Meio Ambiente (água, ar e solo)

Dessalinização de água de volta à pauta – Meio Ambiente

Marcelo Furtado
20 de abril de 2019
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    Química e Derivados, Uso de membranas de osmose reversa é sobejamente conhecido

    Usina de dessalinização instalada em Adelaide, na Austrália

    A tecnologia de dessalinização da água do mar para abastecimento público e uso industrial voltou à tona com o novo Governo Federal, cujos integrantes passaram a considerar a alternativa como solução final para suprimento principalmente na região Nordeste do Brasil, onde há histórica escassez de água. O interesse oficial com a tecnologia é louvável, tendo em vista a viabilidade atual dos sistemas de dessalinização, já em emprego em vários países pelo mundo e com preços em queda, mas demonstrou certo desconhecimento por parte do novo governo com o mercado nacional, no qual já há oferta consolidada de engenharia e serviços na área há muitos anos.

    O desconhecimento ficou nítido com as referências feitas pela equipe do governo Bolsonaro à experiência em dessalinização de Israel, país que demonstra proximidade com a atual gestão federal. Seria como se a tecnologia fosse uma exclusividade daquele país, porém ignorando que Espanha, França, Austrália, Estados Unidos e Japão, entre vários outros, não só contam com vasta experiência na implantação de grandes usinas de dessalinização, como têm escritórios no Brasil e algumas até já operam fábricas aqui para montar módulos de membranas. Israel, por outro lado, tem participação praticamente inexistente nesse mercado no Brasil, apesar de também ter know-how comprovado de implantação de usinas de dessalinização para suprir seu déficit hídrico.

    Além de ter vários grupos importantes instalados no Brasil, como as integradoras e fornecedoras de sistemas Suez, Veolia, Acciona e GSInima, e subsidiárias das mais importantes produtoras de membranas como Toray, Dow Química e Hydranautics, há no Brasil a Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água, a Aladyr, braço regional da Associação Internacional de Dessalinização (IDA), que reúne desde 2010 os principais agentes do setor, promovendo seminários anuais nos países da região e difundindo a solução da forma como for possível.

    De acordo com o diretor da Aladyr, Marcelo Bueno, que também dirige a japonesa Toray no Brasil, logo após as declarações do governo a associação se colocou à disposição, em carta ao gabinete presidencial, para prestar informações técnicas e comerciais sobre as tecnologias. “Tanto a dessalinização, como o reúso são soluções que precisam ser incluídas na matriz hídrica, para complementar o abastecimento convencional muito dependente das chuvas e que, por isso, tem sofrido com as frequentes estiagens”, diz Bueno. Segundo ele, na carta ao presidente, a Aladyr também destacou o fato de estar ligada ao programa Água Doce, do Ministério do Meio Ambiente, que entre outras ações instala sistemas de dessalinização de água salobra em poços no semiárido nordestino.

    Para o executivo, a estratégia nacional deveria seguir o modelo do setor de energia, que procura diversificar a sua matriz para compensar momentos de baixa geração na fonte principal do país, as hidrelétricas, que dependem de reservatórios cheios, o que nos últimos anos não tem ocorrido. “Assim como o setor elétrico precisa de usinas térmicas, de eólicas e outras fontes para manter o suprimento durante o ano, a matriz hídrica precisa se diversificar, com projetos de reúso nas grandes cidades e de dessalinização em regiões costeiras”, explica Bueno.

    Essa estratégia, aliás, esteve prestes a ser implementada na época da crise hídrica em São Paulo, entre 2014 e 2015, quando o governo paulista chegou a preparar um plano de emergência para implantar projetos de reúso indireto em estações de tratamento de esgoto, que descartariam o esgoto tratado com membranas em áreas de captação e represas. O plano foi abortado porque as chuvas voltaram e o governo suspendeu as licitações. “Ali foi uma oportunidade perdida. Caso tenhamos uma nova crise, o que não é impossível, podemos não estar preparados de novo”, diz.

    A mesma lógica serve para projetos de dessalinização no Nordeste. Várias cidades litorâneas sofrem com desabastecimento e usinas de dessalinização (com membranas de osmose reversa) seriam uma saída que, hoje em dia, já se mostra viável economicamente. Segundo Marcelo Bueno, o custo médio operacional de uma usina está a US$ 1,50/m3, o que torna o investimento factível. “É uma alternativa complementar ideal para o abastecimento das cidades litorâneas que sofrem com estiagens frequentes e com aumento de população repentino durante o verão, na alta temporada”, diz. Foi por esse motivo, por exemplo, que várias cidades na Espanha passaram a construir usinas de dessalinização, só para citar um caso mais recente.

    Com essa premissa, aliás, Fortaleza-CE soltou em fevereiro, para consulta pública, edital de concorrência internacional para construção, operação e manutenção de planta de dessalinização de água marinha na região metropolitana para produção de 1 m3/s de água potável. O edital, da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), segue a modelagem de parceria público-privada (PPP). Os documentos estiveram disponíveis para consulta pública até 11 de março de 2019.

    Segundo o governo cearense, o propósito é diversificar a matriz hídrica do Estado, que sofre há anos com reservatórios de água em baixíssimos níveis. Com a usina, a estimativa é o macrossistema integrado da região metropolitana aumentar em 12% a oferta de água, beneficiando 720 mil pessoas. O valor do contrato, segundo o edital, é de R$ 3 bilhões.



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