Distribuição: A busca por uma nova normalidade

Perspectivas 2023 - Distribuição - Superada a crise da Covid-19, mercado químico começa a busca por uma nova normalidade

As empresas atuantes no comércio de produtos químicos de uso industrial começam 2023 com boas expectativas de evolução de negócios, mas não desprezam os riscos capazes de estragar os resultados futuros.

Ainda há resquícios dos problemas logísticos internacionais surgidos a partir da pandemia de Covid-19, em especial na China, ainda que muito menores do que foram entre 2020 e 2022.

A invasão da Ucrânia pela Rússia gerou um conflito bélico de longo prazo, cujos efeitos já são percebidos no mercado, mas é possível que a situação se prolongue e afete outros países.

O início do novo governo no Brasil também gera alguma ansiedade enquanto as linhas de atuação oficial não são divulgadas claramente, em especial na pasta da economia.

“O setor está otimista, porém com um pé atrás”, comentou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

Ele salientou que os governos Temer e Bolsonaro tomaram iniciativas que melhoraram e simplificaram muito as operações de comércio exterior, embora o Siscomex para importação ainda esteja incompleto.

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     Distribuição: Mercado químico começa a busca por uma nova normalidade ©QD Foto: iStockPhoto
    Medrano: avanços obtidos desde 2016 precisam ser mantidos ©QD Foto: QD Produções

    “Ter um portal unificado para liberação de mercadorias já é um grande avanço, evitando a demora na apresentação das entidades intervenientes”, explicou.

    Todas essas medidas resultaram em redução de custos e de tempo para o setor de comércio, que pode se concentrar mais na sua atividade fim.

    “Também houve avanços no campo trabalhista, com mais flexibilidade, até para permitir a adoção do sistema home office, tão importante durante a pandemia”, apontou Medrano, que torce pela manutenção desses avanços.

    Na sua avaliação, o novo governo deveria criar um ambiente de negócios saudável, com um relacionamento mais transparente e produtivo entre governo e empresas.

    “O vice-presidente e ministro do desenvolvimento Geraldo Alckimin tem se manifestado em favor da reindustrialização do país, mas ainda não disse como pretende atuar nesse sentido. Vai fechar a economia, como já foi feito no passado? Não há um plano para que os agentes econômicos possam se adequar”, comentou.

    Além disso, resta saber como se comportará o Legislativo, que também terá nova composição a partir de fevereiro.

    Há temas importantes na pauta, incluindo a legislação trabalhista e a reforma tributária.

    “Nesse ponto, o setor comercial prefere a proposta apresentada pelo ex-deputado Luiz Carlos Haully do que a do economista Bernard Appy, pois esta onera demais os setores de comércio e serviços que são mais dinâmicos e empregam muita gente”, avaliou Medrano.

    O dirigente setorial considera, igualmente, que é impossível conduzir uma reforma tributária sem discutir uma reforma fiscal compatível.

    “É preciso equilibrar receitas e despesas, mexer em apenas uma dessas colunas gera um desequilíbrio perigoso”, apontou.

    “No fundo, o que precisa ser respondido pela sociedade é qual o tamanho do Estado que se deseja; sem definir isso, muito se fala, mas pouco se faz.”

    Resultados favoráveis – A Associquim ainda não concluiu o estudo anual dos resultados de seus associados, que devem apresentar seus dados até março.

    Mesmo assim, com base em informações preliminares, Medrano informa que 2022 foi um ano bom para o setor.

    “Em volume comercializado, o crescimento sobre 2021 deverá ser da ordem de dois dígitos; em valores, deve ter sido mais alto, pois os preços internacionais dos químicos permaneceram altos durante todo o primeiro semestre”, considerou.

    O segundo semestre apontou queda de preços internacionais, resultado da normalização das operações logísticas e da recessão europeia, esta decorrente da elevação do custo da energia provocada pelo corte de suprimento de gás natural da Rússia, uma retaliação ao apoio europeu à Ucrânia.

    “A distribuição brasileira está bem profissionalizada e atenta para evitar a queima de estoques, aliás, a administração do inventário é feita com racionalidade, sem exageros”, elogiou.

    Mas advertiu que os preços recuaram, porém sem retornar aos patamares de antes da invasão da Ucrânia.

    O último trimestre do ano passado sofreu também com a coincidência da Black Friday, das eleições e da Copa do Mundo de Futebol. Isso prejudicou as vendas do fim de ano no varejo e afetou toda a cadeia produtiva.

    “É preciso considerar também que uma parcela importante dos consumidores já está altamente endividada e o poder aquisitivo está baixo, apesar de o indicador de emprego apresentar um nível elevado”, disse.

