Defensivos: Ferrugem da soja faz crescer o mercado de fungicidas

Aparecimento da doença altera a distribuição dos negócios com agroquímicos, ainda liderada por herbicidas

Química e Derivados: Defensivos: defensivos_abre. ©QD Foto - Stock PhotosCausador da ferrugem asiática, o fungo Phakopsora pachyrhizi redesenhou o cenário do agronegócio nacional. De acordo com levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a doença gerou gastos da ordem de US$ 2 bilhões, durante a safra da soja de 2003/2004. Essa soma abarcou as despesas com o controle químico e as perdas na colheita – os agricultores registraram prejuízo de cerca de 4,5 milhões de toneladas de soja. No entanto, nem só infortúnios produz um sinistro. Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag) estimam aumento da ordem de US$ 300 milhões, nas vendas de fungicidas para soja, entre 2002 e 2003.

Química e Derivados: Defensivos: Da Ros - exportações registram US$ 380 milhões em 2003. ©QD Foto - Cuca Jorge
Da Ros – exportações registram US$ 380 milhões em 2003.

“Esse incremento não se refere só à ferrugem asiática, mas a principal contribuição foi da doença”, ressaltou o diretor-executivo do Sindag José Roberto Da Ros. O mercado de defensivos agrícolas como um todo se beneficiou da situação. Em 2003, o setor registrou vendas de US$ 3,1 bilhões.

Por conta desse avanço, a participação dos fungicidas também se reposicionou no setor. No ano passado, o grupo de defensivos respondeu por 23% das vendas totais, representando aumento de 5%, frente a 2002. “Hoje a demanda maior é de fungicidas”, afirmou o diretor da Milenia Agro Ciências Luiz César Guedes. Por tradição, os herbicidas bancam a maior parte do consumo, sobretudo no que tange as culturas de soja, cana-de-açúcar, milho, arroz e algodão. Em 2003, essa classe continuou com a maior fatia do mercado: 49% das vendas.

Mas perdeu pontos percentuais, em relação a 2002, quando somou 51%. O mesmo aconteceu com a classe de inseticidas; o consumo passou de 24%, em 2002, para 23% no ano seguinte. O restante do setor se divide entre os acaricidas (2,5%) e os fitoreguladores e adjuvantes.

Soja em alta – Para Guedes, os ganhos não foram apenas quantitativos, pois a venda de fungicidas requer aparatos sofisticados, ao contrário da dos herbicidas. “Esse defensivo é um produto de alta qualidade técnica”, comentou.

Química e Derivados: Defensivos: Tassára - todos os cultivos nacionais estão crescendo. ©QD Foto - Cuca Jorge
Tassára – todos os cultivos nacionais estão crescendo.

Na avaliação do gerente de marketing Brasil da Divisão Agro da Basf David Tassára, todas as culturas vêm crescendo, mas a soja foi uma das culturas que mais impulsionou o mercado, nesta última safra. Especialistas do setor prevêem, para a próxima safra da soja, aumento de 3 milhões de hectares da área cultivada no País.

Em 2002, os principais consumidores de defensivos agrícolas foram São Paulo – responsável por 22% das vendas – e Mato Grosso e Paraná, cada um respondeu por 16% do total. Não por acaso, esses dois estados são os maiores produtores de soja no País, nesta ordem. No ano passado, essa cultura respondeu por 44,2% do total das vendas dos agroquímicos no País.

O algodão veio em seguida, com 10,4%. As culturas de milho e cana-de-açúcar ficaram logo atrás, com 8,4% e 8,0%, nesta ordem, segundo dados do Sindag. Na avaliação do diretor de marketing da Syngenta Proteção de Cultivos Renato Guimarães, em três anos, o plantio de soja e algodão aumentou mais de 7 milhões de hectares.

Esse cenário estimula perspectivas positivas. O presidente executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) Cristiano Walter Simon aponta o avanço das culturas da soja e do algodão, como uma das principais potencialidades do setor. Para a primeira, estima crescimento do valor do mercado de 15%, enquanto para o algodão, a previsão é de 10%. De acordo com ele, a área plantada dessas duas culturas deve expandir até 5%, leia-se nas entrelinhas, aquecimento nas vendas dos agroquímicos. Para Simon, nos últimos três anos, o algodão se mostrou com grande potencial para a ascensão do mercado de defensivos.

