Couro: Perspectivas 2009 – Alta do dólar pode diminuir importações da China e minimizar efeitos da crise

Química e Derivados, CouroA expansão dos negócios do segmento de insumos químicos para couro e calçados conta com a Feira Internacional de Couros, Químicos, Componentes e Acessórios, Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes (Fimec 2009), a ser realizada em Novo Hamburgo-RS, de 24 a 27 de março. Trata-se de um entre os três principais encontros mundiais da cadeia produtiva do couro. Os outros dois são realizados na Itália e na China.

Nesta 33ª edição, a diretoria da Fimec aguarda 50 mil visitantes profissionais de todos os continentes, em especial de países como México, Argentina, Alemanha, Itália, Coréia do Sul, Estados Unidos, Peru e provenientes da Oceania. A procura pela Fimec é fácil de ser explicada: o evento corresponde a produtos e serviços oferecidos por aproximadamente mil e 200 expositores, em 40 mil metros quadrados dos estandes.

Por conta do crescimento em importância, a diretoria da Fimec, a cada ano, promove um salto em melhorias nas dependências físicas para visitantes e expositores. Para este ano, encontra-se em andamento a instalação de equipamentos para mais 300 mil BTUs de ar refrigerado, o que deverá completar o processo de climatização de todos os seis pavilhões da feira, consumindo R$ 2,2 milhões.

O recém-empossado presidente da Fenac, a autarquia municipal promotora da Fimec, Ricardo Michaelsen, reuniu a imprensa em janeiro e expôs sua convicção na capacidade da Fimec em impulsionar os negócios ao longo de 2009. Para ele, a alta do dólar funcionará como a mola propulsora da recuperação da cadeia produtiva do couro. Com a alta da moeda estrangeira, as importações de insumos e de couro acabado da China, bem como as de artefatos e produtos de consumo final, começam a perder terreno. “Várias empresas aqui da região que estiveram em crise nos últimos anos já informaram que estão recebendo encomendas para abastecer o mercado interno coureiro-calçadista”, comemorou o empresário.

Química e Derivados, Vilmar Trevisan, Presidente da Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro, Couro
Vilmar Trevisan: setor não sentiu a crise porque já está nela

Porém, enquanto a Fimec não começa, a percepção ainda é de crise na área específica de insumos químicos para couro. Quem resume a angústia do segmento é o presidente da Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), Vilmar Trevisan. “O setor coureiro-calçadista não sentiu a crise porque já está em crise. Os fornecedores não falam, mas a água está no pescoço”, dispara Trevisan, sem mais delongas.

Segundo ele, é preciso tentar reverter o quadro, pois muitos curtidores voltaram a salgar o couro, ou seja: substituíram os processos químicos avançados pelos métodos empregados de forma primitiva. “Estamos voltando à idade da pedra”, avisou Trevisan.

Conforme o presidente da Abqtic, o couro está com o preço aviltado e muitos curtumes pequenos encerraram as atividades. Trevisan não espera um quadro muito diferente para 2009. O dólar subiu e a importação diminuiu. Em tese, a desvalorização da moeda estrangeira favorece a produção dentro do mercado interno, pois os importados ficam mais caros. Entretanto, como a cadeia produtiva já estava sem capital, o ano que começa poderá ser usado para atenuar o tamanho da crise ou, em alguns casos, tirar algumas empresas do vermelho.

O desenvolvimento é fundamental para tentar reverter o quadro. Nesse aspecto, a busca de produtos químicos de acabamentos, como novos vernizes, corantes e pigmentos, precisa ser constante. A receita para acabar com a crise é apostar em lançamentos. Com efeito, assinalou Trevisan, há grandes investimentos na melhoria de materiais para calçados esportivos, que consomem matérias-primas com tecnologia de ponta.

A sinalização de que a crise permanecerá forte no primeiro trimestre de 2009 talvez seja explicada pelo ambiente de angústia proveniente dos representantes dos empresários da indústria de curtumes. Segundo Paulo Griebeler, diretor-executivo da Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (Aicsul), hoje estão retidos em torno de R$ 90 milhões em créditos tributários por parte do governo do Rio Grande do Sul. Esses valores deveriam estar no caixa das empresas para investimento em produção e capital de giro.

