Couro: Senai gaúcho investe em reforma de instalações

Referência mundial em pesquisa científica e desenvolvimento de recursos humanos para curtumes, o Centro Tecnológico do Couro (CTC-Senai), em Estância Velha-RS, recebe uma série de melhorias desde 2002, quando foi lançado o projeto “Adote o CTC”, uma idéia da atual diretora da instituição, a engenheira química Darlene Rodrigues.

A primeira etapa da obra bancada por 37 empresas fornecedoras de bens de capital e insumos, a um custo de R$ 47 mil, diz respeito às áreas de curtimento, recurtimento e semi-acabamento do curtume-escola pertencente à instituição. Em abril, mais um objetivo foi alcançado com a inauguração oficial das novas instalações do laboratório de acabamento de couro, totalmente remodeladas para atender a crescente demanda por mão-de-obra qualificada.

Química e Derivados: Couro: Darlene - couro brasileiro tem qualidade global. ©QD Foto - Fernando de Castro
Darlene – couro brasileiro tem qualidade global.

“O Brasil exporta cada vez mais porque a qualidade do couro acabado no país atingiu a mesma qualidade do material produzido na Europa”, atesta Darlene Rodrigues. A despeito da redução da taxa de exportação do wet blue de 9% para 7%, fato que derrubou as vendas externas do couro de alto valor agregado, nos primeiros meses de 2004, ainda assim a exportação desse material aumentou 40%, contra 86% em relação ao mesmo período do ano passado. Como informou a diretora do CTC, todos os equipamentos do laboratório de acabamento, como as cabines de pintura e matização, receberam melhorias. Os produtos químicos foram organizados em gôndolas, classificados e expostos de acordo com a marca do fabricante. A exemplo da área de curtimento, bancada pela iniciativa privada, os R$ 25 mil investidos vieram das 18 indústrias químicas voltadas à produção de formulações para acabamento de couros. As mesmas são responsáveis pelo fornecimento gratuito de seus compostos para que os aprendizes testem todas as opções existentes no mercado. São corantes, pigmentos, resinas, óleos, graxas, pastas, ceras e aditivos, entre outros.

Além disso, a literatura técnica passa por reorganização com a criação de um banco de dados completo com as informações sobre os produtos e equipamentos existentes nas novas instalações do laboratório de acabamento do CTC. Essas melhorias beneficiam os alunos da escola de curtimento e também o conjunto da cadeia produtiva do couro, pois as instalações e serviços prestados ali ficam à disposição de centenas de curtumes do Brasil e da América Latina. A próxima etapa do processo prevê a aquisição por comodato de um espectrofotômetro de leitura digital para refinamento dos matizes de cor. Como o acordo ainda está por ser fechado, Darlene Rodrigues desconversa sobre qual empresa irá repassar o equipamento. Segundo ela, o novo recurso tecnológico beneficiará principalmente os pequenos e médios curtumes, sem condições financeiras de investir num aparelho desse porte.

“Se tudo der certo, o espectrofotômetro chega até o final do ano”, confia a diretora. Ela reconhece que esse tipo de equipamento costuma criar uma certa angústia nos técnicos por temerem a perda dos empregos, já que o aparelho simplifica etapas do processo de tingimento do couro. “Ao contrário do que se pensa, ajudará a manter empregos porque aumentará a credibilidade do trabalho dos profissionais dos curtumes”, confia.

Com as reformas, a escola de curtimento terá também mais espaço, podendo dobrar de 300 para 600 alunos atendidos simultaneamente. A última etapa das melhorias no CTC de Estância Velha diz respeito à estação de efluentes que passa por melhorias com a construção de uma nova área para tratamento dos resíduos sólidos.

Fundada há 39 anos, a escola de curtimento do CTC formou 1.600 técnicos em processamento para curtumes desde 1965, formando também profissionais para a Argentina, México, Uruguai, Colômbia, Chile e Bolívia, em cursos de um ano e meio mais estágio, enquanto que o curso normal para brasileiros dura dois anos e meio mais estágio.

