Couro e Curtumes

Couro: Curtumes aderem ao acabamento, mas governo prefere apoiar o wet-blue

Marcelo Furtado
26 de fevereiro de 2004
    -(reset)+

    Fornecedores químicos investem para atender modernização dos curtumes, que passaram a produzir maior quantidade de couro acabado. Mas a tendência corre risco, com medida de estímulo à exportação do couro apenas curtido com cromo, o wet-blue.

    Química e Derivados: Couro: couro_abre.Se depender da disposição da importante e tradicional indústria coureira nacional, o setor químico deve manter um ritmo crescente de vendas de insumos para o beneficiamento das peles animais. A perspectiva tem relação direta com a modernização em curso nos curtumes, que de uns quatro anos para cá têm dado preferência a produzir couros acabados ou semi-acabados (crust), cujos processos consomem muitas vezes mais produtos químicos, sobretudo especialidades, em detrimento dos couros wet-blue, beneficiados apenas até o curtimento primário com sais de cromo.

    Química e Derivados: Couro: couro_grafico01. Mas como a economia de um país não é apenas regida pela disposição dos seus empreendedores, dependendo ainda de políticas públicas, se não protecionistas pelo menos sensatas, esse cenário favorável também corre riscos. Isso porque na primeira vez que a indústria do couro precisou de uma “ajudinha” do atual governo, esta lhe foi negada. Recentemente, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão interministerial que regulamenta as exportações do Basil, achou por bem não prorrogar resoluções temporárias adotadas pelo governo anterior, a partir de dezembro de 2000, e revalidadas várias vezes até 15 de janeiro de 2004, cujo teor principal era sobretaxar a exportação de couro wet-blue com alíquotas de 9%. A nova determinação do governo Lula estabelece a redução do imposto para 7% até o fim de 2004, e para 4%, em 2005, chegando a zero em 2006.

    A gravidade da suspensão da taxa é por ter sido justamente ela a principal responsável pela modernização dos curtumes, motivando a demanda por novos processos e produtos químicos. Basta recordar o que ocorria antes desse período, quando não havia a proteção na década de 90. Apesar das exportações de couro terem triplicado entre 1990 e 2001, o valor adicionado às peles embarcadas decresceu. A participação do couro acabado nas exportações, em valor, passou de 33%, em 1990, para 19%, em 2000, enquanto a de wet-blue aumentou de 35% para 57% nesse período.

    Química e Derivados: Couro: Acabamento de couro - três vezes mais valor agregado.

    Acabamento de couro – três vezes mais valor agregado.

    Pela inibição da venda externa de um bem de processamento primário e o estímulo à exportação do couro acabado, os curtumes passaram a ver vantagens em estender o beneficiamento às fases de recurtimento e acabamento. Levando em conta a extrema dependência local do mercado externo, visto que 80% das 35 milhões de peles bovinas processadas por ano são exportadas diretamente ou em forma de sapatos, o Brasil tornou-se palco de investimentos e de nacionalização de tecnologias. Grandes e médios curtumes, antes no wet-blue, passaram a produzir couro acabado.

    Para os fornecedores químicos não poderia ter sido melhor. Sobretudo porque até a etapa do curtimento a quase totalidade dos insumos utilizados em curtumes são commodities, como o curtente sulfato de cromo, o cal para inchar e corrigir o pH das peles salgadas, o sulfeto de sódio usado para remover os pêlos do couro ou os ácidos sulfúrico e fórmico empregados na preparação para o curtimento (piquelagem). Passar a vender especialidades de acabamento e recurtimento, de maior valor agregado, livrou um pouco a sina do setor químico de ser vendedor de produtos com ínfimas margens de lucro e cuja única estratégia comercial viável é procurar ganhos de escala.

    Os números recentes do setor coureiro provam o movimento de modernização iniciado. Desde a adoção da medida no final de 2000, de pouco mais de 10% do total exportado os couros acabados chegaram ao final de novembro de 2003 a cerca de 27% das 17 milhões de unidades comercializadas no exterior. Enquanto isso, a exportação de wet-blue caiu de 66% para 60%.

    Química e Derivados: Couro: Produção de wet-blue - o certo é usá-lo no Brasil.

    Produção de wet-blue – o certo é usá-lo no Brasil.

    As conseqüências positivas sobressaltaram em termos financeiros. Por ser produto mais caro, já que a unidade de couro wet-blue é cotada em US$ 30, contra US$ 90 do acabado, de janeiro até novembro de 2003 as exportações de 5,2 milhões de peles bovinas acabadas renderam ao País US$ 419,8 milhões. Já o wet-blue, apesar de muito mais comercializado em volume, com um total no mesmo período de 11,8 milhões de unidades, gerou receita de apenas US$ 371 milhões. Não por menos, desde a adoção da alíquota de 9%, o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) notificou a geração de divisas extras para o setor de US$ 632 milhões, com o crescimento acumulado de 240% nas exportações de couro acabado.

    Ainda segundo o CICB, se o ciclo de modernização se mantiver inalterado, o Brasil tem condições de alavancar o faturamento com exportação de couro de US$ 791,5 milhões para US$ 1,37 bilhão, caso todo o material seja vendido na forma acabada. Mas caso se privilegie o wet-blue, e hipoteticamente todos deixem de produzir o couro acabado, o valor total cairia para US$ 521,9 milhões. Isso tudo, lógico, sem se considerar ainda outras perdas importantes em toda a cadeia do setor, como o desemprego. Estima-se que para cada milhão de couros semi-acabados (até o recurtimento) são gerados 650 empregos diretos, enquanto o igual montante de acabados geram mil. Se a produção for de manufaturados de couro, então, os postos são aumentados em mais 25 mil a 30 mil. Já no wet-blue, o milhão de couros só geram 300 empregos.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *