Defensivos Agrícolas Ampliam Mercado

Vendas no Brasil somam US$ 2,5 bilhões, apoiadas na importação dos produtos técnicos que deve ser revertida a partir da fabricação em escala mundial do glifosato, na Bahia, e da revisão da norma de registro dos genéricos

Ilustração sobre Química dos Defensivos AgrícolasO potencial agrícola do Brasil sempre foi apontado como fator estimulante para o desenvolvimento de forte indústria local de defensivos químicos para lavouras. Desde o fim da era da “substituição de importações”, encerrada a canetadas no governo Collor, acentuou-se o papel da atividade como formuladora de artigos finais, partindo de produtos técnicos importados, agravando o déficit comercial do setor químico, estimado em US$ 6,5 bilhões no ano passado.

Química e Derivados: Defensivos: Da Ros - custo de novas moléculasvai ficar ainda mais elevado.
Da Ros – custo de novas moléculas vai ficar ainda mais elevado.

O mercado efetivo de produtos químicos para defesa agrícola é avaliado em US$ 2,5 bilhões no Brasil, segundo levantamento do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag).

Os segmentos-líderes são os herbicidas, com 52% das vendas, e os inseticidas, com 27,5%.

Apesar dos números expressivos, que colocam o País como terceiro mercado do mundo para defensivos, ao lado do Japão e atrás dos Estados Unidos e da comunidade Européia, eles encobrem um potencial ainda maior.

“Em termos de aplicação de produtos por hectare cultivado, o Brasil está na décima posição, com 3,2 kg/ha”, informou o presidente do Sindag, José Roberto Da Ros, para quem a produção anual de 100 milhões de t de grãos é irrisória para o potencial das terras brasileiras.

A maior parte do custo de um defensivo agrícola refere-se ao produto técnico, denominação dada ao ingrediente ativo (molécula específica) agregada a resíduos de síntese de difícil separação. Dentro da estratégia de globalização de negócios, as grandes transnacionais optaram por elaborar os produtos técnicos em um ou poucos lugares para abastecer todo o consumo do mundo, induzindo a especialização das unidades produtivas. No Brasil, algumas delas foram fechadas, enquanto outras se tornaram fornecedoras regionais ou mundiais de produtos técnicos.

De qualquer forma, as importações de defensivos (compreendendo desde os ativos até os produtos acabados) subiram de 57,7 milhões de unidades (kg ou litros) para 64,8 milhões, de 1997 a 2000, segundo estatísticas do Sindag.

O movimento de globalização coincidiu com a abertura comercial brasileira, iniciada em 1990, e com o fenômeno de concentração de negócios na indústria de especialidades químicas, resultando na formação de gigantes, como a Novartis (parte da Ciba-Geigy com a Sandoz).

Muitas dessas companhias resolveram separar a área de defensivos agrícolas das demais atividades, desmembrando o chamado grupo de “ciências da vida”. Além das diferenças de escopo e comportamento de mercado, usuais justificativas para o movimento, pesou a favor da separação as fortes pressões ambientalistas sobre a opinião pública. Desde a década de 60, a fabricação e o uso de defensivos foram eleitos vilões ambientais, situação agravada pela aproximação com a engenharia genética. Muitas companhias internacionais, com capital em bolsa de valores, temem os efeitos de campanhas públicas contra a imagem corporativa.

“Há muito exagero nas campanhas ambientalistas”, considera o presidente do Sindag José Roberto Da Ros. “As normas sobre agroquímicos já são até mais restritivas do que as dos produtos farmacêuticos.” As afirmações são coerentes. Geralmente, em face do apelo “ambiental”, a resposta dos governos dos vários países, o do Brasil incluído, consiste em editar normas ainda mais exigentes. Como a cada ano os instrumentos analíticos ficam mais precisos e sensíveis, os limites estabelecidos para os agroquímicos se tornam paulatinamente mais estreitos.

