Crise Hídrica – indústria química lança guia para plano de contingência

Crise hídrica -Embora venha aumentando a eficiência do uso dos recursos hídricos há anos, crise de abastecimento de água de gravidade inédita levanta preocupação da indústria química, que busca se preparar por meio do planejamento de ações de contingência de acordo com análise dos níveis de disponibilidade de água.

Produtos químicos para tratamento da água e medidas para o aumento da eficiência na gestão dos recursos hídricos pela indústria química ganham destaque no contexto de escassez e má qualidade do recurso.

O Brasil passa por uma seca nunca antes registrada. É o que afirma o diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo. Devido ao fenômeno climático El Niño, a tendência para os próximos meses é de manutenção da seca no Nordeste e de chuvas acima da média nas regiões Norte e Sul. Por sua vez, na região Sudeste, o clima pode tanto ser afetado pelo avanço das chuvas do Norte e Sul, quanto pela seca do Nordeste, o que torna as previsões indefinidas.

Química e Derivados, Em meio à crise hídrica, indústria química lança guia para elaboração de plano de contingência

Esse cenário de risco e incerteza chamou a atenção não apenas da população e das autoridades responsáveis pela gestão da água, mas também da indústria para uma questão que nunca havia sido motivo de tanta preocupação: será que estamos preparados para a seca?

Embora a indústria química já tenha um histórico de evolução na eficiência do uso dos recursos hídricos em seus processos e produtos, a resposta para essa pergunta está na ponta da língua de Luiz Oliveira, coordenador do Grupo de Trabalho Técnico sobre a Água (GT Água), formado na Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), no âmbito da Comissão de Meio Ambiente e Sustentabilidade. “Hoje, em um cenário de escassez hídrica, nenhuma empresa está preparada”, afirmou. A preocupante conclusão impulsionou o desenvolvimento do Guia para Elaboração de Plano de Contingência para a Crise Hídrica.

Na indústria química, a água é utilizada como líquido de transferência em sistemas de troca térmica, além de fazer parte da composição de uma vasta gama de produtos. De acordo com Oliveira, que também é gerente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Dow e responsável pela coordenação do projeto do guia, o objetivo foi satisfazer a necessidade da indústria química de avaliar antecipadamente o cenário de escassez hídrica para poder se preparar para diferentes níveis de contingência.

O material serve de base para o desenvolvimento de um plano com ações mitigatórias em casos de restrição hídrica para a indústria química e pode ser incorporado ao sistema de gestão das empresas. O guia foi estruturado em ações sugeridas para quatro níveis de contingência – verde, amarelo, laranja e vermelho – que devem ser definidos por cada unidade produtiva, ou seja, com base no perfil hidrológico atual da bacia hidrográfica onde a planta esteja instalada. A partir dessa análise, é possível diagnosticar o nível de escassez de água e planejar as ações antecipadamente. As medidas de mitigação recomendadas para cada nível possibilitam às empresas avaliar as ações propostas e moldá-las conforme a sua realidade. No nível verde, a empresa está no uso pleno dos recursos hídricos e, no nível mais crítico (vermelho), o volume de água das fontes hídricas é insuficiente para atender a fábrica.

Essa divisão em vários níveis de alerta é o que falta ao gerenciamento das bacias hidrográficas, na opinião de Vicente Andreu Guillo, diretor presidente da ANA. “Com a regulação atual, não se tomam medidas até que a crise chegue. Devem existir faixas intermediárias para proteção social”, afirma. De fato, o modelo de níveis de contingência foi desenvolvido pelo GT da Abiquim com o objetivo também de inspirar ações que sigam essa metodologia, seja na gestão pública da água, seja em outros segmentos industriais. “O guia foi desenvolvido pela e para a indústria química, mas a sistemática e a metodologia utilizadas faz com que ele possa ser adaptado para outros segmentos”, acrescenta Luiz Oliveira, coordenador do projeto.

