Destino limpo para o lixo industrial

Novos aterros especiais e a maior oferta de fornos de cimento para co-processamento ampliam o leque de alternativas para a destinação segura de resíduos

Química e Derivados: Lixo Industrial: Célula do aterro classe 1 da Sasa - para 350 mil m3.
Célula do aterro classe 1 da Sasa – para 350 mil m3

Enquanto a indústria não consegue fechar seu ciclo produtivo, reciclando ou utopicamente acabando com os descartes, o mercado nacional de gerenciamento de resíduos industriais cresce a uma taxa média de 10% ao ano. Mais alternativas de aterros especiais e de co-processamento em fornos de cimento, além de investimentos em incineradores (ver QD-384, pág.36), criam as condições adequadas para o setor secundário manter seu crescimento no futuro sem precisar jogar resíduo perigoso em qualquer terreno baldio.

Se depender do número de projetos em andamento ou recém-finalizados, realmente não haverá mais desculpas para a indústria infratora. Para os resíduos classe 1 – os perigosos por serem inflamáveis, tóxicos, patogênicos, reativos ou corrosivos –, há dois novos aterros especiais em fase final de licenciamento em São Paulo e outro em Vitória, no Espírito Santo, inaugurado em agosto. Além disso, os aterros mais antigos passam por uma fase de diversificação de serviços e aperfeiçoamento de seus sistemas de pré-tratamento. Quando se fala no co-processamento, também mais voltado para o classe 1 (gerado no País em cerca de 3 milhões de t/ano), a entrada de grandes grupos internacionais dá o tom nos investimentos.

Para começar pela destinação em aterros, o destaque fica por conta dos projetos da Sasa, de Tremembé-SP, e da Cavo, do grupo Camargo Corrêa, em Caieiras-SP, ambos em operação até meados de 2001. O primeiro, pertencente ao grupo norte-americano Waste Management International, deve começar a receber resíduos depois de março do próximo ano. Fundado por grupo nacional (Irmãos Borlenghi) para receber areia de fundição da Ford e lixo domiciliar, a conclusão do chamado aterro número 4 (classe 1) é a parte final de um investimento de US$ 14 milhões, iniciado com a compra da Sasa pelos americanos em 1996.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Breno - revestimento de aterro supera exigências locais.
Breno – revestimento de aterro supera exigências locais.

O aterro foi construído na parte mais alta do site, no topo de um morro cujo lençol freático fica a mais de 30 metros de profundidade. De acordo com o superintendente comercial da Sasa, Breno Palma, toda a concepção do projeto, embora comum ao padrão dos mais de 300 aterros de propriedade da Waste Management pelo mundo, é inédita no País. Diferente dos demais em operação, não utiliza várias valas para o armazenamento dos resíduos, mas uma imensa e única célula. “Essa disposição aproveita melhor o espaço do terreno, pois deixa-se de perder as áreas entre cada vala”, explica Palma.

Construída entre janeiro de 1999 e julho de 2000, período no qual foram removidos 150 mil m³ de terra, a célula da Sasa, com cerca de 15 metros de profundidade, comporta 350 mil m³ de resíduos, o que lhe garante vida útil próxima a 20 anos. Por não possuir cobertura fixa, o projeto contempla ainda um sistema de bombeamento e tratamento do chorume gerado pela chuva e pelo próprio resíduo, nos moldes dos outros aterros do site para classe 2 (resíduos não inertes), 3 (inertes) e doméstico.

Todo o chorume é bombeado para tanques para posterior tratamento em estação e a água limpa segue para uma lagoa de decantação para reaproveitamento. Outro cuidado mais urgente para evitar lixiviação é não dispor os resíduos quando houver chuva, momento no qual ficam armazenados em galpão apropriado. Além disso, a partir de janeiro, o chorume de todos os aterros, inclusive os do classe 1, passarão por um evaporador que será alimentado pelo biogás do aterro doméstico, hoje canalizado mas queimado em um flaire. Depois de evaporado, os resíduos da emissão passam por uma pós-queima.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Aterro Ecossistema em São José dos Campos - mais 8 anos de operação.
Aterro Ecossistema em São José dos Campos – mais 8 anos de operação.

Com o evaporador, importado da matriz, além de continuar a manter o local livre do mau odor do gás metano (e dos indefectíveis urubus), evita-se o atual custo de transporte no envio do efluente pré-tratado para tratamento biológico na Sabesp, de São José dos Campos-SP. Por possuir apenas um pequeno córrego de baixa vazão cortando parte dos 120 hectares de seu terreno, mesmo se a empresa quisesse fazer o tratamento biológico no local não seria possível descartar o efluente. Caso contrário, transbordaria o pequeno rio.

Quando dispostos no aterro, os resíduos permanecem cobertos com lona e/ou argila, mas a proteção mais diferenciada da célula, segundo o superintendente Palma, é ainda a sua impermeabilização. “Nosso sistema, por seguir a política global da matriz, supera a norma de aterros para classe 1”, diz. Além das duas camadas de lâminas de PEAD (uma superior de 2 mm e outra inferior de 1,5 mm), o chamado “sanduíche do revestimento” contempla entre elas uma manta de bentonita para detecção de fuga.