“Por isso, o custo de desenvolvimento e registro de novas moléculas, hoje estimado em US$ 200 milhões, vai aumentar”, explicou Da Ros. Cada novo produto agroquímico deve apresentar vantagens significativas sobre os já disponíveis no mercado quanto à economicidade, ou seja, menor custo total de tratamento por área ou unidade produzida. Além disso, devem comprovar que não apresentam efeitos negativos sobre o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores que manuseiem ou apliquem o produto, nem podem deixar resíduos indesejáveis nos alimentos tratados. Dessa forma, a possibilidade de encontrar novas moléculas é cada vez menor. “Antes, a chance era de 1 para 5 mil moléculas estudadas, agora essa relação é de 1 para 50 mil, e está piorando”, afirmou.

As vantagens dessas restrições podem ser resumidas em duas: a oferta de produtos cada vez menos nocivos ao homem e ao ambiente, além de mais eficientes, e a possibilidade de adaptar essas moléculas para uso nas linhas voltadas para saúde humana e animal ou, ainda, nos domissanitários. “O pacote de análises e ensaios toxicológicos é o mesmo para todas essas áreas e pode ser usado nos outros registros”, explicou.

Dadas as dificuldades de descoberta e registro, as companhias investem em inovações que possam ser aplicadas em todos os países do mundo. “Nem mesmo o mercado norte-americano, o maior do mundo, sustentaria isoladamente o desenvolvimento de nova molécula”, disse Da Ros.

Negócios dinâmicos: O caldeirão de transações de compra, venda e fusão de companhias internacionais permanece em ebulição.

A bola da vez é o desmembramento do ramo de defensivos da Aventis, empresa dedicada às ciências da vida formada em dezembro de 1999 pela união das respectivas divisões da Hoechst (AgrEvo) e Rhône-Poulenc. A Aventis CropScience está sendo negociada com a Bayer, por valor preliminar ao redor de US$ 5 bilhões. A aquisição colocará a empresa alemã no segundo lugar do ranking mundial de produtores agroquímicos, atrás apenas da Syngenta, empresa formada no ano passado pela fusão de negócios agroquímicos da Novartis com os da Zeneca.

Especula-se que, num segundo momento, a Bayer deverá desfazer-se das linhas de inseticidas da Aventis, que seriam repassadas à Basf. A transferência permitiria a aceitação da aquisição pelos órgãos europeus de defesa da concorrência.

Outros lances de destaque concretizados nos últimos dois anos foram a incorporação dos negócios agrícolas da Rohm and Haas pela Dow Agro. Já a Cyanamid passou ao controle da Basf, ampliando o portfólio de produtos e permitindo acelerar o ritmo de lançamento de produtos deste ano.

Química e Derivados: Defensivos: Tassara - unidades locais também exportam.
Tassara – unidades locais também exportam.

“Sem a sinergia que encontramos com a Cyanamid não nos seria possível lançar oito produtos em 2001, além de ingressar nos mercados de trigo e cana-de-açúcar”, comentou Davi Tassara, gerente de marketing da divisão agro da Basf brasileira. A possível compra dos inseticidas da Aventis é considerada interessante por Tassara, embora considere prematuro comentar a transação.

No caso da Basf, o fenômeno da globalização de mercados foi favorável à indústria brasileira dos valiosos produtos técnicos. “Quase 60% da produção total (sintetizados ou formulados) da nossa fábrica de Resende-RJ é exportada para vários países”, comentou Tassara.

Em alguns casos, a síntese do produto técnico é feita no Brasil para suprimento mundial da companhia. A capacidade produtiva local cresceu com a incorporação da Cyanamid, cujos sites de Paulínia-SP e Resende-RJ somaram-se ao complexo químico da Basf, em Guaratinguetá-SP. “A tendência é produzir aqui os ativos de consumo local já estabelecido, dependendo de análise técnico-econômica em âmbito mundial”, considerou.

Emblemático é o projeto de US$ 550 milhões que está sendo desenvolvido em Camaçari-BA pela Monsanto, visando a integração vertical da síntese do herbicida glifosato e da formulação do produto comercial Round-Up.

