Couro: Fimec lança novos insumos para curtumes

A indústria de curtumes brasileira não pára de crescer e há muito tempo se transformou em mercado estratégico do setor químico. As estatísticas não são exatas, mas os negócios com produtos e substâncias que vão das comodities até composições mais sofisticadas empregadas nas etapas de recurtimento ultrapassam os US$ 500 milhões por ano em faturamento bruto. Segundo o Centro Brasileiro das Indústrias de Couro (CBIC), o País abateu 32,5 milhões de cabeças de gado bovino em 2002 e o crescimento para 2003 aponta mais 3 milhões de animais que irão para os frigoríficos. Em 2000, as exportações de carnes renderam US$ 760 milhões na balança de exportações, enquanto que o setor de couros e manufaturados atingiu US$ 2 bilhões. Em 2002, os valores chegaram a US$ 3 bilhões e a perspectiva para 2003 é que os curtumes continuem crescendo na mesma proporção.

Somente o curtimento demanda 12 etapas. Tudo começa com o remolho para desidratar a pele e cessar a decomposição bioquímica, a partir da adição de sal, bactericidas, substâncias tensoativas e água. Nas etapas seguintes entram aminas, enzimas, mais bactericidas, ácidos sulfurosos nas suas diversas configurações, combinações de sais e ácidos para equilibrar o pH, até chegar ao wet blue que é a última etapa de curtimento e precede o recurtimento, o semi-acabamento e acabamento. De acordo com o empresário Milton Kogler, da MK Química, a indústria de compostos para curtumes tem um crescimento vegetativo médio de 2,6% ao ano e permanecerá assim em 2003. No entanto, o faturamento vem registrando média de 1%, conseqüência de um mercado altamente acirrado, o que vem estrangulando os preços.

Kogler entrou no mercado há 24 anos, fabricando uma linha completa de produtos desde o curtimento até os pigmentos, vernizes, óleos engraxantes e lacas utilizadas no acabamento. “Nós estamos sempre inovando na tecnologia para melhorarmos os produtos. Não esperamos as feiras e eventos para lançamentos, sempre buscando nos adiantar com relação ao mercado. Temos o que chamamos de reserva tecnológica”, diz Kogler. De qualquer forma, a MK não desperdiçou a oportunidade de apresentar seus produtos na Fimec 2003 (Feira da Indústria de Máquinas, Equipamentos e Componentes para Couro), que apesar do nome reúne também os pesos pesados da química industrial e dezenas de empresas nacionais para apresentarem seus produtos e serviços.

Já a Rhodia se fez presente à exposição com a linha completa para curtimento Rhodiaeco WB, um condicionante que permite aplicar o cromo na última etapa do curtimento em pHs mais elevados entre 4,6 e 5,2, eliminando da operação os chamados ácidos fortes, como ácido sulfúrico e a etapa de basificação. Para a empresa, o processo Rhodiaeco WB é mais fácil de controlar, diminuindo os riscos de formações exageradas de ácido ou base, resultando em maior resistência físico-mecânica.

A nova linha inclui ainda o Rhodiaeco Formiplus 85%, um ácido orgânico, sem ácido sulfúrico e ácidos amoniacais, além do Rhodiaeco Descal, com alto índice de solubilização do cálcio e isento de ácidos inorgânicos e de nitrogênio, capaz de promover uma desecalagem profunda, e ao mesmo tempo reduzir a ocorrência de nitrogênio no efluente final. Esses produtos valeram à Rhodia o Prêmio Inovação Tecnológica 2003, conferido pela Associação Brasileira das Empresas de Componentes, Calçados e Artefatos – Assitencal e Copesul. “Estamos investindo cada vez mais no mercado de curtumes e ampliaremos ainda mais nosso leque de produtos como solução completa para etapa de curtimento”, antecipa Paulo Catanhede, gerente de vendas da Rhodia.

