Couro: Curtumes aderem à onda ecológica

Encontro técnico da indústria do couro em Foz do Iguaçu reúne especialistas para discutir meios de reduzir os impactos ambientais do beneficiamento químico

Química e Derivados: Couro: couro_abre.Tornar a atividade do curtume um processo ecologicamente viável é o principal desafio lançado pela Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), com sede na cidade gaúcha de Estância Velha, a meca da tecnologia em curtimento de pele no Brasil. A cada dois anos, a entidade reúne seus associados para debater os avanços alcançados e os obstáculos para o futuro. Entre 9 e 11 de outubro, o grupo de técnicos repetiu a rotina no XVI Encontro Nacional da Abqtic, realizado na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná. Na pauta do evento, as novidades em insumos, processos e controle de efluentes, sempre com os olhos voltados às legislações ambientais, sobretudo com relação às normas da União Européia e dos Estados Unidos, países importadores de grandes volumes do couro made in Brazil.

Entre os principais trabalhos a grande maioria bateu incisivamente na tecla da questão ambiental. Quando se fala em fabricação de couro existem duas preocupações ecológicas importantes: a primeira diz respeito ao processo em si, uma vez que da pele esfolada até o produto acabado podem ocorrer aproximadamente 24 reações químicas. O segundo ponto é o tratamento do resíduo industrial, pois toda gama de substâncias – incluindo a incidência cada vez mais contestada de metais pesados – precisa passar por tratamento adequado dentro da planta, antes do despejo em rios e mananciais.

Pelo que foi dito e repetido no XVI Congresso da Abqtic a parte de processo parece ser o aspecto mais complicado. Um dos primeiros palestrantes a tomar a palavra, Lukas Haeussling, da alemã Basf, desembarcou no Brasil com um retrato realista do cenário sobre substâncias restritas ou proibidas e uma bíblia de legislações da União Européia, algumas valendo desde 1º de julho de 2003, e um conjunto de regras a vigorar até 2006. Em sua palestra, Haeussling esclareceu uma série de aspectos sobre normas técnicas relacionadas com a poluição do ar, reciclagem, controle de processos na indústria automotiva e tratamento de resíduos industriais.

Há ainda uma norma mais antiga, VOC, de março de 1999, para produtos voláteis, restringindo os etoxiliados de alquilfenol. Da Califórnia, Estados Unidos, vem a norma NMP, sigla do solvente N-metilpirrolidona, utilizado no acabamento do couro e alvo de enorme pressão. A tendência é o NPM ficar restrito nos demais estados norte-americanos nos próximos dois anos até a proibição definitiva. Também se encontram na lista negra diversas substâncias como o PCP (pentaclorofenol), o TBT (tributilestanho), encontrado como impureza na catálise para dispersões, metais pesados dos pigmentos e solventes.

Já os alcanoclorados C-10 e o C-13 estão proibidos desde primeiro de julho na Europa. Como frisou Haeussling, muitas dessas substâncias aparecem durante o processo e desaparecem no produto manufaturado, como calçados, por exemplo, não acarretando em problemas para os exportadores brasileiros. Ele sugere, mesmo assim, a realização de análises de substâncias no couro vendido ao exterior, evitando prejuízos irreparáveis. Para se ter uma idéia do alcance do problema, no caso da Alemanha, se algum produto restrito ou proibido aparecer no lote, a carga é confiscada e destruída. “A situação é complicada. Há naturalmente dúvidas por parte dos curtumes em relação ao fornecimento e à qualidade da matéria-prima”, assinalou o executivo da Basf.

Para Haeussling, o endurecimento das legislações obriga os curtumes a se ajustarem às novas regras. A Basf, enfatizou, assim como a indústria química de primeira linha, já oferece uma gama de produtos ambientalmente corretos. Basicamente, a nova geração de substâncias busca a substituição de solventes, engraxantes de origem animal e petroquímicos por produtos solúveis em meio aquoso e óleos vegetais provenientes de plantas como a carnaúba.

De qualquer forma, o vilão dos curtumes continua sendo o cromo. Embora na valência 3 não ocorram maiores restrições, a presença de sua variação em valência 6, devido às propriedades supostamente cancerígenas, estão restritas a 3 ppm na Alemanha e 10 ppm, na legislação da União Européia, à qual todos os países do bloco deverão aderir em 2004.

