Couro e Curtumes

Couro: Curtumes aderem à onda ecológica

Fernando C. de Castro
24 de outubro de 2003
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    Quando o Congresso da Abqtic passou a discutir os corantes entrou no circuito a equipe de técnicos da Clariant, com um aviso. Pela diretriz 2002/G1/ CE do Parlamento Europeu há uma lista com 2.500 substâncias azóicas em suspeição, embora apenas 100 tenham apresentado uma das 22 aminas com propriedade carcinogênicas. Em termos práticos, explicou Jorge Maldaner, executivo da empresa, não muda muita coisa porque as principais fábricas de corantes globalizadas estão vinculadas a um tratado internacional por meio do qual se comprometem a eliminar as substâncias restritas dos corantes. A situação mais grave, no seu entender, se relaciona com os pigmentos à base de benzedina, empregados para o couro com acabamento em preto, classificados como cancerígenos desde os anos 70. Apesar da abolição desses produtos pelos principais fabricantes de corantes, pigmentos de baixa qualidade, originários da China e Índia, onde a substância é tolerada, podem apresentar uma das aminas condenadas. Maldaner calcula que 25% dos corantes pretos para couro consumidos no Brasil são importados. Nesse caso, ele sugere aos curtumes a exigência, por parte do fornecedor, de laudo técnico, produzido por laboratórios idôneos, atestando a ausência dessa toxina. “Você até pode usar um produto que contenha uma amina proibida desde que ela não se torne uma molécula livre”, esclareceu Maldaner.

    Química e Derivados: Couro: Finkler - curtumes são vítimas de preconceito.

    Finkler – curtumes são vítimas de preconceito.

    Tratamento dos resíduos – Se nas reações de processo os curtidores precisam ficar antenados, com relação ao tratamento dos resíduos pós-industriais não existem motivos para preocupação. Esse é o entendimento do atual presidente da Abqtic, Alexandre Finkler. “O curtume é visto como um vilão. Todos os curtumes do Brasil têm tratamento exemplar. As águas resultantes do processo são tratadas e devolvidas aos rios e mananciais nas condições determinadas pela legislação ambiental. São melhores do que muito esgoto sanitário”, desafiou Finkler. “Em Estância Velha todos os curtidores exibem placas indicando onde estão localizadas suas estações de tratamento para quem quiser conferir e para onde vai a água. Esse é o quadro nacional”, declarou o presidente da Abqtic em entrevista à Química e Derivados.

    Há pelos menos 20 anos, acrescentou Finkler, os curtidores foram obrigados a construir sistemas de tratamento de seus esgotos industriais. Numa defesa contundente de seu segmento, ele indagou: “Se não existisse o curtume para onde iriam as 35 milhões de peles de boi esfoladas a cada ano no Brasil, onde ocorreria a decomposição dessa matéria orgânica?”, finalizou.

    Quando o tema é tratamento de efluentes, a despesa do curtume é significativa. Em média, são mil peles abatidas por dia em cada um dos 320 curtumes brasileiros, gerando 500 metros cúbicos de esgoto industrial por unidade produtiva. A implantação de uma estação de tratamento não sai por menos de US$ 1 milhão e o custo mensal para a operação, levando-se em conta essa média, chega a US$ 250 por dia. Para o consultor de empresas e engenheiro ambiental Roberto Maia, o importante é que o processo melhora a cada dia, facilitando a operação de limpeza dos efluentes. “Os donos de curtumes estão aprendendo a substituir insumos, a melhorar o esgotamento do couro e aprendem a reciclar produtos”, opinou.

    Um exemplo da afirmação de Maia é o sulfeto de sódio, empregado na depilação do couro, numa das primeiras etapas. Atualmente, o material é reutilizado após passar por uma filtragem. Seu resíduo sólido é repassado à indústria de fertilizantes para a fabricação de corretores de pH do solo. Além disso, o sulfeto de sódio reciclado demonstrou funcionar melhor do que o novo por conter matérias orgânicas com propriedades capazes de melhorar o processo de depilação. “A maioria já está fazendo isto”, afirmou Maia. Outra prática adotada é a redução da água consumida. “Hoje existe uma guerra na indústria química que é uma briga sadia para ver quem consegue fabricar o produto mais reciclável ou menos nocivo ao meio ambiente”, elogia o consultor.

    Existem diversas experiências no sentido de reaproveitar os resíduos do curtimento. Em Apucarana, no Paraná, uma olaria está misturando as cinzas de um curtume da região à argila. “O resultado é um tijolo mais leve e ao mesmo tempo com maior resistência”, atestou Fernando Richter, um dos participantes do congresso da Abqtic.

    O tratamento do resíduo industrial em curtumes tem três gerações tecnológicas. A primeira dos anos 70 consistia em atacar quimicamente os agentes poluentes numa lagoa de estabilização. Na segunda geração, os técnicos desenvolveram um sistema de lodo ativado, onde a matéria orgânica e demais substâncias entram em reação formando a cadeia alimentar de bactérias pelas quais são consumidas. Na terceira geração, a mais recente, busca-se a diminuição do uso de produtos poluentes, reciclagem, melhoria dos processos, esgotamento maior dos sais de cromo e eliminação do cromo no recurtimento. A quarta geração, ainda em fase de pesquisa, consistiria em montar a estrutura para a reutilização da água pós-tratamento no processo industrial em ciclo fechado. Uma das partes com custo mais alto é a eliminação de substâncias nitrificadas, cuja eficácia depende do uso de carvão ativado, material considerado muito caro.



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