Desodorização: Guerra ao mau cheiro estréia novas armas.

Novas tecnologias de eliminação de odores alcançam ótimos resultados, mas a pressão da sociedade ainda é o motor do segmento

A indústria química é pródiga em odores.

Curtumes, indústrias de celulose e papel, fábricas de pneus ou de borracha, estações de tratamento de esgoto ou de efluentes produzem ou manejam substâncias fétidas, que causam desconforto a quem trabalha, visita ou vive próximo a essas instalações.

O problema nasceu junto com os empreendimentos químicos industriais e por muito tempo não teve solução tecnicamente eficiente e economicamente viável, quando as opções não eram muitas além de lavadores de gases, filtros de carvão ativado e técnicas de mascaramento.

Mas uma nova geração de tecnologias de eliminação de odores está tornando mais confortável a vida de operadores e de moradores, a um custo compatível com as possibilidades das empresas.

A Glotec, de São Paulo, é representante da canadense Ecolo no Estado desde 1999, e opera com tecnologia de neutralização de odores baseada no fato de que grande parte dos compostos odoríferos (gás sulfídrico, compostos organossulfurosos, hidrocarbonetos, compostos carboxilados, mercaptanas e amônia) é composto por combinações de nitrogênio, enxofre, oxigênio, carbono e hidrogênio.

Os produtos da Glotec são misturas de óleos essenciais, compostos orgânicos capazes de reagir quimicamente com as moléculas odoríferas e degradá-las até formas estáveis e inodoras: os átomos de oxigênio, carbono e hidrogênio se recombinam formando água e dióxido de carbono, e os compostos nitrosos e sulfetos são transformados em nitratos e enxofre elementar.

Desse modo, diz o gerente de operações da Glotec Aurélio Nunes de Oliveira, o neutralizador não mascara odores, mas os destrói.

Mesmo assim, muitos dos produtos da empresa possuem leves fragrâncias. Contradição? Não, explica Oliveira: “A eliminação de odor é uma tarefa ingrata. Se a eliminação do cheiro não é completa, qualquer traço de odor compromete o tratamento.

As fragrâncias impedem que isso aconteça, pois o produto que não é consumido nas reações químicas libera um odor agradável.”

O neutralizador também engloba em sua composição tensoativos, que mantêm os óleos essenciais em solução, e um carrier que provoca o arraste do produto, entre outros componentes. Para essa função, é muito utilizado o álcool isopropílico, cuja elevada pressão de vapor proporciona uma velocidade de dispersão muito alta. O álcool, por si só, também tem certa capacidade de eliminação de odores.

A neutralização, segundo Oliveira, é adequada para baixos níveis de concentração dos contaminantes. Em níveis elevados o preço do tratamento é impeditivo, pois o consumo de produto é muito grande.

Química e Derivados: Desodorização: Oliveira - sem pressão é difícil solução. ©QD Foto - Cuca Jorge
Oliveira – sem pressão é difícil solução.

“Nesses casos, a neutralização pode ser associada às outras tecnologias disponíveis. Um lavador de gases pode reduzir o nível do contaminante em até 80% a 90%, e o neutralizador faz o ajuste fino se a concentração remanescente ainda causa incômodo às pessoas”, diz Oliveira.

A aplicação dos produtos é feita nos arredores do local de emissão do odor, e requer bombas, um sistema de distribuição com tubos e bicos atomizadores.

A seleção do neutralizador correto se vale da experiência acumulada pela Ecolo no seu maior mercado, o norte-americano, cuja diversidade de indústrias e desafios propiciou o acúmulo de informações e a possibilidade de analogias com os problemas enfrentados pelos clientes da Glotec no Brasil.

Dessa feita, como o produto para cada tipo de odor já é definido, o ajuste do tratamento para cada demanda específica é feito pela diluição do produto concentrado, pela freqüência de pulverização, pela duração de cada pulverização e pela quantidade de bicos atomizadores.

O principal filão para a Glotec tem sido o de produtos alimentícios, em geral, e o de alimentos para pets, em particular. Mas as aplicações são inúmeras.

Na Alemanha, segundo Oliveira, caminhões de lixo utilizam o sistema. Pás carregadeiras, muito utilizadas em usinas de compostagem de lixo, também podem ser equipadas (o compressor da própria pá é utilizado para aplicar o produto).