Recentemente, em um ensaio de laboratório no país germânico, pares de sapato formatados em couro brasileiro apresentaram cromo 6 além do permitido. Estudo posterior absolveu o produto made in Brazil e mostrou que a combinação da cola e do catalisador, sob o calor de uma estufa, na etapa de montagem dos calçados, provocou a reação química, elevando a valência do cromo de 3 para 6.

Atualmente, a pesquisa em torno do cromo está voltada ao aperfeiçoamento do processo. Conforme o estudo da Basf, alguns procedimentos podem diminuir os riscos de incidência do cromo 6: evitar substâncias com amoníaco, baixar o pH nas reações e não usar óleos saturados de peixe são algumas das sugestões. O raio ultravioleta e o mofo também ajudam no aparecimento dessa variação do elemento químico. Agentes curtentes vegetais como o tanino, e recurtentes sintéticos em substituição ao cromo, também aparecem como alternativas, além do uso controlado de agentes engraxantes. “Na Alemanha, os automóveis da Volkswagen estão saindo da linha de montagem, com estofados curtidos e recurtidos sem cromo”, antecipou Haeussling.

Quando o Congresso da Abqtic passou a discutir os corantes entrou no circuito a equipe de técnicos da Clariant, com um aviso. Pela diretriz 2002/G1/ CE do Parlamento Europeu há uma lista com 2.500 substâncias azóicas em suspeição, embora apenas 100 tenham apresentado uma das 22 aminas com propriedade carcinogênicas. Em termos práticos, explicou Jorge Maldaner, executivo da empresa, não muda muita coisa porque as principais fábricas de corantes globalizadas estão vinculadas a um tratado internacional por meio do qual se comprometem a eliminar as substâncias restritas dos corantes. A situação mais grave, no seu entender, se relaciona com os pigmentos à base de benzedina, empregados para o couro com acabamento em preto, classificados como cancerígenos desde os anos 70. Apesar da abolição desses produtos pelos principais fabricantes de corantes, pigmentos de baixa qualidade, originários da China e Índia, onde a substância é tolerada, podem apresentar uma das aminas condenadas. Maldaner calcula que 25% dos corantes pretos para couro consumidos no Brasil são importados. Nesse caso, ele sugere aos curtumes a exigência, por parte do fornecedor, de laudo técnico, produzido por laboratórios idôneos, atestando a ausência dessa toxina. “Você até pode usar um produto que contenha uma amina proibida desde que ela não se torne uma molécula livre”, esclareceu Maldaner.

Química e Derivados: Couro: Finkler - curtumes são vítimas de preconceito.
Finkler – curtumes são vítimas de preconceito.

Tratamento dos resíduos – Se nas reações de processo os curtidores precisam ficar antenados, com relação ao tratamento dos resíduos pós-industriais não existem motivos para preocupação. Esse é o entendimento do atual presidente da Abqtic, Alexandre Finkler. “O curtume é visto como um vilão. Todos os curtumes do Brasil têm tratamento exemplar. As águas resultantes do processo são tratadas e devolvidas aos rios e mananciais nas condições determinadas pela legislação ambiental. São melhores do que muito esgoto sanitário”, desafiou Finkler. “Em Estância Velha todos os curtidores exibem placas indicando onde estão localizadas suas estações de tratamento para quem quiser conferir e para onde vai a água. Esse é o quadro nacional”, declarou o presidente da Abqtic em entrevista à Química e Derivados.

Há pelos menos 20 anos, acrescentou Finkler, os curtidores foram obrigados a construir sistemas de tratamento de seus esgotos industriais. Numa defesa contundente de seu segmento, ele indagou: “Se não existisse o curtume para onde iriam as 35 milhões de peles de boi esfoladas a cada ano no Brasil, onde ocorreria a decomposição dessa matéria orgânica?”, finalizou.