Centro de excelência – O Centro Tecnológico do Couro Senai conta com mais três áreas laboratoriais, todas filiadas à Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaio (RBLE) do Inmetro. Ao todo ocorrem no Centro 12 mil determinações analíticas.

A principal área de análises é o laboratório de ensaios físico-químicos. De acordo com a coordenadora Débora Bernardes, a unidade realiza o controle de qualidade dos insumos usados no processamento de peles e couros, bem como o controle de qualidade em suas diferentes etapas de processamento e análises de efluentes líquidos industriais. Suas instalações contam com equipamentos de análise instrumental, como o cromatógrafo gasoso e o cromatógrafo líquido de alta pressão (HPLC), recentemente adquirido.

“A cromatografia é uma técnica usada para separação de substâncias, que nos permite isolar, identificar e quantificar cada uma das estruturas comparando padrões muito precisos”, ensina Bernardes. Na cromatografia gasosa, acrescenta, o gás de arraste sob pressão carrega a amostra injetada através de uma fase estacionária, contida em uma coluna, onde se dá a separação dos diversos componentes da amostra. “Cada um dos componentes passa isoladamente por um detector, provocando um sinal elétrico recebido em um registrador que gera um gráfico denominado de cromatograma”, detalha a coordenadora.

Como explica Débora Bernardes, nesse aspecto, o laboratório físico-químico do CTC desenvolveu uma metodologia própria para preparar amostras de couro destinados à determinação de ácidos graxos, tais como ácido palmítico, esteárico e oléico através da cromatografia gasosa, que se baseia na derivação dos ácidos graxos com BF3 – metanol (boro trifluoreto-metanol), resultando em uma eficiente separação durante a corrida cromatográfica. “O fundamento da análise é promover uma prévia metilação da amostra, com a finalidade de transformar os ácidos graxos em ésteres (derivatização), de maneira rápida e eficiente. O composto complexo BF3-Metanol é utilizado neste caso, pois, além de esterificar a amostra, este funciona como catalisador, tornando o tempo de ensaio reduzido”, enfatiza Débora.

De acordo com a técnica, após a reação de esterificação ou metilação, há a separação do composto em duas fases, uma polar e outra apolar (fase superior) que será analisada. Durante a corrida cromatográfica, a amostra passa por uma coluna capilar específica e simultaneamente vão se formando os picos no cromatograma, sendo que cada pico indica um componente. A concentração de cada composto é determinada por meio de uma curva de calibração com padrões que satisfaçam a faixa de concentração desejada e leitura direta no software do equipamento.

“Já na cromatografia líquida, as misturas de substâncias são eluídas com solventes. Quando a fase estacionária for um adsorvente sólido através do qual, e por um recurso de alta pressão, se faz passar a fase estacionária e a amostra, temos a cromatografia líquida de alta pressão (HPLC). Com o uso desta tecnologia, o laboratório pretende implantar em breve o controle de substâncias de uso restrito em couros, como o formaldeído e os corantes do grupo AZO, para atender às exigências do mercado internacional”, completa a coordenadora.

Por conta do padrão de excelência conferido ao local, as análises realizadas pelo laboratório físico-químico do CTC-Senai de Estância Velha vão muito além dos curtumes. A instituição já se tornou referência para outras indústrias da região como a metalúrgica, alimentícia e farmacêutica, sendo procurada também por empresas de outros Estados.

Dois outros laboratórios completam o complexo do Senai. O de ensaios mecânicos e o de microbiologia. Este último realiza as análises para avaliação da potabilidade de águas de poço, águas de reservatórios de prédios e de abastecimento geral, controle de qualidade microbiológica em peles, couros, componentes para calçados, papéis e outros materiais. Para a indústria de alimentos, oferece ensaios de coliformes totais e fecais, contagem global de bactérias e salmonetes. O CTC conta com 200 clientes cadastrados. Para trabalhar nos laboratórios do CTC o profissional precisar ter concluído o curso superior, Por enquanto, os laboratórios encontram-se espalhados pelo terreno do CTC, mas a diretora Darlene Rodrigues não esconde seu próximo projeto: “Nós queremos construir um prédio e montar uma central de laboratórios num só lugar”, se entusiasma Darlene.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.