crescimento de dois dígitos neste ano.

Química e Derivados - Jorge: TI ajuda a desenvolver soluções personalizadas ©QD Foto: Divulgação
Jorge: TI ajuda a desenvolver soluções personalizadas

Alvim Jorge, diretor geral no Brasil da GTM Holdings, proprietária da distribuidora quantiQ, vê a necessidade de promover reformas estruturais na indústria química, assim como no desenvolvimento de uma política industrial mais estruturada. “Os negócios com químicos avançarão ao lado de drivers como a retomada da economia brasileira, ainda lenta, o avanço no consumo e recuperação da confiança na indústria, com aumento de investimentos, e do setor de serviços”, afirmou. Ele aponta o rápido desenvolvimento das transformações digitais, que o grupo GTM acompanha com foco em gestão mais eficiente e tecnológica, traduzida em agilidade e rapidez dos processos internos, bem como no fortalecimento de parcerias com representadas e clientes. “No Brasil, estamos implementando uma ferramenta de CRM que permitirá gestão mais eficiente de atendimento aos clientes”, informou.

Embora aponte a estagnação da economia brasileira, a Midland projeta para 2019 um aumento de 5% a 10% de faturamento, em relação a 2018. “Isso resultará da introdução de novos parceiros, produtos e mercados de atuação”, comentou Paula Hattori, gerente de vendas da distribuidora. Como informou, atividades ligadas à exploração do pré-sal tendem a gerar negócios na área de manutenção industrial. Em contrapartida, a redução das exportações de automóveis aos países vizinhos afetou alguns mercados atendidos pela Midland, como OEM, plásticos e autopeças. “Continuaremos focados nos nossos mercados estratégicos, ampliando a oferta de novos produtos e tecnologias, além de ingressar em outros segmentos, para tanto, mantemos investimentos na capacitação e desenvolvimento dos nossos profissionais”, informou.

Química e Derivados - Castro investe em Pernambuco e reforça as especialidades ©QD Foto: Divulgação
Castro investe em Pernambuco e reforça as especialidades

A Morais de Castro, sediada em Salvador-BA, tem obtido crescimento significativo de vendas nos últimos anos, resultado da introdução de novas distribuídas e produtos. “Somos uma empresa tradicional na região, temos acesso aos clientes locais e por isso encontramos interesse de parceiros para oferecer mais especialidades por aqui, a exemplo de Wacker, Vantage e Symrise”, explicou o diretor André Castro. Na sua avaliação, a região Nordeste alimenta grandes expectativas, mas roda com o “freio de mão puxado”, exigindo desenvolver projetos inovadores. Em 2019, a distribuidora planeja crescer 12% em vendas.

A Rudnik iniciou 2019 com a meta de aumentar seu faturamento em 15% em relação a 2018, mas encontra dificuldades. “O mercado está muito ruim, até agora só crescemos 4%, o primeiro trimestre nos decepcionou, os clientes estão manifestando muita incerteza”, disse Tiago Reis, diretor operacional. Com foco nas especialidades, a distribuidora busca aumentar seus fornecimentos para a base de clientes, propondo a eles alternativas. Isso exige ampliar o portfólio. “Incluímos seis produtos adicionais ao nosso portfólio no ano passado e, em 2019, já adicionamos outros quatro itens”, informou.

Ainda jovem, a SQ Química obteve crescimento de 30% nas vendas de 2018 e espera manter o ritmo neste ano. “A expectativa é grande, mas ainda não se concretizou, esperamos que as reformas econômicas atraiam mais investimentos e reforcem a confiança no mercado”, comentou Petra Shie, sócia-fundadora e diretora de marketing da distribuidora.

Química e Derivados - Petra: mudanças chinesas pedem esforço maior da equipe técnica ©QD Foto: Divulgação
Petra: mudanças chinesas pedem esforço maior da equipe técnica

Nascida com base em produtos para formulações curáveis por ultravioleta, a SQ Química prioriza especialidades no portfólio, porém ampliou a abrangência de segmentos atendidos (atua em tintas, compósitos, polímeros, plásticos, borrachas, adesivos, lubrificantes, materiais dentários, entre outros), com a respectiva ampliação de itens oferecidos. “Entendemos que um período de incertezas abre uma janela de oportunidades, ou seja, é um momento para inovarmos e criarmos diferenciais no mercado”, afirmou.