Quando o tema é tratamento de efluentes, a despesa do curtume é significativa. Em média, são mil peles abatidas por dia em cada um dos 320 curtumes brasileiros, gerando 500 metros cúbicos de esgoto industrial por unidade produtiva. A implantação de uma estação de tratamento não sai por menos de US$ 1 milhão e o custo mensal para a operação, levando-se em conta essa média, chega a US$ 250 por dia. Para o consultor de empresas e engenheiro ambiental Roberto Maia, o importante é que o processo melhora a cada dia, facilitando a operação de limpeza dos efluentes. “Os donos de curtumes estão aprendendo a substituir insumos, a melhorar o esgotamento do couro e aprendem a reciclar produtos”, opinou.

Um exemplo da afirmação de Maia é o sulfeto de sódio, empregado na depilação do couro, numa das primeiras etapas. Atualmente, o material é reutilizado após passar por uma filtragem. Seu resíduo sólido é repassado à indústria de fertilizantes para a fabricação de corretores de pH do solo. Além disso, o sulfeto de sódio reciclado demonstrou funcionar melhor do que o novo por conter matérias orgânicas com propriedades capazes de melhorar o processo de depilação. “A maioria já está fazendo isto”, afirmou Maia. Outra prática adotada é a redução da água consumida. “Hoje existe uma guerra na indústria química que é uma briga sadia para ver quem consegue fabricar o produto mais reciclável ou menos nocivo ao meio ambiente”, elogia o consultor.

Existem diversas experiências no sentido de reaproveitar os resíduos do curtimento. Em Apucarana, no Paraná, uma olaria está misturando as cinzas de um curtume da região à argila. “O resultado é um tijolo mais leve e ao mesmo tempo com maior resistência”, atestou Fernando Richter, um dos participantes do congresso da Abqtic.

O tratamento do resíduo industrial em curtumes tem três gerações tecnológicas. A primeira dos anos 70 consistia em atacar quimicamente os agentes poluentes numa lagoa de estabilização. Na segunda geração, os técnicos desenvolveram um sistema de lodo ativado, onde a matéria orgânica e demais substâncias entram em reação formando a cadeia alimentar de bactérias pelas quais são consumidas. Na terceira geração, a mais recente, busca-se a diminuição do uso de produtos poluentes, reciclagem, melhoria dos processos, esgotamento maior dos sais de cromo e eliminação do cromo no recurtimento. A quarta geração, ainda em fase de pesquisa, consistiria em montar a estrutura para a reutilização da água pós-tratamento no processo industrial em ciclo fechado. Uma das partes com custo mais alto é a eliminação de substâncias nitrificadas, cuja eficácia depende do uso de carvão ativado, material considerado muito caro.

Mesmo assim, chamou atenção uma experiência realizada no curtume-escola do Senai do Rio Grande do Sul. Financiado por verba do Projeto Brasil Alemanha – um programa de pesquisa tecnológica em controle ambiental que funcionou até junho deste ano em convênio com o país germânico. No estudo, a equipe coordenada por Roberto Maia utilizou um reator de lodo óxico tipo Carrossel, com uma zona anóxica, para recirculação de licor nitrificado. Os pesquisadores conseguiram remover o nitrogênio, após oito dias de retenção hidráulica do efluente, proveniente do curtume em temperatura média de 20ºC, submetido a carvão ativado em pó, adicionado ao lodo, compondo assim um sistema de carvão ativado-lodo ativado.

No período de testes, todo o lodo biológico foi recirculado para os reatores, e não foi realizado descarte de lodo biológico com carvão ativado. A presença do carvão ativado potencializou a remoção do nitrogênio. “Estamos atrás de um curtume pioneiro disposto a investir nessa experiência”, informou Maia. A contrapartida seria um aporte inicial de R$ 2,5 mil para aquisição do carvão ativado em pó.

Ainda assim, uma minoria de curtumes em regiões de Minas Gerais e Mato Grosso podem estar encontrando dificuldades para montar a estrutura adequada no tratamento dos resíduos industriais. “Eu andei por lá e não gostei do que vi em alguns lugares”, afirmou Roberto Maia. No seu entender, as empresas com problema são pequenas exceções e não a regra geral. “De São Paulo para baixo todos os curtumes estão perfeitamente adequados à legislação de controle de resíduo industrial”, finalizou Maia, referindo-se também aos curtumes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Abqtic quer envolver os curtumes

O presidente eleito da Associação Brasileira de Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), Carlos Guilherme Kiefer, deverá assumir o cargo em janeiro de 2004 para um mandato de dois anos, com final em janeiro de 2006, sucedendo a Alexandre Finkler. Alçado ao cargo por aclamação no encerramento do XVI Congresso Nacional da Entidade, Kiefer tem como plataforma três pontos básicos: a primeira é lançar uma campanha de conscientização junto aos curtidores para levar os técnicos empregados em curtumes para o interior da Abqtic.