No caso de vazamento de chorume em algum ponto da camada de PEAD superior, pelo contato do líquido com a bentonita esta “incha” no local e veda o pequeno rasgo temporariamente. Ao ser pressionado pela manta, o chorume segue para uma camada de tecido geotêxtil, colocado acima do PEAD e abaixo de um colchão drenante de pedra. No tecido, o líquido é drenado até um ponto de leitura, onde aciona-se um alarme.

De acordo com Palma, outra determinação da matriz é importar, tanto a manta de polietileno como a bentonítica, da companhia também americana National Seal Company (NSC). Para a instalação das mantas foi encarregada uma empresa credenciada, a argentina Sicsa. Segundo o superintendente, os testes de controle de contenção exigidos pela NSC são mais rigorosos do que os da Cetesb. No Brasil, explica Palma, só se exigem testes pneumáticos, nos quais se avaliam possíveis vazamentos por meio da injeção de ar, ou por sistemas elétricos. Já os da NSC são feitos por tração e descolamento, nos quais os técnicos retiram amostras das mantas em seus pontos de cola (por termoformagem) para a realização de testes de resistência mecânica em bancada.

Solo e vizinhança – Um critério muito levado em conta para a construção de aterros classe 1 é a formação geológica do terreno. Mesmo com suas diferenciações técnicas de impermeabilização, todas as instalações possuem em comum um solo argiloso compacto, sem rochas impermeáveis, para servir de base para o revestimento artificial. Isso significa um solo com baixa taxa de permeabilidade, correspondente a um padrão mínimo de coeficiente de permeabilidade menor ou igual a 10-7 cm/s. Essa determinação técnica, equivalente à velocidade do líquido no solo, segue normas ABNT.

Lixo Industrial: Aterro

Do mesmo modo que o aterro Sasa, o da Ecosistema, na vizinha São José dos Campos-SP, em operação desde 1986, foi construído em terreno com camadas naturais de argila vermelha, mais permeáveis, e roxa, mais compactas. Essas propriedades geológicas, aliadas à hidrogeologia da região, são tão importantes como a sua proximidade ou não de centros industriais. No caso dos dois aterros citados, além da região do Vale do Paraíba, a pequena distância da capital paulista (de 100 a 150 km) também lhes garantem bons negócios.

Foi nessa linha de raciocínio que a Cavo, empresa do grupo Camargo Corrêa, resolveu investir R$ 30 milhões para construir a Central de Tratamento de Resíduos Industriais – CTR Caieiras, nesse município da região metropolitana de São Paulo. Além do solo apropriado, a opção por Caieiras foi lógica: quando no primeiro semestre de 2001 entrar em operação a central, para resíduos classe 1 e 2, se aproxima ao máximo do maior centro produtivo do País, no entorno de São Paulo até as regiões de Campinas e Sorocaba.

A central paulista, com vida útil de cerca de 40 anos, seguirá o mesmo princípio da CTR Curitiba, também de propriedade da empresa, já em operação há cinco anos e mais voltada para resíduos do Sul do País. De acordo com o diretor-presidente da Cavo, Carlos Roberto Fernandes, a intenção é enveredar pela estratégia do TWM, ou total waste management (gerenciamento total de resíduos). “Já temos como cliente TWM a Audi-Volkswagen, em Curitiba”, afirma Fernandes. Em resumo, isso significa tornar-se responsável total pelo resíduo do cliente, não importando seu destino, se aterro, incineração, reciclagem ou co-processamento.

Como parte da estratégia TWM, e seguindo o exemplo da CTR curitibana, a de Caieiras contará com estação de pré-tratamento de resíduos. Nela, adequa-se o resíduo para o aterro normalmente com cimento ou ainda argila, cal ou sulfato de sódio em misturadores. Na chamada estabilização, corrigem-se parâmetros, como o pH, para minimizar o potencial contaminante. Na solidificação, mistura-se cimento e remove-se umidade para retirar líquidos livres nos resíduos. No microencapsulamento, ou inertização, com mistura fixa-se o contaminante, sobretudo os metais, dentro da massa do cimento para impossibilitar a sua lixiviação com o chorume.

Outra tecnologia presente na CTR será a de blendagem de resíduos para co-processamento em fornos de clínquer de cimento. Em Curitiba, a Cavo se utiliza de fornos da Votorantim, mas em São Paulo ainda não está definido o destino. Poderá recorrer, inclusive, a alguma cimenteira do grupo Camargo Corrêa, como a Cauê, de Pedro Leopoldo-MG.

Com uma área de 350 hectares no extremo noroeste de Caieiras, além de aterro classe 1 e outro classe 2 haverá no local sistemas de estocagem, armazenamento e tratamento de resíduos, bem como estações de tratamento primário e biológico para tratar chorume, e sistema para canalizar e queimar os gases. Especificamente, no aterro classe 1, sua área contempla 70 mil m² e a capacidade de armazenamento gira em torno de 180 mil m³ de resíduos. No de classe 2, a capacidade atinge 22 milhões de m³. O projeto foi concebido no sistema de valas cobertas, com drenos, e todo o aqüífero é monitorado por poços subterrâneos.