Até o final do ano, a empresa espera concluir a primeira fase do projeto, orçada em US$ 350 milhões, a partir da qual produzirá tricloreto de fósforo, ácido dissódico iminodiacético e ácido fosfonometil iminodiacético.

Este reage com peróxido de hidrogênio para formar o glifosato, que é neutralizado com isopropilamina para formar o produto técnico herbicida sal de isopropilamina do glifosato. A importação de intermediários para a produção de glifosato é estimada em US$ 200 milhões, abastecendo as fábricas da Monsanto em Zarate (Argentina) e São José dos Campos-SP, além das unidades fabris das concorrentes Milenia (formada em 1998 pela união das nacionais Herbitécnica e Defensa com a israelense Makhteshim – Agan Industries) e Nortox.

A segunda etapa do projeto de Camaçari-BA, com conclusão prevista para 2003, contempla a síntese e neutralização do glifosato e a formulação do produto comercial da companhia. Isso poderá mudar o fluxo de intermediários para as unidades regionais, reduzindo custos logísticos.

Química e Derivados: Defensivos: def10.

O glifosato é um caso à parte no panorama dos defensivos agrícolas.

Trata-se de molécula antiga, conhecida há mais de vinte anos, portanto dispensada de privilégio de patente, sendo produzida em vários lugares do mundo, principalmente na Índia e na China, países famosos pelos baixos preços ofertados.

Como se trata de herbicida pós-emergente de contato, com alta eficiência de controle de plantas daninhas e comprovada segurança ocupacional e ambiental, a molécula se mantém na liderança das vendas no Brasil e no mundo, representando o núcleo dos desenvolvimentos recentes da Monsanto, que desenvolveu, por engenharia genética, variedade própria de soja capaz de suportar o herbicida, de modo a reduzir custos operacionais da lavoura. Essa variedade transgênica ainda não está liberada para o Brasil, mas já é cultivada na Argentina e também nos Estados Unidos.

Química e Derivados: Defensivos: def11.Na maioria dos casos, os produtos técnicos atingem a obsolescência em tempo inferior a 20-25 anos, sendo suplantados por novidades mais eficazes e seguras. A consolidação de grandes empresas mundiais garante recursos para bancar investimentos em inovação e a fusão de companhias permite somar conhecimento, acelerando descobertas. A título de exemplo: a Basf, segundo Tassara, investe de 10% a 12% do faturamento mundial em pesquisa e desenvolvimento.

A despeito do ritmo de lançamentos, alguns itens permanecem por décadas no portfólio de produtos disponíveis, sem significar nenhum demérito. “Ao lado de produtos novíssimos, nossa linha apresenta casos de grande longevidade, como o Kumulus (fungicida à base de enxofre), que tem mais de 50 anos, ou o U-46 (2,4D), que continuam sendo eficientes”, comentou Tassara.

Quando um produto é lançado, faz-se uma análise econômica para determinar o retorno do investimento. “Geralmente, essa análise é feita considerando prazos longos de comercialização”, explicou Tassara. Dado o alto custo de pesquisa, esperar retorno rápido do investimento implicaria vender produtos a preços elevados, que poderiam ser rejeitados pelos agricultores.

As linhas antigas já não precisam se preocupar com amortização de capital, oferecendo boa remuneração aos produtores mesmo a preços relativamente baixos. Além disso, é comum ampliar as aplicações dos produtos, registrando-os para o uso em outras plantações, ou em usos diversos. O fungicida clorotalonil, por exemplo, foi criado para aplicação agrícola e hoje é muito usado como biocida na preservação de madeira (veja QD-394).

Química e Derivados: Defensivos: def12.Influências diversas – O consumo de defensivos sofre influências diversas, capazes de justificar as variações nos totais anuais de vendas. Pesa muito no resultado do setor o comportamento da área plantada com soja, de longe a maior consumidora de defensivos, seguida pelo algodão, milho e cana-de-açúcar (veja tabela de consumo por cultivos). Quando o mercado internacional se mostra desfavorável à soja, os produtores brasileiros reduzem as plantações dessa cultura, derrubando as vendas totais de defensivos, principalmente herbicidas.