Diante disso, o dirigente da Aicsul espera que sejam agilizados os acordos com o Compet, mecanismo que estabelece critérios para a liberação dos créditos de ICMS retidos pelo governo estadual. O setor coureiro gaúcho abrange 224 empresas, totaliza um faturamento anual aproximado de R$ 2 bilhões e gera 16 mil empregos diretos. Porém, vive momento dramático pela falta de capital para movimentar sua produção. O quadro já vinha se agravando com o aumento dos créditos de ICMS relativos a exportações.

As empresas do Vale dos Sinos enfrentam problemas também com créditos de tributos federais como PIS e Cofins. O diretor-executivo da Aicsul salienta que esse processo estava caminhando bem, fruto do bom trabalho desenvolvido, mas foi interrompido pela re-estruturação da Delegacia da Receita Federal em Novo Hamburgo-RS. Até o fechamento desta edição, não havia sequer um delegado da Receita Federal na cidade para resolver o problema. À espera de melhores dias, Griebeler comenta que a crise internacional tornou a situação insuportável.

Descapitalizadas, as empresas vivem agora o drama do crédito escasso e caro, além de um cenário internacional de demanda baixa, direcionado principalmente para o mercado externo de móveis, estofamentos automotivos, calçados, vestuário e artefatos. “Reconhecemos como positivo o esforço para sanar as contas públicas estaduais, mas a situação ficará insustentável se as empresas não receberem o que é delas”, finalizou o dirigente da Aicsul.

Química e Derivados, Júlio Camerini, Ex-presidente da Fenac/Fimeq, Ricardo Michaelsen, Atual presidente da Fenac/Fimeq, Couro
Júlio Camerini (esq.) passou cargo para Ricardo Michaelsen: ambos confiam em 2009

Gestão exemplar – Por ocasião da apresentação da nova diretoria da Fenac/Fimeq, o ex-presidente Júlio Camerini, que passou o cargo para Michaelsen, promoveu um balanço de sua gestão. Conforme Camerini, sua diretoria saneou os cofres da empresa, tornou a entidade autossuficiente e implantou o planejamento estratégico com plano de ação para os próximos cinco anos. “O que se fez na Fenac foi dar a ela um formato de empresa, sem interferências externas, sem ingerências políticas, conduzindo tudo dentro de parâmetros empresariais, com metas a serem atingidas”, assinalou. “Todos os pagamentos correm dentro de um fluxo de caixa equilibrado e supervisionado pelo conselho de administração. Hoje a Fenac é uma empresa extremamente sólida, com recursos aplicados.”

Uma das fórmulas de sucesso da Fimec, de acordo com Camerini, é a atuação em parceria com as principais entidades do setor coureiro-calçadista. Na edição deste ano, a Fenac conta novamente com a participação das diversas entidades representativas da cadeia produtiva do couro, como a Associação Brasileira de Estilistas de Calçados e Afins (Abeca), além da Associação Brasileira de Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic).
São copromotoras do evento ainda a Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), a Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (Aicsul), a Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assitencal), o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CIB) e o Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (Ibtec).

Lançamentos e dúvidas – Ainda que a diretoria da Fimec produza um cenário positivo sobre 2009, o momento ainda é de incerteza entre executivos da indústria química direcionada ao segmento. O gerente da unidade de negócios da Lanxess do Brasil, Fábio Fonseca, acredita numa repercussão ainda negativa para os negócios nos primeiros meses do ano como reflexo do epicentro da crise do ano passado.

Mas adianta os lançamentos para a Fimec 2009: o Aquaderm-Shield, que cria uma espécie de escudo no couro ao diminuir as possibilidades de incrustação de sujeira e, ao mesmo tempo, torna o couro lavável. Baseado em nanotecnologia, o Aquaderm-Shield é voltado aos couros de alto nível empregados na forração dos estofamentos automotivos. O produto protege o couro de manchas provocadas por mostarda, molhos, tintas de marcadores de textos ou óleo de motor.

Também será lançado o Levotan X-Cel, microcápsulas que se expandem com o calor para deixar o couro mais uniforme, aumentando a área de corte e diminuindo o desperdício. O Euderm X-Grade, microcápsulas usadas para dissimular os efeitos do couro, evitando que ele perca suas características. O principal produto usado pelos curtumes é o sulfato básico de cromo, usado no curtimento de couros e peles, segmento em que a Lanxess é líder de vendas com o Chromosal B-A.

Na área de recurtimento e acabamento, os mercados que mais demandam produtos são os de estofamento mobiliário e automotivo, além dos calçados. Nessa área, a Lanxess oferece seus taninos sintéticos da marca Tanigan, e também possui uma expressiva participação mundial no mercado de acabamento de couros automotivos, atuando em forte cooperação com os fornecedores de couros para as montadoras.