Química e Derivados: Couro: Kiefer - meta é melhorar nível técnico do processo produtivo.
Kiefer – meta é melhorar nível técnico do processo produtivo.

Atualmente, a entidade é integrada por funcionários da indústria química de insumos e pelos químicos e técnicos das consultorias externas. “Isto acarreta em custos para o empresário porque a entidade realiza eventos periódicos para atualizar os técnicos da cadeia produtiva”, reconheceu Kiefer. “O que nós nos ressentimos é da participação do funcionário de curtume. Hoje a Abqtic está tomada por representantes da indústria, consultores e químicos responsáveis.

Queremos os técnicos envolvidos diretamente no ciclo de produção. Por isso temos de sensibilizar o empresário. Nossa entidade aposta na qualificação cada vez maior do couro produzido no Brasil”, reforçou.

A segunda meta do presidente eleito da Abqtic não é organizar e disciplinar as normas técnicas utilizadas nas análises do couro. “Há uma parafernália de legislações européias e norte-americanas. É um trabalho de anos que pretendo começar”, informou. O terceiro desafio do futuro presidente é promover a integração das escolas de curtimento existentes no país – em Estância Velha-RS e Campina Grande-PB -, os centros de desenvolvimento tecnológico e as entidades sindicais. Além do presidente, a Abqtic conta com um vice-presidente, secretário, tesoureiro e dez vice-presidências divididas por regiões do país. “Com essas três metas, tenho um sonho maior que é promover a integração definitiva da cadeia produtiva do couro brasileiro”, revelou Kiefer.

Pesquisadora defende nova visão ambiental

É preciso desmistificar o conceito de desenvolvimento sustentável na indústria de curtume. Esse é o pensamento de uma autoridade mundial no tema: Mariliz Guterres, engenheira química com doutorado na Alemanha, milhares de quilômetros percorridos em palestras, seminários e 33 artigos assinados em publicações científicas internacionais. Sua palestra no XVI Congresso Nacional da Associação dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic) foi uma das mais concorridas. Lotada no departamento de engenharia química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em sua ótica, as empresas são incentivadas a adotar políticas ecológicas por razões econômicas, legislativas, éticas e sociais, mas o conceito de desenvolvimento sustentável é um objetivo muito mais ousado.

“Há questões ambientais de grande relevância que incluem uma variedade de condições que não são facilmente ligadas aos poluentes individuais ou às fontes de poluição”, frisou a pesquisadora. Em sua opinião, o impacto ambiental está ligado com o crescimento populacional, a perda de biodiversidade, o aquecimento global da terra, o esgotamento de ozônio na estratosfera e as chuvas ácidas, de âmbito regional, a emissão desenfreada de CO2, entre outras variáveis. O desenvolvimento sustentável, trata todas essas questões de maneira integrada e multidisciplinar. No caso específico dos curtumes, existem três aspectos importantes relacionados com o desenvolvimento sustentável, como apontou Mariliz: racionalização do consumo energético, da água e dos insumos químicos.

Já se sabe que na indústria do couro a energia elétrica representa sempre menos da metade da demanda total, ficando em cerca de 20 % com uma dispersão de 10 %. A parcela térmica representa os 80 % restantes da energia consumida, mas o desperdício decorre das falhas de isolamento, perdas de vapor nas canalizações, fuga em acessórios, que podem ser diminuídos com um bom programa de manutenção e poucos investimentos. Muitas vezes a geração de vapor em excesso ocorre em alguns processos desnecessários. Há vários casos em que a necessidade de calor para banhos é de apenas 60º C.

