Desmineralização de água: Cliente mais maduro gera demanda por produtos e serviços especializados

Química e Derivados: Desmineralização: Osmose terceirizada.
Osmose terceirizada.

Alguns setores da economia, embora não sejam dos mais importantes em grandeza financeira, servem como ótima referência para demonstrar a evolução tecnológica incorporada pela indústria brasileira na última década. É o que ocorre no mercado de desmineralização de água, constituído por fornecedores de membranas de osmose reversa, resinas de troca iônica e de insumos para pré-tratamento químico e ainda por empresas de engenharia de projetos e de operações terceirizadas.

Do início da década de 90 para cá, desde a já longínqua abertura comercial, as mudanças são marcantes nesse setor responsável pela criação de alternativas para purificar a água de sais e prepará-la para usos industriais. Para começo de conversa, foi-se a época em que o mercado era dominado por pouquíssimos fornecedores, que ditavam não só as tendências tecnológicas como os preços.

O número de empresas especializadas e de novas ofertas de processos e sistemas aumentou de tal maneira que fica difícil não ver o setor hoje mais maduro, com um bom clima de competição para a derrubada dos preços e para facilitar a vida dos consumidores de água desmineralizada.

Química e Derivados: Desmineralização: Membranas GE.
Membranas GE.

A maturidade aí também se traduz por um cliente crítico e resistente a panacéias, mais preparado para escolher entre as tecnologias e para operar com responsabilidade as unidades de “desmi”. Embora os problemas decorrentes da falta de cuidados com a operação ainda não sejam raros, sobretudo em unidades de osmose reversa, tornou-se quase consenso entre os especialistas que os usuários hoje conhecem um pouco mais do processo. Esse cenário afugenta empresas e representantes aventureiros, que inundam os clientes com propostas de tecnologias e equipamentos de eficiência duvidosa, preservando por seleção natural os competidores mais confiáveis.

Para demonstrar essa evolução, Química e Derivados preparou nesta edição uma série de reportagens divididas entre os principais sub-setores que formam o mercado: membranas de osmose reversa, resinas de troca iônica, pré-tratamento químico, engenharia de projetos e prestação de serviços.

Química e Derivados: Desmineralização: Leitos compactos em usina de Álcool.
Leitos compactos em usina de Álcool.

A necessidade de compartimentar o trabalho jornalístico publicado a seguir explica por si só o perfil renovado do setor. Hoje as ofertas e demandas estão mais bem definidas. Os fornecedores sabem quais nichos podem e precisam ser atendidos por eles, assim como os clientes não têm mais muitas dúvidas na hora da escolha da tecnologia. Isso significa, por exemplo, que já não há mais espaço para debates entre os defensores da osmose reversa e os da troca iônica. Mesmo passando por período recessivo, no qual as grandes obras ainda são raras, a economia brasileira tem tamanho e potencial para acolher a todos.

Membranas

Novos fornecedores e autópsia nacional aprimoram as ofertas

Difícil encontrar um produto para desmineralização em constante evolução, no aspecto tecnológico e em termos de difusão do uso, como as membranas de osmose reversa. Desde quando a primeira estação para “desmi” foi instalada em 1984 no Brasil, na Papel e Celulose Catarinense (PCC), em Correia Pinto-SC, hoje de propriedade do grupo Klabin, uma verdadeira revolução ocorreu. Se naquela época trabalhava-se com sistemas manuais e se as bombas de alta pressão eram centrífugas horizontais monoestágio com baixa eficiência energética (em torno de 35%), agora a história é diferente. Raramente projetam-se estações de osmose que não sejam automatizadas, via SDCD, e cujas bombas centrífugas não sejam verticais de múltiplo estágio, com 70% de eficiência.

Química e Derivados: Desmineralização: Unidade de osmose da GE Osmonics - operação verticalizada.
Unidade de osmose da GE Osmonics – operação verticalizada.

Além do preço da membrana ter caído até 60% na última década (preço médio atual é de US$ 600), houve também outras mudanças importantes. Para ficar no campo técnico, hoje a maior parte das membranas utilizadas possuem filmes poliméricos com maior área, de 400 pés quadrados, contra 330 das antigas. Apesar desse novo tipo de membrana ser mais complicado de limpar, por ficar condensada no mesmo diâmetro dos vasos de pressão, de certo modo facilita a operação. Isso porque a área onde ocorre a osmose reversa é ampliada, aumentando sua resistência ao fouling e permitindo à unidade trabalhar com pressões mais baixas. Estima-se que no Brasil cerca de 80% das membranas em operação tenham sido trocadas pelas de 400 pés.

Química e Derivados: Desmineralização: Cartuchos Z.Plex da GE - para pré-tratamento.
Cartuchos Z.Plex da GE – para pré-tratamento.

Os desenvolvimentos técnicos, em conjunto com a aceitação dos clientes, fizeram o parque instalado de membranas no Brasil ter crescido de maneira considerável. Um levantamento feito pela produtora Hydranautics, do grupo japonês Nitto Denko, estima a existência de 22 mil membranas em operação, sendo 10 mil de 8 polegadas para aplicações de desmineralização em indústrias químicas, petroquímicas, de papel e celulose, alimentícia e outras. As restantes 12 mil são de 4 polegadas, com uso em dessalinização em poços de água potável no Nordeste e para produção de água ultrapura em hemodiálise e na indústria farmacêutica (injetáveis).

O mercado brasileiro é dominado pelas duas maiores do mundo na área, a própria Hydranautics e a Dow. Há controvérsias quanto a participação de ambas nesse total de membranas instaladas, mas a percepção de gente do mercado dá conta de uma participação disputada palmo a palmo. Além das duas, há competidores conseguindo alguns fornecimentos pontuais, como Trisep e Toray, e outros com planos mais concretos de conquistar mercado, como a GE Osmonics e a nacional Perenne.

A GE Osmonics, surgida em fevereiro de 2003 com a compra feita pela General Electric dessa empresa de equipamentos, membranas e filtros (Osmonics), tem grandes chances de aumentar a participação no mercado brasileiro. Isso porque passa a contar com a força de vendas da GE Betz, tradicional no Brasil em tratamento químico de água subordinada à mesma plataforma de negócios do grupo (GE Water Technologies), e que passará a incluir em seus pacotes de fornecimento as membranas Osmonics.

Química e Derivados: Desmineralização: Pacheco - membrana coreana para entrar na indústria.
Pacheco – membrana coreana para entrar na indústria.

