Dessalinização de água de volta à pauta

Meio Ambiente

A tecnologia de dessalinização da água do mar para abastecimento público e uso industrial voltou à tona com o novo Governo Federal, cujos integrantes passaram a considerar a alternativa como solução final para suprimento principalmente na região Nordeste do Brasil, onde há histórica escassez de água.

O interesse oficial com a tecnologia é louvável, tendo em vista a viabilidade atual dos sistemas de dessalinização, já em emprego em vários países pelo mundo e com preços em queda, mas demonstrou certo desconhecimento por parte do novo governo com o mercado nacional, no qual já há oferta consolidada de engenharia e serviços na área há muitos anos.

O desconhecimento ficou nítido com as referências feitas pela equipe do governo Bolsonaro à experiência em dessalinização de Israel, país que demonstra proximidade com a atual gestão federal.

Seria como se a tecnologia fosse uma exclusividade daquele país, porém ignorando que Espanha, França, Austrália, Estados Unidos e Japão, entre vários outros, não só contam com vasta experiência na implantação de grandes usinas de dessalinização, como têm escritórios no Brasil e algumas até já operam fábricas aqui para montar módulos de membranas.

Israel, por outro lado, tem participação praticamente inexistente nesse mercado no Brasil, apesar de também ter know-how comprovado de implantação de usinas de dessalinização para suprir seu déficit hídrico.

Além de ter vários grupos importantes instalados no Brasil, como as integradoras e fornecedoras de sistemas Suez, Veolia, Acciona e GSInima, e subsidiárias das mais importantes produtoras de membranas como Toray, Dow Química e Hydranautics, há no Brasil a Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água, a Aladyr, braço regional da Associação Internacional de Dessalinização (IDA), que reúne desde 2010 os principais agentes do setor, promovendo seminários anuais nos países da região e difundindo a solução da forma como for possível.

De acordo com o diretor da Aladyr, Marcelo Bueno, que também dirige a japonesa Toray no Brasil, logo após as declarações do governo a associação se colocou à disposição, em carta ao gabinete presidencial, para prestar informações técnicas e comerciais sobre as tecnologias.

“Tanto a dessalinização, como o reúso são soluções que precisam ser incluídas na matriz hídrica, para complementar o abastecimento convencional muito dependente das chuvas e que, por isso, tem sofrido com as frequentes estiagens”, diz Bueno.

Segundo ele, na carta ao presidente, a Aladyr também destacou o fato de estar ligada ao programa Água Doce, do Ministério do Meio Ambiente, que entre outras ações instala sistemas de dessalinização de água salobra em poços no semiárido nordestino.

Para o executivo, a estratégia nacional deveria seguir o modelo do setor de energia, que procura diversificar a sua matriz para compensar momentos de baixa geração na fonte principal do país, as hidrelétricas, que dependem de reservatórios cheios, o que nos últimos anos não tem ocorrido.

“Assim como o setor elétrico precisa de usinas térmicas, de eólicas e outras fontes para manter o suprimento durante o ano, a matriz hídrica precisa se diversificar, com projetos de reúso nas grandes cidades e de dessalinização em regiões costeiras”, explica Bueno.

Essa estratégia, aliás, esteve prestes a ser implementada na época da crise hídrica em São Paulo, entre 2014 e 2015, quando o governo paulista chegou a preparar um plano de emergência para implantar projetos de reúso indireto em estações de tratamento de esgoto, que descartariam o esgoto tratado com membranas em áreas de captação e represas.

O plano foi abortado porque as chuvas voltaram e o governo suspendeu as licitações. “Ali foi uma oportunidade perdida. Caso tenhamos uma nova crise, o que não é impossível, podemos não estar preparados de novo”, diz.

A mesma lógica serve para projetos de dessalinização no Nordeste. Várias cidades litorâneas sofrem com desabastecimento e usinas de dessalinização (com membranas de osmose reversa) seriam uma saída que, hoje em dia, já se mostra viável economicamente.

Segundo Marcelo Bueno, o custo médio operacional de uma usina está a US$ 1,50/m3, o que torna o investimento factível.

“É uma alternativa complementar ideal para o abastecimento das cidades litorâneas que sofrem com estiagens frequentes e com aumento de população repentino durante o verão, na alta temporada”, diz.

Foi por esse motivo, por exemplo, que várias cidades na Espanha passaram a construir usinas de dessalinização, só para citar um caso mais recente.

