Couro: Clariant reforma centro tecnológico no Sul

O grupo suíço Clariant oficializou investimentos de US$ 1 milhão para a reforma e modernização de seu centro tecnológico com sede em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, onde opera um curtume piloto para desenvolvimento e testes de insumos químicos direcionados à indústria de couro. A corporação aposta também no crescimento e na ocupação de áreas dominadas por seus principais concorrentes como forma de justificar as melhorias, as quais englobam a aquisição de novos equipamentos, tais como prensa hidráulica, flexômetro, dinamômetro, cabinas de pintura e um sistema de tingimento rápido roller coater de última geração.

As melhorias visam atender principalmente os curtumes homologados para fornecer peles para o segmento de luxo da indústria automotiva, principal filão do couro bovino produzido no Brasil. O nível de exigência da qualidade das peles para revestimento de estofamentos em automóveis é muito elevado e a forma como cada uma das montadoras solicita os ensaios muda conforme o país e a empresa.

Da Alemanha, partem as determinações da BMW, Daimler Chrysler e da Audi. Dos EUA, as regulamentações da Ford e GM. Da Ásia, as normas da Honda, Mitsubishi, Subaru, Suzuki, Hyunday, Kia, Asia, entre outras. Nos testes, as peles não podem se inflamar, precisam apresentar impermeabilidade às tintas de canetas, gorduras, refrigerantes, e resistir a rasgos provocados por objetos usuais como aparelhos celulares e itens cortantes.

O Centro Tecnológico em Novo Hamburgo foi inaugurado em 1992 a um custo de US$ 5 milhões, ainda sob a bandeira Sandoz.

“Já se passaram 14 anos e algumas melhorias foram realizadas ao longo do período. De qualquer forma, a parte mais sensível dos equipamentos, normalmente com maior nível de sofisticação, vai ficando obsoleta”, sentenciou o gerente do setor de curtumes da empresa para a América Latina, José Fernando Bello.

Química e Derivados: Couro: Bello - equipamentos estavam ficando obsoletos. ©QD Foto - Cuca Jorge
Bello – equipamentos estavam ficando obsoletos.

A Clariant também está ampliando o quadro de profissionais. Contratou um técnico holandês especialista em recurtimento e tingimento. Importou outro, da sua unidade inglesa. Além disso, quatro brasileiros estão passando uma temporada na fábrica da empresa próxima a Stuttgart, Alemanha. É de onde saem as diretrizes da corporação para o atendimento da indústria de curtumes no mercado global.

O desenvolvimento de couros acabados é ditado a partir das tendências da moda. Com isso, a empresa aproveita ainda produtos fabricados em suas unidades para atendimento da indústria têxtil. “Quase todos os corantes da indústria coureiro-calçadista derivam do material empregado em tecidos”, assinala José Fernando Bello. “Os corantes desenvolvidos exclusivamente para o couro são o preto e o castanho”, reforça.

Novos stuccos – O ano de 2004 tem sido intenso na área de atendimento a curtumes da Clariant do Brasil. Em junho a empresa reuniu seu staff internacional e autoridades municipais de Novo Hamburgo-RS no lançamento da última geração do Melio Stucco, uma família de produtos químicos para a primeira etapa do acabamento do couro, semelhantes às massas plásticas empregadas na recuperação das latarias de carros. O produto é vendido em sacos de 60 quilos. Apesar do pouco tempo de mercado, a Clariant já conta com carteira 28 clientes ativos para o produto, com 5 t/mês em volume de vendas.

O stucco já existia no mercado para cobrir defeitos grosseiros provocados por cortes profundos sofridos pelo animal em cercas de arame farpado, sendo aplicado manualmente com espátulas. Serviam aos couros de estofamento que não admitem esse defeito. Com a chegada das sete novas formulações importadas da fábrica da Clariant na Inglaterra, embora a tecnologia tenha saído de seus laboratórios na Itália, os curtumes poderão corrigir as imperfeições de superfície ocasionadas por carrapatos, bernes e mosca do chifre, melhorando também a classificação dos couros destinados a calçados, acessórios e peças de vestuário. O diferencial tecnológico da nova geração de stuccos é que as formulações são aplicadas por roller coater. Outra particularidade diz respeito às fórmulas químicas. O stucco convencional é vendido em pasta, mas as novas versões são oferecidas em estado líquido.

Para Bello, a nova família de stuccos confere elegância e qualidade a qualquer tipo de couro a partir de suas propriedades superiores de lixamento, manuseio e aplicação simples e eficiente sobre defeitos profundos, sem levar em conta a economia do material. Na aplicação à mão eram consumidas 20 gramas por pé² (unidade de medida do couro mais utilizada e equivalente a 900 cm²). Com o roller coater, a quantidade cai para 3 gramas por pé².