Mas, para ele, nem por isso esse é um mercado fácil, pois as iniciativas para a solução do problema de odor, no País, em geral surgem quando há manifestação negativa da comunidade próxima ao gerador dos odores.

A Glotec importa seus óleos essenciais e os mistura no Brasil. O equipamento de aplicação também é montado pela empresa, mas os bicos atomizadores são importados.

Segundo Oliveira, os similares nacionais não produzem gotículas com o diâmetro requerido, e necessitariam de ar misturado ao líquido para que diâmetros menores fossem atingidos, mas um compressor associado ao sistema de aplicação o encareceria a ponto de inviabilizar a tecnologia.

A GE Betz também possui eliminadores de odor à base de óleos essenciais (neutralizantes), que completam uma linha de produtos com outras duas famílias, as de seqüestrantes e de inibidores.

Conforme explicou Fernando Uebel, gerente de marketing, os seqüestrantes, usados no controle de odores derivados do gás sulfídrico, reagem com o gás e sulfetos em solução, produzindo compostos estáveis e solúveis organossulforados, e impedem que o gás sulfídrico contamine o meio ambiente. Essa linha de produtos está em sua segunda geração (na primeira era usada triazina) e pode ser aplicada tanto diretamente em efluentes quanto em etapas de processo.

“Esse produto é muito utilizado na extração de petróleo”, afirma Uebel.

O odor de efluentes também pode ser controlado com a linha de inibidores, que modificam rotas metabólicas da redução de sulfatos por SRBs (bactérias redutoras de sulfato) e impedem a reação anaeróbia que produz o gás sulfídrico.

Exclusiva para o uso em efluentes, essa gama de produtos é composta por misturas de enzimas e uma fonte de nitrogênio, nutriente preferencial das bactérias dos efluentes em relação ao enxofre dos sulfatos.

No caso dos neutralizantes, cuja aplicação é sempre por aspersão, a supressão dos odores é decorrência da associação de moléculas dos óleos essenciais que compõem o produto com as moléculas causadoras do odor. O produto dessa associação é um ente químico não detectado pelo nariz humano.

Por esse motivo, ressalta Uebel, a GE Betz só sugere o uso dos neutralizantes em locais de baixa ou nula concentração de gás sulfídrico, venenoso acima de certas concentrações.

“Só utilizamos o neutralizante em presença de gás sulfídrico quando há monitoramento da concentração do gás no ambiente”, avisa o gerente.

A combinação das linhas de produtos, em alguns casos, também é viável: neutralizadores podem complementar a ação dos inibidores.

O setor alimentício – e seus efluentes com alta DBO (demanda biológica de oxigênio) – também é um dos grandes clientes da empresa, ao lado de curtumes, indústrias têxteis, fábricas de celulose e de cosméticos. O setor de papel e celulose brasileiro, aliás, é uma das fortes apostas da empresa.

Nos EUA, o maior mercado da GE Betz é o de esgoto doméstico, mas no Brasil, por todos os problemas que travam a universalização do saneamento básico (escassez de recursos públicos, indefinição de marco regulatório claro e rusgas ideológicas que afastam o capital privado), a situação não se repete.

Vaporização – Além da aplicação direta nos efluentes e linhas de processamento e da aspersão, a GE Betz tem uma novidade, de acordo com Uebel, que é a aplicação de neutralizantes com ar quente.

O produto, isento de água, é vaporizado antes de chegar ao meio ambiente, e evita a sensação de molhado e problemas de corrosão de equipamentos causados pelo líquido aspergido.

Química e Derivados: Desodorização: Uebel - novidade da Betz usa ar quente. ©QD Foto - Cuca Jorge
Uebel – novidade da Betz usa ar quente.

“Nós não recomendamos a utilização do produto em solução, pulverizado, em áreas fechadas”, alerta Uebel.

Além dessas opções, os neutralizantes podem ser atomizados em alta pressão (a modalidade mais econômica), ou aplicados com sprays e o auxílio de ar comprimido (mais cara, mas que permite melhor dispersão do produto no ar).

O equipamento para aplicação com ar quente é importado, assim como os produtos de todas as linhas. Esse fato, entretanto, aparentemente não representa empecilho para o desenvolvimento do mercado.

