Couro e Curtumes

Couro: Curtumes aderem ao acabamento, mas governo prefere apoiar o wet-blue

Marcelo Furtado
26 de fevereiro de 2004
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    Com aporte total de 600 mil euros, a idéia é até outubro de 2004 a empresa chegar a uma capacidade mensal de 400 t/mês, contra as 150 t atuais. De acordo com seu gerente de pesquisa e aplicação, João Augusto Kettermann, a unidade em operação será desativada e a nova partirá do zero. Trata-se, inclusive, de investimento promovido independente dos rumos que o setor de couro terá no futuro próximo. Isso porque a TFL, conforme Kettermann, estava operando acima da capacidade instalada em produtos para acabamento. “Estamos a 120%, dobrando os turnos”, afirma.

    Química e Derivados: Couro: couro_grafico06. Trabalhando para atender a um mercado que cresce no Brasil, segundo suas estimativas, a uma média de 15% ao ano, a TFL já projetou sua nova unidade com folga para ser duplicada daqui a cinco anos. “Hoje os cerca de 80 produtos para acabamento que comercializamos no Brasil representam 25% do faturamento, mas a tendência é chegar a 50%”, explica Kettermann. E esse fenômeno, segundo ele, além de representar a realidade brasileira, também tem a ver com uma tendência mundial. “O boom da tecnologia mundial está no acabamento, enquanto o recurtimento está estagnado e o curtimento inicia uma mudança com a biotecnologia.” Nesse último caso, Kettermann se refere às pesquisas de substituição do sulfeto de sódio, na depilação, por enzimas.

    Companhia originária da fusão entre as áreas de couro da suíça Ciba e da alemã Huels em 1996, que em 2000 foi vendida para um grupo de investidores (Permira) e, novamente em 2003, para o grupo Odewald, a TFL possui produtos para todas as etapas do couro. Com fábricas também na França, EUA, Índia, China, ela atende o mercado sul-americano também por unidade argentina, em Zarate, onde a capacidade (18 mil t/ano) é um pouco maior que a brasileira (13 mil t/ano). Mas, com o investimento, as duas fábricas ficarão quase parelhas.

    No Brasil, continuarão as produções voltadas para ribeira, remolho, purga, caleiro e de resinas, além de pigmentos, ceras e agentes de carga para acabamento. Enquanto isso, a argentina continua a se responsabilizar pelos corantes e taninos sintéticos, além de óleos sintéticos e naturais para engraxe. No caso dos produtos de ribeira, novos investimentos não são necessários, segundo Kettermann, em razão de se tratar de mercado estável e também porque eles já foram feitos em 1998, quando a TFL elevou a capacidade para 300 t/mês. Já no acabamento, não faltam motivos para prever mais e mais necessidades. Uma é o crescimento do mercado de móveis, previsto para breve. Prova disso, para o gerente da TFL, é o fato de muitos curtumes nacionais hoje terem como grandes acionistas grupos italianos, os líderes mundiais em móveis de couro. Além do couro, em breve esses grupos também passarão a produzir os móveis no Brasil. “Dentro de uns dez anos o Brasil deve estar muito maior nesse segmento, que demanda couro acabado de qualidade”, explica. (E com isso deve interromper a atual exportação de wet-blue.)

    A fábrica ampliada da TFL contará com cinco novos reatores, produzidos no Brasil, e deve acrescentar entre sete a dez produtos à linha local de acabamento, ainda bastante inferior ao catálogo mundial da empresa, de 400 produtos em média. A perspectiva da TFL, considerada a quarta empresa do ramo (atrás da Bayer, Basf e Clariant), é ter escoamento total da produção, tanto no Brasil como na Argentina, já um grande produtor de estofamentos, com grandes curtumes em operação e dona de um couro mais prestigiado no mercado mundial, por ter menos marcas de fogo e de insetos, quesitos valorizados.

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    Kongler inaugura unidade em Três Lagoas – MG.

    Couro pior é melhor – Até mesmo essa desvantagem comparativa do couro brasileiro, de ser de pior qualidade do que o argentino e o europeu, torna-se um alento para o ramo químico. Possuir mais defeitos, em virtude da maior incidência de parasitas do clima quente brasileiro e do desrespeito dos criadores de gado, que marcam a fogo o gado em partes nobres do animal, gera maior demanda por acabamentos químicos melhores, mais resinas, ceras e corantes para esconder as marcas. Um recurso muito empregado, por exemplo, é o uso de poliuretano e um agente de expansão, o chamado em italiano stucco, uma espécie de massa corrida que esconde as marcas. Isso sem falar nos tops de laca ou de resinas acrílicas para dar um brilho disfarçador.

    Mas o couro brasileiro tem vantagens competitivas mais diretas, segundo explica Carlos Guilherme Kiefer, o presidente da respeitada Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), entidade sediada na meca do couro nacional: Estância Velha-RS. Por ser oriundo de gados do tipo Zebu e Nelore, a pele bovina nacional é de maior envergadura do que as européias, dando um couro com maior metragem. O nacional tem em média 4,5 metros quadrados, contra 4 metros da européia. Além disso, há outra vantagem natural, de acordo com Kiefer. “A fibra do couro europeu é mais delicada, apropriada para sapatos e roupas, enquanto a brasileira é mais resistente, ideal para estofamento”, diz. Portanto, com os processos de acabamento químico, escondendo os defeitos, os curtumes brasileiros e os futuros fabricantes têm em mãos um couro ideal para produzir móveis e estofamentos.

    Os comentários do presidente da Abqtic não têm valor apenas pelo teor positivo das informações técnicas-comerciais. De forma indireta, refletem também outro bom indicador de desempenho do setor coureiro nacional, muito útil para novas empreitadas. Seu conhecimento de causa, natural a um presidente de entidade com mais de mil técnicos associados, simboliza a massa crítica já formada no Brasil no setor do couro. Só para se ter uma idéia, no Centro Tecnológico do Couro do Senai, em Estância Velha, ao lado da sede da Abqtic, em mais de 30 anos de existência cerca de 1.600 técnicos em curtimento já foram formados. Isso sem falar nos formados em escola similar de Campina Grande-PB e em outra de técnicos de calçados em Franca-SP.



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