De acordo com o diretor-presidente Fernandes, embora a CTR também vá atender o lixo doméstico da região de Caieiras, e até de São Paulo, o propósito da Cavo é focar sua atuação no mercado privado. Anteriormente responsável pela coleta e varrição de ruas em São Paulo, e até hoje nas cidades de Curitiba, São Vicente e Praia Grande-SP, a Cavo tem como idéia central agregar mais valor aos seus serviços e tornar-se empresa especializada em meio ambiente.

Faz parte desse novo objetivo a participação em concessões privadas de saneamento, como a de água e esgotos já de sua responsabilidade em Itu-SP, e as estações de queima de resíduos hospitalares por processo eletrotérmico em São Paulo, com capacidade de 100 t/dia, e outra por microondas em Campinas-SP (10 t/dia). No caso dos resíduos industriais, “agregar valor” significa poder praticar os preços médios atuais de disposição em aterros no Brasil: de R$ 180 a R$ 200/t no classe 1; de R$ 80 a R$ 130/t do classe 2; e R$ 40 a R$ 80/t do classe 3.

Inertização – O pré-tratamento dos resíduos já realizado pela Cavo em Curitiba, e em breve em Caieiras, simboliza uma tendência mundial na disposição dos classe 1, em desenvolvimento agora no mercado brasileiro. “Mais do que um simples lugar onde as empresas podem jogar fora, com segurança, seus resíduos, os aterros tendem a se transformar em grandes centrais de tratamento”, explica o gerente comercial da Ecosistema, João Gianesi Netto.

A opinião de Gianesi pode ser mais pormenorizada. Já corrente nos Estados Unidos e Europa, e em período de transição no Brasil, uma etapa anterior à disposição, de inertização, torna-se a melhor saída para imobilizar o poder de risco dos resíduos. Nos Estados Unidos, diz Gianesi, o comum é a estabilização e solidificação, já na Europa, técnicas de microencapsulamento são mais empregadas. Para ele, ambas as opções têm o mesmo objetivo: reduzir o classe 1 para classe 2, ou este para classe 3. “Com essas tecnologias, apenas um aterro de classe 2, com apenas uma impermeabilização com manta de PEAD, já é suficiente para receber resíduo antes perigoso”, completa o gerente.

E é na tendência da inertização que a Ecosistema concentra seus planos de investimentos. Apesar de seu aterro de classe 1 já operar com metade da capacidade total para 200 mil t ocupada, restando-lhe apenas mais 8 anos, Gianesi não prevê ampliações. Hoje o aterro recebe uma média de 1.000 t/mês de resíduo classe 1 (lodos de tratamento de efluentes e galvânicos, borras de tinta, solos contaminados, etc), 600 t/mês do classe 2 e 5.500 t/mês de areia de fundição (classe 2). Apenas ampliar a capacidade para dispor classe 2 já seria suficiente para aumentos de demanda.

Embora o novo projeto da Sasa também contemple uma central de tratamento de resíduos, o superintendente Breno Palma não concorda com parte da visão de Gianesi, da Ecosistema. Para ele, a inertização não garante uma disposição segura em aterro menos rigoroso. “Mesmo microencapsulados, ninguém pode ter certeza que algum dia substâncias tóxicas não se desprendam”, diz. “Não por menos, os países desenvolvidos exigem a inertização dos resíduos classe 1, mas não permitem que eles sejam dispostos em aterro classe 2.” E, para ele, como de costume, a legislação brasileira tende a se atualizar conforme as normas internacionais.

O sistema de microencapsulamento da Sasa, com tecnologia da matriz americana, também se baseia em moagem e mistura com cimento. Começou a ser utilizado em 1997 para reduzir lodo com metais de classe 2 para classe 3 para um cliente estatal. Aliás, segundo Breno Palma, todos os resíduos classe 1 passarão pelo pré-tratamento para ir ao novo aterro. E muito mais por uma questão técnica: o resíduo fica mais estável, ocupa melhor o espaço da célula e diminui a umidade, evitando chorume. Além do microencapsulamento, a central também faz estabilização, solidificação e acertos de pH e vai operar esses serviços para terceiros.

Co-processamento – A alternativa mais ameaçadora para tomar clientes dos aterros é a de co-processamento em fornos de cimento. Isso porque a outra tecnologia empregada para resíduos, a de incineração, possui nicho muito específico, em destruições onde esta torna-se a única solução. Exemplos são hidrocarbonetos, solventes, organoclorados, inseticidas, ascarel (PCB), entre outros. Também por ser um processo fechado, com total destruição do resíduo e retenção de cinzas na matriz do clínquer, relativamente barato (R$ 150 a R$ 700/t), e com poucas limitações técnicas, o co-processamento tem ótimas perspectivas.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Tondowski - Vivendi oferece gerenciamento completo.
Tondowski – Vivendi oferece gerenciamento completo.

Mercado já responsável pelo co-processamento de cerca de 10 mil t/mês de resíduos no Brasil, a demanda ascendente tem atraído o interesse de grandes grupos estrangeiros. Para começar, a Teris do Brasil, joint venture entre Suez Lyonnaise des Eaux e Rhodia, já proprietária de incinerador em Taboão da Serra-SP, investe em unidade de blendagem de resíduos (na qual são preparados para entrar nos fornos) no Rio de Janeiro, com capacidade para 50 mil t/ano e para entrar em funcionamento em 2001.

