Couro e Curtumes

Couro: Curtumes aderem à onda ecológica

Fernando C. de Castro
24 de outubro de 2003
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    Encontro técnico da indústria do couro em Foz do Iguaçu reúne especialistas para discutir meios de reduzir os impactos ambientais do beneficiamento químico

    Química e Derivados: Couro: couro_abre.Tornar a atividade do curtume um processo ecologicamente viável é o principal desafio lançado pela Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), com sede na cidade gaúcha de Estância Velha, a meca da tecnologia em curtimento de pele no Brasil. A cada dois anos, a entidade reúne seus associados para debater os avanços alcançados e os obstáculos para o futuro. Entre 9 e 11 de outubro, o grupo de técnicos repetiu a rotina no XVI Encontro Nacional da Abqtic, realizado na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná. Na pauta do evento, as novidades em insumos, processos e controle de efluentes, sempre com os olhos voltados às legislações ambientais, sobretudo com relação às normas da União Européia e dos Estados Unidos, países importadores de grandes volumes do couro made in Brazil.

    Entre os principais trabalhos a grande maioria bateu incisivamente na tecla da questão ambiental. Quando se fala em fabricação de couro existem duas preocupações ecológicas importantes: a primeira diz respeito ao processo em si, uma vez que da pele esfolada até o produto acabado podem ocorrer aproximadamente 24 reações químicas. O segundo ponto é o tratamento do resíduo industrial, pois toda gama de substâncias – incluindo a incidência cada vez mais contestada de metais pesados – precisa passar por tratamento adequado dentro da planta, antes do despejo em rios e mananciais.

    Pelo que foi dito e repetido no XVI Congresso da Abqtic a parte de processo parece ser o aspecto mais complicado. Um dos primeiros palestrantes a tomar a palavra, Lukas Haeussling, da alemã Basf, desembarcou no Brasil com um retrato realista do cenário sobre substâncias restritas ou proibidas e uma bíblia de legislações da União Européia, algumas valendo desde 1º de julho de 2003, e um conjunto de regras a vigorar até 2006. Em sua palestra, Haeussling esclareceu uma série de aspectos sobre normas técnicas relacionadas com a poluição do ar, reciclagem, controle de processos na indústria automotiva e tratamento de resíduos industriais.

    Há ainda uma norma mais antiga, VOC, de março de 1999, para produtos voláteis, restringindo os etoxiliados de alquilfenol. Da Califórnia, Estados Unidos, vem a norma NMP, sigla do solvente N-metilpirrolidona, utilizado no acabamento do couro e alvo de enorme pressão. A tendência é o NPM ficar restrito nos demais estados norte-americanos nos próximos dois anos até a proibição definitiva. Também se encontram na lista negra diversas substâncias como o PCP (pentaclorofenol), o TBT (tributilestanho), encontrado como impureza na catálise para dispersões, metais pesados dos pigmentos e solventes.

    Já os alcanoclorados C-10 e o C-13 estão proibidos desde primeiro de julho na Europa. Como frisou Haeussling, muitas dessas substâncias aparecem durante o processo e desaparecem no produto manufaturado, como calçados, por exemplo, não acarretando em problemas para os exportadores brasileiros. Ele sugere, mesmo assim, a realização de análises de substâncias no couro vendido ao exterior, evitando prejuízos irreparáveis. Para se ter uma idéia do alcance do problema, no caso da Alemanha, se algum produto restrito ou proibido aparecer no lote, a carga é confiscada e destruída. “A situação é complicada. Há naturalmente dúvidas por parte dos curtumes em relação ao fornecimento e à qualidade da matéria-prima”, assinalou o executivo da Basf.

    Para Haeussling, o endurecimento das legislações obriga os curtumes a se ajustarem às novas regras. A Basf, enfatizou, assim como a indústria química de primeira linha, já oferece uma gama de produtos ambientalmente corretos. Basicamente, a nova geração de substâncias busca a substituição de solventes, engraxantes de origem animal e petroquímicos por produtos solúveis em meio aquoso e óleos vegetais provenientes de plantas como a carnaúba.

    De qualquer forma, o vilão dos curtumes continua sendo o cromo. Embora na valência 3 não ocorram maiores restrições, a presença de sua variação em valência 6, devido às propriedades supostamente cancerígenas, estão restritas a 3 ppm na Alemanha e 10 ppm, na legislação da União Européia, à qual todos os países do bloco deverão aderir em 2004.

    Recentemente, em um ensaio de laboratório no país germânico, pares de sapato formatados em couro brasileiro apresentaram cromo 6 além do permitido. Estudo posterior absolveu o produto made in Brazil e mostrou que a combinação da cola e do catalisador, sob o calor de uma estufa, na etapa de montagem dos calçados, provocou a reação química, elevando a valência do cromo de 3 para 6.

    Atualmente, a pesquisa em torno do cromo está voltada ao aperfeiçoamento do processo. Conforme o estudo da Basf, alguns procedimentos podem diminuir os riscos de incidência do cromo 6: evitar substâncias com amoníaco, baixar o pH nas reações e não usar óleos saturados de peixe são algumas das sugestões. O raio ultravioleta e o mofo também ajudam no aparecimento dessa variação do elemento químico. Agentes curtentes vegetais como o tanino, e recurtentes sintéticos em substituição ao cromo, também aparecem como alternativas, além do uso controlado de agentes engraxantes. “Na Alemanha, os automóveis da Volkswagen estão saindo da linha de montagem, com estofados curtidos e recurtidos sem cromo”, antecipou Haeussling.



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