Destino limpo para o lixo industrial

Solo e vizinhança – Um critério muito levado em conta para a construção de aterros classe 1 é a formação geológica do terreno. Mesmo com suas diferenciações técnicas de impermeabilização, todas as instalações possuem em comum um solo argiloso compacto, sem rochas impermeáveis, para servir de base para o revestimento artificial. Isso significa um solo com baixa taxa de permeabilidade, correspondente a um padrão mínimo de coeficiente de permeabilidade menor ou igual a 10-7 cm/s. Essa determinação técnica, equivalente à velocidade do líquido no solo, segue normas ABNT.

Lixo Industrial: Aterro

Do mesmo modo que o aterro Sasa, o da Ecosistema, na vizinha São José dos Campos-SP, em operação desde 1986, foi construído em terreno com camadas naturais de argila vermelha, mais permeáveis, e roxa, mais compactas. Essas propriedades geológicas, aliadas à hidrogeologia da região, são tão importantes como a sua proximidade ou não de centros industriais. No caso dos dois aterros citados, além da região do Vale do Paraíba, a pequena distância da capital paulista (de 100 a 150 km) também lhes garantem bons negócios.

Foi nessa linha de raciocínio que a Cavo, empresa do grupo Camargo Corrêa, resolveu investir R$ 30 milhões para construir a Central de Tratamento de Resíduos Industriais – CTR Caieiras, nesse município da região metropolitana de São Paulo. Além do solo apropriado, a opção por Caieiras foi lógica: quando no primeiro semestre de 2001 entrar em operação a central, para resíduos classe 1 e 2, se aproxima ao máximo do maior centro produtivo do País, no entorno de São Paulo até as regiões de Campinas e Sorocaba.

A central paulista, com vida útil de cerca de 40 anos, seguirá o mesmo princípio da CTR Curitiba, também de propriedade da empresa, já em operação há cinco anos e mais voltada para resíduos do Sul do País. De acordo com o diretor-presidente da Cavo, Carlos Roberto Fernandes, a intenção é enveredar pela estratégia do TWM, ou total waste management (gerenciamento total de resíduos). “Já temos como cliente TWM a Audi-Volkswagen, em Curitiba”, afirma Fernandes. Em resumo, isso significa tornar-se responsável total pelo resíduo do cliente, não importando seu destino, se aterro, incineração, reciclagem ou co-processamento.

Como parte da estratégia TWM, e seguindo o exemplo da CTR curitibana, a de Caieiras contará com estação de pré-tratamento de resíduos. Nela, adequa-se o resíduo para o aterro normalmente com cimento ou ainda argila, cal ou sulfato de sódio em misturadores. Na chamada estabilização, corrigem-se parâmetros, como o pH, para minimizar o potencial contaminante. Na solidificação, mistura-se cimento e remove-se umidade para retirar líquidos livres nos resíduos. No microencapsulamento, ou inertização, com mistura fixa-se o contaminante, sobretudo os metais, dentro da massa do cimento para impossibilitar a sua lixiviação com o chorume.

Outra tecnologia presente na CTR será a de blendagem de resíduos para co-processamento em fornos de clínquer de cimento. Em Curitiba, a Cavo se utiliza de fornos da Votorantim, mas em São Paulo ainda não está definido o destino. Poderá recorrer, inclusive, a alguma cimenteira do grupo Camargo Corrêa, como a Cauê, de Pedro Leopoldo-MG.

Com uma área de 350 hectares no extremo noroeste de Caieiras, além de aterro classe 1 e outro classe 2 haverá no local sistemas de estocagem, armazenamento e tratamento de resíduos, bem como estações de tratamento primário e biológico para tratar chorume, e sistema para canalizar e queimar os gases. Especificamente, no aterro classe 1, sua área contempla 70 mil m² e a capacidade de armazenamento gira em torno de 180 mil m³ de resíduos. No de classe 2, a capacidade atinge 22 milhões de m³. O projeto foi concebido no sistema de valas cobertas, com drenos, e todo o aqüífero é monitorado por poços subterrâneos.

De acordo com o diretor-presidente Fernandes, embora a CTR também vá atender o lixo doméstico da região de Caieiras, e até de São Paulo, o propósito da Cavo é focar sua atuação no mercado privado. Anteriormente responsável pela coleta e varrição de ruas em São Paulo, e até hoje nas cidades de Curitiba, São Vicente e Praia Grande-SP, a Cavo tem como idéia central agregar mais valor aos seus serviços e tornar-se empresa especializada em meio ambiente.

Faz parte desse novo objetivo a participação em concessões privadas de saneamento, como a de água e esgotos já de sua responsabilidade em Itu-SP, e as estações de queima de resíduos hospitalares por processo eletrotérmico em São Paulo, com capacidade de 100 t/dia, e outra por microondas em Campinas-SP (10 t/dia). No caso dos resíduos industriais, “agregar valor” significa poder praticar os preços médios atuais de disposição em aterros no Brasil: de R$ 180 a R$ 200/t no classe 1; de R$ 80 a R$ 130/t do classe 2; e R$ 40 a R$ 80/t do classe 3.

Inertização – O pré-tratamento dos resíduos já realizado pela Cavo em Curitiba, e em breve em Caieiras, simboliza uma tendência mundial na disposição dos classe 1, em desenvolvimento agora no mercado brasileiro. “Mais do que um simples lugar onde as empresas podem jogar fora, com segurança, seus resíduos, os aterros tendem a se transformar em grandes centrais de tratamento”, explica o gerente comercial da Ecosistema, João Gianesi Netto.

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