Mesmo assim, critica Mariliz, o vapor é gerado, transportado e depois condensado, resultando numa redução da eficiência da instalação. Essa parcela de desperdício é a mais importante. O levantamento energético dos curtumes foi feito como parte inicial de um estudo de viabilidade técnica de implantação de sistemas de co-geração a partir de gás natural, para atender demandas elétricas e térmicas de curtumes.

Quanto à água, a indústria do couro se caracteriza por consumir enormes quantidades nos processos, pois muitas etapas de tratamento da pele se realizam em fase aquosa e em regime de bateladas. Diversas pesquisas demonstram que a indústria do couro emprega cerca de 30 a 40 litros de água / kg de pele processada. As operações de pré-curtimento consomem aproximadamente 15 a 22 litros de água / kg de pele processada, a operação de curtimento consome 1 e 2 litros/kg e o pós-curtimento 2 e 4 litros/ kg de pele processada. As lavagens contribuem com 11,5 a 13 litros/kg da água usada para processamento. Consumos maiores de água, de 50 litros de água/kg de pele processada, podem ocorrer devido ao uso ineficiente da água. Em uma região de curtumes na Itália o gasto de água caiu cerca de um terço, se comparada com a média brasileira, graças à racionalização do consumo, como exemplificou Mariliz.

Processos químicos – Com relação às reações químicas, a pesquisadora aponta um processo complexo com a utilização de diversas substâncias em meios aquosos realizados nas reações em seqüência. São adicionados, dependendo de cada fase de tratamento, ácidos, bases, sais, curtentes, tensoativos, engraxantes, corantes, recurtentes, agentes auxiliares e outros produtos. Além disso, outra série de produtos químicos é empregada nos processos de acabamento. Os insumos químicos são disponíveis no mercado na forma de preparados comerciais.

Segundo Mariliz, existe uma variedade significativa de produtos ligados às propriedades finais exigidas dos couros. Com base nisto, são selecionados os insumos químicos a aplicar em cada processo. Para ela, o desafio de produzir dentro de um conceito de desenvolvimento sustentável é importante para a indústria de curtume, a fim de que se mantenha vital e competitiva. Além do emprego das tecnologias limpas, existem métodos avançados para curtumes, assim como vem sendo aplicados em muitos ramos industriais.

Desde os anos 70, as facilidades de tratamento avançado de águas residuárias evoluíram significativamente. Estes tratamentos são empregados para se efetuar remoções adicionais de substâncias suspensas e dissolvidas remanescentes após o tratamento secundário de efluentes, mas também são introduzidos dentro dos processos industriais para purificação da água e de soluções. Guterres aconselha os curtumes a buscar alguns desses métodos de remoção de nutrientes como nitrogênio e fósforo por processos biológicos ou químicos, adsorção em carvão ativado, oxidação química, precipitação química, troca iônica e processos de separação por membranas (microfiltração, ultrafiltração, nanofiltração, osmose reversa e eletrodiálise).

“O aumento do conhecimento científico sobre os contaminantes encontrados na água e a disponibilidade de uma base expandida de informações derivadas dos estudos de monitoramento ambiental fazem com que os requerimentos permitidos para descarga de efluentes tratados sejam cada vez mais estreitos”, diz. Em sua análise, Mariliz aponta como estratégia empresarial a introdução do conceito de desenvolvimento sustentável.

Ela justifica essa afirmação tendo como ponto de partida a ISO 14000, o conjunto de normas para a implementação de sistemas de gestão ambiental, formuladas pela International Organization for Standartization (ISO). A ISO elabora e avalia normas por meio de vários comitês técnicos compostos por representantes de diversos países. “A experiência vem demonstrando que para se obter sucesso em uma produção ambientalmente correta é necessário trabalhar no próprio processo produtivo industrial através de uma utilização mais cuidadosa da água e dos produtos químicos e de uso de tecnologias e produtos alternativos menos poluentes, antes de se recorrer às tecnologias de depuração de efluentes”, assegurou marílis Guterres.