Fatores naturais, como variações climáticas, tipo e intensidade de infestação de pragas, também alteram o quadro de vendas. Mais importante ainda é a oferta de crédito rural, paulatinamente reduzida pelos agentes oficiais. Estimativa da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda) mostra que os recursos liberados para essa modalidade creditícia somaram R$ 11,8 bilhões em 1998, contra R$ 20 bilhões, em 1994, ou contra o recorde de R$ 54 bilhões, registrado em 1982 (todos esses valores atualizados para 1999).

No meio rural, considera-se que o dinheiro liberado pelo crédito oficial consegue apenas bancar os custos de preparo de solo, fertilizantes e sementes. Feito o plantio, o agricultor não teria como aplicar os defensivos necessários para obter boa colheita, a menos que optassem pela tentativa do crédito pessoal pelas linhas regulares dos bancos, pagando juros estratosféricos. A dificuldade de crédito passou a ser vista como oportunidade de negócio pelas grandes companhias químicas, que passaram a vender seus produtos a prazo de safra (180 a 360 dias), com juros baixos. Algumas empresas optaram pela captação internacional de recursos, tornada fonte de prejuízo dada a desvalorização cambial havida de janeiro até hoje.

Química e Derivados: Defensivos: Oliveira - crédito das grandes asfixia produtores nacionais.
Oliveira – crédito das grandes asfixia produtores nacionais.

Essa política de crédito complementar não conta com a simpatia das empresas de capital nacional. “Quem tem poder econômico suficiente para captar recursos internacionais a juros baixos ganha mercado”, avaliou Tulio Teixeira de Oliveira, diretor-executivo da Associação das Empresas Nacionais de Defensivos Agrícolas (Aenda). “Os produtores nacionais não conseguem concorrer com os multinacionais.”

O mercado de defensivos agrícolas só tomou vulto a partir da década de 70, com o advento da monocultura da soja. Durante os anos 80, o governo federal implantou política de manter tarifas de importação altas para defensivos (e para vários ramos da chamada química fina), estimulando a produção local. “As empresas nacionais detinham 30% do fornecimento de defensivos no Brasil em 1990”, comentou Oliveira. “Hoje, contando os genéricos das nacionais e das multinacionais, temos só 10% e, se contarmos apenas as de capital nacional, a participação não passa de 5%”, informou. O Brasil já foi 80% auto-suficiente nesses produtos, segundo o executivo, oriundo dos quadros da antiga Noragro, ex-controlada da Norquisa.

Além da oferta de crédito internacional aos agricultores e da redução das tarifas alfandegárias protetivas, feitas por Collor de Mello, sem exigir reciprocidade dos países desenvolvidos, Oliveira identifica na Lei 7.802/89 uma das razões para o desmonte das empresas nacionais. “Essa lei e as normas de registro de produtos defensivos tornaram inviável a renovação dos portfólios das companhias locais”, considerou. “Por coincidência, após o prazo de proteção de patente, surgem denúncias de riscos do uso desses produtos, exigindo sua substituição por linhas mais modernas, ainda protegidas pelo privilégio de invenção”, criticou.

Mesmo assim, ele não acredita na extinção das empresas puramente nacionais no ramo de defensivos. As metas da Aenda apontam para a revisão normativa nacional, no sentido de regulamentar a situação dos produtos genéricos, de forma análoga à regulamentação dos medicamentos. “Nossa principal reivindicação é o registro de produtos pela equivalência química do ingrediente ativo”, comentou Oliveira, afirmando que a Aenda solicitou revisão do decreto regulamentador 90.816/90. A modificação é considerada certa por ele, embora possa demorar um pouco, pois a aprovação deve ser concedida por três ministérios, da Saúde, Agricultura e Meio Ambiente. “Estivemos em Brasília e conseguimos mostrar o efeito negativo dessa regulamentação sobre a indústria nacional, gerando déficit comercial crônico”, salientou.