O Guia para Elaboração de Plano de Contingência para a Crise Hídrica está disponível gratuitamente para download em abiquim.org.br

Cólera, diarreia, doenças gastrointestinais, hepatite A, verminoses, dermatites e esquistossomose, são doenças típicas de locais que não têm saneamento ou água tratada. “Uma das formas mais importantes dos governantes reduzirem os gastos com saúde é investindo em saneamento.” – Édison Carlos, presidente-executivo do Instituto Trata Brasil

Indústria química e a gestão da água – John F. Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, revelou em um de seus discursos que “quando escrita em chinês, a palavra crise se compõe de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade”. A escassez de água, embora represente uma ameaça à produção, pode também ser vista como um incentivo à implementação de produtos e processos que consumam menos água e mesmo à inovação na indústria de produtos químicos para tratamento do recurso.

As indústrias químicas que têm plantas instaladas no país já vêm dando há décadas a sua contribuição ao reduzir a captação de água e a quantidade de efluentes lançados, além de aumentar a porcentagem de efluentes reciclados. O aprimoramento contínuo da gestão dos recursos hídricos pela indústria química faz parte do Sistema de Gestão do Programa Atuação Responsável. O Programa Atuação Responsável® é uma iniciativa voluntária da indústria química mundial, gerida no Brasil pela Abiquim, destinada a demonstrar seu comprometimento na constante melhoria de seu desempenho em saúde, segurança, meio ambiente e sustentabilidade. De acordo com o relatório dos Indicadores do Atuação Responsável, entre 2006 e 2013, a indústria química reduziu 37,5% do volume de água consumida em processos e produtos. Nesse mesmo período, o volume de água captada pelo setor caiu 34,8%. Além de diminuir o impacto ao meio ambiente, essa melhoria da eficiência na gestão da água reduz também os custos de produção.

De acordo com o Líder de Atendimento Técnico da Unipar Carbocloro e integrante da Comissão de Saneamento e Tratamento de Água da Abiquim, Hilton Carvalho da Silva, o sistema de gestão hídrica da empresa preza pelo reúso e redução do desperdício. Segundo Silva, 80% da água captada pela Unipar Carbocloro dos rios Cubatão e Perequê é reaproveitada mediante tratamento realizado na própria empresa para a eliminação de impurezas para o reúso industrial do recurso.

Mais uma iniciativa da indústria para reúso da água, alinhada ao Programa Atuação Responsável®, foi a instalação, em 2012, do Aquapolo, no Polo Petroquímico de Capuava-SP, maior projeto de água de reúso para fins industriais do Brasil e do Hemisfério Sul, com capacidade para produção de até mil litros por segundo de água não potável a partir do esgoto tratado.

Produtos químicos para o tratamento da água – Nesse cenário de crise hídrica, muitas vezes com a utilização das reservas técnicas das represas, é indispensável o uso de produtos químicos para garantir que a água que chega até a população esteja limpa. Na opinião do diretor-médico do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ceatox-USP), médico assistente do Instituto da Criança e assessor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Dr. Anthony Wong, “os produtos químicos são absolutamente essenciais para garantir a qualidade da água, para que ela seja considerada potável. Ainda mais nos dias de hoje, em que estamos usando água do volume morto de alguns reservatórios, cujo conteúdo tóxico da água sem tratamento é desconhecido”, alerta o toxicologista.

A química é ainda um dos setores mais importantes quando se fala em tratamento de água. Processos como oxidação, desinfecção, decantação e flotação, essenciais para garantir a qualidade da água que chega às casas da população, só são possíveis com a ajuda da indústria química. Segundo Mercedino Carneiro Filho, químico do Departamento de Qualificação e Inspeção de Materiais e Equipamentos da Sabesp, empresa responsável pelo fornecimento de água, coleta e tratamento de esgotos de 364 municípios do Estado de São Paulo, em média, a empresa utiliza em torno de 12 mil toneladas de produtos químicos por mês somente nos processos de tratamento de água da região metropolitana. O consumo total em todas as cidades em que a Sabesp opera no Estado de São Paulo é de aproximadamente 22 mil toneladas por mês.

As perdas na distribuição no Brasil, seja por vazamentos, seja por erros de medição, ligações clandestinas ou roubo, chegaram a 37% do volume total de água tratada em 2013. O número equivale a 6,5 vezes a capacidade do Sistema Cantareira (sem considerar as reservas técnicas). (Instituto Trata Brasil, 2015) De acordo com o coordenador da Comissão de Saneamento e Tratamento de Água da Abiquim, José Eduardo Gobbi, em Israel, as perdas são de 6,5% e a meta é reduzir para 2,5%.