    Com isso, a indústria brasileira teve um ano com desempenho pífio, impactando setores que estão no início da cadeia produtiva, como o químico.

    “Como nós vendemos produtos que abastecem as indústrias de produtos finais, quando o desempenho delas é fraco, nós sofremos também”, explicou.

    “Quando a importação de produtos acabados aumenta, nós perdemos negócios por aqui.”

    Ciente das dificuldades logísticas e das implicações estratégicas, Medrano entende que a melhor situação é contar com fabricantes locais de produtos químicos competitivos.

    Mas o que se percebe é uma indústria estagnada.

    “A chamada segunda geração química, que movimenta mais produtos, precisa recuperar sua atividade e os investimentos”, recomendou.

    A diversificação de setores atendidos é uma estratégia adotada por muitos distribuidores, mas implica investimentos em instalações e pessoal especializado.

    “O setor se modernizou, investiu em instalações, pessoal e tecnologia da informação, mas o mercado é muito volátil, nem sempre acompanha as expectativas”, apontou.

    Na sua avaliação, alimentos e bebidas foi um segmento de mercado que registrou desempenho forte mesmo durante a pandemia, apoiado pelo auxílio emergencial e pelo período de isolamento que turbinou o consumo doméstico.

    Higiene e limpeza também foram favorecidas no começo da pandemia, registrando picos de demanda. Nos últimos meses, porém, a demanda começou a recuar.

    Maior consumidor de produtos da distribuição química, a indústria de tintas mostrou um desempenho um pouco menor nas linhas imobiliárias.

    O setor automotivo original (OEM), que usa insumos de alto valor, ainda amargou a instabilidade no fornecimento de componentes como semicondutores e chips.

    “O mercado automotivo brasileiro é interessante, mas precisa avançar nas tecnologias de motores híbridos e elétricos”, apontou.

    Potencial positivo – Apesar da alguns alertas de possíveis dificuldades, Medrano entende que o Brasil tem condições de receber uma onda de investimentos.

    “O investidor internacional vê o país como um lugar muito bom, tem grande território, população consumidora razoável, cultura e valores ocidentais, democracia e estabilidade política; poucos lugares do mundo reúnem todos esses indicadores”, afirmou.

    Na distribuição química, isso se verifica pela presença de quase todos os grandes grupos internacionais da atividade.

    “Eles vieram para cá mediante aquisições, contribuíram para o aprimoramento setorial, mas o volume da demanda não evoluiu na mesma intensidade”, apontou Medrano.

    Por isso, o crescimento das companhias hoje se dá mais por aquisições ou conquista de fatias de mercado da concorrência.

    “Ainda há mercados para a distribuição ingressar, caso do segmento agropecuário, por exemplo”.

    A pandemia comprovou a necessidade de contar com uma distribuição química forte, capaz de suprir a indústria local mesmo sob severas dificuldades de abastecimento global.

    “O setor se provou muito eficiente, dinâmico e profissional, mesmo em condições críticas”, salientou. Uma antiga preocupação era a sucessão empresarial, uma vez que a maioria das empresas tinha estrutura de controle familiar.

    “Isso já foi superado pelas aquisições e consolidações promovidas pelas companhias internacionais e, além disso, as empresas nacionais também profissionalizaram a administração dos negócios.”

    Olhando para a região, Medrano percebe que o desempenho econômico está abaixo das expectativas. “Até os países que eram considerados ilhas de crescimento, como o Chile a Colômbia, tiveram resultados ruins nos últimos anos”, considerou.

    Mesmo assim, considerando a deterioração das relações entre Estados Unidos e China, bem como o isolamento da Rússia, a América Latina continua sendo uma alternativa para investimentos.

    Medrano ressalta que China e Índia dominam a produção global de especialidades químicas, com avanço cada vez maior dos indianos.

    “A China já decidiu deixar de ser a fábrica do mundo e deve se concentrar em produtos de alto valor e baixo impacto ambiental, seria interessante atrair parte dessa produção até por motivos de segurança estratégica, como ficou evidente durante a pandemia”, salientou.

    “Mas isso exige uma estrutura industrial que não é fácil de montar.”

    Como força emergente de transformação, ele apontou os esforços de descarbonização que estão sendo empreendidos em todo o mundo.

    Embora o setor automotivo tenha mais visibilidade, o setor industrial também está sendo transformado profundamente por essa diretriz.

    “Até mesmo por aqui há grandes investimentos da indústria na geração de energia de fontes alternativas, como a solar e a eólica; essa transição implica um custo, quem pagará por ele?”, indagou.

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