Aprovada a equivalência química, o processo de registro de produtos se torna viável para as empresas de menor porte, dispensando-as dos caros pacotes de análises e ensaios toxicológicos e ambientais. Segundo Oliveira, os Estados Unidos e a Comunidade Européia evitam repetir esses ensaios, bastando analisar profundamente o material, comprovando os mesmos teores de produtos técnicos e impurezas. “No primeiro momento devem crescer as importações de alguns produtos, com origem na Coréia, China ou Índia, mas, em dois ou três anos, a indústria nacional terá estímulo para voltar a produzir”, afirmou.

Aliás, o mercado nacional ainda se apóia em produtos tradicionais. “O glifosato responde por 25% das vendas de defensivos e a trifluralina, por exemplo, apesar da concorrência com inovações, não apresenta redução de demanda”, informou Oliveira. Segundo informou, as vendas de glifosato podem até triplicar, se aprovada a venda de sementes geneticamente modificadas no País. “Isso aconteceu nos Estados Unidos”, disse. O produto técnico seria uma boa aposta para genéricos, embora Oliveira ressalte que os principais fornecedores mundiais têm mantido baixos os preços ao consumidor.

A possibilidade de incluir genéricos no portfólio de produtos, de modo a completá-lo, não é considerada uma prioridade para a Basf. “Nosso negócio é inovação, mas se houver flexibilização nos genéricos, seremos obrigados a nos adequar”, afirmou. Sua avaliação não é favorável à mudança. “Temos linha própria já bem extensa, que complementamos com parcerias com terceiros”, explicou.

Pela lógica atual de mercado, o Brasil deveria desenvolver sua vocação de formulador dos defensivos mais modernos, partindo de produtos técnicos importados, pelo menos na opinião do presidente do Sindag, José Roberto Da Ros. Mas nem essa atividade, estimulada naturalmente pelos custos logísticos, recebe apoio oficial. “A Lei 9.959/00 exige a cobrança de imposto de renda sobre 60% do preço FOB de transferência dos produtos técnicos ao Brasil, embora a margem final das companhias não chegue a tanto”, avaliou Da Ros. “Assim, às vezes é melhor trazer o produto já formulado, ou fazer a formulação em países vizinhos.”

Quanto ao registro de produtos, Da Ros levanta outros problemas, como a exigência do registro de todos os componentes da formulação, a ser feito pelo fabricante do defensivo. “Como posso registrar um produto que não é meu? Não tenho os dados tecnológicos e meu fornecedor também não vai repassá-los a mim ou a outro fabricante de defensivos”, criticou. Contra essa determinação há o evidente desperdício de recursos, pois vários itens seriam registrados múltiplas vezes. “Os testes e ensaios que apresentamos são suficientes para a aprovação e registro da formulação in totum”, afirmou.

Outro problema diz respeito ao conflito de leis federais e estaduais, principalmente sobre rotulagem de produtos. Embora se trate de questão meramente burocrática, isso já causou a apreensão de lotes. “Não dá para fazer um rótulo diferente para cada estado, é inviável”, ponderou.

Formulações evoluem – Nem só de produtos técnicos vive o mercado de defensivos agrícolas. Para proteger as plantas contra doenças, pragas e ervas invasoras, os defensivos devem ser misturados a outras substâncias que facilitem sua manipulação, aplicação e absorção. “As formulações estão em processo constante de modernização, reduzindo os riscos para os trabalhadores e também ao meio ambiente”, comentou Da Ros. Além disso, os produtos mais modernos são aplicados em dosagem cada vez menor, exigindo mais cuidado na aplicação.