A Lanxess se apresenta como a mais completa fornecedora de produtos químicos para couros. O Brasil possui centros curtidores estabelecidos no Rio Grande do Sul, São Paulo, e nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. As regiões Sul e Sudeste concentram aproximadamente 65% do consumo de produtos químicos para couros.

De acordo com o gerente da unidade de negócios da Lanxess, Fábio Fonseca, apesar da queda do ano passado, o objetivo da empresa é continuar crescendo para aumentar a posição de liderança do mercado de produtos químicos para couros. ?Exemplo dessa estratégia é que, mesmo na situação atual, contratamos recentemente mais um técnico de recurtimento para dar auxílio aos clientes no sul do Brasil, e continuamos a desenvolver produtos inovadores para a indústria”, informou.

De outra parte, o coordenador regional para negócios de couro da Basf, Leonardo Grohmann Buzzini, considera o cenário de crise internacional de difícil prognóstico. Em sua opinião, o mercado de couros sofre retração desde 2007. No final de 2008, também foi contaminado pela crise dos mercados e sentiu um forte impacto.

No entendimento do executivo da Basf, em 2009 os efeitos da forte diminuição de crédito continuarão a impactar o segmento automotivo e moveleiro de forma direta. É possível que o setor de calçados apresente sinais de recuperação por se tratar de um bem de consumo não-durável e diretamente ligado à indústria da moda. Embora o cenário seja incerto, a intenção é fortalecer as posições dentro dos mercados e clientes considerados estratégicos.

“Manteremos uma postura realista diante da crise, acompanhando as movimentações do mercado e nos adaptando a elas, porém, trabalharemos fortemente para assegurar a sustentabilidade de nossa divisão e reverter o atual cenário”, anota Buzzini. Ele salienta: a Basf, como empresa diretamente ligada à inovação, faz lançamentos constantes de produtos.

Em 2009, reforçará a linha para recurtimento com a chegada de uma nova gama de produtos à base de sulfonas. A Basf atua em todo o processo produtivo do couro, oferecendo uma completa linha de produtos para ribeira, recurtimento e acabamento.

Para ribeira, fornece o agente dispersante Mollescal LB-PA, o auxiliar de caleiro Mollescal L-ND, e o agente desengraxante com nome comercial Eusapon L-DE. Para o processo de recurtimento, Buzzini destaca as linhas Basynta e Relugan, feitas de polímeros, aldeídos e resinas. Há ainda o Tamol, auxiliar para recurtimento, além das linhas Densodrin e Densotan, que entram no processo como agentes de hidrofugação.

A Basf oferece ao mercado de couros aproximadamente 25 famílias de produtos. “Embora tenhamos observado nos últimos anos uma movimentação dos curtumes, principalmente em direção ao Centro-Oeste, acompanhando o deslocamento da criação de gado, Rio Grande do Sul e São Paulo permanecem os dois grandes centros produtores de couros de primeira linha no país”, atesta Buzzini. Nos últimos dez anos, o Nordeste construiu uma importante produção e passou a consumir produtos de ponta como forma de melhorar o couro acabado na região.

Juarez Lacroix, gerente do grupo químico gaúcho Killing, também aposta suas fichas na Fimec. A Killing promete continuar expandindo suas atividades no Brasil e em busca de novos mercados na América Latina. Para a Fimec, uma das novidades ficará por conta de um sistema tintométrico para curtumes.

Estão previstos os lançamentos de linhas de pigmentos específicos direcionados à tintometria e produtos para acabamento de couro, tais como lacas, aqualacas, solventes, stuccos, compactos, agentes de toque, resinas e poliuretanos, lacas butirato, resinas poliuretânicas base água, resinas acrílicas base água, resinas de impregnação, tíneres, auxiliares base água, auxiliares base solvente, auxiliares catiônicos, proteínas, pigmentos base água, pigmentos fluorescentes e novos pigmentos base solvente.

A Killing movimenta seus negócios em toda a América do Sul, mas suas regiões de maior desempenho em negócios correspondem ao sul e sudeste do Brasil. Cada lote de pele apresenta uma composição diferente e não há como controlar o processo em um padrão determinado, com algumas exceções. É o caso específico dos couros usados nos estofamentos da indústria automotiva e submetidos às normas internacionais. O mercado brasileiro para produtos de acabamento de couros movimenta R$ 250 milhões por ano, estima.

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