O outro grande investimento na área também provêm de grupo francês: a Vivendi, maior empresa do mundo em saneamento ambiental, tornou-se controladora majoritária no ano passado da Resicontrol, de Sorocaba-SP, especializada em blendagem de resíduos e até então de propriedade da holding ECR, comandada pelo Chase Manhattan Bank. Desde o final de 1996 a única empresa do estado de São Paulo licenciada pela Cetesb para a blendagem de co-processamento, a Resicontrol prepara os resíduos para queima no forno de clínquer da Companhia de Cimento Ribeirão Grande, de Capão Bonito, no oeste paulista.

As misturas realizadas em Sorocaba adequam os resíduos levando em conta o pH, o PCI (medida de poder energético) e o conteúdo de contaminantes, sobretudo de metais (não opera com resíduos galvânicos). A blendagem de resíduos líquidos e sólidos, com poder energético, como borras de tinta e oleosas, resinas e solventes, fornece cerca de 1.200 t/mês de blendas líquidas para a cimenteira substituir parte de seu combustível (óleo pesado e petrocoque). Outra preocupação nas formulações é controlar o limite de cloro e enxofre, os quais em demasia podem vitrificar a parede do forno, provocando entupimentos perigosos.

Segundo Leon Tondowski, diretor da Resicontrol (agora subordinada à divisão Onyx do grupo francês), por enquanto a empresa opera apenas com uma forma de co-processamento: a de substituição energética, fornecendo blendas com poder calorífico mínimo de 2.780 kcal/kg, seguindo determinação da Cetesb. No momento, porém, concluem negociações para envio de blendas substitutas de matéria-prima.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Forno da Holdercim - resíduos economizam 15% de combustível.
Forno da Holdercim – resíduos economizam 15% de combustível.

Nesse último caso, trata-se de misturas sólidas a partir de lodos de efluentes ricos em alumina e calcário, ou seja, partes integrantes da “farinha” do cimento, que ainda inclui sílica e óxido de ferro. O cuidado nessas blendas de matéria-prima, explica Tondowski, é excluir seu poder energético, visto que elas entram no forno junto com a matéria-prima virgem, ao contrário da dosagem independente como combustível. “Se possuírem voláteis orgânicos podem gerar emissões atmosféricas ou até explodir o forno”, explica.

De acordo com o diretor, além dessa diversificação na operação, outra mudança importante na Resicontrol-Onyx, depois da compra pela Vivendi, contempla sua estratégia comercial. “Agora somos uma empresa de gerenciamento completo de resíduos”, diz Tondowski. Em suma, isso significa assumir responsabilidade pelo destino de qualquer tipo de resíduo, e não apenas os possíveis de serem co-processados. Para tornar isso possível, a Resicontrol já possui acordos operacionais com os aterros da Sasa e da Ecosistema e com o incinerador da Bayer, em Belford Roxo-RJ.

Ainda no conceito de gerenciamento total, faz parte da divisão de resíduos da Vivendi uma empresa de transporte de resíduos classe 2 e 3, a Intranscol, e uma nova unidade em Pindamonhangaba-SP, a Tecori, para descontaminação de transformadores, capacitores e terras contaminadas por ascarel. O gerenciamento dos resíduos pode ainda ser conjugado com os serviços de outras empresas da Vivendi, especializadas em tratamento de água e efluentes, a OTV/US Filter. Com essa abrangência, a Vivendi possui um cliente no Brasil: a Solvay.

Mais blendagem – Embora São Paulo seja o grande produtor de resíduos do País, com cerca de 535 mil t/ano do classe 1, além de 25 milhões de t do classe 2 e 1 milhão t do classe 3, outras empresas fora do Estado têm atuado com destaque no mercado de co-processamento. Em boa parte voltadas para tratar os resíduos de São Paulo, destacam-se a Ambiência, de Curitiba-PR, e, principalmente, a Resotec, de Belo Horizonte-MG.

A Resotec possui maior facilidade para co-processar os resíduos por ser de propriedade de uma grande cimenteira, a Holdercim, do grupo suíço Holderbank, com participação de 13% no mercado brasileiro de cimento. Essa vantagem competitiva lhe garante usar seus próprios fornos de clínquer: dois na unidade Ciminas, em Pedro Leopoldo-MG, e outro na fábrica Alvorada, em Cantagalo-RJ.

Um quarto forno, na unidade Barroso, na cidade homônima em Minas Gerais, está em processo de licenciamento.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Souza - mais um forno e duas unidades de blendagem.
Souza – mais um forno e duas unidades de blendagem.

Ao contrário da Resincontrol, a Resotec não distingue o uso do resíduo por substituição energética ou de matéria-prima. Como explica seu gerente comercial, Francisco Alberto de Souza, o co-processamento já engloba os dois conceitos. “Tudo vai depender do resíduo na hora da dosagem, se ele tiver algum dos óxidos da farinha [de cálcio, alumínio, silício e ferro] logicamente iremos aproveitá-lo como matéria-prima”, diz.