Quando ainda não havia sido adquirida pela GE, a Osmonics já participava do mercado brasileiro por meio de OEMs e distribuidores. Aliás, segundo explica Clóvis Sarmento-Leite, o diretor comercial para América Latina da GE Water Technologies, a intenção é não abandonar essa forma de operação, apenas sintetizá-la com operadores mais bem estruturados. “Os parceiros comerciais agregam valor com o conhecimento de nichos de mercado e pela habilidade em fornecer pequenas quantidades”, diz Sarmento-Leite, que fica sediado no escritório da GE Water na Filadélfia, Estados Unidos. Agora os fornecimentos em grandes quantidades, que normalmente incluem unidades completas de desmi, serão feitos direto com a GE, em ação conjunta com a divisão Betz.

Pensando apenas em membranas, a GE Water tem condições de fornecer não só as de osmose reversa como as de nano, ultra e microfiltração. Mas a sua grande vantagem competitiva, conforme explica Sarmento-Leite, é ser verticalizada. “Quando fornecemos um skid respondemos por todos seus componentes, o que tranqüiliza o cliente”, diz. O diretor afirma com isso que, por exemplo, se houver um problema na bomba de alta pressão não vai haver necessidade de recorrer a outro fabricante, visto que a própria Osmonic a produz. Bom lembrar ainda que o grupo GE tem condições também de fazer fornecimento completo de BOT em tratamento de água e efluentes.

Nacional – Também é a busca pela verticalização que levou a Perenne a concretizar parceria com os coreanos da CSM, que passou a fabricar sob encomenda membranas com o logotipo da Perenne. Empresa de projeto de equipamentos, tradicionalmente de sistemas de 4 polegadas para dessalinização, com as membranas exclusivas a Perenne objetivou ganhar obras em mercados industriais, em aplicações de processo, na indústria de bebidas e farmacêutica, e para acondicionamento de água para geração de vapor em caldeiras de alta pressão.

Com o novo plano, a Perenne buscou ainda reduzir seus custos tornando-se independente do fornecimento de membranas dos poucos produtores mundiais. A primeira tentativa foi tentar associações para produzi-las localmente. Na impossibilidade, a saída encontrada foi a parceria com a CSM, com a qual fez um contrato vantajoso de fornecimento.

As membranas coreanas são disponíveis nas dimensões de 2,5; 4 e 8 polegadas e já estão instaladas em várias aplicações industriais, em empresas de bebidas, como Ambev, Nestlé e Coca Cola. Por ser também empresa de engenharia, projetando skids de osmose reversa, a Perenne participa de concorrências de forma verticalizada, sem precisar entrar em acordos com produtores de membranas.

Química e Derivados: Desmineralização: Membrana aberta para autópsia - fouling (no detalhe) é o problema.
Membrana aberta para autópsia – fouling (no detalhe) é o problema.

A intenção, segundo o gerente de sistemas integrados da Perenne, Eduardo Pacheco, é entrar firme em mercados como químico e petroquímico, papel e celulose, onde normalmente estão as grandes obras de desmi, setores nos quais a empresa já tem marcado presença em concorrências. Aliás, para criar retaguarda no atendimento da nova estratégia, que inclui a oferta de sistemas BOTs em parceria com outras empresas (Geoplan, Hidrogesp), a empresa inaugura fábrica nova em Feira de Santana, na Bahia, para fabricação de estações maiores de osmose.

Autópsia – A busca pela verticalização da Perenne também permitiu o desenvolvimento de uma iniciativa da pesquisa nacional. Para dispor de um serviço auxiliar de análise, normalmente oferecido pelas produtoras de membranas apenas em suas matrizes no exterior, há cerca de um ano a empresa passou a contar com a colaboração do laboratório de microbiologia ambiental do Instituto de Ciências Biomédicas da USP para realizar as chamadas autópsias. Trata-se de procedimento de análise físico-químico e microbiológica de elementos filtrantes usados pelos clientes, por meio da abertura das membranas e a partir da qual os pesquisadores produzem um relatório para explicar os motivos operacionais que provocaram a deterioração do material.

Química e Derivados: Desmineralização: Membrana aberta para autópsia - fouling (no detalhe) é o problema.
Membrana aberta para autópsia – fouling (no detalhe) é o problema.

A autópsia permite conhecer os mecanismos de destruição interna das membranas e, principalmente, possibilita o abandono de maus hábitos no pré-tratamento e na alimentação de água, que não poucas vezes diminuem a vida útil do sistema. Trata-se de um serviço oferecido gratuitamente aos clientes e que norteia as diretrizes de novos projetos e reformas. Além disso, as análises da USP servem para se ter uma idéia de como anda a operação nas unidades de osmose reversa no Brasil. Coordenado e resultado do empenho do professor René Schneider, PhD no estudo de biofilmes pela Universidade de New South Wales, em Sidney, na Austrália, que procurou a Perenne há cerca de dois anos, o trabalho de autópsia das membranas demonstrou casos grotescos de operação. “Chegamos a encontrar areia e pedaços de borracha dentro das membranas”, disse Schneider.

Mas os casos extremos também não são tão comuns. O grosso dos problemas reside na formação de biofilmes, camada gelatinosa formada pelos microrganismos como barreira protetiva e constituída por polissacarídeos (matriz de hexopolímeros). No jargão do mercado, trata-se do fouling biológico, uma incrustação natural muito resistente, que anula a ação osmótica da membrana, desenvolvida nos espaçadores da membrana (telas em forma de peneira existentes entre os filmes da osmose e pelas quais a água circula). “A constante turbulência de água nesse espaço renova a alimentação de nutrientes orgânicos para as bactérias e, por estas ficarem nos espaçadores, acabam se protegendo das limpezas químicas periódicas”, lembra René Schneider.

Química e Derivados: Desmineralização: Schneider - pré-tratamento não combate biofouling.
Schneider – pré-tratamento não combate biofouling.

Segundo o professor, cerca de 90% dos problemas detectados nas membranas são biofilmes e os 10% restantes se dividem entre falhas operacionais e depósitos químicos. Além do próprio mecanismo de ação do biofouling, colabora em muito com o problema as deficiências no pré-tratamento. Para ele, isso ocorre principalmente porque as soluções químicas e boa parte dos projetos disponíveis no mercado não levam em conta ou não se adequam ao controle de biofilmes. “O biofouling é formado no longo prazo e as metodologias de controle da água de alimentação só pensam em situações de curto prazo, como o entupimento físico provocado por colóides e sólidos em suspensão ou os níveis de orgânico total”, diz. “Os projetos não contemplam os fatores formadores do biofilme, como por exemplo o fato de as bactérias reagirem aos agentes de limpeza”.