Química e Derivados: Defensivos: Simon - fruticultura tem potencial para crescer. ©QD Foto - Cuca Jorge
Simon – fruticultura tem potencial para crescer.

“Essa cultura vem tomando espaço da soja em algumas regiões, sobretudo no Mato Grosso”, contou. A título de comparação, em 2002, o algodão respondia por 9,09% das vendas do setor de defensivos agrícolas, ficando atrás da cana-de-açúcar, na época responsável por 11,5% do consumo.

Além das culturas tradicionais, as vendas dos agroquímicos têm apontado novos rumos para os fabricantes, sobretudo em relação à fruticultura. Na opinião de Simon, apesar de não ser um mercado novo para o setor, esse segmento tem evoluído a ponto de ser considerado o de maior potencial de crescimento para os próximos anos, em função do interesse dos mercados internacionais pelas frutas brasileiras.

Em expansão – Independente das particularidades de cada cultura, o mercado nacional de defensivos agrícolas inspira bons negócios. As vendas de 2003 (US$ 3,1 bilhões) confirmam o potencial do setor. Para se ter uma idéia, em 2002, o faturamento foi de US$ 1,952 bilhão e no ano anterior, US$ 2,287 bilhões. Apesar das taxas positivas, o ano de 2002 não serve como parâmetro. Para Simon, nesta época as empresas faturaram menos, porque o nível de estoques dos distribuidores estava muito elevado. No entanto, o mercado pode ser avaliado em cerca de US$ 2,4 bilhões, se considerado o volume de defensivos agrícolas efetivamente destinado ao campo, ou seja, em uso. “O ano de 2002 foi de ajustes”, completou Tassára.

O bom desempenho do setor nesses últimos anos sustenta projeções animadoras. Simon estima para 2004, crescimento de 10% sobre as vendas de 2003. Essa previsão se fundamenta, entre outros fatores, em incrementos nas tecnologias empregadas no campo e no aumento do consumo de fungicidas. “Assim como a soja continuará em evidência, a ferrugem asiática não desaparecerá”, justificou. Segundo informações da Syngenta Proteção de Cultivos, em 2001, os gastos dos agricultores com a prevenção da ferrugem somaram US$ 100 milhões, e no ano passado, US$ 400 milhões.

Os primeiros focos da doença apareceram em 2001. Desde então um dos desafios do agricultor tem sido a sua identificação na fase inicial, pois esta pode ser confundida com a mancha parda ou com Septoria glycines. A ocorrência da ferrugem asiática está associada às condições climáticas, pois temperaturas médias menores de 28ºC e molhamento foliar de mais de 10 horas favorecem a infecção da planta. Disseminada pelo vento, a ferrugem asiática causa desfolha precoce da soja e redução de peso do grão. Segundo a Embrapa, nos casos mais severos, houve perdas de cerca de 70% da produção. No entanto, os danos poderiam ter sido bem maiores, não fosse a agilidade da indústria de fungicidas.

Reação do setor – Todos os fabricantes, cada um à sua maneira, saíram em defesa da soja e, obviamente, de aumentos de vendas. Em função de estudos realizados ao longo de cerca de dez anos e regados a investimento de US$ 100 milhões, o grupo Basf apresentou ao mercado o Ópera, fungicida pertencente à família F500, representante do princípio ativo pyraclostrobin. “É um produto de excelente performance, que oferece segurança total para o agricultor”, ressaltou Tassára. Apesar de ser indicado para diversas culturas como trigo e café, o principal mercado do produto é o da soja, sobretudo por conta de sua eficiência contra a ferrugem. Com ação sistêmica, o fungicida trata-se da combinação entre o F500 e o epoxiconazole. De acordo com Tassára, o produto se destaca em função de seu efeito protetor e curativo, além do longo período de controle e amplo espectro.