Inaugurada em 1999 (antes era divisão de resíduos da Holdercim), a Resotec investe US$ 8 milhões para construir duas unidades de blendagem em 2001, em Pedro Leopoldo e Cantagalo. Desde 1993 na Ciminas e a partir de 1996 nas demais, o co-processamento é feito aleatoriamente, com simples adequação mediante pré-análise laboratorial. “Com isso teremos melhor controle sobre o poder calorífico e outros parâmetros, e não teremos mais variação de processo”, ressalta Souza.

A capacidade total de queima da Resotec chega a 60 mil t/ano e sua redução de uso de combustível virgem (carvão, óleo pesado 7A e 2A e coque) varia de 10% a 15%. Com clientes por todo o Brasil, em todos os segmentos geradores de substâncias oleosas, corantes, tintas, organoclorados, lodos, pneus, tortas de filtração, entre vários outros, a Resotec conta com o know-how suíço da Holderbank.

Segundo informação de Francisco de Souza, é norma interna mundial da cimenteira adotar o co-processamento em todos os seus fornos espalhados por mais de 70 filiais no mundo. Como exemplo, cita um forno na Bélgica com capacidade de co-processamento de 250 mil t/ano. “Nele foram queimados os frangos e ovos contaminados com dioxina e muitas toneladas de carne contaminada com a doença da vaca louca”, diz.

Destinação ilegal ainda preocupa

Além da maior oferta de aterros, incineradores e co-processamento, uma outra iniciativa ajudaria no desenvolvimento do mercado de gerenciamento de resíduos industriais. Segundo alguns especialistas, bastaria os geradores, ou seja, a indústria, passarem a encarar a questão ambiental com mais seriedade para as empresas idôneas do gerenciamento aumentarem seus negócios.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Fernandes - plano é conscientizar os geradores.
Fernandes – plano é conscientizar os geradores.

Compartilha dessa opinião Carlos Roberto Fernandes, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos Especiais (Abetre) e também da Cavo. Segundo ele, atraídas pelo baixo preço, muitas empresas permitem que seus resíduos sejam descartados por gerenciadores inescrupulosos, que utilizam aterros clandestinos sem controle ou, pior ainda, jogam os tambores, muitas vezes de produtos perigosos, na “primeira esquina”. E o pior para as empresas: quando se acha o “lixo”, o gerador é facilmente rastreado.

Entidade que congrega seis empresas legalmente estabelecidas, e conhecidas no meio industrial (Cavo, Sasa, Ecosistema, Resicontrol, Vega e Boa Hora), a Abetre pretende combater a ação dos clandestinos mediante um trabalho de conscientização do gerador. “Vamos tentar transmitir às indústrias, por meio de um plano de comunicação, que o barato pode sair caro”, afirma Fernandes.

A perda financeira aí seria a longo prazo. “Além de se desvalorizar em um processo de compra e venda, a indústria precisa entender que, com um passivo ambiental, a tendência é ela sequer conseguir crédito”, diz. “Nenhum banco vai querer emprestar para alguém com possibilidade de quebrar por causa de uma multa ambiental”. Fernandes se refere sobretudo ao rigor da Lei de Crimes Ambientais que, além de se valer de multas estratosféricas, tem a peculiaridade jurídica de, quando aplicada, não prescrever.

Para se precaver da ação dos “gerenciadores de fachada”, a dica do presidente da Abetre é desconfiar de preço muito baixo. Para isso, basta se basear na média cobrada pelos principais aterros, pelo co-processamento e pelos incineradores. Outro cuidado fundamental é recorrer a gerenciadores conhecidos e licenciados do setor.

Por fim, Fernandes recomenda não se deixar levar pelo simples fato de o ofertante possuir uma licença do órgão ambiental. “Assim como o falsário mente com relação ao destino do resíduo, uma simples falsificação documental é apenas mais um crime em sua ficha policial”, diz. Além disso, mesmo se a licença for original, nada impede a contravenção.

Forno a plasma destrói cinzas e lodos

Química e Derivados: Lixo Industrial: A chama do reator chega a 15.000°C.
A chama do reator chega a 15.000°C.

Projeto há muito tempo engavetado, o forno de reator a plasma térmico desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do Estado de São Paulo finalmente saiu do papel. Voltado para a destruição total de lodos galvânicos e cinzas de incineração, o forno ficou a cargo de um grupo privado paulista, de origem chinesa, e deve entrar em operação ainda neste ano em São Paulo.

Em parceria com o Sindicato das Indústrias de Tratamento de Superfície (Sindisuper), foi constituída uma empresa, a Ecochamas, em galpão no bairro do Ipiranga. Toda a engenharia de equipamentos está concluída e para começar a funcionar basta a breve licença provisória de operação da Cetesb. De acordo com um dos sócios-diretores, Chang Horng Lin, o projeto visa atender a um mercado de 1.000 t/mês de cinzas secas de incineração e de 2.000 t a 3.000 t/mês de lodos de cerca de 600 galvanoplastias. A capacidade total do forno é para 600 t/mês.

A grande vantagem do sistema é a ausência de novos resíduos. Atingindo temperaturas de até 3.000ºC no interior do forno e de 15.000ºC no ponto de contato da chama, o resultado da queima gera apenas matrizes reaproveitáveis e inertes. Isso porque na queima todas as moléculas orgânicas são quebradas e os metais pesados absorvidos na chamada matriz férrea. “Há uma separação de fases: o metal vai para a fase férrea, na parte inferior do forno, e na superior, concentra-se a fase cerâmica”, explica outro sócio, Huang Cheng Hsiu.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Huang (esq.) e Chang - queima gera apenas matrizes inertes.
Huang (esq.) e Chang – queima gera apenas matrizes inertes.