Além disso, a partir de 2002, as embalagens de agroquímicos deverão ser encaminhadas para destino final seguro, sob responsabilidade conjunta da indústria, dos distribuidores e até dos agricultores. A estes incumbe promover a lavagem tríplice dos recipientes laváveis, a coleção dos não-laváveis e dos sacos contaminados, entregando-os em seguida aos postos coletores regionais, mantidos pelos revendedores/distribuidores. Cabe à indústria liderar a introdução desses procedimentos, além de buscar destinos finais para as embalagens. Essas disposições foram instituídas pela Lei 9.974/00, regulamentada pelo decreto 3.550/00, que prevêem a aplicação da Lei de Crimes Ambientais ao descumprimento. “Certamente isso terá um custo, mas é absolutamente necessário”, afirmou Da Ros. Atualmente, quase 30% das embalagens monocamada de PEAD usadas em defensivos são recicladas. A idéia é aproveitar ao máximo esse potencial, fabricando itens como conduítes elétricos. Materiais que não se prestem à reciclagem devem ser incinerados.

Em alguns casos é possível evitar a incidência desse custo, bastando modificar a forma de apresentação e a embalagem. “Grânulos autodispersíveis acondicionados em sacos solúveis em água, para aplicação direta nos tanques de pulverização, eliminam o problema da embalagem”, explicou. Porém, nem todos os produtos se prestam a esse tipo de formulação.

A história dos produtos químicos aplicados à agricultura apresenta a seqüência evolutiva: pós secos, pós molháveis, emulsões e grânulos autodispersíveis ou de aplicação direta no solo. “Sempre buscamos as formas mais seguras para os aplicadores e para o meio ambiente, além do melhor aproveitamento do produto técnico”, comentou.

“O problema das formulações granuladas não reside no fornecimento de insumos químicos, mas na disponibilidade de maquinário específico”, avalia Tulio de Oliveira, da Aenda. Ele salientou que o parque formulador nacional segue com elevada taxa de ociosidade e, talvez, não tenha como bancar investimentos. O uso de sacos solúveis, feitos a partir de álcool polivinílico, é criticado pelo alto custo, inacessível aos produtores de menor porte.

“A escolha da formulação leva em consideração o tipo de mercado a que se destina o produto, sempre buscando mais segurança e eficiência”, confirmou Tassara, da Basf. As atuais condições de mercado apontam para o abandono dos pós molháveis, por exemplo. Além disso, a evolução das formulações, etapa que também demanda tecnologia apurada, ajuda a manter atraentes produtos que perderam proteção de patente.

Química e Derivados: Defensivos: def17.Química suporta – Os entrevistados são unânimes quanto à disponibilidade de suprimento, tanto de matérias-primas, quanto de intermediários químicos para a produção de produtos técnicos e formulações no Brasil. “Como o País já é o terceiro mercado mundial agrícola, vários produtos já deveriam contar com fabricação local, o que não é feito porque o imposto de importação é muito baixo”, criticou Oliveira. Atualmente, produtos técnicos com similares fabricados no País recolhem 16% sob essa rubrica. Quando não existe fabricação local, o imposto cai a zero.

O estudo Identificação dos Gargalos Tecnológicos Determinantes da Importação de Produtos Químicos, realizado por iniciativa da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e pela Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação de da profa. dra. Adelaide Antunes, estudou 22 itens, entre intermediários, defensivos e produtos formulados, responsáveis por US$ 438 milhões (FOB) de importações brasileiras em 1999. Os dados levantados, discutidos por acadêmicos e empresários, comprovaram não haver empecilhos tecnológicos para a fabricação nacional desses artigos, os mais representativos da pauta de compras externas desse grupo. As limitações são de ordem política e econômica.

A comprovação prática dessa análise pode ser tirada do investimento da Monsanto para a fabricação totalmente nacional do seu carro-chefe glifosato, em Camaçari-BA. Além do ácido acético, cloro e formaldeído, a produção desse herbicida é grande consumidora de isopropilamina, necessária para a formação do sal de glifosato. A principal fornecedora é a Air Products, líder mundial em aminas alquiladas, que comprou a fábrica da antiga Química da Bahia, antes uma associação entre Oxiteno e Norquisa.

Química e Derivados: Defensivos: Riveros - aminas brasileiras suportam demanda maior.
Riveros – aminas brasileiras suportam demanda maior.