A Syngenta Proteção de Cultivos investiu US$ 200 milhões em pesquisa e desenvolvimento para lançar o Priori Xtra, outro fungicida com apelo contra o fungo Phakopsora pachyrhizi. Esse investimento faz jus às expectativas da empresa. Para o gerente de linha de produtos da companhia, Odanil Manoel de Campos Leite, os planos da Syngenta visam tornar o produto uma referência para o setor. “Queremos que o Priori Xtra seja o ´Nike´ dos fungicidas”, disse, em alusão à conhecida marca de calçados. O produto – uma combinação dos fungicidas azoxistrobina e ciproconazol – possui duplo mecanismo de proteção sistêmica, sendo indicado para o controle preventivo de doenças nas culturas da soja e trigo. Na opinião de Leite, essa dupla atividade sistêmica confere amplo espectro de controle e o mais longo residual na sua categoria. Segundo a Syngenta, outra vantagem dá conta da penetração mais rápida e homogênea nos tecidos da planta. “Isso assegura que, após a aplicação, o produto possa proteger a folha por completo e por mais tempo, não deixando áreas vulneráveis às doenças”, explicou Leite. De acordo com estudos da companhia, o uso do produto propicia ganho de até cinco sacas por hectare plantado de soja, na comparação com os fungicidas comuns. Para o gerente de marketing da Syngenta Antonio Carlos Costa, para alcançar esse índice de eficiência, a empresa investe cerca de 10% do faturamento mundial em pesquisas.

A Bayer CropScience também apresentou inovações para o controle da ferrugem asiática: o fungicida Sphere. Também indicado para doenças de final de ciclo e de oídio, o produto associa em sua composição dois ingredientes ativos: um triazol sistêmico, o cyproconazole, e uma estrobilurina mesostêmica, o trifloxystrobin. De acordo com os especialistas do grupo, o modo de ação mesostêmico oferece ao Sphere grande afinidade com a superfície vegetal. O ingrediente ativo é absorvido pela camada cerosa, redistribuindo-se graças ao seu movimento superficial de vapor e redeposição. Outra vantagem dá conta do cyproconazole, responsável pela penetração no tecido e seu transporte no sistema vascular no interior da planta. O Sphere apresenta características de resistência a fatores climáticos, sobretudo às chuvas.

No País desde 1968, a Hokko do Brasil também trouxe novidades ao segmento de fungicidas. A empresa acaba de lançar o Eminent 125 EW. “Trata-se do novo triazol de última geração, com uma molécula de tetraconazole”, explicou o coordenador de marketing de Fungicidas Luis Gustavo Gonella. Para ele, o produto se destaca pela alta eficiência no controle de fungos de várias classes, sobretudo no ataque à ferrugem asiática. Na cultura da soja, o Eminent 125 EW vem para conferir maior estabilidade físico-química, termodinâmica e, segundo Gonella, excelente compatibilidade com o tecido vegetal. Além disso, o agroquímico foi desenvolvido com solventes e surfactantes biodegradáveis. “O fungicida não apresenta toxicidade, inclusive na floração”, completou. Além da cultura da soja, o produto é registrado para doenças foliares do trigo, arroz e algodão.

Alta produção – Apesar de ser a bola da vez, os fungicidas não resumem o setor. O herbicida glifosato (desenvolvido pela Monsanto, cuja proteção de patente já caducou) continua líder de mercado. De acordo com Da Ros, 14 empresas registram a molécula hoje. “É a principal commodity, em valores; os produtos à base do glifosato são os mais vendidos no Brasil”, comentou.

A Syngenta lançou neste mês o Callisto, um novo herbicida para a cultura do milho. O produto é um pós-emergente, a ser aplicado entre 10 e 20 dias após a planta do milho ter germinado. O princípio ativo do Callisto é o mesotrione, desenvolvido a partir de uma toxina natural liberada pelo arbusto “escova de garrafa”, conhecido pela eficiência no controle de várias plantas daninhas. “Callisto é uma forma de evitar que as plantas invasoras desenvolvam precocemente resistência a herbicidas, já que seu princípio ativo é inédito e diferente dos demais produtos no mercado”, disse o gerente de produto da linha de herbicidas, Filipe Bettanio Guimarães.