A fase férrea, em lingotes sobretudo de ferro mas também de outros metais, pode ser vendida a preço simbólico para metalurgia. A cerâmica (sílica, alumina e óxidos cerâmicos) pode ser reaproveitada como enchimento de pavimentação e piso industrial. Quando o resíduo é galvânico, por ser rico em cálcio, possui maior resistência mecânica. Na cinza de incineração, a fase cerâmica é rica em sílica.

Resultado de um acordo de transferência de tecnologia do IPT, uma vantagem de operação é a não geração de efluentes. Do resultado da combustão dos orgânicos, há apenas CO2, que passa por lavador de gases para remover particulados, e água, que retorna depois de purificada para a torre de resfriamento (ver esquema ao lado).

Segundo o diretor Chang Horng Lin, o retorno do investimento, cujo valor prefere não revelar, se dará em dois anos. Isso cobrando até um terço do preço de queima dos incineradores, cujo quilo do resíduo incinerado varia de R$ 1,50 a R$ 3. O baixo preço é em razão de sua eficiência energética. No forno, 90% da energia gerada pelo reator vai para a carga, enquanto no incinerador apenas 30% da energia gerada pelos queimadores é aproveitada.

Gaúchos reciclam resíduos

Química e Derivados: Lixo Industrial: A Silex processa 20 mil t-mês de rejeito industrial.
A Silex processa 20 mil t-mês de rejeito industrial.

A Sílex Processadora de Resíduos Industriais, com sede em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre-RS, realiza a operação integral do tratamento e reciclagem do lixo industrial há dez anos. Oferecendo a chamada tecnologia limpa, sem emissão de subprodutos na atmosfera, a empresa consegue reciclar 100% das tipologias de resíduos sólidos e 95% dos rejeitos líquidos da cadeia produtiva, junto com a Getecno, sua subsidiária, localizada em

Morro da Fumaça, Santa Catarina. Como opera em sintonia fina com os órgãos ambientais dos dois estados do Sul, indústrias a partir de Manaus, passando pelo pólo petroquímico de Camaçari, até São Paulo, estão optando em adquirir os serviços da recicladora gaúcha para o descarte e reprocessamento, na certeza de que seus resíduos não irão gerar poluição.

Segundo o diretor da Sílex, Luiz Gilberto Lauffer, as pesquisas com reciclagem foram iniciadas em 1990, quando a atividade da companhia restringia-se à produção de pigmentos para a indústria cerâmicarecorda o empresário. Atualmente, com exceção do óleo ascarel, dos produtos agrotóxicos e do lixo nuclear, a Sílex reprocessa resíduos provenientes das mais diversas fontes geradoras. Recicla carvão ativado, protetores ultravioletas, esmaltes, coagulantes, fibras têxteis. Reaproveita materiais como lâmpadas fluorescentes, de mercúrio, lã de vidro, cerâmica, placas de fax, sucata de microcomputadores, aparelhos de TV, máscaras, luvas, juntas, pneus, isoladores térmicos, borrachas, plásticos e resinas catalisadas.

Os equipamentos empregados na reciclagem são relativamente simples, com linhas de processamento característico para processos exclusivos. São separadores, moinhos, homogeneizadores, desidratadores, gaseificadores, pirolíticos, incinerador, destruidor de lâmpadas, peneiras, secadores, aglutinadores, marombas, lavador de gases, entre outros. Na Sílex o resíduo industrial é separado pela tipologia da fonte geradora, como indústria de calçados, metal-mecânica, eletroeletrônicos. De cada processo de resíduos surge um novo material. Do encapsulamento cerâmico, fabricam-se tijolos, em substituição à argila natural.

Há ainda o adubo orgânico obtido da compostagem do resíduo agroindustrial. O lodo industrial é transformado em aditivos e cargas para tintas. Polidores, abrasivos e aditivos para ceras resultam da reciclagem dos catalisadores de reação. Borrachas são micronizadas e posteriormente vulcanizadas. O vidro das lâmpadas serve para a fabricação de argilas fundentes. As borras oleosas, por meio de desidratação, têm aproveitamento energético, sendo convertidas em combustível para geração de energia elétrica.

A Sílex trata resíduos industriais a partir de 50 quilogramas até 3 mil toneladas, podendo processar 20 mil toneladas/mês de rejeito industrial. Sua operação inclui ainda a desobstrução residual de ambulatórios e hospitais, com a incineração do lixo e destruição completa dos gases. Nos próximos três meses, a Getecno deverá receber o licenciamento ambiental do governo de Santa Catarina para iniciar a reciclagem das baterias dos telefones celulares. A atividade do grupo gaúcho gera 300 empregos diretos e indiretos, sendo que a mão-de-obra envolvida com os processos passa por treinamento permanente. A médio prazo, a Sílex deverá abrir uma subsidiária próxima ao parque industrial da região metropolitana de São Paulo, facilitando a operação com o Norte do País.
(Fernando Castro, de Porto Alegre-RS)

Resíduos Classe 2 geram maior escala de negócios

Química e Derivados: Lixo Industrial: Andrade - 61% dos não inertes vão para aterros.
Andrade – 61% dos não inertes vão para aterros.

