Couro e Curtumes

Couro: Curtumes aderem à onda ecológica

Fernando C. de Castro
24 de outubro de 2003
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    Mesmo assim, chamou atenção uma experiência realizada no curtume-escola do Senai do Rio Grande do Sul. Financiado por verba do Projeto Brasil Alemanha – um programa de pesquisa tecnológica em controle ambiental que funcionou até junho deste ano em convênio com o país germânico. No estudo, a equipe coordenada por Roberto Maia utilizou um reator de lodo óxico tipo Carrossel, com uma zona anóxica, para recirculação de licor nitrificado. Os pesquisadores conseguiram remover o nitrogênio, após oito dias de retenção hidráulica do efluente, proveniente do curtume em temperatura média de 20ºC, submetido a carvão ativado em pó, adicionado ao lodo, compondo assim um sistema de carvão ativado-lodo ativado.

    No período de testes, todo o lodo biológico foi recirculado para os reatores, e não foi realizado descarte de lodo biológico com carvão ativado. A presença do carvão ativado potencializou a remoção do nitrogênio. “Estamos atrás de um curtume pioneiro disposto a investir nessa experiência”, informou Maia. A contrapartida seria um aporte inicial de R$ 2,5 mil para aquisição do carvão ativado em pó.

    Ainda assim, uma minoria de curtumes em regiões de Minas Gerais e Mato Grosso podem estar encontrando dificuldades para montar a estrutura adequada no tratamento dos resíduos industriais. “Eu andei por lá e não gostei do que vi em alguns lugares”, afirmou Roberto Maia. No seu entender, as empresas com problema são pequenas exceções e não a regra geral. “De São Paulo para baixo todos os curtumes estão perfeitamente adequados à legislação de controle de resíduo industrial”, finalizou Maia, referindo-se também aos curtumes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

    Abqtic quer envolver os curtumes

    O presidente eleito da Associação Brasileira de Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), Carlos Guilherme Kiefer, deverá assumir o cargo em janeiro de 2004 para um mandato de dois anos, com final em janeiro de 2006, sucedendo a Alexandre Finkler. Alçado ao cargo por aclamação no encerramento do XVI Congresso Nacional da Entidade, Kiefer tem como plataforma três pontos básicos: a primeira é lançar uma campanha de conscientização junto aos curtidores para levar os técnicos empregados em curtumes para o interior da Abqtic.

    Química e Derivados: Couro: Kiefer - meta é melhorar nível técnico do processo produtivo.

    Kiefer – meta é melhorar nível técnico do processo produtivo.

    Atualmente, a entidade é integrada por funcionários da indústria química de insumos e pelos químicos e técnicos das consultorias externas. “Isto acarreta em custos para o empresário porque a entidade realiza eventos periódicos para atualizar os técnicos da cadeia produtiva”, reconheceu Kiefer. “O que nós nos ressentimos é da participação do funcionário de curtume. Hoje a Abqtic está tomada por representantes da indústria, consultores e químicos responsáveis.

    Queremos os técnicos envolvidos diretamente no ciclo de produção. Por isso temos de sensibilizar o empresário. Nossa entidade aposta na qualificação cada vez maior do couro produzido no Brasil”, reforçou.

    A segunda meta do presidente eleito da Abqtic não é organizar e disciplinar as normas técnicas utilizadas nas análises do couro. “Há uma parafernália de legislações européias e norte-americanas. É um trabalho de anos que pretendo começar”, informou. O terceiro desafio do futuro presidente é promover a integração das escolas de curtimento existentes no país – em Estância Velha-RS e Campina Grande-PB -, os centros de desenvolvimento tecnológico e as entidades sindicais. Além do presidente, a Abqtic conta com um vice-presidente, secretário, tesoureiro e dez vice-presidências divididas por regiões do país. “Com essas três metas, tenho um sonho maior que é promover a integração definitiva da cadeia produtiva do couro brasileiro”, revelou Kiefer.

    Pesquisadora defende nova visão ambiental

    É preciso desmistificar o conceito de desenvolvimento sustentável na indústria de curtume. Esse é o pensamento de uma autoridade mundial no tema: Mariliz Guterres, engenheira química com doutorado na Alemanha, milhares de quilômetros percorridos em palestras, seminários e 33 artigos assinados em publicações científicas internacionais. Sua palestra no XVI Congresso Nacional da Associação dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic) foi uma das mais concorridas. Lotada no departamento de engenharia química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em sua ótica, as empresas são incentivadas a adotar políticas ecológicas por razões econômicas, legislativas, éticas e sociais, mas o conceito de desenvolvimento sustentável é um objetivo muito mais ousado.

    “Há questões ambientais de grande relevância que incluem uma variedade de condições que não são facilmente ligadas aos poluentes individuais ou às fontes de poluição”, frisou a pesquisadora. Em sua opinião, o impacto ambiental está ligado com o crescimento populacional, a perda de biodiversidade, o aquecimento global da terra, o esgotamento de ozônio na estratosfera e as chuvas ácidas, de âmbito regional, a emissão desenfreada de CO2, entre outras variáveis. O desenvolvimento sustentável, trata todas essas questões de maneira integrada e multidisciplinar. No caso específico dos curtumes, existem três aspectos importantes relacionados com o desenvolvimento sustentável, como apontou Mariliz: racionalização do consumo energético, da água e dos insumos químicos.

    Já se sabe que na indústria do couro a energia elétrica representa sempre menos da metade da demanda total, ficando em cerca de 20 % com uma dispersão de 10 %. A parcela térmica representa os 80 % restantes da energia consumida, mas o desperdício decorre das falhas de isolamento, perdas de vapor nas canalizações, fuga em acessórios, que podem ser diminuídos com um bom programa de manutenção e poucos investimentos. Muitas vezes a geração de vapor em excesso ocorre em alguns processos desnecessários. Há vários casos em que a necessidade de calor para banhos é de apenas 60º C.



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