A fábrica baiana tem capacidade produtiva variando de 23 mil a 26 mil t/ano, dependendo das aminas fabricadas, atendendo à demanda nacional de alquilaminas, estimada em 20 mil t/ano, e também a da Argentina. “Atuamos com a especialização das unidades fabris, produzindo aqui as linhas mais demandadas, complementado-as com importações”, explicou Pedro Riveros, gerente comercial de aminas da Air Products. Quase 80% da produção é representada pela monoisopropilamina (MIPA), suprindo os produtores de herbicidas do Mercosul, também usuários de dimetilamina, monoetilamina e di-n-propilamina em volumes significativos.

Segundo Riveros, a unidade baiana apresenta flexibilidade para expansão, que será feita se houver aumento significativo da demanda, em especial por parte das novas instalações da Monsanto. “Se houver apenas a transferência da aminação feita em São José dos Campos-SP para lá, não haverá aumento real de demanda”, explicou.

É preciso considerar também a possibilidade de se adotar outra apresentação para o glifosato. “No exterior já existe o produto na forma sólida, obtido por outra via produtiva que não consome a MIPA”, afirmou Riveros. Essa apresentação normalmente se combina com o uso de embalagens solúveis, feitas a partir de álcool polivinílico. “A Air Products vendeu essa área de negócios, da qual era pioneira, para a Celanese no final do ano passado”, explicou Riveros.

A MIPA também encontra importante uso na síntese da atrazina, outro herbicida, este voltado para milho. “A produção local já foi grande, mas foi muito reduzida nos últimos anos, com aumento da importação”, informou. Até 1994, a Rhodia e a Ciba-Geigy operavam com fabricação nacional de atrazinas, mas ambas a descontinuaram. Restou apenas a Nortox como produtor local. “Pena, porque as sínteses consomem mais aminas que as neutralizações”, lamentou Riveros. A síntese da atrazina demanda também monoetilamina (a 70%).

Química e Derivados: Defensivos: def14.Outro herbicida, a trifluralina, apresenta mercado estável, com síntese local a cargo da Milenia. “Nesse caso se usa a di-n-propilamina durante a síntese”, disse o gerente comercial. Trata-se de produto com pequeno potencial de crescimento. A produção do 2,4D e do diuron são consumidoras vorazes de dimetilaminas, estas produzidas nos Estados Unidos pela Air Products, que também tem fábricas na França e na Inglaterra.

A sazonalidade do consumo de herbicidas infuencia a programação da fábrica brasileira, que concentra a fabricação de produtos diversos fora do pico de consumo agrícola. “Estamos entrando na fase de maior consumo do MIPA, e a fábrica passa a operar exclusivamente com esse produto”, disse.

O mercado de herbicidas é o maior consumidor de aminas, seguido pelos produtos para tratamento de água industrial (vapor/resfriamento), segundo Riveros. A companhia obtém suas aminas pela amoniação de álcoois. A concorrência mundial é crescente, com forte pressão sobre os preços.

Química e Derivados: Defensivos: def15.“Isso pode comprometer os projetos de expansão de capacidades”, comentou Riveros. O campo das aminas é considerado core business para a Air Products, representando 35% do faturamento no Mercosul. A participação brasileira no total mundial do negócio aminas da companhia fica próximo a 8%, situando-se entre os cinco primeiros mercados. “A região é prioritária para receber investimentos”, informou Riveros.

Reforço nos aditivos – Embora sejam aplicados em pequenas quantidades nas formulações, os tensoativos garantem o desempenho do ingrediente ativo, além de facilitar a sua dispersão e estabilização em meio aquoso. “Nossa missão consiste em oferecer efeitos que tornem os princípios ativos aplicáveis e mais eficientes”, explicou Loncoln Gibin Romero, gerente geral da Uniqema no Brasil.