Uma descoberta também resultante das pesquisas do laboratório de microbiologia ambiental, que recebe verba de apoio da Perenne via Fundação da USP (Fusp), foi provar a ineficiência de alguns biocidas utilizados no mercado brasileiro como pré-tratamento. Em pesquisa realizada em uma grande petroquímica que René Schneider prefere não revelar o nome, notou-se em inoculação em meio de cultura líquido que o biocida empregado precisaria ser dosado dez vezes mais para eliminar as contagens microbianas, o que em termos de custo inviabilizaria o pré-tratamento. Isso sem falar que o tempo de exposição do experimento foi de 20 minutos, portanto um período bem maior do que o operacional. “O biocida não é ruim, ocorre que ele precisaria de muito tempo para inativar os microrganismos por completo. Trata-se de uma boa molécula em aplicação errada”, define o professor da USP.

Química e Derivados: Desmineralização: Lucila - software determina pré-tratamento.
Lucila – software determina pré-tratamento.

A autópsia da USP segue o padrão das feitas em outros países: análise visual, microbiológica (contagem microbiana), varredura por microscopia eletrônica para identificação elementar e, após a parte analítica, a elaboração de relatório com sugestões de melhora no sistema. Além da indicação de maiores cuidados com o pré-tratamento e com a operação, de forma geral as recomendações podem abranger a diminuição no fluxo de operação, considerado na média muito alto no Brasil por René Schneider. Seu conhecimento da pesquisa internacional da área, aliado à experiência no pós-doutorado na Austrália, indica que o limite para operação com água de superfície em unidades médias e pequenas não pode ultrapassar 10 gfd (ou 17 litros por m2/ hora).

Acima disso acelera-se a colmatação e há sobrecarga da membrana, diminuindo as chances de o elemento chegar a uma vida útil desejada de 5 anos (período que a Perenne oferece de garantia para as membranas coreanas).

Ultra e micro antes – As duas líderes no mercado das membranas também enviam regularmente elementos para serem autopsiados nos Estados Unidos, onde ficam os centros de pesquisa da Dow e da Hydranautics. Mas também não é recurso muito abusado, restrito mais a casos de necessidade em grandes clientes. O motivo das limitações tem a ver com os custos de envio das membranas via correio, nunca menos de US$ 1 mil por unidade, mas também se funda na análise criteriosa. “Só mandamos quando há uma alteração excepcional na operação que justifique”, afirmou a especialista de mercado da Dow, Lucila Matos.

Química e Derivados: Desmineralização: Polonio vai colocar K-7 antes da osmose.
Polonio vai colocar K-7 antes da osmose.

Essa posição da Dow é conjugada com a aplicação de um software chamado Rosa (Reverse Osmosis System Analyses). Já em sua versão 5.3, o Rosa calcula o sistema de osmose reversa e determina as dosagens necessárias de produtos no pré-tratamento, para evitar incrustação, balancear o pH e, finalmente, para regular o pH. “Só esse trabalho já previne problemas futuros na membrana, que vão diminuir a necessidade futura de se fazer autópsia para descobrir os erros do processo”, diz Lucila. Aliás, para minimizar os problemas com fouling, a Dow intensifica a divulgação das membranas FR (fouling resistance) BW 30 400 FR, com maior área de resistência e rejeição de sais de 99,5%.

A Hydranautics também envia para os EUA, pelo menos uma vez por mês, alguma membrana para autópsia. Mas, da mesma forma, também procura criar soluções locais para evitar o procedimento. Esses cuidados incluem parcerias com empresas de pré-tratamento para evitar problemas na operação e, mais recentemente, aborda também a entrada no mercado de uma nova tecnologia de pré-tratamento utilizando uma bateria de membranas de nanofiltração e ultrafiltração para preparar a água para a osmose. Trata-se do sistema Hydrasub, em lançamento mundial pela Hydranautics, que promete substituir o pré-tratamento convencional (ETA, filtros de areia, carvão e cartuchos) com vantagens técnicas e custo competitivo.

O novo sistema se baseia em membranas capilares submersas, em um tanque com a água a ser tratada, e constituídas em forma de cassete (ou K-7). O conjunto de membranas em fibras capilares de PP (micro) e de polissulfona (ultra), que constitui o cassete, funciona mergulhados dentro do tanque em fluxo out-in. Por sua superfície porosa entra a água e pelo centro ela sai, com taxa de recuperação de 95%. De acordo com o gerente comercial da Hydranautics, Levy Polonio, grande vantagem do sistema é ser autolimpante. “A cada cinco minutos é feita pulsação de ar de 4 segundos para remover as impurezas da membrana e a cada 30 minutos uma contralavagem de um minuto”, explica. Ainda a cada quinze dias é feita limpeza cáustica por cinco minutos.

Segundo Polonio, o pré-tratamento físico remove bactérias, ferro e manganês, além de bactérias, sólidos em suspensão e turbidez, reduzindo também a cor. O problema do fouling biológico na osmose, conforme diz, fica minimizado com essas propriedades. Há também diminuição na quantidade de produto químico para pré-tratamento, mas não a total eliminação, visto que ainda é necessário o uso de coagulantes para a remoção de orgânicos na hora da captação. Outro aspecto levado em conta é a redução de membranas de osmose reversa na unidade. “A água melhora e permite um fluxo maior, caindo em até 40% a necessidade de membranas de osmose”, diz.

A concepção de pré-tratamento com microfiltração e ultrafiltração na verdade não é nova. Outras empresas, como Zenon e Memcore, apesar de terem participação irrisória no mercado nacional já ofertam tecnologias desse tipo. A primeira, aliás, possui sistema parecido com o da Hydranautics, em formato de cassete. Por outro lado, há também grandes clientes, como Petrobrás, que incentivam sistemas de desmi com primeira etapa de micro ou ultrafiltração. A estatal do petróleo convencionou suas licitações de unidades em refinaria com esse tipo de pré-tratamento. Tanto é assim que uma das primeiras etapas do lançamento da tecnologia da Hydranautics no Brasil é se qualificar para entrar no vendor-list da Petrobrás.

Pré-tratamento

Formuladores querem tornar a venda ainda mais técnica

Química e Derivados: Desmineralização: Ramires - modelagem facilita atendimento.
Ramires – modelagem facilita atendimento.

O mercado de pré-tratamento para operações de membrana de osmose reversa é um exemplo direto das melhorias técnicas da desmineralização de água. Voltados para criar soluções químicas que permitam um melhor desempenho das membranas e aumentem sua vida útil, os fornecedores têm notado receptividade crescente dos clientes, dando provas da nova atenção com os cuidados operacionais. Por ser um fornecimento de cunho muito técnico e específico, uma tendência também notada nesse mercado é a migração para a oferta de serviços. Isso porque manter o padrão da água ideal para não danificar ou perder a eficiência da osmose está longe de ser uma simples venda de commodities.