A SQ Química adquire grande parte de seus produtos de fornecedores situados no exterior, dos quais 70% estão na China. “Nos últimos anos, o governo chinês tem criado barreiras para a produção de insumos básicos e, por consequência, existe cada vez mais dificuldade para obter produtos com um lead-time curto”, comentou. Isso exige um esforço extra tanto do departamento de compras, quanto da área técnica, que precisa desenvolver produtos alternativos, mas também da equipe comercial para lidar com as necessidades dos clientes. “O cenário é desafiador, estamos atentos e animados”, afirmou Petra.

Química e Derivados - Medrano: Prodir comprova evolução qualitativa do setor ©QD Foto: Divulgação
Medrano: Prodir comprova evolução qualitativa do setor

Futuro melhor – “Ainda há esperança no Brasil”, salienta Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim). “Ficamos mais uma década atrasados em relação ao mundo, por isso precisamos fazer as reformas previdenciária e tributária e outras mais.” Pelo menos, como observou em conversas recentes com representantes da equipe econômica do governo, a intenção de desburocratizar as atividades empresariais e reduzir a intervenção estatal permanecem como prioridades oficiais.

Na sua avaliação, 2019 reflete os efeitos da retração do consumo de bens finais, provocada pela atitude mais cautelosa da população quanto ao seu orçamento pessoal e também pela incerteza quanto à efetivação das reformas. “O fato é que, sem consumo, as indústrias não rodam e a distribuição não vende”, comentou.

A Associquim está concluindo o levantamento de dados setoriais de 2018 que consolidará no Perfil da Distribuição de Produtos Químicos e Petroquímicos, publicado todos os anos. Com base em dados preliminares, Medrano identifica que a distribuição brasileira deve ter obtido faturamento dolarizado entre 5% a 10% maior que o registrado em 2017. O dirigente ressalta que, por se tratar indicador em moeda forte, é preciso interpretar esse número à luz da variação cambial e da composição do mix de produtos trabalhado pelo setor.

Portanto, parte da variação positiva pode ser atribuída à desvalorização do real e também há uma influência derivada da maior participação da venda de especialidades químicas pelos distribuidores em relação a exercícios anteriores. “Estimamos que as especialidades representem cerca de 40% das vendas da distribuição e acredito que cheguem a 50% em alguns anos”, considerou. Produtos de maior valor são atraentes, porém requerem investimentos em laboratórios e equipes especializadas de vendas e suporte técnico. Além disso, são negociações lentas com clientes, dependendo de aprovação mediante procedimentos complexos. A prestação de serviços também está avançando no setor, abrindo novas oportunidades de desenvolvimento de negócios.

Ponto fundamental para a evolução do setor foi a instituição do Programa de Distribuição Responsável (Prodir), que já está sendo reconhecido pelas autoridades federais, estaduais e municipais como um fator de diferenciação das empresas, tendo em vista a sustentabilidade das operações. “Autoridades regulatórias demonstram confiança no Prodir, por exemplo, a Cetesb e o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo estendem o prazo de validade das licenças para quem está certificado no programa”, disse Medrano. A aceitação mútua entre Prodir e Atuação Responsável (da Abiquim) comprova o bom relacionamento com a indústria química, facilitando as operações na cadeia produtiva. “O Prodir vai se adaptando às circunstâncias, porém sem perder a sua essência”, afirmou.

A Polícia Federal adotou, desde janeiro, procedimentos novos de controle de produtos químicos, fruto de diálogo com a Associquim. “O procedimento agora é totalmente eletrônico, mais fácil e sem burocracia”, elogiou Medrano. Como informou, há uma tendência de adotar a autoregulação, mas isso aumenta muito a responsabilidade das distribuidoras que não poderão falhar na prestação de informações, sob pena de punições severas. “Outros órgãos fiscalizadores devem concordar, para evitar conflitos, não será fácil chegar a esse ponto, embora a Associquim esteja pedindo há anos a unificação de registro e controle de produtos”.