O herbicida Hexaron WG, produzido pela Milenia Agro Ciências, por sua vez, destina-se ao setor sucroalcooleiro. Esse produto de pré e pós-emergência foi lançado no segundo semestre de 2003 e está se tornando o carro-chefe do portfólio da Milenia para o segmento de cana-de-açúcar. No segmento de acaricidas, o grupo também apresentou novidades. Trata-se dos Acarit e Parsec, voltados para a cultura de citrus, em especial para as lavouras de laranja. O Acarit possui ação de choque e pode ser aplicado nas principais fases da cultura. Além disso, tem um longo período residual e apresenta altos índices de seletividade, protegendo dos inimigos naturais da praga. O Parsec, segundo o fabricante, se diferencia pela segurança no controle, por ser desalojante e repelente, induzindo maior exposição dos ácaros.

Líder em faturamento no mercado de defensivos agrícolas, a Bayer CropScience oferece diversos ingredientes ativos no seu portfólio. A empresa lança de três a quatro novos produtos por ano. Para se ter uma idéia, em 2002, o grupo destinou para a área de pesquisa e desenvolvimento mundial, 2,6 bilhões de euros. Por conta dos constantes investimentos, o grupo apresenta, neste ano, além do Sphere, três novos produtos, o Hussar – indicado para o controle de plantas daninhas na cultura do trigo -, o Flint, fungicida de combate da sarna-da-macieira, e o Poncho, inseticida para tratamento de sementes de milho.

Química e Derivados: Defensivos: Oliveira - normas atuais inviabilizam genéricos. ©QD Foto - Cuca Jorge
Oliveira – normas atuais inviabilizam genéricos.

Em prol dos genéricos – Em 2002, a Aenda abandonou o título de Associação das Empresas Nacionais de Defensivos Agrícolas, para se tornar Associação Nacional dos Defensivos Genéricos.

Apesar de manter a sua linha de atuação, a mudança teve como objetivo ampliar a abrangência da entidade. “As empresas instaladas no País, sejam de capital brasileiro ou não, são consideradas nacionais”, justificou o diretor-executivo da Aenda Tulio Teixeira de Oliveira. Além disso, desde sua origem, a associação defende os interesses da indústria nacional de produtos formulados, a partir de ingredientes ativos cujas patentes expiraram, os chamados genéricos.

Por conta dessa proposta, a Aenda continua lutando a favor da simplificação do sistema de registro. Há cerca de dois anos foram editados o decreto 4074/2002 e a instrução normativa 49/2002, estabelecendo o regime de registro por equivalência, no entanto, as mudanças ainda não saíram do papel.

A reivindicação da entidade busca facilitar o acesso dos fabricantes de genéricos ao mercado. De acordo com Oliveira, as normas atuais tornam inviável a renovação das linhas de produtos das companhias nacionais, por conta do custo e da burocracia requeridos para o registro dos defensivos. “É um obstáculo muito grande para as empresas dedicadas a genéricos”, explicou.

Na avaliação dele, na década passada, para colocar um produto genérico no mercado, chegava-se a gastar R$ 2 milhões, só com a regulamentação. “Esse sistema é muito pesado e hermético, isso fez com que a estrutura de oferta de produtos ficasse mais concentrada nas grandes empresas”, afirmou. O registro por equivalência pretende desobstruir a passagem nas empresas nacionais, pois atenua os gastos do fabricante. A título de comparação, o registro de um genérico passaria a custar cerca de R$ 100 mil, pela estimativa de Oliveira.

Na prática, o regime por equivalência reduz os testes exigidos para a comercialização dos produtos, porém não exime o fabricante da responsabilidade sobre a qualidade dos mesmos. “Serão menos testes, porém o grau de profundidade das análises químicas será maior”, avaliou Oliveira. Com a mudança, a indústria terá outros desafios, como o de formular o ingrediente ativo com as impurezas semelhantes às do original. Para Oliveira, um dos problemas é a falta de infra-estrutura para esse tipo de análise. “Temos poucos laboratórios com essa competência”, observou. Por conta da dificuldade de rastrear as impurezas do produto, uma alternativa, pelo menos em um primeiro momento, para Oliveira, será comprar ingredientes sintetizados em outros países que já realizaram esses testes, como a China.