“O mercado estava muito carente de serviço e nós tínhamos o know-how mas não oferecíamos, quando descobrimos a necessidade foi fácil conjugar os interesses”, explica João Teodoro Frutuoso, responsável pelo marketing da Ondeo Nalco para a América Latina, empresa que possui divisão específica de pré-tratamento, oriunda da adquirida PermaCare. A adoção da nova estratégia é recente na Ondeo Nalco, empresa do grupo francês Suez em setembro vendida por US$ 4,2 bilhões para um consórcio de investidores. “Podemos oferecer uma auditoria que avalia desde o sistema de clarificação até a saída da água da osmose ou do leito misto de resina”, disse Frutuoso.

A idéia central é fechar o cerco ao cliente, acompanhando-o desde a concepção do projeto da desmi e criando um pré-tratamento sob medida. Nesse caso, trata-se de tarefa inerente à forma como o grupo Ondeo atua, fornecendo pacotes completos de tratamento de água. Aí há a possibilidade de se operar em conjunto com a empresa de projetos Ondeo Degrémont (até então empresa-irmã, mas que depois da concretização da venda da Nalco deve voltar a ser independente) ou então, quando as unidades são menores, com a EP Engenharia, de Guarulhos-SP.

Química e Derivados: Desmineralização: Gonçalves - tratamento de água é one-to-one.
Gonçalves – tratamento de água é one-to-one.

Mas quando não há a possibilidade de participar do projeto desde o início, o procedimento é fazer uma análise da unidade em operação para propor mudanças e identificar eventuais falhas. Isso pode incluir envio da membrana para autópsia nos Estados Unidos (o que é evitado para não aumentar o custo do levantamento) e, quando o caso for avaliar as resinas de troca iônica (a Ondeo Nalco é distribuidora da Dow para fornecimentos abaixo de 700 litros), recolhem-se amostras das resinas para análise em laboratório.

A linha de produtos químicos da PermaCare são os tradicionais antiincrustantes, biocidas e coagulantes. A novidade é a inclusão da tecnologia Trasar, de traçantes fluorescentes dosados com os antiincrustantes para permitir o seu controle, a ser lançado até o fim do ano no Brasil. “O Trasar vai tornar possível a leitura da dosagem dos produtos, permitindo economia e eficiência à unidade”, lembra Frutuoso. Além do traçante, a tecnologia incluirá ainda um equipamento automatizado para realizar a leitura.

A migração para a área de serviços também se confirma com a breve experiência da Dermet Agekem, com escritório em São Paulo, no mercado de desmineralização. Distribuidora com capital 80% mexicano (Dermet) e 20% de investidores nacionais (ver QD-417, pág. 92), a empresa, como representante exclusiva da americana Biolab, procura fornecer as linhas de produtos químicos para osmose reversa desta empresa com o aspecto serviço agregado. Segundo explica o gerente de negócios da Dermet Agekem, Mauro Ramires, a estratégia conta com a aplicação de um software chamado Flowdose, que orienta o cliente na dosagem e na escolha do tipo de produto necessário para controlar a água de entrada da osmose reversa.

Química e Derivados: Desmineralização: Rey - subsidiária pode bancar estoque in-bound.
Rey – subsidiária pode bancar estoque in-bound.

O Flowdose é específico para o carro-chefe da Biolab em pré-tratamento: a linha de antiincrustantes Flocon, bastante utilizada no Brasil e homologada pelos fabricantes de membranas. O programa é alimentado com os parâmetros do sistema, como vazão, porcentagem de recuperação, existência de retorno do concentrado, balanço aniônico e catiônico. Com os dados, o software calcula os limites de saturação dos sais e propõe um dos oito grades de antiincrustante inorgânico Flocon. “Depois que começamos a usar a modelagem, o desempenho do produto ganhou mais respeito no mercado”, diz Ramires, lembrando que antes da Dermet Agekem a linha era vendida por outra distribuidora, a qual não tinha a preocupação em oferecer o serviço de consultoria técnica.

De acordo com o diretor comercial da Dermet Agekem, Antonio Carlos Gonçalves, a própria contratação de Mauro Ramires, com experiência em tratamento de água adquirida por 20 anos em empresas como Drew, Aquatec e Betz, é uma prova de se adotar uma política diferenciada de vendas. “Tratamento de água tem característica one-to-one, ou seja, não é uma simples venda de produto, mas de serviço personalizado”, diz. Esse tipo de venda/consultoria prestada por Mauro Ramires inclui ainda a comercialização de outros produtos, como a linha de dispersantes orgânicos Floclean, de biocidas à base de DBNPA (dibromonitrila propionamida) da linha Flocide e de ácido peracético Bioper para limpeza química de membranas.

Aliás, de acordo com Gonçalves, o mercado de água como um todo tem sido responsável pela boa diversificação nas vendas da empresa, antes muito centrada no álcool polivinílico da Celanese. “Cerca de 20% do faturamento vem da água”, diz.

Subsidiária nova – Há ainda outras empresas especializadas em pré-tratamento que têm conseguido sobreviver em tempo de recessão e com boas perspectivas com a retomada da economia. A concorrente direta da Ondeo Nalco/PermaCare, em caráter mundial, é a GE Betz, por intermédio dos negócios oriundos da Argo Scientific, hoje totalmente incorporada ao grupo e cujas formulações são comercializadas com o nome comercial de Hypersperse.

Sua estratégia comercial, da mesma forma, também não foge muito da maior adversária: opera de forma integrada com as empresas do grupo, sobretudo com a GE Osmonics, fornecedora de equipamentos e sistemas e com a própria GE Betz, com muitas contas completas de tratamento de água e processos.

Já uma outra concorrente corre por fora também com know-how técnico e de produtos: a Avista Technologies, que a partir do final do ano passa a contar com subsidiária no Brasil. Desde 1999 com representante exclusivo (Acqualease), que já não existe mais, com a estratégia de ter escritório próprio a empresa contará com laboratório para análises mais básicas das membranas.

De acordo com o diretor da Avista no Brasil (e também ex-proprietário da Acqualease), José Paulo Rey Silva, o laboratório será simples, apenas para realizar testes de desempenho e análise visual. “Apenas ao abrir a membrana, já podemos tirar as principais conclusões”, diz. Mas havendo necessidade de se fazer uma varredura por microscopia eletrônica, um pequeno pedaço da membrana é recortado e mandado por correio para a matriz na Califórnia, EUA. “Não mandar o elemento todo faz a autópsia ficar com preço irrisório”, conclui.

Outra vantagem em se tornar uma subsidiária é a possibilidade de trabalhar com todo o portfólio de 30 produtos da empresa no Brasil. Isso porque o grupo americano terá condições de manter o estoque em um armazém alfandegado (in-bound). Quando operavam como representante, havia uma grande dificuldade em criar estoques preventivos. “Tínhamos que importar meio no chute os produtos, imaginando as demandas futuras”, explica Rey Silva. Agora com o in-bound, a empresa nacionaliza os produtos, pagando os impostos de importação, apenas quando há a necessidade e assim não fica na dependência dos demorados embarques.