Medrano aponta um antecedente exitoso: a criação do Portal Único para operações de comércio internacional. Pelo sistema, todos os órgãos intervenientes nas importações e exportações são chamados a se manifestar de uma só vez, com prazo predeterminado, agilizando os procedimentos.

Distribuição madura – A abertura comercial promovida no governo Collor de Mello e a estabilidade econômica alcançada com o Plano Real foram divisores de águas na história da distribuição química nacional. “Nessa mesma década, a China despontou como potência econômica e fonte de suprimentos, deslocando o eixo industrial químico da Europa e dos Estados Unidos para a Ásia”, comentou Medrano. “Tudo isso obrigou a distribuição a se modernizar, bem como a logística global”.

A dinâmica dos negócios trouxe ao Brasil grandes distribuidoras internacionais que aqui se instalaram e trouxeram experiências de gestão e governança para o mercado local. “Mas elas também tiveram de se adaptar ao Brasil, isso não foi fácil”, comentou Medrano que aponta o fato de as operações brasileiras dessas grandes companhias serem atualmente comandadas por executivos brasileiros qualificados, já adaptados ao ambiente econômico e cultural.

Outro sinal de maturidade do setor pode ser encontrado na atitude das empresas em relação aos movimentos do mercado. “Não se vê mais o efeito manada, todos investem com planejamento e cautela em seus negócios, os Encontros Brasileiros da Distribuição Química, conhecidos como EBDQuim, ajudaram nessa evolução”, considerou.

Medrano observa que a China está retraindo sua oferta de produtos químicos, principalmente por motivos ambientais, forçando todo o mundo a buscar fontes adicionais de suprimento. “A Associquim luta para que os clientes da distribuição valorizem o Prodir na sua cadeia de suprimento, porque a sustentablidade é importante até para as negociações com os países do Tratado Transpacífico (TPP)”, afirmou.

Nesse ambiente global, o dirigente observa movimentos recentes de aproximação entre Brasil e Argentina, que podem aprofundar o Mercosul e o livre-comércio regional. Isso obrigará os distribuidores nacionais a ampliar sua área de atuação. “O Brasil tem vocação para ser o grande hub regional de químicos, isso impulsionará o setor”, prevê. O bloco regional oferece a possibilidade de acesso ao Oceano Pacífico para o Brasil, maior mercado regional. “A distribuição precisa agir bem nesse sentido, poderá ser o fator para a concretização do bloco.”

Química e Derivados - Érica: infraestrutura ruim prejudica negócios no país ©QD Foto: Divulgação
Érica: infraestrutura ruim prejudica negócios no país

Portfólios em revisão – A distribuição sempre ajusta seu portfólio em conformidade com as tendências de mercado e com a estratégia de longo prazo de cada empresa. Atualmente, ambos os fatores apontam na direção de reforçar a participação das especialidades no mix de produtos.

A gigante global Brenntag, com sede na Alemanha e vendas de € 12,6 bilhões em 2018 (dos quais € 807,3 milhões na América Latina), opera um mix com 75% de commodities e 25% de especialidades químicas no Brasil. “Temos por meta ampliar a venda de especialidades por complemento no portfólio, sem perder posições nas commodities, nas quais somos muito fortes”, comentou Érica Takeda, presidente da Brenntag Brasil.

Como explicou, a distribuidora mantém uma estratégia de crescimento com base na abrangência geográfica (com atuação em todo o território nacional), diversificação das indústrias atendidas e oferecimento de portfólio amplo, integrando commodities e especialidades. “Com essa estratégia, estamos tendo crescimento no Brasil, que tem forte participação nos resultados da região”, apontou a executiva.

A América Latina representa 6,4% do faturamento mundial da Brenntag e registrou queda de 1,4% nas vendas de 2018. O primeiro trimestre de 2019, no entanto, obteve faturamento de € 210,4 milhões, que representa uma elevação de 13,2% (ou 9,5%, descontados os efeitos cambiais). “O crescimento obtido do primeiro trimestre reflete a aquisição da Conquímica, da Colômbia, aprovada pelo governo colombiano no final de 2018”, explicou Érica.