Com essa premissa, aliás, Fortaleza-CE soltou em fevereiro, para consulta pública, edital de concorrência internacional para construção, operação e manutenção de planta de dessalinização de água marinha na região metropolitana para produção de 1 m3/s de água potável.

O edital, da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), segue a modelagem de parceria público-privada (PPP). Os documentos estiveram disponíveis para consulta pública até 11 de março de 2019.

Segundo o governo cearense, o propósito é diversificar a matriz hídrica do Estado, que sofre há anos com reservatórios de água em baixíssimos níveis.

Com a usina, a estimativa é o macrossistema integrado da região metropolitana aumentar em 12% a oferta de água, beneficiando 720 mil pessoas. O valor do contrato, segundo o edital, é de R$ 3 bilhões.

Além da planta para potabilização de água do mar no Ceará, que está movimentando o mercado, que começa a preparar grupos e consórcios para disputar o certame, outro projeto importante de dessalinização, dessa vez na iniciativa privada, também nutre muitas expectativas.

Trata-se de projeto da siderúrgia ArcelorMittal Tubarão (ex-CST), em Serra-ES, que anunciou em janeiro a intenção de dessalinizar água do mar para uso industrial. Essa obra é cogitada há muito tempo pela empresa, que está em uma região com escassez de abastecimento público e tem sido frequentemente recomendada a se tornar autossuficiente.

Química e Derivados, Uso de membranas de osmose reversa é sobejamente conhecido
Uso de membranas de osmose reversa é sobejamente conhecido

A siderúrgica está em fase de contratação do grupo que fornecerá a tecnologia e implantará usina para inicialmente produzir 138 litros por segundo de água por dessalinização.

A empresa já conta com canal de captação de 50 mil m3/h, que também serve para devolução da salmoura resultante do processo por membranas de osmose reversa.

Grande consumidora de água no seu processo, hoje a empresa usa 608 litros por segundo de água doce, captada de rios e poços artesianos, além de água salgada do mar para resfriamento.

Afora a dessalinização, a ArcelorMittal também negocia com a companhia de saneamento (Cesan) a possibilidade de implantar projeto conjunto de reúso de efluentes domésticos para aproveitamento na planta, nos moldes do que acontece na região do polo petroquímico paulista, com a unidade do Aquapolo, que trata esgoto doméstico da Sabesp para abastecer as indústrias locais.

O investimento na planta de dessalinização será de R$ 50 milhões. Por ser modular, a ideia é ampliá-la aos poucos, tendo em vista que atualmente a empresa capta 511 l/s do rio e 97 l/s de poços.

Todo o projeto nasceu da necessidade de atender pedido da Cesan para que a siderúrgica reduzisse a captação de água do rio Santa Maria, durante a crise hídrica de 2015, o que foi feito, tendo em vista que na época a empresa captava 791 l/s.

Para a usina de dessalinização, o planejado é captar do mar 350 l/s e descartar 211 l/s de salmoura, o que dá a produção inicial de 138 l/s.

Nos FPSOs – Enquanto as obras de dessalinização para abastecimento e para usos industriais de maior porte não saem, há alguns nichos de mercado que rendem negócios para empresas da área.

Um exemplo foi contrato fechado no ano passado com a Petrobras, pela francesa Suez, para sete navios-plataforma (FPSO) na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro.

Fornecidas em contêineres, embarcados nas plataformas, as unidades para produzir 100 m3/dia de água potável cada são alugadas para a Petrobras e substituem a antiga solução, muito custosa, de comprar água da concessionária local, transportando periodicamente o volume por navio para as plataformas.

As unidades empregam osmose reversa, com pré-tratamento de filtros multimídia e de cartucho, e são montadas na fábrica do grupo francês em Sorocaba-SP.

De acordo com o gerente comercial da Suez, Marcus Vallero, com a utilização a partir do início de 2018 das estações a Petrobras passou a ter grande economia, tanto por conta do alto custo da água como pela operação logística frequente que antes precisava fazer.

Embora muitas plataformas da Petrobras tenham unidades de osmose reversa, o mesmo não ocorria com as mais antigas, caso das sete da Bacia de Campos.

Por conta da operação embarcada, explica Vallero, as unidades precisam ser robustas e com operação praticamente autônoma.

“O nosso operador vai a cada 45 dias para fazer a manutenção. Durante esse tempo ela funciona praticamente sozinha”, diz.

Além desses serviços específicos, que incluem ainda o fornecimento de sistemas de dessalgação do óleo cru para a Petrobras ou então sistemas de remoção de sulfato de água de injeção de poços, a Suez também está atenta aos projetos de dessalinização de água do mar para potabilidade ou uso industrial.