Para Uebel, a crescente instalação de empresas cada vez mais próximas de bairros comerciais favorece o segmento de controle de odores, pois “depois que o problema de odor é detectado, a venda é muito fácil. O ciclo de venda é muito curto nos clientes interessados em resolver o problema”, pondera.

Um do segmentos que pode render bons clientes para os militantes do controle de odores é o de hotéis, pelo menos para a Nalco.

Química e Derivados: Desodorização: Ainda há muito a experimentar, diz Dantas. ©QD Foto - Cuca Jorge
Ainda há muito a experimentar, diz Dantas.

“Transformamos um quarto de fumante em um de não fumante em apenas vinte minutos”, garante Eduardo Dantas, gerente técnico de serviços de higiene ambiental.

A empresa já produz alguns de seus produtos em Suzano-SP, e atua em três diferentes frentes: indoor (ambientes internos), outdoor (exteriores) e odores biológicos (caixas de gordura, estações de tratamento de efluentes e outros) com linhas de neutralizadores líquidos, sólidos, enzimas e bactérias.

Todas as linhas, entretanto, empregam o mesmo princípio ativo, mantido em segredo pelo fabricante. Dantas limita-se a informar que o produto da Nalco agrega à molécula causadora de odor uma enzima que muda sua configuração molecular e impede a detecção pelo sistema olfativo humano.

“E isso é neutralizar, não mascarar”, destaca Dantas, dizendo que no mercado brasileiro há muitos produtos mascarantes de odores.

Uma das características do produto da Nalco é a possibilidade de aplicação adicionando diretamente o neutralizador ao material odorífero. Testes foram feitos aditivando massa de borracha diretamente no misturador bâmburi – os resultados, segundo Dantas, são excelentes.

Para as aplicações indoor, a Nalco oferece pastilhas, discos de celulose impregnados com o princípio ativo e envoltos por um plástico poroso, responsável pela liberação lenta do produto.

A empresa está desenvolvendo, no País, um equipamento, algo como um ventilador, equipado com uma dessas pastilhas. Uma aplicação possível seria o uso em sanitários: conectado à rede elétrica, o aparelho seria acionado em paralelo com a fonte de luz.

Para a aplicação em ambientes exteriores, a Nalco não foge do convencional. São utilizados sistemas de distribuição dotados de bicos atomizadores.

E os bicos, como no caso da Glotec, são um episódio à parte: a empresa precisou de cerca de três anos para desenvolver um parceiro apto ao fornecimento do equipamento de aplicação do produto líquido capaz de produzir gotas com diâmetro menor que 20 µ.

O tamanho microscópico é essencial para que o neutralizador permaneça em contato com as moléculas odoríferas por tempo suficiente, evitando a precipitação rápida.

A parceira, a Primetec, desenvolveu bicos que operam na faixa de 10 µ a 20 µ, cuja vantagem é oferecer gotas com o tamanho necessário sem o auxílio de ar comprimido.

As bombas utilizadas também eram um ponto nevrálgico, mas a solução da Primetec foi tão eficiente que a empresa deve exportá-la até para a Nalco americana, a despeito de todos os recursos tecnológicos à disposição da matriz.

A aplicação dos produtos líquidos é a convencional, com uma rede de bicos atomizadores operando entre 800 e 900 libras de pressão. Segundo Dantas, o produto da Nalco pode operar em diluições de até 1:250, uma vantagem que interessa a muitos clientes.

Toda a linha de produtos líquidos é produzida no Brasil, ao contrário dos produtos sólidos, que ainda são importados. Mas mesmo os produtos manufaturados em Suzano possuem componentes importados, embora a empresa esteja desenvolvendo fornecedores nacionais e já produza uma linha líquida 100% nacionalizada.

O grande número de aplicações possíveis em controle de odores torna a atividade bastante experimental e empírica. Como alguns produtos também são novos, mesmo os fabricantes ainda precisam experimentar muito para conhecer o real potencial de suas tecnologias.

No caso da Nalco, a empresa investe pesadamente no setor, no Brasil, há cerca de um ano. “Fazemos muita experiência, há muito a desenvolver e o produto ainda é muito novo no mercado”, diz Dantas.

Sem um equipamento de aplicação automatizada de seus produtos, a Nalco demorou para emplacar nas aplicações outdoor. Mas o crescimento de suas vendas se acentuou muito com a parceria com a Primetec, o que permitiu expandir sua atuação para além das aplicações indoor, em que os hotéis são os principais clientes da empresa.