O diretor de Assuntos Corporativos da Milenia Luiz César Guedes concorda com a análise de Oliveira. Para ele, ainda há muitos gargalos na questão dos registros, sobretudo em relação à análise das impurezas. Por isso, alguns critérios deveriam ser revistos, como, por exemplo, os alusivos à escolha da empresa de referência. Na opinião de Guedes, apenas o primeiro registrante, no caso o responsável pelo desenvolvimento da molécula, deveria ser considerado referência. Por enquanto, todos os produtos técnicos são parâmetros. Apesar do decreto se arrastar desde 2002 e de existirem pontos de discussão, Oliveira mostra-se otimista. Ele espera a sua implementação ainda para este semestre.

O setor, como um todo, será beneficiado pelo sistema, sobretudo porque 75% das compras mundiais são de produtos genéricos. Enquanto no País, esse índice chega a 80%, segundo dados da Aenda. “O agricultor brasileiro procura o mais barato”, resumiu Oliveira. Essa alta taxa, de acordo com a associação, não retrata somente o mercado nacional, pois conta com a penetração dos produtos da China e da Índia. “Todo ano, entram novas empresas no segmento dos genéricos”, apontou Simon. De acordo com a Andef, no Brasil existem cerca de 15 empresas de capital estrangeiro e mais de 40 companhias de capital nacional. Estas se voltam totalmente para os genéricos, enquanto as multinacionais diversificam o portfólio com novos desenvolvimentos.

Oligopólio – Também em prol das mudanças no sistema de registro, a Aenda apresentou para o Ministério da Agricultura documento no qual faz uma análise no mercado de defensivos agrícolas, evidenciando uma oligopolização do setor. De acordo com os dados divulgados, quatro empresas, em 2000, detinham quase metade do faturamento do setor (48%). Ao longo dos anos, a situação se agravou. Em 2003, apenas 10 empresas respondiam por 87% do mercado (ver tabela). “Isso é concentração de oferta, assim o preço do produto cai muito lentamente, ou nem cai”, argumentou Oliveira. Para ele, os filtros impostos pelo atual sistema de registro impedem a atuação de pequenas e médias empresas no mercado.

Nos aspectos de registro e controle, os defensivos agrícolas são regidos pela lei 7802/89, que foi regulamentada pelo decreto 98.816/90, revogado em janeiro de 2002, pelo decreto 407/02. O registro depende de três ministérios: Agricultura, Saúde e Meio Ambiente, que juntos autorizam a venda do produto no Brasil, a partir de exigências relacionadas a questões agronômicas e aos impactos à saúde humana e ao meio ambiente.

Além de aspectos conceituais, outras questões fundamentam o setor, como os altos investimentos e o tempo de maturação da molécula. Desde a descoberta do ingrediente ativo até sua chegada no mercado são mais ou menos 10 anos, período no qual são investidos cerca de US$ 200 milhões, entre desenvolvimento e registro de uma molécula. Mas nem por isso, a indústria está parada. O número de moléculas de defensivos agrícolas disponíveis ao agricultor brasileiro até 1992 era de 194. Desde então, houve um acréscimo de cerca de 40%.

Hoje são 269 ingredientes ativos registrados, dos quais existem 600 produtos técnicos com registro, de acordo com a Andef. E a evolução não se restringe à quantidade. Por conta das normas sobre os agroquímicos, os produtos estão cada vez menos nocivos à saúde humana e ao ambiente. A indústria tem apresentado constantes incrementos em pesquisa e avaliação toxicológica dos defensivos agrícolas, alavancando dessa forma, a produção de novas moléculas com grau de toxicidade cada vez menor e com uma alta eficiência em baixas doses.