“Somos uma empresa com capacidade de integração de projetos complexos, feitos sob medida, como muitos que temos pelo mundo”, diz Vallero.

Ele também chama a atenção para o fato de a unidade de dessalinização de Fernando Noronha ter atualmente membranas da Suez, herdadas da adquirida GE Water.

Para Vallero, a expansão do mercado de dessalinização de água é inevitável no Brasil. O motivo é a escassez em regiões litorâneas.

Nesse ponto, alerta para a necessidade do primeiro grande projeto sair do papel, no caso, o de Fortaleza.

“Depois que outras cidades atestarem que a solução é viável e funciona perfeitamente, outros começarão a vir”, diz.

Segundo ele, a tendência é que esses projetos se viabilizem em parcerias público-privadas e no modelo de BOT, soluções comerciais em que a Suez atua.

Química e Derivados, Uso de membranas de osmose reversa é sobejamente conhecido
Usina de dessalinização instalada em Adelaide, na Austrália

Cogeração a gás residual

A unidade de insumos básicos do polo petroquímico do ABC, em São Paulo, começa neste ano projeto de R$ 600 milhões para trocar as turbinas a vapor que hoje alimentam o cracker da central por motores de alto rendimento que serão suportados por uma usina de cogeração de energia a gás residual do processo.

O projeto da Braskem, que levará dois anos, terá usina de cogeração de 40 MW, implantada pela Siemens e operada pela empresa alemã por 15 anos. A Braskem se responsabilizará pela troca das turbinas a vapor pelos motores elétricos.

Controle de substâncias

Pronto desde o fim do ano passado, o anteprojeto da regulamentação sobre controle de substâncias químicas está na Casa Civil.

O mercado aguarda ansioso que ele siga seus trâmites até sua aprovação. Com as mudanças no Executivo Federal, principalmente no Ministério do Meio Ambiente, que quase foi extinto, há a impressão de que a nova regulamentação ainda não faz parte das preocupações do novo quadro que ocupa os gabinetes responsáveis.

Lodo em Bauru

A cidade de Bauru, no noroeste paulista, instalou na ETE Vargem Limpa um sistema de secagem térmica do lodo gerado pelo tratamento de esgoto.

O secador térmico foi fabricado na Itália pela Pieralisi e o sistema ainda conta com adensadores e centrífugas. Trata-se de contrato de R$ 6 milhões que visa minimizar o sério problema de descarte de lodos em aterros, já que a secagem remove quase completamente a umidade.

Vale, na Indonésia

Ou a Indonésia tem sérios problemas no seu controle ambiental estatal ou a mineradora Vale, de triste reputação com os rompimentos criminosos de suas barragens em Minas Gerais, age de modo diferente fora do Brasil. Isso porque pelo menos desde 2013 órgãos governamentais, como o Ministério de Energia e Recursos Minerais e o Ministério do Desenvolvimento da Indonésia, vêm concedendo premiações de gestão ambiental e sustentabilidade à empresa, que extrai e beneficia níquel no país.

De 2013 a 2016, recebeu o prêmio Adhitama de gestão ambiental da Mineração e, mais recentemente, em janeiro, foi agraciada com o 2018 Sustainable Business Awards (SBA), por ter tido o melhor desempenho em 12 categorias de sustentabilidade.

Hidrogênio no Canadá

A Air Liquide vai construir uma planta de hidrogênio, para uso industrial e transportes, em Quebec, no Canadá. Segundo a empresa, será a maior planta do mundo, com base em eletrolisador de membranas (Proton Exchange Membrane), para produção de hidrogênio livre de carbono, de 20 MW, o que reduzirá a intensidade de carbono da planta em operação.

A intenção da nova fábrica, que amplia em 50% a capacidade do complexo industrial onde já é produzido hidrogênio com tecnologia convencional, é fornecer para indústrias e para uso em mobilidade nos mercados dos Estados Unidos e Canadá.

Tarifa mais cara

Há anos sofrendo com o alto custo de energia, que fez a sua produção cair pela metade, a indústria de alumínio primário fez recentemente as contas para provar o impacto das tarifas, que são o principal custo operacional do setor.

A tarifa industrial de energia no Brasil (US$ 124/MWh) é, na média, 49% maior do que no Canadá (US$ 84), 80% mais elevada do que a dos Estados Unidos (US$ 69) e 173% acima da média da praticada na Noruega (US$ 46), segundo dados da Aneel e da Agência Internacional de Energia, com o câmbio de 2018.

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