A empresa ainda tem uma linha muito recente de produtos sólidos composta por enzimas e bactérias, que diminuem a contagem biológica em efluentes. Além do produto sólido, granulado, está em desenvolvimento também uma versão líquida do produto.

Encapsulamento – A Continuum Chemical, com fábrica em Vargem Grande Paulista, também opera com controle de odores, mas com uma tecnologia diferente das demais concorrentes.

Conforme explicou Maurizio Bortali, da área de marketing e vendas, o produto da Continuum se baseia no encapsulamento das moléculas odoríferas, que ocorre por atração física e não química. É como se uma capa se formasse ao redor da molécula, e só algumas bactérias e temperaturas superiores a 170 ºC podem destruí-la.

Como o material é orgânico, ocorre a decomposição pelo meio ambiente, e nesse processo as moléculas encapsuladas também são consumidas.

Química e Derivados: Desodorização: Para Bortali, motivação ainda vem da imposição das leis. ©QD Foto - Cuca Jorge
Para Bortali, motivação ainda vem da imposição das leis.

“O produto tem a vantagem de não ter cheiro nenhum, e permite diluições a partir de 1:100”, lembra Bortali.

A característica peculiar dos produtos Continuum também influencia o modo como a empresa dimensiona seus tratamentos. Bortali afirma que só pelo conhecimento da fonte de odor (após coleta de amostra e análise em laboratório próprio) a empresa é capaz de estimar, com baixo desvio, a quantidade de produto necessário para a eliminação do odor. Apenas na fase de ajuste fino do processo são necessários testes em campo.

Como as concorrentes, a Continuum possui produtos 100% nacionalizados, mas há linhas em que é necessário importar insumos. “Nesses casos não é possível desenvolver fornecedores nacionais, pois os volumes seriam muito pequenos”, afirma Bortali.

A empresa possui sete produtos básicos que combina para atender às demandas dos clientes. O foco é o segmento de tratamento de esgoto, em que a Continuum, atesta Bortali, é muito competitiva.

A aplicação dos produtos também é feita por pulverização, mesmo em esgotos, pois a aplicação direta em meio líquido requer quantidades de produto muito maiores para compensar o contato mais intenso que ocorre no ar. “Além disso, em meio aéreo é possível criar enclausuramentos, reduzir pontos de fuga e concentrar o tratamento nesses pontos. O controle é melhor”, diz Bortali.

A Continuum também possui um parceiro para o fornecimento dos equipamentos de aplicação, a Stormist, responsável pelo provimento das bombas de alta pressão, as bombas dosadoras, as linhas de tubos e os bicos atomizadores.

Mas a Continuum não enfrentou grande dificuldade com os bicos. Bortali entende que, por operar em concentrações baixas, o produto da empresa provoca menos incrustrações, e o problema de entupimento dos dispositivos é reduzido.

Apesar de algumas iniciativas autóctones, o fator de motivação para o controle de odores, segundo Bortali, ainda é a imposição de leis.

Mesmo setores industriais com graves problemas de odores, como os curtumes, ainda são reticentes quanto à adoção de soluções. No caso dos curtumes, a questão é cultural, agravada pelas margens extremamente apertadas impostas a essa indústria. “Esse segmento de controle de odores ainda está em maturação”, crê Bortali.

A baixa conscientização do empresariado nacional também é uma dificuldade, na opinião de Eduardo Scavariello, diretor técnico da Adhetech Química, instalada em Sumaré-SP. A empresa possui contrato de formulação e distribuição do produto desenvolvido pela Atofina nas Américas.

A tecnologia, descoberta por acaso pela então Elf Atochem na Universidade de Israel, baseia-se em um isômero do 1-decilenato de metila, um éster obtido a partir do óleo de mamona.

Química e Derivados: Desodorização: Falta conscientização, na opinião de Scavariello. ©QD Foto - Cuca Jorge
Falta conscientização, na opinião de Scavariello.

“A Atofina é a maior cultivadora de mamona no Brasil”, segundo Scavariello.

O racêmico desse éster possui uma estrutura em formato de espiral que atrai as partículas gasosas provocadoras dos maus os odores.

Essas estruturas em espiral formam uma espécie de rede superficial que adsorve as moléculas odoríferas, tratando-se, portanto, de um fenômeno de superfície.