Química e Derivados: Defensivos: def16.Formada em janeiro de 1999, a Uniqema tem origem na antiga divisão química da ICI. Entre 1997 e 1998, a companhia comprou os negócios de adesivos (National Starch), aromas (Quest), oleoquímicos (Unichema) e derivados (Crossfield, depois vendida para a Ineos) da Unilever. Desde 1999, a ICI se desfez das áreas de acrílicos, poliuretano e cloro/álcalis, enfocando atividades nas especialidades químicas, de forma integrada. A National Starch e a Quest são negócios específicos, e atuam de modo autônomo. Já os interesses em lubrificantes, surfactantes, oleoquímicos e outros foram reunidos sob a denominação Uniqema (de único, singular). “Temos mais de 10 mil produtos em portfólio, agregando muitas diferentes tecnologias com diferentes graus de sinergia”, comentou Romero. “Às vezes um produto usado na indústria cosmética pode revelar-se vantajoso para agroquímicos”, disse a engenheira de vendas, Ana Maria dos Santos.

A unidade de negócios de defesa vegetal é uma das oito em atividade no Brasil, todas com vendas de valor parecido. “Oferecemos tensoativos diferenciados para atender às crescentes exigências globalizadas em segurança ambiental e ocupacional”, informou Ana Maria, salientando que países desenvolvidos estão banindo alguns tipos de tensoativos, movimento que deverá repercutir no Brasil a curto prazo. Ambos reconhecem ser difícil alterar formulações de herbicidas em fase terminal de uso, mas existe potencial grande para participar das novas fórmulas.

Química e Derivados: Defensivos: Romero e Ana Maria - evolução nos tensoativos.
Romero e Ana Maria – evolução nos tensoativos.

Além da pressão ambiental, os especialistas vêem na evolução tecnológica dos princípios ativos outra pressão para o desenvolvimento de tensoativos. “A quantidade de ingrediente ativo aplicado por hectare é cada vez menor, exigindo tensoativos de melhor desempenho, capazes de garantir a uniformidade da dispersão”, comentou Ana Maria Santos.

Outra fonte de preocupação é a restrição ao consumo de água, implicando aplicação a baixos volumes de calda ou em grânulos. “Nenhum ingrediente pode ser capaz de produzir dano ambiental, como a contaminação de lençóis freáticos”, disse Romero. A formulação ideal hoje é a dos grãos autodispersíveis (ou WDG). “Para esse tipo de produto temos a família Metasperse, dispersantes de última geração, que oferecem mais eficiência com menor dosagem”, disse Ana Maria. Formulações WDG precisam ser feitas em equipamentos específicos para cada ativo, variando entre spray dryers, extrusoras, leitos fluidizados e outros. “Para caso caso é preciso ter o tensoativo adequado”, informou.

Também para WDG, a Uniqema oferece a família Atplus, adjuvantes que permite melhor umectação do produto, permitindo dispersão mais espontânea. “Ele também é usado para permitir a compatibilização de produtos, para aplicação conjunta, no mesmo tanque”, comentou a especialista. Essa propriedade é Química e Derivados: Defensivos: def17.interessante no caso de pulverizações aéreas, por exemplo. Além disso, alguns herbicidas apresentam melhor resultado quando aplicados junto com fertilizantes, mistura difícil de dispersar sem o adjuvante. “O Atplus foi registrado no Brasil recentemente, mas já é muito usado nos EUA e na Europa”, disse Romero.

Para a produção de defensivos agrícolas, usam-se blends de tensoativos, desenvolvidos para cada caso. “A composição varia com o produto técnico, a aplicação desejado e o processo produtivo a empregar”, disse Ana Maria, justificando a necessidade de desenvolver soluções específicas. A Uniqema produz tensoativos no exterior, importando-os para atender aos clientes locais, interessados em diferenciar seus produtos finais. A tecnologia produtiva usa etoxilações com controle do comprimento da cadeia e da formação de subprodutos.

Química e Derivados: Defensivos: def18.Segundo Romero, os movimentos de concentração de fabricantes de defensivos não afeta diretamente o negócio de tensoativos. “O volume de vendas permanece, só muda o número de compradores”, avaliou. A tendência de mercado a longo prazo aponta para menor consumo físico desses itens, que tendem a ser mais sofisticados, portanto mais caros, mantendo o nível de faturamento. “Nossas vendas no Brasil, por exemplo, estão em franco crescimento”, salientou.