Para Simon, essa indústria se caracteriza pela alta tecnologia empregada nas formulações e na aplicação dos produtos. Por conta disso, existem cerca de 2 mil engenheiros agrônomos empregados. “É um número recorde na iniciativa privada”, comentou. Segundo dados da Andef, em relação ao consumo nacional de ingrediente ativo por hectare, o Brasil está em linha com os Estados Unidos. O volume vendido no País é de 3,2 kg/ha e nos Estados Unidos, de 3,4 kg/ha. Para se ter uma idéia do potencial nacional, o país que mais aplica o produto técnico por hectare é a Holanda, com 20,8 kg/ha, seguido pelo Japão, com 17,5 kg/ha.

Na opinião do gerente de marketing da Syngenta Antonio Carlos Costa, o mercado de agroquímicos tem sido um dos principais responsáveis pelos avanços da agricultura brasileira, por conta do alto nível tecnológico do setor. No entanto, para manter essa condição, a indústria teve de se mexer. A partir da década de 70, fusões e incorporações passaram a dar o tom ao mercado de defensivos agrícolas, sobretudo como uma alternativa de custear novos desenvolvimentos. Alguns casos recentes dão conta da Aventis Cropscience Brasil adquirida pela Bayer, a compra da Griffin pela DuPont e o controle da Cyanamid que passou para a Basf, além da incorporação dos negócios da Rohm Haas pela Dow Agro e da criação da Syngenta, fruto da fusão entre Zeneca Agrícola, Novartis Agribusiness e Novartis Seeds. “Há 20 anos, existiam no Brasil 30 empresas multinacionais, hoje são pouco mais de 10”, diagnosticou Simon.

As vendas globais da Divisão de Produtos para Agricultura da Basf atingiram a marca de cerca de 3 bilhões de euros em 2003. A unidade Agro da Basf imigrou para o Brasil em 1959, instalando a sua primeira fábrica em Guaratinguetá – SP, embora já importasse seus produtos para agricultura desde 1911. “A área de agro é o nosso core business”, explicou Tassára. A empresa se concentra na oferta de soluções inovadoras, apesar de contar com alguns produtos com patente expirada.

A Milenia Agro Ciências, instalada no Conjunto Eucaliptos, em Londrina, registrou faturamento em 2003 de US$ 231 milhões, 13,5% superior ao montante registrado no ano anterior. Segundo o diretor de Assuntos Corporativos da Milenia Luiz César Guedes, o comportamento do setor tem alimentado projeções animadoras. “Como se diz no meio, o agronegócio está voltado para o sol, pois está crescendo muito no Brasil e é cada vez mais competitivo com relação ao mercado externo”, afirmou. Reconhecida por Guedes como a maior empresa de defensivos pós-patente da América Latina, a Milenia oferece 44 produtos e investe 5% do faturamento anual, em pesquisas e estudos. “Para conhecer uma molécula e fazer o registro, são investidos cerca de US$ 1,5 milhão”, exemplificou. A atuação da Milenia no País traz embutida a tradição da israelense Makhteshim Agan Industries.

As operações da Syngenta no Brasil tiveram início em 2001. Desde então a unidade vem ganhando status para o grupo. Das vendas globais da companhia em 2003, equivalentes a US$ 6,6 bilhões, US$ 552 milhões são resultados dos negócios realizados no País.

Confiante no potencial nacional, a companhia aplicou US$ 1 milhão na fabricação local do Priori Xtra, em Paulínia – SP. De acordo com Costa, a empresa investe cerca de 10% do faturamento mundial em pesquisas. “A Syngenta não possui linha de genéricos, pois nos voltamos para a inovação”, ressaltou o diretor de marketing da Syngenta Renato Guimarães.

Química e Derivados: Defensivos: Guimarães - empresa dá prioridades para inovação. ©QD Foto - Divulgação
Guimarães – empresa dá prioridades para inovação.