O produto é atóxico e biodegradável, e pode ser pulverizado, ou ainda adicionado ao efluente ou ao insumo causador de odor.

O óleo de mamona produzido no Brasil é craqueado na França. A Atofina produz uma poliamida de sete carbonos a partir do insumo, processo em que grande quantidade de ácido decilênico (usado na indústria de cosméticos como bactericida) também é produzida.

Quando um de seus cientistas tentava esterificar o ácido, acidentalmente descobriu a propriedade de eliminação dos odores.

A Adhetech importa o 1-decilenato de metila da França, na forma de uma emulsão aquosa.

Química e Derivados: Desodorização: desodor_grafico_01. ©QDOs principais clientes da empresa são as usinas de compostagem de lixo (sob a perspectiva do transporte dos compostos, não exatamente nos aterros sanitários) e empresas de tratamento de água e esgoto. Fábricas de borracha, frigoríficos e curtumes também têm participação relevante.

A maior parte dos clientes é industrial, mas, conforme disse Scavariello, os altos custos dos desenvolvimentos industriais e a difícil comercialização dos produtos impeliram a empresa ao lançamento de duas marcas de varejo que dão sustentação financeira à Adhetech.

O produto é aplicado com bicos atomizadores da Spray Systems, ou então com misturadores estáticos ligados diretamente nas tubulações – nesse caso, a dosagem é feita por um Venturi.

Para dimensionar seus tratamentos, a empresa coleta amostras do ar com odores e as compara com padrões de ar sintético, por meio de cromatogramas. No cromatograma da amostra é importante detectar quais são os picos, sem maiores preocupações em se determinar, nessa fase, quais são os contaminantes.

Depois disso, testes com amostras de ar com concentrações crescentes do eliminador de odor são também levadas ao cromatógrafo, e o exame das alterações nos picos determinam se o produto é efetivo (se os picos diminuem) ou não (se não há alteração).

Em seguida, é necessário determinar a taxa de adsorção no 1-decilenato de metila e o tempo requerido de ação, o que envolve intrincados cálculos matemáticos e conhecimentos de mecânica quântica, passando até pela equação de Schrödinger. Após todos esses passos, é possível determinar-se a dosagem de produto requerida.

Volatilidade – A determinação do tamanho do mercado brasileiro de controle de odores é igualmente complicada, pois, de acordo com a maior parte dos produtores, é um segmento volátil, cujos clientes com margem apertadas podem declinar do uso da tecnologia a cada dificuldade econômica.

Mas Scavariello estima o mercado com base no panorama francês: no país europeu, com um parque industrial menor que o brasileiro e população idem, o mercado de produtos químicos, filtros e equipamentos de queima para controle de odores é estimado em US$ 1,2 bilhão ao ano. O brasileiro teria potencial para os mesmo valores, mas Scavariello faz a estimativa conservadora ao redor US$ 100 milhões.

Mesmo que o alvo não seja tão promissor, o espectro de possibilidades para os produtores de desodorizadores é muito grande. A churrascaria El Tranvia, de São Paulo, conseguiu diminuir em 90% os odores produzidos pelas churrasqueiras de forno à lenha, à moda uruguaia, para a produção de grelhados. Situada em uma área residencial, a churrascaria causava incômodo aos vizinhos.

As reclamações se sucediam e os lavadores de água e filtros de carbono ativado não solucionavam o problema. Mas, com a tecnologia de encapsulamento da Continuum a situação pôde ser contornada.

A FBmix, de Rio Claro-SP, produtora de compostos de moldagem à base de resina poliéster insaturada, cargas minerais e fibra de vidro, também é cliente da Continuum, e enfrentava problemas de odor causados pelo monômero de estireno, utilizado na polimerização dos poliésteres. Adotou a solução para controlar os odores tanto na área interna da fábrica quanto em seus arredores.

Problemas com vizinhos também foram o motivo que levaram a Rei do Mate, fabricante de chás de São Paulo, a procurar os produtos da Glotec e uma solução para as contestações. O lavador de gases, novamente, não eliminava os odores a contento, e em períodos de clima frio as reclamações se intensificavam, mas segundo a empresa, a questão foi solucionada.