Conheça os trabalhos científicos apresentados no XVI Congresso Nacional da Abqtic

APLICAÇÃO DE TANINO CATIÔNICO EM TRATAMENTO DE EFLUENTES DE CURTUME
Luiz Henrique Lamb, Emerson Rebelo Diniz, João Guilherme Heinz Cruz, Miriam Elza de Azevedo Hass Tanac SA
Taninos são compostos fenólicos, de origem vegetal, que precipitam proteínas. Podem ser encontrados na forma de monômeros, oligômeros e até polímeros de elevado peso molecular. Taninos ainda são capazes de complexar amido, celulose e metais. Tanino quaternário é um polímero orgânico-catiônico, de baixo peso molecular, de origem essencialmente vegetal, derivado de um extrato de mimosa que teve seu caráter iônico alterado para catiônico. Além disso é não tóxico, e atua como coagulante/floculante em sistemas de tratamento de águas de abastecimento e efluentes em geral.

APLICAÇÕES DOS EXTRATOS MODIFICADOS DE MIMOSA.
Joaquim Font, Elena Martí, Lluís Ollé.Otávio Guimarães Decusati, Luiz Henrique Lamb, Escola Universitària d’Enginyeria Tècnica Industrial d’Igualada – Escuela de Tenería
Nos últimos anos, o consumo dos extratos da acácia mimosa foi aumentado na indústria de curtume, em lugar de outros produtos cujo custo no mercado é cada vez maior. Entretanto, determinadas aplicações seguem com reservas dependendo da aplicação. Neste trabalho conduzido numa escola de curtimento a utilização dos extratos modificados da acácia é descrita pela companhia Tanac do Brasil e apresentada como alternativa a outros extratos vegetais e a outros produtos como o cromo tanto na etapa de curtimento como recurtimento.

AVALIAÇÃO DAS EMISSÕES ATMOSFÉRICAS DE UM INCINERADOR DE LEITO FIXO PARA RESÍDUOS SÓLIDOS DA INDÚSTRIA COUREIRO-CALÇADISTA
Marcelo Godinho, Nilson Romeu Marcilio, Leonardo Masotti, Celso Brisolara Martins – Departamento de Engenharia de Química, Universidade Federal do RS
Neste trabalho foram realizadas análises das emissões atmosféricas de um incinerador de leito fixo para resíduos sólidos da indústria coureiro-calçadista. A taxa de alimentação do incinerador utilizada durante as análises foi 70 kg/h de aparas de couro provenientes da indústria calçadista. Os parâmetros analisados no gás efluente foram as concentrações de CO, SO2, NOx, CO2 e CxHy e, a partir dos resultados obtidos neste trabalho, observou-se que as emissões atmosféricas geradas pela planta piloto estão abaixo dos limites máximos previstos pela legislação ambiental.

CARVÃO ATIVADO EM SISTEMAS DE TRATAMENTO DE EFLUENTES, BUSCANDO A REMOÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO
Alexandre Kuhn, Isabel Cristina Claas, Roberto Augusto Moraes Maia – Senai/RS.
As altas quantidades de nitrogênio em efluentes de curtumes sempre representaram um grande problema e desafio para os profissionais e pesquisadores que trabalham com efluentes de curtume. A partir do Projeto Couro Brasil-Alemanha, se desenvolveu e testou tecnologias para o tratamento de efluentes de curtume, em escala piloto. Os resultados colhidos nesse projeto foram bastante animadores. Este trabalho tem o intuito de utilizar o know how produzido no Projeto Couro e aplicá-lo a situações mais realistas que os protótipos utilizados durante os testes realizados nos curtumes participantes do projeto em diversas regiões do Brasil.

COUROS HIDROFUGADOS – PARÂMETROS DE PRODUÇÃO E SUA CORRELAÇÃO COM EFEITO HIDROFUGANTE
Engenheiro químico Ricardo Meira Peres/Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnipiel.
É cada vez maior e mais diversificada a demanda mundial por artigos em couro hidrofugado. Isto se deve, por um lado, ao surgimento de uma série de soluções tecnológicas de mais simples aplicação por parte dos curtumes e, por outro lado, ao enorme benefício em termos de performance e conforto apresentado por este tipo de couro. O presente estudo tem por objetivo fazer uma abordagem bastante prática do processo de hidrofugação, levantando questões e procedimentos do dia-a dia do curtume que estão relacionadas diretamente com o resultado final da manufatura de couros hidrofugados, ou seja, que cuidados deveremos ter em cada etapa do curtimento para obtermos os artigos com as diferentes exigências do mercado quanto a resistência à passagem de água.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM CURTUMES
Mariliz Guterres – Departamento de Engenharia Química, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O conceito do novo paradigma de desenvolvimento sustentável surgiu devido à necessidade de preservação do meio ambiente conjugada com a de melhoria das condições de vida das populações. Neste trabalho são revistas as causas, dimensões e efeitos dos problemas ambientais relevantes: crescimento populacional, perda de biodiversidade, produção de emissões de CO2, esgotamento do ozônio estratosférico e ocorrência de chuvas ácidas. São apresentados os princípios que norteiam o desenvolvimento sustentável e os sistemas de gestão ambiental