Além das vendas comuns para estações de osmose reversa em geral, nesse período no Brasil a Avista conseguiu explorar alguns nichos de mercado que hoje se tornaram seus principais clientes. Um exemplo é a indústria farmacêutica, ultimamente cotando e instalando unidades de osmose em aço inox e estéreis, e outro é a Petrobrás. No caso da estatal, Rey Silva contou com a experiência da Avista em seu escritório em Edimburgo, na Escócia, que fornece formulações, para petroleiros do Mar do Norte, de antiincrustantes, biocidas e produtos de limpeza utilizados em unidades de nanofiltração para remoção de sulfato da água do mar usada para injeção em poços de petróleo.

A Petrobrás constrói dessas unidades em suas plataformas construídas em navios (FPSO), como a P50 e a P43. A remoção dos sulfatos é necessária para evitar o aumento da população microbiana, que pode entupir ou dificultar a extração nos poços.

Outro nicho citado pelo diretor da Avista é o fornecimento de produto alcalino em pó, para limpeza química, específico para as novas membranas de 400 pés quadrados. “Essas membranas, com mais área de filme, são bem mais difíceis de limpar e tendem a formar mais fouling coloidal”, lembra. Levando em consideração que o uso dessas membranas se alastra no Brasil, as vendas do produto tendem a crescer, segundo Rey. Também desperta a atenção da Avista o fornecimento de produtos para as novas unidades de ultra e microfiltração instaladas antes da osmose como pré-tratamento. “Não se trata de tecnologia concorrente, essas estações ainda vão continuar precisando de químicos, sobretudo coagulantes e antiincrustantes para livrar a água de ferro, manganês e sílica coloidal”, diz.

Projetos

Empresas aguardam retomada dos investimentos

Química e Derivados: Desmineralização: Leito compacto em usina de Iturama-MG.
Leito compacto em usina de Iturama-MG.

No mercado de desmi, as empresas de projetos de sistemas e equipamentos são das mais atingidas pelos efeitos da recessão econômica. O motivo é óbvio. Com a indústria em estado de letargia por causa da retração no consumo, o primeiro departamento a sofrer cortes foi o de bens de capital. O reflexo disso, durante os últimos meses, foi um festival de postergação de investimentos.

Levando em conta o período que antecedeu a recessão, o impacto nas empresas teve um sabor ainda mais amargo. No final de 2001 e início de 2002, o expediente estava animado com as obras em co-geração de energia. Havia obras suficientes para manter um certa prosperidade e muitas empresas comemoravam recordes de venda. Com a volta ao normal do abastecimento de energia e a queda abissal no preço do megawatt, de 400 reais, na época da crise do apagão, para os 15 reais atuais, que fez vários projetos serem cancelados e várias novas usinas preferirem ficar paradas, a euforia deu lugar à desilusão. Ainda mais quando a esse cenário foi acrescentada à crise econômica mundial que se seguiu.

Só para se ter uma idéia, há empresas de projetos que ainda contam com os resquícios daquela época para manter um pouco o ritmo das vendas. Um exemplo é a Fluid Brasil, de Jundiaí-SP, especializada na construção de unidades de osmose reversa e também de colunas compactas de troca iônica.

Química e Derivados: Desmineralização: compacto da Fluid em Leme-SP.
Compacto da Fluid em Leme-SP.

Projetos de médio prazo, que não levam nunca menos de um ano para ser concluídos, a Fluid ainda finaliza unidades de osmose para a UTE Pernambuco (Iberdrola), em Suape-PE, para a UTE Três Lagoas (Petrobrás), em Mato Grosso do Sul e colunas compactas de troca iônica para a UTE Fluminense (EDF), em Macaé-RJ.

Foram essas obras ainda em andamento, mais várias outras em co-geração de bagaço de cana, como as unidades de osmose na Usina Santa Adélia, em Jaboticabal-SP, na Usina da Pedra, em Serrana-SP, e os leitos compactos na Usina Coimbra Cresciumal, em Leme-SP, que fizeram em 2002 a Fluid comemorar um crescimento histórico de 32%. Mas, da mesma forma, foi a descontinuidade dos investimentos em energia que fez a empresa, por meio de seu diretor, José Eduardo Rocha, querer esquecer 2003. “Acho que só no próximo apagão, já cogitado pela ministra como possível de ocorrer daqui a cinco anos, esse ciclo voltará a ocorrer”, ironiza Rocha.

Química e Derivados: Desmineralização: Zeppelini - crepinas viabilizaram tecnologia.
Zeppelini – crepinas viabilizaram tecnologia.

Não foi só a Fluid a faturar com essas obras. Grandes empresas, como Ondeo Degrémont e Veolia Water, têm vários casos de fornecimentos, e também pequenas empresas de projetos conseguiram vender sistemas para energia. Um caso de pequena empresa é a Yete, de São Paulo. Especializada na elaboração de projetos de leito compacto, sob licença da Bayer, a Yete instalou várias unidades para co-geração, onde a água tratada alimenta caldeiras de alta pressão. Foram obras nas usinas de Iturama-MG, Campo Florido e Lucélia, no interior paulista.

Esses projetos de leito compacto, segundo o diretor da Yete, Paulo Roberto Zeppelini, estão sendo muito aceitos no mercado como uma alternativa moderna de troca iônica, para fazer frente à osmose reversa. E, segundo ele, isso se tornou mais possível depois da disponibilidade de crepinas mais modernas, que a Yete representa da alemã KSH. Isso porque antigamente, com as crepinas nacionais, o fluxo inverso do leito compacto aos poucos fazia escapar a rosca desse dispositivo utilizado para espalhar a água nas colunas.

Química e Derivados: Desmineralização: Sistema WFI - água ultrapura de injetáveis.
Sistema WFI – água ultrapura de injetáveis.

E as vantagens dos leitos compactos são inúmeras: melhor aproveitamento e durabilidade das resinas, menos uso de regenerantes, sem necessidade de muita retrolavagem e de lavagens em vaso separado. Esse último atributo é possível com a lavagem por ar comprimido feita dentro dos vasos operacionais.

Química e Derivados: Desmineralização: Rocha - vontade de esquecer 2003.
Rocha – vontade de esquecer 2003.

Novos negócios – Apesar da boa fase passada em energia, a lide diária não deixou o setor ficar nostálgico e sem pensar em novas oportunidades de negócios. Pelo contrário, a exploração de nichos é nítida nas empresas de projeto. Um caso interessante ocorre no setor farmacêutico, que passou a abrir concorrências para comprar sistemas de osmose reversa para água ultrapura para injetáveis, o chamado sistema WFI (water for injection). Trata-se de equipamentos em aço inox 316 eletropolido internamente, estéreis, para baixos volumes de água, mas de alta qualidade.