A Bayer participou da Fimec 2003 com a linha de compostos Xeroderm, como o P-AF, polímero especial para hidrofugação de couros, que junto com o Xeroderm S-AF permite hidrofugar o couro sem a utilização de sais de cromo ou sais minerais para fixação. Além disso, mostrou os derivados de tanino – o Tanigan F-A para enchimento e o SR-A de efeito neutralizante – que agem como redutores do formol livre no couro e previnem a formação do cromo hexavalente. Completam a nova linha da Bayer o Leukotan 8090, polímero de alta concentração, apropriado para enchimento, melhorando o aproveitamento das partes flácidas, em se tratando de couros grampeados úmidos e posteriormente batidos durante muito tempo. Já o Leukotan 970, trata-se de um polímero acrílico especial para couros vegetalizados brancos com alto poder de enchimento e propriedades de resistência ao calor e luz, além do alto poder de dispersão de curtentes vegetais.

A empresa Stahl, operando com fábrica no Brasil desde 1992, foca seus produtos para o mercado de semi-acabamento e acabamento, oferecendo corantes, recurtentes e desengraxantes, e atua com força também nos substratos flexíveis de PU e PVC. Foi para Fimec com uma linha completa de químicos para polimento derivados de caseínas (EX 72094 e EX 72095). Há ainda os chamados top aquosos (EX-72150, EX 72-151, EX 72 152, EX 72153 e EX 155) produtos que definem acabamentos foscos ou brilhantes para móveis e estofamento para automóveis. A empresa oferece resinas acrílicas como a RA 22065 para conferir aparência natural ao acabamento ou polimento, ceras, resinas compactantes e uretânicas, que definem lustro, maciez e adesão para estofamentos, bolsas, sapatos, acessórios.

Há também um grupo de resinas híbridas WT 6690 para acabamentos com gravação, mais a linha KH 6672 e RH 6663, que respectivamente são empregadas para conferir brilho e flexibilidade. O gerente técnico da Stahl, Cyprian Mushumba, revela que a empresa está especialmente atenta para o mercado de estofamento para automóvel que já responde por 60% do couro consumido no mercado interno. A Basf exibiu junto com a Audi um veículo da série A3 de última geração com 225 cavalos de potência, tração automática das quatro rodas, cujo acabamento impecável conta com o estofamento de couro totalmente processado com sua tecnologia de recurtimento e acabamento.

Sulfato de cromo – Apesar da polêmica com os ecologistas, o cromo continuará sendo o principal ativo químico da indústria de curtimento. A aposta é da diretora de marketing da MK Química, Lisiane Kogler. “É importante que se diga que não há uma restrição formal à utilização do cromo para o curtimento de couros. A preocupação está no controle do processo de curtimento, para evitar a formação do cromo VI”, afirmou. O curtimento ao cromo é o método de curtimento mais importante na atualidade por conferir ao couro propriedades como a elevada versatilidade, estabilidade à luz e ao calor, estabilidade hidrotérmica, resistências físicas superiores aos demais curtentes, ciclos curtos de produção, boas propriedades tintoriais, maciez, elasticidade, e baixa massa específica, dentre outras.

Segundo Lisiane, ao empregar sais de cromo já na sua forma trivalente, as empresas têm a garantia de que o couro curtido não vai apresentar o cromo na valência VI ou VIII, considerados perigosos. Paulo Catanhede, da Rhodia, concorda com a diretora da MK: “Todas as tentativas de substituir o cromo foram infrutíferas. Os curtentes de origem vegetal provenientes do tanino não conferem a mesma qualidade, mas podem resolver o problema para a confecção de bolsas e acessórios que não necessitam da mesma resistência dos sapatos.” Apesar disso, o executivo da Rhodia reconhece que as grandes empresas químicas mantêm pesquisas no sentido de substituir o cromo em definitivo. “Esse é um desafio a ser perseguido até encontrarmos uma solução ambientalmente aceitável”, continuou Catanhede.