Apesar das quantias maiores para investimento em aterros para classe 1 e das margens de lucro mais atrativas, o mercado dos resíduos classe 2 (não-inertes), em volume, é o mais importante. No Estado de São Paulo, segundo a Cetesb, a geração supera 25 milhões de t/ano, correspondendo a quase 94% do total gerado, contra 2% do classe 1 (535 mil t) e 4% do classe 3 (1 milhão de t).

De acordo com o padrão dos classe 2, explica o coordenador técnico da Cetesb, Antonio Carlos Andrade, por volta de 61% desses resíduos são dispostos em aterro, 35% passam por algum tipo de tratamento para recupe­ração ou queimas e 3% são apenas estocados. Para ele, os principais gera­dores são indústrias como as de minerais não-metálicos, alimentos, metalurgia, química e de papel. “Essas indústrias respondem por 93% da geração desses resíduos”, diz. Por demandar apenas uma camada de revestimento de PEAD ou de argila, os aterros classe 2 são mais co­muns. Além de alguns municipais tam­bém receberem resíduos in­dustriais classe 2, como o aterro Ban­dei­rantes, de São Paulo, há aterros privados especí­ficos para classe 2, co­mo o da Vega, em São Paulo, o Boa Hora, em Mauá-SP, ou o da Ce­trel, em Camaçari-BA.

O Boa Hora chega a receber de 8 mil a 9 mil t/mês de classe 2 e 3, mas sua capacidade é para 14 mil t, em uma área total de 210 mil m². De acordo com seu diretor técnico, Julio Gurgel do Amaral, o preço cobrado pela tonelada armazenada varia de R$ 20 a R$ 140. De classe 2, a maior parte dos resíduos são de areia de fundição, lodos, sucatas plásticas, lixo de varrição de indústria, borracha, entre outros não-inertes.

Para Gurgel, mesmo com a maior lucratividade na disposição do classe 1, a empresa não pensa em investir nesse segmento. “O maior potencial dos aterros ainda é no classe 2, já que muitas alternativas de re­cupe­ração do classe 1, sobre­tudo no co-proces­samento em fornos de cimento, devem reduzir os negócios para esse tipo de aterro especial”, explica o diretor.

O aterro Boa Hora possui revestimento de argila compactada e não tem projeto em valas. Os resíduos são dispostos em pirâmides, hoje com 10 metros de altura, po­dendo chegar até 18 me­tros. Sua vida útil deve atingir mais 40 anos. Planos mais imediatos, segundo Gurgel, são o de se tornar empresa de gerenciamento de resíduos. “Já somos responsáveis pelas contas da General Motors e da Johnson Controls”, diz. Nesses casos, a empresa intermedia envio para tratamento de resíduos classe 1 e se utiliza de trans­portadora própria: a Tech-Lix.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Gurgel
Gurgel

Aterro baiano – Com o mesmo princípio de “montanhas” de resíduos, na Cetrel, em Cama­çari-BA, há aterros verticais construídos em camadas entre o nível do solo e a altura máxima de 20 metros, com capacidade para até 300 mil m3 de resíduos classe 2. Esse foi o modelo preferencial inaugurado na cen­tral de tratamento de efluentes do pólo petroquímico baiano, em setembro de 1993, em função não só das indústrias químicas e petroquímicas, mas ainda de metalúrgicas e side­rúrgicas da Grande Salvador.

Entre 1984 e 1994, o modelo de aterro era o horizontal (chamados valo ou trincheira) com escavação de 3 metros e capacidade de acumulação bem menor – entre 1 mil e 9 mil m3. Nos 10 anos foram implantados 24 valos, onde estão acumulados 42 mil m3 de resíduos sólidos.

O coordenador da área de resíduos sólidos, José Artur Lemos Passos, ressalta a grande vantagem do aterro vertical: a possibilidade de acumular na mesma área um maior volume de resíduos, “diminuindo portanto a pos­sibilidade de contaminação do solo e do lençol freático”. A concepção horizontal exigia uma área maior para disposição de resíduos e, conse­qüentemente, maior número de aterros.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Aterro da Sasa para classe 2 - biogás canalizado.
Aterro da Sasa para classe 2 – biogás canalizado.

Outra grande vantagem do aterro vertical baiano decorre da cir­cuns­tância de ser construído a partir do nível do solo, e não escavado, pos­sibilitando, por­tanto, a drenagem horizontal do chorume por gravidade.

Isso facilita a limpeza das tubulações drenantes. O modelo horizontal apresenta algumas vantagens em relação ao vertical, admite Lemos Passos.

O descarregamento dos resí­duos é através do basculamento com espalhamento e compactação por um trator de esteira D-6 ou D-65. Não se faz mais a cobertura diária com manta ou solo areno-argiloso, como se fazia nos aterros horizontais, pois as águas pluviais que entram no aterro vertical são percoladas pelos resíduos e drenadas para posterior tratamento.