A presidente salienta o fato de as especialidades químicas exigirem importação, dado não haver produção nacional suficiente. A operação logística nesse caso envolve volumes menores de produtos, geralmente embalados e acondicionados em contêineres. “É mais fácil de lidar do que as commodities, que exigem infraestrutura portuária específica, como tancagem”, considerou. Para Érica a deficiência brasileira de infraestrutura logística, envolvendo portos, estradas e ferrovias, entre outros itens, causa preocupação e limita investimentos. “Seria o momento adequado para o país investir em infraestrutura, pensando no próximo ciclo de crescimento. Caso aconteça uma recuperação econômica, que não é improvável, teremos gargalos importantes a enfrentar”, afirmou.

A expectativa ainda é positiva, tanto que a Brenntag Brasil investe na conclusão no laboratório de polímeros (poliuretanos, polióis e borracha) para desenvolvimento com clientes, em Guarulhos-SP, previsto para o segundo semestre deste ano. “Aliás, o site de Guarulhos foi revitalizado e atualizado, melhoramos as salas de reunião e a estrutura para prestação de serviços, além de ampliar a área de misturas e blends, incluindo solventes e tensoativos, estes como adjuvantes para formulação de agroquímicos, temos uma marca própria para isso”, salientou.

Todas as regiões do país estão reportando resultados positivos, mas a estrutura física existente ainda suporta as operações, segundo a presidente. “Gaurulhos opera a plena carga, estamos alugando armazéns de carga seca na região como apoio”, disse. O prazo médio de estoques não foi alterado, uma vez que não há problemas de suprimento, nem de dificuldades extraordinárias em logística.

Atenta às oscilações de oferta e demanda global, a Química Anastácio mantém estoques pra 75 dias de suprimento aos clientes, em média, com alguns itens mais críticos com reserva para 90 dias. Com 2.400 itens em portfólio, oferecidos para cinco mil clientes ativos em 18 segmentos de mercado atendidos, a distribuidora desenvolve contínuo trabalho de procurement global. “Lançamos, em média, dez produtos por mês e praticamente nunca tiramos um item do portfólio, alguns podem ter volume reduzido, mas sempre têm comprador”, disse Jan Krueder.

Como comentou, faz parte da estratégia de negócios da Química Anastácio vender mais produtos para o mesmo cliente, até porque isso reduz o custo logístico. “Vendemos um conjunto de itens para cada cliente e garantimos a entrega; se um produto desses faltar, a fábrica do cliente vai parar, é uma responsabilidade grande”, salientou. Para tanto, a distribuidora precisa acompanhar o planejamento da produção do cliente, evitando desencontros. “Queremos ser parceiros”, disse.

Krueder aponta que a baixa atividade dos fabricantes de bens duráveis está afetando as vendas de poliuretano e de borrachas. Em compensação, as linhas de life sciences não se retraíram e até cresceram. Na área de alimentos, alguns itens despencaram, como os iogurtes, enquanto outros avançaram. Operar em vários segmentos é uma postura estratégica da companhia, que proporciona maior segurança para o negócio, suportando melhor as variações de cada um deles. “Os produtos direcionados para o agronegócio ainda têm muito espaço para crescer”, informou. A distribuidora fornece ingredientes para fertilizantes, oferecendo pré-mix para formulações foliares, além de exportar micronutrientes para lavouras de outros países.

A oferta de itens industrializados, como blends e pré-misturas diversas, está em crescimento na Química Anastácio, que se vale da contratação de serviços de terceiros mediante acordos de tolling. “Produção não é nosso foco, usamos a capacidade de indústrias qualificadas para fazer isso”, explicou. Em geral, são empresas bem instaladas e com pessoal técnico habilitado, porém com baixa capacidade financeira e de gestão comercial. “Temos os ingredientes e as formulações, pagamos pelos serviços e comercializamos os produtos, é bom para todos”, disse. Ao contar com fabricação local contratada, a distribuidora reduz a importação de alguns itens.