A Bayer mantém jazidas do minério de cromo na África do Sul, principal fonte de sulfato de cromo que a empresa exporta para Europa e Ásia. A parcela consumida na América é produzida pelo grupo alemão em uma fábrica da Argentina. No total, a Bayer processa 80% do cromo que consome. Os outros 20% são vendidos às empresas menores em todo o mundo, que obtêm os sulfatos, dissulfatos e os demais sais de cromo utilizados também no recurtimento. Noventa e cinco por cento do wet blue, o equivalente a 143 milhões de pares de sapato, provêm do sulfato de cromo, composição química à qual é atribuída a mais alta qualidade do couro, quanto o assunto é resistência mecânica, capacidade de impedir a passagem da luz e durabilidade.

Wet blue ainda domina vendas ao exterior

A Fimec (Feira da Indústria de Máquinas, Equipamentos e Componentes para Couro) é a terceira maior feira da cadeia produtiva do couro do mundo, atrás de Bologna, na Itália, e da exposição realizada anualmente na China, cancelada em 2003 por causa da epidemia de pneumonia atípica que assola o continente asiático. Aproximadamente 50 mil visitantes passaram pela exposição de Novo Hamburgo-RS nos quatro dias de portões abertos ao público. Um dos temas que tomou conta dos seminários e eventos paralelos foi a necessidade de se agregar valor ao couro brasileiro, pois 50% do material ainda é exportado, antes do recurtimento, na forma de wet blue, com baixo valor agregado. Com o suporte da biotecnologia, diversas ações têm sido direcionadas à transformação da proteína animal em substâncias essenciais ao desenvolvimento da indústria farmacêutica e cosmética, com amplo uso na medicina reparadora e na indústria alimentar.

Estudos recentes demonstraram que as peles de algumas espécies animais contêm oito dos nove aminoácidos essenciais à sobrevivência humana. Além disso, uma das sugestões de integrantes da indústria química é apertar a legislação obrigando os curtumes a exportar o couro semi-acabado ou acabado, com maior valor agregado, melhorando o desempenho em exportações e ampliando também o mercado de trabalho do setor. Na Argentina, por exemplo, a legislação proíbe a exportação de wet blue.

A potencialidade do setor coureiro, hoje, pode ser diagnosticada por meio de diferentes indicadores. Em termos quantitativos, os números que envolvem a produção no Brasil são bastante expressivos, chegando, em 2000 a 32,5 milhões de couros bovinos (cerca de 11% do mercado mundial) e 7,3 milhões de peles de ovinos e caprinos. “Podemos conquistar muito mais mercado com as exportações. É uma das locomotivas do nosso Estado”, desafiou o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, em seu discurso de abertura.

Somente no Projeto Comprador, a Assintecal e a Agência de Promoção das Exportações (Apex) reuniram 39 compradores estrangeiros, em especial da América Latina. Na edição, em 2002, as negociações registraram US$ 3 milhões em vendas ao exterior. “O momento atual está muito favorável ao comércio exterior. Nossos principais concorrentes são os europeus e, com o euro em valorização, o produto deles perde muito em competitividade”, continuou o presidente da Assitencal, Renato Kunst.

De acordo com Kunst, nem a queda da cotação do dólar frente o real deve ameaçar a meta de crescimento divulgada pela entidade, de 15% a 20% nas exportações em 2003. No ano passado, as 1,3 mil indústrias do segmento no País embarcaram o equivalente a US$ 507 milhões. Neste ano, o objetivo é atingir US$ 600 milhões. Os asiáticos são alguns dos alvos preferenciais dessa expansão. Muito dependente da indústria calçadista local no passado, o segmento de componentes ganha espaço próprio no mercado internacional e na Fimec. “Prevemos crescer este ano 25%. Só não estimo percentuais mais altos porque o dólar está se desvalorizando muito no país e ainda não sabemos como a indústria calçadista irá absorver esse impacto”, frisou Antoalci Pedro, diretor da Peter Chemical, empresa de produtos químicos e tintas especiais para couros e calçados, de Novo Hamburgo.

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