Conforme explica o especialista da Sabesp, os produtos coagulantes e floculantes têm a função de formar flocos com as impurezas da água para que possam ser separados. Neste grupo, estão o sulfato de alumínio, o cloreto de polialumínio, o cloreto férrico e, em alguns casos, são utilizados produtos auxiliares, como os polímeros à base de poliacrilamidas. Carneiro Filho explica ainda que também são usados produtos alcalinizantes com a função de ajustar o pH da água para melhorar a condição de floculação. Neste grupo, encontram-se a cal (virgem, hidratada ou em suspensão) e o hidróxido de sódio. Para a oxidação e desinfecção da água, são utilizados predominantemente os produtos à base de cloro ou hipoclorito de sódio. O ácido fluossilícico ou o fluorsilicato de sódio não são utilizados para o tratamento, mas dosados na água tratada para prevenção da cárie dentária.

De acordo com o coordenador da Comissão de Saneamento e Tratamento de Água da Abiquim e gerente de Água e Esgoto da Nalco na América Latina, José Eduardo Gobbi, a indústria química está totalmente apta para atender o mercado de tratamento de água com produtos de alta qualidade, que atendem as normas internacionais e brasileiras, como a ABNT NBR 15784, incorporada pela Lei, que estabelece os requisitos para o controle de qualidade dos produtos químicos utilizados em sistemas de tratamento de água para consumo humano e os limites das impurezas nas dosagens máximas de uso indicadas pelo fornecedor do produto, de forma a não causar prejuízo à saúde humana.

Apesar disso, Gobbi chama a atenção para os problemas de infraestrutura de saneamento e tratamento de água. “Existem duas crises brutais no Brasil. Além da crise de abastecimento, a principal é a falta de tratamento de esgoto. Nós já estamos trabalhando pró-ativamente há mais de dez anos para oferecer ao país produtos que atendam as mais altas tecnologias do mundo, mas dependemos de planos governamentais estruturados e que tenham continuidade, dependemos das estruturas físicas para fazer uso dos produtos químicos. O que falta é construir as plantas (concretizar os projetos). Nós temos produtos químicos, mas para usá-los é preciso que os projetos de estações de tratamento de água e esgoto sejam concretizados. A indústria química está preparada para fornecer produtos para uma ampliação dessa rede que está prevista há 20 anos”, afirma o coordenador da Comissão de Saneamento e Tratamento de Água da Abiquim.

Nesse sentido, o presidente-executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, atribui ao mau tratamento do esgoto a piora da qualidade da água da natureza brasileira. “Com a crise hídrica, torna-se cada vez mais importante tratar o esgoto, para que ela chegue ao rio a ponto de o manancial poder oferecer água potável novamente. Temos, principalmente os rios urbanos, quase todos comprometidos pelo lançamento de esgoto sem tratamento. De forma geral, os recursos hídricos pioraram muito nos últimos anos. Isso faz com que seja cada vez mais importante o emprego de produtos químicos para purificar tanto a água quanto o esgoto e essa necessidade tende só a aumentar, porque a cada dia novas substâncias são jogadas na água. Eliminamos novos remédios, novos cosméticos, novos alimentos e, consequentemente, a água de hoje tem substâncias que não existiam há 50 ou 60 anos. Isso faz com que o desafio de tratar a água seja cada vez maior e que novos produtos tenham que ser formulados para atender essa demanda dinâmica da água que temos que tratar”, observa Édison Carlos.

Na opinião do químico da Sabesp, Mercedino Carneiro Filho, “a indústria química tem papel extremamente importante no desenvolvimento de produtos de alta performance e novas tecnologias, como os processos de membranas”. Durante o Seminário ‘Gestão Hídrica e a Indústria Química’, realizado pela Abiquim no mês de julho, em São Paulo, o especialista técnico da Dow, Fábio Pereira de Carvalho, detalhou tratamentos avançados baseados em membranas, como a ultrafiltração, a nanofiltração e a osmose reversa. Já Kleber Martins, gerente de soluções América Latina da Nalco, mostrou tecnologias de redução do consumo de água em processos de tratamento do recurso hídrico e de efluentes com o uso do ParetoTM, ferramenta que otimiza a injeção de produtos químicos no material a ser tratado.

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