Krueder informou que a distribuidora tem conseguido manter a rentabilidade ao longo dos anos, reinvestindo os lucros nas operações. Ele reconhece que a crise econômica apertou a margem de lucro, pois exige trabalhar com escala maior e número maior de itens. “O mix precisa ser saudável, operamos com 60% de commodities e 40% de especialidades nas vendas”, explicou.

A importação tem participação grande na distribuidora e também nas duas outras empresas do grupo. A QA Overseas é uma empresa de comércio internacional de químicos criada para atender clientes que compram grandes volumes, recebendo a mercadoria diretamente do produtor. “Nós fazemos a ligação entra as pontas, o comprador nos diz o que precisa e quais as marcas que ele já aprovou, somos remunerados pelo serviço”, explicou o presidente da companhia, cujas vendas ao Brasil representam apenas 25% do volume, sendo o restante direcionado a outros países, com destaque para a Argentina e para a Colômbia. Aliás, Krueder informou ser provável que a próxima empresa do grupo seja montada na Colômbia, onde tem encontrado ambiente econômico favorável.

A QA Argentina iniciou operações neste ano, com boa movimentação de produtos para os segmentos de cosméticos e domissanitários. “É um mercado muito complexo, estamos entrando com cautela”, comentou.

Na sua visão, os países sul-americanos da costa do Pacífico estão em melhor situação econômica que os da costa do Atlântico. Ele citou Chile, Peru e Colômbia como exemplos de desenvolvimento que devem ser observados pelo Brasil.

O mercado brasileiro de distribuição química apresenta um quadro regulatório e fiscal muito firme, elogiado por Krueder por afugentar aventureiros e iniciativas temerárias. “O mercado local exige compliance, que precisa ter uma estrutura forte de apoio, as concentrações de negócios ajudam a dar escala para as empresas locais fazerem isso, a exemplo das internacionais que vieram para cá nos últimos anos”, considerou.

Sem estrutura financeira e operacional robusta, uma distribuidora fica vulnerável ao assédio de compradores. “Tivemos propostas, mas nossa intenção é reforçar os valores da Química Anastácio para perpetuar a companhia”, disse.

A Morais de Castro entrou firme na oferta de produtos para alimentos, com destaque para ingredientes naturais, a exemplo da distribuição de aromas da Symrise, iniciada neste ano. “Já tínhamos alguns negócios no setor de alimentos, mas agora estruturamos uma divisão específica, com laboratório dedicado, que ficará pronto em julho, e apoio técnico”, disse André Castro. O mesmo está sendo feito para melhor atender o setor de cosméticos. As demais áreas seguirão atendidas por estruturas multipropósito.

Embora tenha ampliado as operações com especialidades, as commodities ainda têm posição predominante nas vendas da distribuidora, representando 90% do faturamento. “Tenho por meta estabelecer, em alguns anos, um mix com 70% de commodities e 30% de especialidades, com rentabilidade dividida igualmente entre eles”, comentou Castro. O peso das commodities se reflete na origem dos produtos vendidos: 80% é de produção local.

Neste ano, a Morais de Castro está importando número maior de itens, porém valorizando parcerias. “70% de nossas vendas vêm das distribuições autorizadas”, informou. Como disse, a China está mudando seu perfil de negócios, reduzindo a produção, aumentando a qualidade e reforçando marcas próprias. “Goma xantana e ácido cítrico, por exemplo, já contam com marcas comerciais chinesas bem estabelecidas”, apontou.

Os produtores chineses buscam parceiros para desenvolver mercado aqui no Brasil, segundo Castro. “Eles não querem só vender um produto, mas oferecem grades e opções aos clientes, estão muito ativos”, salientou. A Europa ainda é uma fonte confiável e competitiva para a distribuidora, que encontra grande facilidade de negociação com fornecedores já conhecidos.