Por ser uma venda de alto valor agregado, o sistema WFI tem atraído interesse de todos os fornecedores. Tanto a Fluid Brasil como a Yete, já citadas, possuem seus projetos de sistemas WFI. Outras, como a Perenne, também se enveredam no mesmo caminho. “Há dois prontos cruciais nesses projetos: a água precisa ser totalmente livre de bactérias e endotoxinas, mantida em recirculação a 80ºC, e ter condutividade abaixo de 1 microsiemens”, afirmou José Eduardo Rocha, da Fluid Brasil, que fornece os equipamentos com membranas da Dow de 4 polegadas da linha Full Fit.

A Perenne também fez seu próprio projeto de equipamento para injetáveis. “Atendemos a norma USP 24 e o padrão Hemope para fazer um equipamento em duplo passo que produz água isenta de pirogênio e TOC abaixo de 500 ppb”, afirma o gerente José Eduardo Pacheco, da Perenne.

Aliás, essa tentativa de entrar em um mercado mais especializado faz parte de plano da Perenne de se tornar empresa de engenharia completa, não apenas fornecedora de equipamentos isolados. “Passamos a notar que o melhor é segurar o cliente pelo serviço”, diz. O plano inclui fornecimentos do tipo BOT, como já foi feito em três contratos, com a Casa da Moeda, Copersucar e Carioca Shopping, no Rio. São normalmente parcerias com outras empresas de engenharia de água, como Geoplan e Hidrogesp, onde a Perenne entra com a construção, a operação e a futura transferência da desmineralização. Iniciativa comum também em outras empresas de projetos, a busca por outras modalidades de negócios mostra que o setor não se deixa abater pela recessão.

Resinas de troca iônica

Produtores mudam estratégia de marketing para melhorar as vendas

Química e Derivados: Desmineralização: Uma das idéias é melhorar a assistência às unidades.
Uma das idéias é melhorar a assistência às unidades.

Base da tecnologia mais tradicional de desmineralização de água, as resinas de troca iônica tornaram-se objeto de reformulação estratégica dos profissionais do marketing. Também sofrendo com os anos de recessão, e o conseqüente aperto nas contas do mercado industrial, os fornecedores estão precisando criar alternativas para aumentar um pouco as margens de lucro. A saída, a despeito do termo já ser considerado um lugar-comum, foi agregar valor ao produto: transformar a simples venda das resinas estirênicas e acrílicas em um serviço industrial de desmineralização de água.

Esse fenômeno ganha importância, de início, por ser intenção declarada da líder mundial e local no setor, a americana Rohm and Haas. Seu business plan global para 2004 se baseará no conceito The Amber Edge, uma nova diretriz de marketing da empresa em resinas de troca iônica. E o objetivo central, segundo explicou o gerente de novos negócios e desenvolvimento, Osmar da Cunha, é mostrar para os clientes, tanto os tradicionais como os novos, as vantagens de se fechar um contrato mensal de fornecimento e prestação de serviços. “Queremos criar um vínculo maior com o consumidor, já que nossa venda depende muito da consultoria técnica”, diz.

Química e Derivados: Desmineralização: Belarmino (esq.) e Osmar - R&H muda estratégia comercial.
Belarmino (esq.) e Osmar – R&H muda estratégia comercial.

Apesar de estar vendendo resinas há quase três décadas no Brasil, e por ter acumulado experiência teórica e prática na aplicação, a Rohm and Haas, segundo Cunha, não estava deixando muito clara sua capacidade de oferecer mais do que simplesmente vender as resinas de troca iônica. Plano mundial que vai englobar as três famílias de resinas (Amberlite, Amberjet e Amberpack), em três regiões (Europa, Ásia/Pacífico e Américas), o Amber Edge serve para reforçar a idéia de serviço e para criar novas necessidades. “Há clientes que podem passar a usar as resinas também para recuperar efluentes, mas ainda não o fazem pela falta de comunicação”, exemplifica Cunha. Nesse caso, em uma primeira fase, o gerente chama a atenção para o crescente interesse em recuperação de mercúrio em indústria de soda-cloro. Mais para a frente também poderá ser utilizada a resina no processo do aditivo para gasolina isooctano, substituto do MTBE (metil-tércio-butil-éter), e para potabilização de água de poço contaminado com nitrato ou cromo.

“O conhecimento em água está começando a se tornar tão valioso como foi, anos atrás, o de eletrônica ou petroquímica”, ressalta o gerente comercial de água e processo da R&H, André Berlamino. “Daí a necessidade de valorizar o know-how da empresa, que vai ser muito útil para se conquistar ganhos.”

Esse conhecimento, segundo Belarmino, se traduz também por muitos desenvolvimentos locais, em parcerias com universidades, como Instituto Mauá de Tecnologia e a Universidade Mackenzie. Ganha destaque, por exemplo, uma pesquisa realizada na Mauá para recuperação de metais em efluentes de galvanoplastias.

Química e Derivados: Desmineralização: Sousa intensificou o atendimento aos clientes.
Sousa intensificou o atendimento aos clientes.

Mais serviço – Não é só a Rohm and Haas, no ramo das resinas de troca iônica, a interessada em se transformar em empresa de serviços. Uma nova concorrente em rota de crescimento nos últimos anos no Brasil, a americana Purolite, também credita a seu enfoque em serviços o bom desempenho comercial, que faz a empresa prever a quadruplicação do faturamento em 2003. De acordo com o gerente geral, Fábio Sousa, na verdade foi a mudança de estratégia para a venda de serviços que fez a empresa achar seu caminho de prosperidade. Segundo ele, isso ocorreu a partir do momento em que começou a dar um atendimento mais intensivo aos clientes, a partir do início de 2001 (a empresa inaugurou escritório em São Paulo em setembro de 2000).

“A tradição nesse mercado é o cliente só receber visita dos ‘resineiros’ depois de quatro anos da venda, quando acontece um problema”, diz. Consciente do gargalo do mercado, Sousa afirma ter iniciado um programa de acompanhamento de perto do processo dos clientes, que inclui desde visitas pessoais, telefonemas e e-mails.

Quando se trata de obra nova, a estratégia é dar atenção desde o start-up da unidade. “Tenho certeza que conquistei várias contas com a estratégia”, diz. Entre esses novos clientes, ele comemora, por exemplo, a entrada na Copene, em Camaçari-BA, e também na Petroquímica União, de Santo André-SP, cujos abastecimentos eram até então restritos aos fornecedores tradicionais.