Os novos stuccos são fabricados com base poliuretânica, ou acrílica. Quando a exigência do acabamento é muito criteriosa como, por exemplo, os couros empregados no estofamento de automóveis de luxo, os poliuretânicos aparecem como melhor solução. Conforme disse o gerente da Clariant, cada versão do produto tem sua viscosidade específica e exigem regulagens diferenciadas das máquinas. “Os stuccos encontram concorrência nos fundos catiônicos, mas esses servem muito mais para melhorar a estética do que para cobrir os defeitos”, analisou. Segundo Bello, a pecuária brasileira investe pouco em programas de higiene, ou na substituição do arame farpado por cercados menos lesivos, ou em confinamento. Assim, cabe à indústria química a tarefa de pesquisar as soluções necessárias à correção das falhas nas peles por meio de formulações de cobertura.

Cenário adverso – Apesar dos investimentos já definidos, José Fernando Bello aguarda com preocupação o desdobramento do debate sobre as alíquotas de exportação do couro pré-curtido, também conhecido como wet blue. Tudo por conta da política de extinção da taxa de exportação com data certa para ocorrer a partir de janeiro de 2005 e atualmente estipulada em 7%. Conforme Bello, diante dessa facilidade, 17 milhões de peles saíram em forma wet blue em 2004, 50% da produção nacional.

No momento, existe um embate com dois grupos de pressão em Brasília. Um deles atua na câmara setorial da indústria coureiro-calçadista, na tentativa de reverter o quadro com manutenção da alíquota no patamar atual ou até elevála a 9% como ocorria até o ano passado. Na outra ponta, o grupo setorial ligado à pecuária e aos frigoríficos briga pela derrubada definitiva das taxações porque boa parte dessas empresas mantém curtumes para as etapas de pré-cutimento e ganham mais dinheiro com a venda de wet blue no mercado internacional.

O resultado da política de queda das alíquotas é trágico na opinião de José Fernando Bello, porque o Brasil se tornou o campeão mundial em produção de peças de couro e continua terminando o couro de alto valor agregado na mesma proporção de 1989. A Argentina, por exemplo, esfola 12 milhões de bovinos e vende 90% das peles como couro acabado. “É uma pena a atual política porque os curtumes poderiam empregar muito mais gente”, lamenta José Fernando Bello. Mesmo assim, argumenta, vale a pena investir porque como a Clariant disputa a liderança no mercado de insumos químicos para couro em espaço geográfico global, ela pode disputar áreas dominadas pela concorrência no Brasil e na América Latina.

Outro fenômeno detectado pelo executivo da Clariant foi o desembarque no País de grandes conglomerados estrangeiros. Ele contabiliza pelo menos quatro curtumes italianos já instalados no Brasil por meio de aquisições ou associações com grupos nacionais no Ceará, São Paulo, interior da Bahia e Novo Hamburgo. Há um quinto em fase de instalação em Franca-SP. “No Brasil acontece um fenômeno verificado na Argentina. Os pequenos empreendedores estão em retirada, absorvidos pelos grandes grupos”, constata. Nos seus cálculos, sete grandes curtumes já respondem por 58% da produção nacional de couros.

Projeto estagiários – Na área de recursos humanos, a Clariant passou a desenvolver também um programa para estagiários em todas as suas unidades do Brasil. “Oferecemos um programa completo desenhado com todas as suas atividades. Realizamos avaliações a cada seis meses com todos eles, mais os seus gestores para verificar a situação de cada um na empresa”, afirma Márcia Regina Trindade, analista de recursos humanos do grupo.

Na unidade da Clariant em Novo Hamburgo (RS), futuros técnicos em química e em curtimento, comércio exterior e administração ocupam oito vagas: seis no laboratório e dois na administração. Recebem treinamentos nas áreas respectivas em contato direto com os processos de aplicação dos produtos, além de vivenciar a rotina de desenvolvimento de artigos e as técnicas de aplicação. “Eles adquirem conhecimento e experiência a respeito da tecnologia para enfrentar o mercado de trabalho com um reforço importante em seus currículos”, explica Débora Spengler, técnica do Laboratório de Aplicação de Fase Úmida. Atualmente, em todo o Brasil, a Clariant reúne 140 estagiários com contratos de até três anos. De acordo com Spengler, de 10% a 15% são efetivados após esse período.

Empresa internacional com sede em Muttenz, na Suíça, a Clariant está presente nos cinco continentes com mais de 100 filiais e capacidade para processar aproximadamente 20 mil fórmulas químicas dirigidas aos mais diversos segmentos industriais. Posiciona-se como fornecedora líder em sistemas inovadores com soluções personalizadas aos clientes. A matriz da Clariant do Brasil se localiza em São Paulo. Há ainda duas unidades de produção, uma em Suzano, na região metropolitana da capital paulista, e a segunda em Rezende, interior do Rio de Janeiro.

Além disso, a empresa oferece centros de distribuição e assistência técnica em vários estados. O suporte aos clientes de produtos para couros na América Latina é proporcionado pela unidade de Novo Hamburgo batizada CTCC – Centro Tecnológico do Couro Clariant –, um complexo de laboratórios de aplicação técnica equipado com máquina para acabamento de espuma, laboratório completo de testes físicos, incluindo taber test e fogging test, laboratório de fase úmida, acabamento e um sistema inédito de curtume-piloto.

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