Competição firme – André Castro, presidente da Morais de Castro, aponta diferenças regionais na distribuição química. “A disputa é muito forte na região Sudeste, o filé do mercado, mas há deficiências nas regiões Sul, Nordeste e Centro Oeste”, afirmou. A chegada de grandes distribuidores globais fez com que eles buscassem atuar em todo o território nacional, mas nem sempre conseguiram se situar bem em todas as regiões.

Atualmente, o relacionamento com as distribuídas evoluiu muito, tendo sido reduzidas imposições que causaram prejuízos no passado, como as cláusulas de take or pay. “Quando se forçava um distribuidor a receber mais produto do que ele conseguia vender, o resultado era um derrame de produto no mercado, destruindo o negócio, isso não acontece mais”, elogiou Castro.

A entrada de competidores internacionais no mercado brasileiro causou desconforto, mas já foi assimilada, como avaliou Tiago Reis, diretor de operações da Rudnik. “No primeiro momento, elas mexeram com os distribuidores estabelecidos e derrubaram preços, mas o pior já passou e houve uma acomodação”, comentou. “O resultado final foi bom, é melhor termos concorrentes qualificados.”

A Rudnik opera um portfólio composto por 60% de commodities, em número de itens, e um faturamento com base em 85% de produtos importados. “Mantemos estoques médios para 120 dias, isso nos ajuda a contornar entraves logísticos e absorver algumas variações cambiais”, comentou.

Atualmente, a distribuidora busca ampliar a venda de especialidades químicas, mediante diferenciação por meio da qualidade dos produtos e do serviço prestado. Isso inclui equipe de vendas especializada por segmento de atuação, além da expansão do portfólio. No momento, a empresa investe na ampliação da capacidade de armazenagem e construção de tancagem própria, em Cotia-SP.

A quantiQ (GTM) trabalha com foco no fortalecimento do portfólio de especialidades, alinhado às tendências de mercado e busca por produtos inovadores, mediante parcerias estratégicas com empresas de todo o mundo. “Como exemplo, cito duas parcerias recentes: a HT Nutri, com Fôve Max e Fôve Oil, que são ativos ricos em fitoesteróis derivados do arroz, oryzanol, ômega 3, 6 e 9, e vitamina E, para produtos de cuidados com cabelos e pele; outra é Ingredion, com a adição das linhas Farmal e Nativa Care, de insumos com tecnologia de base biológica, unindo desempenho e praticidade com responsabilidade ambiental”, explicou Alvim Jorge.

A distribuidora também fortalece os sistemas de gestão, tendo investido, em 2018, na modernização do sistema ERP, implantando a plataforma tecnológica mais avançada para o setor, a versão SAP S/4HANA. “Neste ano, vamos implantar uma ferramenta de CRM da Salesforce, que potencializará a gestão de relacionamento com clientes”, disse.

Com tudo isso, a quantiQ manterá o foco em oferecer soluções personalizadas para atender melhor as necessidades específicas. “Isso será feito com apoio de equipe especializada e infraestrutura robusta, que facilitam a formulação de produtos que agreguem valor ao negócio do cliente”, salientou Jorge.

A distribuidora atende a mais de 30 segmentos de mercado, de tintas a cosméticos e nutrição humana. Cada segmento conta com estratégias diferenciadas, incluindo portfólio de produtos e soluções amplo, com commodities e especialidades. “Temos uma equipe de supply chain capacitada e trabalhamos com grande parcela de itens importados, mas também atuamos para fortalecer o fluxo de negócios internacionais”, considerou Alvim Jorge. O grupo GTM atua em onze países e conta com infraestrutura composta de 50 instalações e quatro terminais marítimos nas Américas, permitindo o acesso a fornecedores globais, a quem oferece ampla capilaridade, ressaltando a posição de importante player na distribuição química regional.

Gustavo Dosualdo enfatizou que o Grupo MCassab traçou há alguns anos a estratégia de fortalecer o portfólio com maior participação de especialidades. “Isso exigiu investimentos em laboratórios e na estrutura de pessoas, com especialização por segmento atendido, oferecendo suporte técnico qualificado para assistência aos clientes e desenvolvimento de produtos”, comentou.