Faz parte da prestação de serviços da Purolite realizar acompanhamentos estatísticos das unidades, com a elaboração de gráficos e monitoramentos de desempenho, como por exemplo para controlar a quantidade de regenerante por metro cúbico de água produzida por ciclo. “Com esse controle de perto, o cliente tem condições de aproveitar e cuidar melhor da resina”, diz. A iniciativa de acompanhamento, de acordo com Sousa, revelou que a perda de volume de resina por descuido é muito grande e comum na indústria brasileira: supera os 20% anuais. O certo seria manter um padrão de perda natural, por desgaste e quebra, de cerca de 5%. “E o pior é que eles costumam não repor as resinas perdidas, comprometendo a desmineralização”, completa.

O gerente também alerta para outros problemas operacionais descobertos nesses atendimentos. Um muito comum é o descuido com os filtros de carvão ativado utilizados antes da troca iônica para remover cloro. Muitas empresas não realizam a troca anual do carvão, deixando passar contaminantes orgânicos para danificar as resinas. “Já vi clientes sem trocar o carvão há cinco anos”, diz. Essa preocupação fez até a Purolite buscar um parceiro internacional para distribuir carvão ativado no Brasil, cujo nome Fábio Sousa prefere não revelar.

Química e Derivados: Desmineralização: Klaus - poucos negócios e muita disputa.
Klaus – poucos negócios e muita disputa.

Essa mudança de foco na Purolite, segundo o gerente geral, foi também uma resposta à estratégia adotada inicialmente pela subsidiária brasileira. No seu primeiro ano de atuação, a empresa deixou passar ao mercado a imagem de que seu produto era apenas uma opção mais econômica, de qualidade inferior.

“Hoje conseguimos recuperar o preço e a imagem de produto com o mesmo nível dos concorrentes”, diz. A “nova fase” da Purolite inclui também uma reestruturação de sua rede de distribuição. Os atuais cinco distribuidores estão sendo reavaliados e cogita-se a necessidade de se criar representantes pelo Brasil.

Disputa dura – Apesar da euforia da Purolite, o clima quase unânime no mercado é de retração nas vendas. Contando com quatro competidores diretos (além da R&H e Purolite, ainda há Bayer e Dow) e outro indireto distribuído pela Kurita (Mitsubishi), a concorrência tem se mostrado acirrada. Compartilha dessa opinião o chefe de vendas da Bayer, Klaus Axthelm. “São poucos negócios e todos eles disputados com fervor pelas empresas”, lamenta Klaus.

Klaus cita como o último grande ciclo de investimentos interessantes para a desmineralização com troca iônica a co-geração de energia. Foram os projetos iniciados na seqüência da crise do apagão, que incentivou as usinas sucroalcooleiras a investirem na energia do bagaço de cana e o governo em termoelétricas a gás e óleo. Porém, mesmo com o boom que houve até 2001, com a queda no preço da energia e a volta ao normal no abastecimento o mercado estagnou.

Um setor que mantém um certo fôlego investidor é o de papel e celulose. Mas aí há uma competição mais feroz. Se na co-geração de energia há compatibilidade tecnológica maior com as colunas de troca iônica, no mercado de desmi para caldeiras de alta pressão o crescimento de uso dos skids de osmose reversa tem sido exponencial. E para Klaus Axthelm essa escolha pelas membranas não é muito correta. “A membrana é muito delicada e qualquer ataque oxidante eventual danifica um trem inteiro de desmi, já as resinas são mais robustas e podem continuar a operar até mesmo se passar 1 ppm de cloro”, diz. “Basta reduzir o ciclo, identificar o problema na alimentação, mas sem precisar interromper a planta.”

Uma prova do crescimento na opção pelas membranas em desmi do setor de celulose e papel é a Dow Química ter fornecido recentemente para a linha C da Aracruz Celulose 890 membranas de oito polegadas Film Tech. É sintomático aí a Dow também ser fornecedora de resinas de troca iônica, que por sua vez ainda continuam a ser utilizadas para o leito misto de polimento dessas unidades.

Mas mesmo assim ainda há grandes projetos em discussão em que ainda não foi definida a tecnologia, se osmose ou troca iônica, dando provas de que nada ainda está perdido para as resinas. Os principais exemplos são obras programadas para este ano na Veracel, em Eunápolis-BA, e na Riocell, em Guaíba-RS.

Serviços

Cresce demanda por unidades móveis e operações terceirizadas

Química e Derivados: Desmineralização: Planta de regeneração da Veolia em Cotia-SP - 250 cilindros em cerca de 50 clientes.
Planta de regeneração da Veolia em Cotia-SP – 250 cilindros em cerca de 50 clientes.
Química e Derivados: Desmineralização: Planta de regeneração da Veolia em Cotia-SP - 250 cilindros em cerca de 50 clientes.
Planta de regeneração da Veolia em Cotia-SP – 250 cilindros em cerca de 50 clientes.

A onda mundial que leva muitos grupos produtores a migrarem para a área de serviços é levada mais ao pé da letra por algumas empresas do mercado da desmineralização de água. Para estas, não basta mudar o escopo de marketing, como está fazendo a Rohm and Haas ou como já fez a Purolite, ambas fornecedoras de resinas de troca iônica. As mais radicais na nova onda precisaram criar novas unidades de negócios ou até conceber suas atividades iniciais para satisfazer o apetite pela “nova” oportunidade chamada prestação de serviços.

Como nova unidade de negócios criada para atender a demanda por serviços, um exemplo marcante é a criação da SDI, da francesa Veolia Water Systems, situada em Cotia-SP. Inaugurada em abril de 2002, trata-se de uma unidade de regeneração de colunas de troca iônica que se responsabiliza por cerca de 50 clientes da região, que se utilizam de cilindros da própria Veolia em formatos de 15, 30, 60 e 100 litros. Semanalmente, ou conforme a necessidade, um caminhão da SDI Veolia passa pelos clientes para levar os cilindros saturados e deixar outros já regenerados.

A forma de contratação é por aluguel mensal dos equipamentos e por cobrança das regenerações à parte. “Isso depende da vazão do cliente, temos alguns que precisam de duas regenerações semanais e outros que precisam uma vez por mês”, explica o gerente de vendas da SDI, Francisco Faus. Além das regenerações alcalinas (vasos aniônicos) e ácidas (catiônicas), a SDI ainda instala e se responsabiliza pelos vasos de carvão ativado, os quais a cada três meses são retrolavados no cliente com água desmineralizada produzida pela própria Veolia em seu site em Cotia-SP.

De acordo com o gerente da SDI, a prestação de serviço começa com o dimensionamento e a instalação do sistema de desmi no cliente. Essa etapa inclui a colocação de um pré-filtro com indicador de vazão e os cilindros catiônicos, aniônicos e de dois leitos mistos para polimento. Além disso, há clientes que usam pós-filtragem ou ultravioleta quando há demanda por água ultrapura.

Química e Derivados: Desmineralização: Faus - clientes não precisam investir.
Faus – clientes não precisam investir.