ENZIMAS NA INDÚSTRIA COUREIRA
Carlos Augusto Jesus da Silva – Buckman Laboratórios Ltda. – Rogério Pfeifer – Buckman Laboratórios Ltda.
Durante os últimos anos a tecnologia enzimática vem se mostrando como uma das mais inovadoras fontes de aplicações à diversos processos, propiciando imensa diversificação e moldando-se às mais rígidas exigências ambientais e/ou necessidades industriais. Por estes motivos a aplicação das formulações baseadas em enzimas tem apresentado expressivo crescimento, assumindo papel de destaque também na indústria coureira exatamente por reunir as vantagens de uma tecnologia limpa e renovável, com os resultados práticos mensuráveis (tanto no aspecto financeiro como no ambiental).

FORMALDEÍDO EM COURO: OCORRÊNCIAS E SOLUÇÕES
Claus Reineking Dr. Matt Walker Dr. Song Ma,da Clariant Internacional
O formaldeído tem sido um dos produtos mais amplamente usados na indústria química durante os últimos 100 anos. É fácil de obter, muito versátil, altamente reativo, econômico e tem, por essa razão, representado um papel importante na produção de materiais poliméricos, substâncias químicas de processamento/tratamento, preservativos, substâncias químicas agrícolas e produtos para o cuidado de saúde. Desde 1950 a indústria tem estado atenta para os altos riscos à saúde e à segurança oferecidos pelo formaldeído, especialmente mediante exposição direta. Sua utilização tem-se tornado crescentemente restringida e há uma demanda crescente para reduzir o conteúdo de formaldeído livre em produtos finais. Em recentes décadas, os aspectos ecologia, saúde e segurança tem representado um papel muito importante e crescente, não só na produção de substâncias químicas, mas também na produção de vários tipos de couro.

REDUÇÃO DE SOLVENTES ORGÂNICOS NO ACABAMENTO DE COUROS HIDROFUGADOS.
Cyprian Mushumba Elio Lemos – Empresa: Stahl Brasil S.A
Nas últimas décadas, a STAHL vem trabalhando na direção de sistemas completos de acabamentos aquosos, na preocupação de reduzir o impacto ambiental, mantendo a estética dos couros e ao mesmo tempo oferecendo alta performance. Esta apresentação mostrou acabamento de couro hidrofugado com novas tecnologias, em polímeros como acrílico, poliuretano, híbrida e top fosco com tecnologia “Polimatte”, que associados a um reticulante à base de isocianato, podem oferecer aos técnicos em couros novos produtos, com altas propriedades num sistema totalmente aquoso com a redução de solventes orgânicos e menos riscos ao meio ambiente.

SUBSTÂNCIAS NOCIVAS NO COURO – UM PANORAMA ATUAL
Dr. Gerhard Wolf, BASF AG, Ludwigshafen e Felipe Schuck, BASF SA, Sapucaia do Sul
Atualmente a indústria do couro se encontra numa situação complicada. Por um lado e em primeiro plano, há naturalmente dúvidas por parte dos curtumes em relação ao fornecimento e à qualidade de matéria-prima. Do outro, há uma crescente pressão sobre os curtumes e as indústrias que utilizam couro, tais como fábricas de calçados, móveis, automóveis e vestuário, para que minimizem as substâncias nocivas no couro e em produtos com couro. Principalmente na Europa e nos EUA, a discussão pública sobre substâncias nocivas criou enorme pressão sobre a indústria, criando uma legislação altamente restritiva para centenas de produtos.