Ao mesmo tempo, o diretor de distribuição da MCassab afirma a importância de manter uma oferta ampla de commodities, compatível com o porte da distribuidora, mantendo parcerias locais e internacionais para atender os clientes no conceito de one stop shop.

Em ambos os casos, a distribuidora opera com fornecedores parceiros, que garantem suprimentos e sua qualidade. “Por isso, não temos problemas de abastecimento, podem ocorrer alguns casos pontuais, resultantes de catástrofes climáticas, mas temos uma equipe preparada para lidar com esse tipo de situação sem prejudicar nossos clientes.”

Dosualdo vê a demanda mais fraca nos segmentos ligados à indústria de bens mais pesados, como a construção civil e a automobilística. Cuidados pessoais, domissanitários, alimentos e farmacêuticos sentem os efeitos da crise econômica d forma menos acentuada. “Segmentos como plásticos, tintas e poliuretanos são os mais afetados, enquanto os produtos voltados para agricultura e pecuária se mostram mais resilientes”, avaliou.

Nesse ambiente, as especialidades químicas se apresentam como alternativas para diferenciação de produtos finais, melhorando o seu desempenho, mas também para a sua reformulação com objetivo de reduzir custos.

Investimentos avançam – As distribuidoras mantém o ritmo de investimentos dentro da estratégia de acompanhar de perto as demandas dos mercados atendidos, mantendo estruturas compatíveis com os volumes movimentados e as características de cada mercado.

“Estamos montando laboratórios na matriz, mas o forte dos investimentos dessa vez está direcionado para a filial de Pernambuco, cuja estrutura de armazenamento de sólidos está em ampliação e construiremos tancagem nessa unidade, com linha de entamboramento qualificada”, revelou André Castro, esperando a iniciar operações nas instalações ampliadas ainda neste ano.

A Química Anastácio prossegue com o plano de investimentos na digitalização de processos. “Investimos pesado no ano passado na plataforma de Tecnologia da Informação, agora estamos reforçando o sistema de gestão ERP, com a atualização de ferramentas de gestão do relacionamento com clientes, o CRM”, disse Jan Krueder.

A MCassab conseguiu superar a última etapa regulatória para iniciar a construção do centro de distribuição de Cajamar-SP. “Com 32 mil m², esse centro logístico permitirá integrar todas as nossas operações em um único local”, informou Dosualdo. “É o nosso maior passo para a melhoria das operações, mas não o único; temos estudos em andamento para aprimorar a nossa malha logística e desenvolveremos outras iniciativas para suportar o nosso crescimento e atender melhor os clientes.”

Efeitos da greve – Sempre citada como principal fator de desestabilização econômica de 2018, a greve dos caminhoneiros de maio do ano passado teve efeitos importantes na distribuição química. A mais visível foi o aumento das frotas próprias dos distribuidores.

“O mercado se ajustou às novas condições, especialmente à tabela de fretes que ficaram mais caros, estimulando a investir em frota própria”, avaliou André Castro. A Morais de Castro, antes mesmo da greve, já havia constituído uma empresa especializada em cargas químicas, a Transportadora Pirajá, que opera para a distribuidora e para terceiros. “A demanda da Morais de Castro representa apenas 40% da movimentação de carga da Pirajá, são empresas realmente independentes”, salientou.

O aumento da frota da Pirajá após a greve ocorreu, porém apenas nas dimensões projetadas anteriormente. “Claro que houve aumento nos custos, repassados para os clientes; estes, por sua vez, também tiveram problemas com fretes para escoar sua produção”, comentou. De forma geral, esses custos foram assimilados na cadeia produtiva. Para Castro, o problema maior está na estrutura portuária, deficiente e cara.

A Rudnik também criou, em 2011, empresa separada para cuidar da logística, a Rudlog, prestando serviços para a distribuidora e terceiros. “A Rudlog faz a gestão do armazém e dos fretes da Rudnik, mas também tem 25 clientes em armazenagem”, informou Tiago Reis.

Contar com estrutura de transporte adequada permite entregar produtos vendidos em curto prazo. “Entregamos os produtos no dia seguinte da compra, para clientes situados num raio de 200 km de Cotia-SP”, salientou.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.