Em 1998 os aterros verticais pas­saram a ser concebidos com base de impermeabilização formada por uma camada de argila de meio metro so­breposta a uma manta Gundseal – camada de 5 cm de bentonita conjugada a uma manta de PEAD de 2 mm. Esta composição assegura estanqueidade superior a 7 mil anos, “caso haja infiltração e o chorume não seja remo­vido”, revela Lemos Passos. “A questão principal de um aterro, seja sanitário, doméstico ou industrial, é a garantia da retirada do chorume do seu interior”.

Todos os aterros verticais apresentam drenagem de fundo para a retirada do chorume. Após coletado, o chorume é enca­minhado, via gravidade, até uma das estações de bombeamento da Cetrel, a mais próxima, e daí para tratamento na Estação Central, onde é submetido ao processo dos lodos ativados.

Mensalmente é procedida uma limpeza na drenagem através de carro a vácuo de alta pressão. A camada de dre­nagem é em brita e os drenos são em tubos de PVC, com diâmetro médio de 300 mm.

Em nome da segurança am­biental há também poços de moni­toramento ao redor do aterro na direção preferencial do fluxo do lençol freático, com profundidade variando desde 14 a 20 metros, a depender das variações do perfil hidrogeológico. A determinação da Cetrel é proceder o monitoramento por 30 anos após a conclusão do aterro.

Química e Derivados: Lixo Industrial: Passos - Cetel vai encapsular classe1.
Passos – Cetel vai encapsular classe1.

São quatro os aterros verticais: um de 50 m3 já concluído, ou “envelopado”; outro, com a mesma capacidade, em construção, e dois em operação – um para 100 mil m³ e outro para 300 mil m³. Envelopar o aterro sig­nifica revestir todo o volume acumulado com a mesma manta de PEAD de 2 mm e sobrepor à manta uma camada de argila compactada e outra de terra vegetal. A terra vegetal é o suporte do gramado.

Envelopado e gramado, o aterro enquadra-se na paisa­gem, passa a ser visto como uma colina, visualmente semelhante a outras colinas da to­pografia, estas outras esculpidas pela própria natureza e com altura entre 15 a 20 metros. Justamente para não destoar da paisagem, a altura máxima prevista nos aterros verticais é limitada a 20 metros. “Não fosse a preocupação com a paisagem, alguns aterros verticais, de­pendendo do tipo do resíduo, poderiam ser projetados para 50 metros de altura”.

A estabilidade do aterro vertical depende fundamentalmente das características fí­sicas dos resíduos (peso específico e umi­dade in situ) e dos parâ­metros de re­sistência (coesão e ân­gulo de atrito). Os parâmetros estão relacionados diretamente com a forma de dispo­sição dos re­síduos no aterro.

Para construir seus aterros, a Cetrel dispõe dos 80 hecta­res da área de resíduos especiais, dos quais 23 são destinados a futuras ampliações. Podem ser acumulados apenas re­síduos classe 2, se­gundo a classificação NBR 10.004/87 da ABNT, ou adequados aos con­dicio­nantes adotados pela autoridade am­biental local para disposição em aterro industrial (Resolução Cepram 620/92).

Todo resíduo inicialmente é ca­dastrado e posteriormente avaliado e classificado segundo a NBT 10004 de ABNT para definição do destino final. De acordo com a clas­sificação, quan­tidade, propriedades físicas e outras con­dições o clien­te paga, de uma só vez, entre R$ 130 e R$ 214, por metro cúbico do re­síduo classe 2.

Lemos Passos anuncia que em função da cogitada disposição final de resíduos só­lidos da classe 1, está em fase de conclusão estudo de viabilidade técnica e eco­nômica, prevendo a implan­tação de uma unidade de encapsula­mento. Encapsular é mis­turar o resíduo classe 1 com cimento, cal e substâncias argilo-mineral, trans­formar tudo em uma substância estável, capaz de ser reduzida à classe 2. Nessa condição, pode ser disposta em aterro industrial. “A bancada piloto já está pronta”. (Colaborou José Valverde, de Salvador-BA)

CETREL adere a aterros verticais

Química e Derivados: Lixo Industrial: Em construção - camadas de argila e 2mm de PEAD.
Em construção – camadas de argila e 2mm de PEAD.

Ressalta Lemos Passos que os aterros escavados (valos ou trincheiras) da Cetrel eram construídos com base de 1 metro de espessura feita com argila comum compactada, material cujo coeficiente de permeabilidade (CP) é de 10-7 cm/s – velocidade correspondente a 30 anos para percorrer um metro, na hipótese de haver infiltração. Entre o resíduo e a argila era posta uma manta de PVC, com espessura de 1 mm.

Já os aterros verticais estão sendo construídos com base de 0,5 metro constituída da mesma argila comum e mais uma camada de 5 cm de bentonita, cujo coeficiente de permeabilidade é de 10-9 cm/s, correspondente a 3 mil anos para percorrer o mesmo 1 metro.

A manta plástica, de 2 mm, e não mais de 1 mm, passou a ser de PEAD, cujo CP excede a 10-11 cm/s. Desde 1990, antes da bentonita entrar na história, o PVC já havia sido substituído pelo PEAD. Em função dos mesmos resíduossó­lidos, o PEAD mostrou maior resistência e durabilidade em países mais avançados tec­nologicamente. J.V.

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