Destino limpo para o lixo industrial

A opinião de Gianesi pode ser mais pormenorizada. Já corrente nos Estados Unidos e Europa, e em período de transição no Brasil, uma etapa anterior à disposição, de inertização, torna-se a melhor saída para imobilizar o poder de risco dos resíduos. Nos Estados Unidos, diz Gianesi, o comum é a estabilização e solidificação, já na Europa, técnicas de microencapsulamento são mais empregadas. Para ele, ambas as opções têm o mesmo objetivo: reduzir o classe 1 para classe 2, ou este para classe 3. “Com essas tecnologias, apenas um aterro de classe 2, com apenas uma impermeabilização com manta de PEAD, já é suficiente para receber resíduo antes perigoso”, completa o gerente.

E é na tendência da inertização que a Ecosistema concentra seus planos de investimentos. Apesar de seu aterro de classe 1 já operar com metade da capacidade total para 200 mil t ocupada, restando-lhe apenas mais 8 anos, Gianesi não prevê ampliações. Hoje o aterro recebe uma média de 1.000 t/mês de resíduo classe 1 (lodos de tratamento de efluentes e galvânicos, borras de tinta, solos contaminados, etc), 600 t/mês do classe 2 e 5.500 t/mês de areia de fundição (classe 2). Apenas ampliar a capacidade para dispor classe 2 já seria suficiente para aumentos de demanda.

Embora o novo projeto da Sasa também contemple uma central de tratamento de resíduos, o superintendente Breno Palma não concorda com parte da visão de Gianesi, da Ecosistema. Para ele, a inertização não garante uma disposição segura em aterro menos rigoroso. “Mesmo microencapsulados, ninguém pode ter certeza que algum dia substâncias tóxicas não se desprendam”, diz. “Não por menos, os países desenvolvidos exigem a inertização dos resíduos classe 1, mas não permitem que eles sejam dispostos em aterro classe 2.” E, para ele, como de costume, a legislação brasileira tende a se atualizar conforme as normas internacionais.

O sistema de microencapsulamento da Sasa, com tecnologia da matriz americana, também se baseia em moagem e mistura com cimento. Começou a ser utilizado em 1997 para reduzir lodo com metais de classe 2 para classe 3 para um cliente estatal. Aliás, segundo Breno Palma, todos os resíduos classe 1 passarão pelo pré-tratamento para ir ao novo aterro. E muito mais por uma questão técnica: o resíduo fica mais estável, ocupa melhor o espaço da célula e diminui a umidade, evitando chorume. Além do microencapsulamento, a central também faz estabilização, solidificação e acertos de pH e vai operar esses serviços para terceiros.

Co-processamento – A alternativa mais ameaçadora para tomar clientes dos aterros é a de co-processamento em fornos de cimento. Isso porque a outra tecnologia empregada para resíduos, a de incineração, possui nicho muito específico, em destruições onde esta torna-se a única solução. Exemplos são hidrocarbonetos, solventes, organoclorados, inseticidas, ascarel (PCB), entre outros. Também por ser um processo fechado, com total destruição do resíduo e retenção de cinzas na matriz do clínquer, relativamente barato (R$ 150 a R$ 700/t), e com poucas limitações técnicas, o co-processamento tem ótimas perspectivas.

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Mercado já responsável pelo co-processamento de cerca de 10 mil t/mês de resíduos no Brasil, a demanda ascendente tem atraído o interesse de grandes grupos estrangeiros. Para começar, a Teris do Brasil, joint venture entre Suez Lyonnaise des Eaux e Rhodia, já proprietária de incinerador em Taboão da Serra-SP, investe em unidade de blendagem de resíduos (na qual são preparados para entrar nos fornos) no Rio de Janeiro, com capacidade para 50 mil t/ano e para entrar em funcionamento em 2001.

O outro grande investimento na área também provêm de grupo francês: a Vivendi, maior empresa do mundo em saneamento ambiental, tornou-se controladora majoritária no ano passado da Resicontrol, de Sorocaba-SP, especializada em blendagem de resíduos e até então de propriedade da holding ECR, comandada pelo Chase Manhattan Bank. Desde o final de 1996 a única empresa do estado de São Paulo licenciada pela Cetesb para a blendagem de co-processamento, a Resicontrol prepara os resíduos para queima no forno de clínquer da Companhia de Cimento Ribeirão Grande, de Capão Bonito, no oeste paulista.

As misturas realizadas em Sorocaba adequam os resíduos levando em conta o pH, o PCI (medida de poder energético) e o conteúdo de contaminantes, sobretudo de metais (não opera com resíduos galvânicos). A blendagem de resíduos líquidos e sólidos, com poder energético, como borras de tinta e oleosas, resinas e solventes, fornece cerca de 1.200 t/mês de blendas líquidas para a cimenteira substituir parte de seu combustível (óleo pesado e petrocoque). Outra preocupação nas formulações é controlar o limite de cloro e enxofre, os quais em demasia podem vitrificar a parede do forno, provocando entupimentos perigosos.

Segundo Leon Tondowski, diretor da Resicontrol (agora subordinada à divisão Onyx do grupo francês), por enquanto a empresa opera apenas com uma forma de co-processamento: a de substituição energética, fornecendo blendas com poder calorífico mínimo de 2.780 kcal/kg, seguindo determinação da Cetesb. No momento, porém, concluem negociações para envio de blendas substitutas de matéria-prima.

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