TINGIMENTO – UM ENFOQUE ATUAL
Equipe técnica da Clariant no Brasil
Para os técnicos curtidores, “tingir” nunca pôde restringir-se unicamente a executar a operação destinada, por definição, a “meter ou molhar em tinta, alterando a cor primitiva” ou “dar certa cor a; colorir”. Desde os tempos em que o tingimento de couros era realizado com produtos de origem ou vegetal ou animal ou através de combinações minerais insolúveis em água, a operação sempre mostrou-se complexa e sujeita a uma série de fatores intervenientes. Esta complexidade torna-se maior nos dias atuais quando as empresas curtidoras mundiais estão constantemente em busca de aprimoramento do processo de tingir, por tratar-se de uma das etapas mais importantes e onerosas no ciclo de fabricação de couros.

METODOLOGIA DE ANÁLISE DE DIOXINAS EM CINZAS OBTIDAS DA INCINERAÇÃO DE COURO WET-BLUE
Cristina Hoffl, Lígia Marczak e Maria Cândida Mendes
Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da Universidade Federal/RS em convênio com a Fundação de Ciência e Tecnologia do Estado.
O presente trabalho trata da validação de uma metodologia de análise para a determinação de dibenzo-p-dioxinas policloradas (PCDDs) em cinzas obtidas através da incineração de aparas de couro wet-blue. As dioxinas podem ser formadas na superfície das partículas de cinzas em reações de combustão. A metodologia utilizada para analisar dioxinas nas cinzas de couro foi baseada no Método 8280B da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos da América (EPA-USA). Este método descreve os procedimentos de extração de matrizes específicas, o clean-up para os analitos específicos e a determinação de dioxinas através das técnicas de cromatografia gasosa de alta resolução e espectrometria de massa de baixa resolução. A eficiência de extração das dioxinas foi obtida com os resultados comparativos das análises entre matrizes contaminadas com solução padrão de dioxinas e o padrão analítico. A validação deste método para análise de dioxinas policloradas em cinzas de couro wet-blue foi considerada satisfatória para os objetivos do trabalho, uma vez que a eficiência de extração de dioxinas obtida ficou dentro dos critérios estabelecidos pelo método.

ÓLEOS ENGRAXANTES, EVOLUÇÃO E ECOLOGIA
Valter Graffunder
Objetivando contribuir com informações técnicas, apresentamos um histórico da evolução dos engraxantes para o tratamento de couros.Enfocamos a evolução dos engraxantes, inovações e suas estruturas, características químicas e efeitos, em função das exigências que surgiram. Complementam-se com informações sobre tecnologia limpa, ecológicos, ambientalmente favoráveis, com relação aos engraxantes e os respectivos artigos de couro produzidos. Seguimos a atual tendência de uso de inovações sustentáveis. Desta forma, aumenta-se a qualidade e a competitividade mercadológica dos artigos de couros e seus artefatos.

OTIMIZAÇÃO DO PROCESSO DE CURTIMENTO AO CROMO COM NOVA TECNOLOGIA DE SAIS MASCARANTES E CONTROLES DE VARIÁVEIS
Elígio Stoppa, Marcelo Camargo e Luiz Paulo Azevendo
A industria coureira em geral, deve voltar-se para responsabilidade de produzir couros de uma forma ecologicamente correta, otimizando os processos existentes visando melhorar sempre o produto final couro. Com esse pensamento desenvolvemos um processo de curtimento ao cromo utilizando em conjunto uma nova tecnologia de sais mascarantes que proporcionam resultados ao curtente ( como diminuição da adstringência, aumenta a velocidade de penetração do curtente ), nos couros ( como melhora na padronização dos wet – blues nas pilhas, melhora na estrutura da flor e na lisura, modifica o toque, melhora a distribuição vertical do cromo, proporciona um wet – blue com coloração mais limpo, maximiza a quantidade de Cr2O3 fixadas a proteína em ate 30 %, obtém-se couros que ao serem recurtidos, apresentam uma grande melhora na padronização e intensidade dos tingimentos dos couros ) e nos banhos ( minimiza a quantidade de Cr2O3 nos banhos finais de curtimento em ate 50% ).

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