A petroquímica também enfrenta problemas relacionados aos odores. A UNsix, unidade de exploração de xisto do sudeste de Curitiba, enfrentava dificuldades com diversos produtos da pirólise de xisto, entre eles mercaptanas, fenóis e gás sulfídrico.

Segundo Beatrix Martignoni, engenheira de processos de petróleo, o principal problema era o desconforto de operadores e motoristas na estação de carregamento de nafta e óleo. A empresa já havia testado um produto adicionado à nafta, mas o custo do processo inviabilizava a aplicação e há cerca de um mês a empresa optou pela tecnologia Nalco.

De acordo com a engenheira, a solução agradou até os motoristas, cujas roupas ficavam impregnadas com os odores e necessitavam ser trocadas, para não impregnarem também os caminhões.

Outra prova da eficiência da solução veio da comunidade vizinha à fábrica: a UNsix oferece um canal de comunicação denominado “telefone verde” reservado a reclamações, mas a campainha não foi ouvida desde a adoção dos produtos da Nalco. Mesmo assim, a empresa pretende realizar testes científicos para avaliar a eficácia do produto e sua concentração adequada de aplicação.

Química e Derivados: Desodorização: Princípio ativo do produto da Adhetech veio por acaso. ©QD Foto - Cuca Jorge
Princípio ativo do produto da Adhetech veio por acaso.

O Hotel Hilton Morumbi São Paulo Morumbi também é cliente da Nalco. De acordo com Idalina Rodrigues, gerente de serviços de hospedagem, a iniciativa surgiu por prevenção, pois as janelas do hotel não podem ser abertas. Odores de comida, cigarro, perfumes e outros são eliminados em apenas quinze minutos, com a vantagem de que o produto também não deixa odor.

“Se o tratamento é feito por mascaramento, depois que o produto perde seu odor os cheiros voltam”, diz Idalina. A tecnologia é utilizada nos quartos e salas, ou em outros recintos onde podem ocorrer problemas relacionados a odores.

Outros ambientes fechados, como salas de cinema e teatro, e até mesmo aviões e ônibus rodoviários podem se beneficiar do controle de odores. A Infralabor Service Ltda., de São Paulo, responde pelas atividades da divisão Millicare, da norte-americana Millikem (a maior fabricante de carpetes do mundo) e faz limpeza e higienização de superfícies têxteis forradas, como carpetes, divisórias de tecido e mobiliário.

A empresa utiliza os produtos da Nalco e fornece o serviço desodorização para empresas como a TAM, do ramo de aviação civil, e a Itapemirim, de ônibus interestaduais. “Os resultados nos ambientes fechados é muito bom” diz, Marcos Lima, gerente nacional de vendas.

Lei prevê multas para infratores

A emissão de odores está sujeita às diretrizes da lei estadual 997/76, regulamentada pelo decreto 8468/76.

O artigo 33 do referido decreto proíbe a emissão de substâncias odoríferas. Já o decreto 43.397/02, determina a obrigatoriedade da renovação da licença ambiental para todos os estabelecimentos que emitem odores, o que não era necessário pelo decreto 8486/76 e municiou a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, ligada a Secretaria do Estado de Meio Ambiente), responsável pela fiscalização e cumprimento das leis, com maior poder de fogo para acompanhar efetivamente as empresas.

De acordo com Laércio Vechini, gerente de análise técnica e controle da Cetesb, quando a companhia recebe uma reclamação, um responsável realiza a inspeção no estabelecimento delatado e emite um auto de inspeção confirmando a percepção de odor, acompanhado de um auto de advertência.

É dado um prazo para que o estabelecimento se manifeste, relatando as medidas a serem tomadas em tempo definido. Cabe à Cetesb analisar o tempo pedido para a adequação, que pode ser aceito ou não e, findo este prazo, a companhia efetua nova inspeção, promove consultas com a sociedade e verifica a eficácia da solução adotada.

Nos casos em que as empresas delatadas ignoram as advertências, multas são aplicadas. São três categorias de penalização: casos menos graves (multa desde 10 até 1.000 Ufesp), casos graves (multa de 1.001 a 5.000 Ufesp) e casos gravíssimos (multa de 5.001 a 10.000 Ufesp).

Conforme disse Vechini, uma Ufesp (Unidade Fiscal do Estado de São Paulo) eqüivale atualmente a cerca de R$ 12,40. No caso de reincidência, o valor das multas é duplicado.

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