Todas as unidades usam dois cilindros de polimento porque a estação se utiliza de um sistema de controle por sensor que avisa, com o acendimento de uma luz, quando o primeiro leito está saturado e precisa ser reposto. Em virtude do segundo demorar mais para se esgotar, porque por ele passa uma água praticamente desmineralizada, cria-se uma grade de tempo suficiente para manter a unidade operando até o caminhão da Veolia trazer outros cilindros.

O diferencial da SDI do grupo francês é sua concepção. Trata-se de unidade automatizada, onde há grandes colunas de regeneração, cada uma para um tipo de resina (catiônica, aniônica e leito misto), interligadas por tubulações e onde mangueiras de borracha conectadas recarregam os cilindros com resina tratada. Ainda faz parte uma unidade de osmose reversa para 8m3/hora, utilizada para fornecer água desmi para lavagem da regeneração e também para venda a terceiros.

A unidade toda tem capacidade para regenerar 54 mil litros de resina por mês, em um turno, e trata cerca de 400 cilindros. Hoje a empresa, atendendo clientes da indústria farmacêutica, cosméticos, química e laboratórios de análise, está com ocupação de 40%, regenerando 250 cilindros instalados e 150 mantidos para reposição na SDI. A clientela, com demandas de tratamento para caldeiras pequenas e água de processo, vai de uma vazão de 20 litros por hora até 3 m3/h. Segundo Faus, trata-se de um perfil de empresa pequena, a maior parte no estado de São Paulo em um raio de 200 km de Cotia, com exceção de algumas em lugares mais distantes, como São José do Rio Preto, Ribeirão Preto e até em Goiânia-GO.

Esse tipo de serviço prestado pela Veolia é cópia de outros modelos bem-sucedidos do grupo internacional. Apenas nos Estados Unidos, há dez dessas unidades de desmineralização, sete na Europa, uma no México e duas na Ásia. A do Brasil, segundo Francisco Faus, tem mostrado o mesmo desempenho das estrangeiras. “A aceitação é muito boa, porque o cliente não precisa manipular ácido e soda e porque, principalmente, não precisa investir em uma unidade própria”, diz. A empolgação do gerente também tem caráter estatístico: em 2003 a empresa deve triplicar o faturamento e a projeção para 2004 é crescer 30%. Ajudará nessa meta outros serviços prestados pela SDI: limpeza química de membranas e manutenção de equipamentos fornecidos pela Veolia Water Systems, fornecedora de sistemas de água do grupo.

Química e Derivados: Desmineralização: Angélica - opção de pequenas regenerações.
Angélica – opção de pequenas regenerações.

É bom ressaltar que o conceito da unidade de regeneração terceirizada não é novo no Brasil. Há outras empresas menores que realizam a regeneração, mas em processos quase manuais e com estrutura familiar. O diferente na iniciativa da Veolia é o aspecto construtivo da planta industrial, concebida como uma fábrica, e ainda a logística e as tecnologias utilizadas, desde os cilindros em polietileno com fibra de vidro da inglesa Elga (do grupo Veolia) até os sensores por condutivímetro. Similar a esta unidade, existe apenas uma em Curitiba-PR, a Permution.

Já as empresas menores normalmente contam com pequenos tanques de ativação para regenerar e separadores acrílicos para retrolavar os leitos mistos. Dentre essas empresas, um exemplo é a Stella Resinas, de Taboão da Serra-SP. Há sete anos no mercado, a empresa conta com clientes da área farmacêutica, como a Fundação para o Remédio Popular (Furp), da qual recebe semanalmente cilindros de 50 litros para regenerar, e outros como a Transition, fabricante de lentes de contato, para a qual regenera colunas de 175 litros. São serviços de pequena dimensão mas adequados às necessidades do mercado.

“Para empresas pequenas compensa terceirizar a regeneração, porque elas não precisam tirar as licenças estaduais e municipais de manipulação de ácido e soda que nós temos de ter”, explica a diretora da Stella Resinas, Angélica Medeiros. Além da regeneração, a Stella também fornece pequenas quantidades de água desmineralizada produzida por troca iônica própria e conta ainda com departamento de engenharia para projetar colunas. Outra forma de terceirização realizada é a regeneração no cliente, modalidade de serviço que a Stella Resinas faz para clínicas de hemodiálise e também para indústrias.

Química e Derivados: Desmineralização: Piaia amplia estoque de unidades de aluguel.
Piaia amplia estoque de unidades de aluguel.

BOOM deu certo – Prova da boa aceitação das ofertas de terceirização é um tipo de serviço recentemente introduzido no Brasil ter demonstrado evolução. Desde que inaugurou, no final de 1998, escritório em São Bernardo do Campo-SP, a norte-americana Ecolochem (ver QD-379, pág. 25) tem conseguido manter um ritmo aceitável de contratações terceirizadas para produção de água desmineralizada do tipo BOOM (build own operate and maintenance). Utilizando seus próprios equipamentos, sejam unidades de osmose reversa ou de troca iônica vindas dos EUA, a Ecolochem segue fechando contratos de serviços, sob pagamentos fixos mensais, para curta ou longa duração.

“Estamos ampliando o estoque e procurando manter o portfólio completo de nossos equipamentos, não só skids e sistemas montados em contêineres, mas até abrandadores e outros filtros”, diz o diretor da Ecolochem, Rolando Piaia Jr. Segundo ele, essa demanda tem sido incentivada por empresas de vários setores, não apenas termoelétricas como foi no início da implantação da empresa no Brasil. Há muitos casos de indústrias que passam por paradas de manutenção e precisam também desligar as unidades de desmi. Nesses casos de curta duração, a Ecolochem instala seus sistemas para manter o fornecimento.

E há exemplos de contratos de médio e longo prazo. Um destacado pela Ecolochem engloba fornecimento de sistema para tratar água do Rio Tietê da região metropolitana de São Paulo para uma indústria alimentar caldeiras e usar água de processo. Embora não dê maiores detalhes, Piaia considera um caso de sucesso em razão das dificuldades técnicas. “O DBO e DQO eram próximos do esgoto doméstico, o flúor era de 2 ppm e a condutividade de 1.100 µS”, ressalta. Há um ano em operação, a unidade de osmose utilizada foi adaptada à clarificação e filtração existentes. “A empresa deve renovar o contrato”, diz.

Outro indicativo do progresso nos negócios é a empresa estar operando em algumas ofertas com a Ondeo Nalco, líder em tratamento de água industrial e efluentes. “Estamos trabalhando juntos em projetos de curta e média duração”, ressalta o diretor. Com a parceria, a competitividade do grupo se fortalece, sobretudo por se tratar de grupo com condição de também arcar com investimentos iniciais para fechar contratos de terceirização.

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