O mercado tampouco se restringe aos produtos técnicos. A evolução do setor tem promovido lançamentos também nas linhas de solventes. A Carbono Química, de São Bernardo do Campo, SP, estabeleceu aliança com a norte-americana Huntsman para trazer ao País o solvente ecológico, Jeffsol AG 1555. Aprovado pela Environmental Protection Agency (EPA), o produto foi desenvolvido para ser utilizado como solvente verdadeiro para princípios ativos diversos e como co-solvente em formulações de concentrados emulsionáveis, microemulsões e formulações de produtos veterinários de uso tópico. Classificado como 4 A (de risco mínimo), o Jeffsol AG 1555 vem para substituir os solventes aromáticos e alifáticos, entre outros. “Acredito que muitas empresas que usam os solventes aromáticos vão se voltar para o ecológico”, estimou o diretor da Carbono Química Victor Maluf Amarilla. Estudos realizados pela empresa dão conta de baixos índices de fitotoxicidade e alta biodegradabilidade do solvente. “Mesmo em tomates muito sensíveis, o Jeffsol AG 1555 provou ter baixíssima fitotoxicidade, sem observação de necrose”, explicou Amarilla. Quanto ao quesito biodegradabilidade, o produto demonstrou valores superiores a 90%, após 28 dias.

Referência ecológica – Uma das mais recentes conquistas do setor diz conta da criação do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev). “Trata-se de uma importante contribuição da indústria ao agronegócio brasileiro”, comentou Simon. Os trabalhos começaram em 1992, mas o instituto só foi criado em 2002. Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos destinada à administração da recuperação e destinação final das embalagens de fitossanitários. Com o patrocínio das empresas e associações de classe do setor, o Inpev controla o descarte das embalagens utilizadas com agroquímicos. “O instituto prova a consciência ambiental do setor”, explicou Da Ros. O projeto teve início por conta de iniciativa da Andef, da Secretaria da Agricultura e da Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo. Os resultados, na avaliação de Simon, têm sido bastante positivos. “É o programa mais avançado em recolhimento e destinação de embalagens vazias de agrotóxicos do setor industrial brasileiro”, ressaltou. No primeiro semestre de 2004 foram recolhidas 8.059 t de embalagens vazias de agrotóxicos, o equivalente a um aumento de 159,1%, se comparado com o mesmo período do ano anterior (3.110 t), segundo balanço do Inpev. No período de um ano, o volume recolhido soma 12.800 t.

Apesar desse profissionalismo, o setor ainda conta com alguns entraves, como por exemplo, os baixos índices de exportação. “A maioria dos ingredientes ativos é importada”, diagnosticou Da Ros. “Somos deficitários na balança comercial tradicionalmente”, completou Oliveira. As vendas com o mercado externo somaram US$ 380 milhões, em 2003, segundo o Sindag. Dados da Aenda revelam o descompasso, pois as importações chegaram a US$ 1 bilhão.

Inovações – Segundo perspectiva da Andef, a introdução de sementes geneticamente modificadas deve impactar o mercado de defensivos, nos próximos anos. “Vão substituir, parcialmente, os defensivos”, observou Simon. Grande parte dos associados da Andef estuda organismos geneticamente modificados, como a Monsanto, a Bayer, a Dow e a Syngenta, entre outros. No entanto, os objetivos das pesquisas são vários, nem todos os estudos promoverão a diminuição do uso de agroquímicos. “Alguns produtos estão sendo desenvolvidos para aumentar o teor vitamínico de determinado vegetal”, exemplificou. Para Simon, ainda neste ano alguns produtos poderão ser legalizados.

“Estamos diante de novo paradigma científico”, acrescentou Oliveira. Em relação à biotecnologia, a Basf lançou o sistema de produção clearfield arroz. O método tem a proposta de controlar com eficiência plantas daninhas dessas lavouras, em especial o arroz vermelho. Esse sistema combina a aplicação do herbicida Only, produzido pela Basf, e a utilização das sementes tolerantes IRGA 422CL e Tuno CL, desenvolvidas, respectivamente, em parceria com o Instituto Riograndense do Arroz (Irga), e a empresa Rice Tec. “É um processo de seleção natural, que usa a biotecnologia para acelerar o processo”, explicou Tassára. Na opinião dele, a biotecnologia é uma das tecnologias-chave para o desenvolvimento futuro dos agronegócios. O grupo pretende investir, nos próximos dez anos, 700 milhões de euros na área.

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