Cosméticos – Pesquisas nanotecnológicas buscam apoio financeiro

Há quase duas décadas, as pesquisas nanotecnológicas são empreendidas pelas grandes indústrias cosméticas. A Lancôme, em 1995, lançou na França o primeiro creme com nanopartículas de que se tem notícia. No Brasil, as principais referências no lançamento de nanocosméticos vêm do O Boticário, que lançou e patenteou mundialmente o antissinais Vitactive, nanocosmético com sistema de liberação direcionada, bem como da Natura, que também apresentou produto nanocosmético na França e, mais tarde, no Brasil, introduziu hidratantes em nanoemulsões.

Cientes do interesse da comunidade científica e empresarial em conhecer e aprofundar questões relativas a nanocosméticos, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) e o Instituto de Tecnologia e Estudos de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Itehpec) promoveram, de 15 a 16 de junho, em São Paulo, o Seminário Internacional de Nanotecnologia Aplicada aos Cosméticos: Perspectivas para a Indústria Brasileira.

As perspectivas de apoio financeiro aos projetos com nanocosméticos encabeçados por empresas brasileiras foram eleitas como tema de interesse pelos organizadores, tornando-se alvo da apresentação de representante da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia. Considerada agência de inovação para o desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços, a Finep levou a público sua missão de subvencionar financeiramente vários projetos com foco em inovação.

Revista Química e Derivados, Andréa Bentes Leal, analista do escritório regional da Finep de São Paulo
Andréa: Finep tem linhas para micro e pequenas empresas

Ao participar do painel sobre Fomento e Perspectivas de Apoio em Projetos Nanocosméticos, Andréa Bentes Leal, analista do escritório regional da Finep de São Paulo, relatou as primeiras subvenções do órgão a projetos em nanotecnologia, iniciadas em 2006, envolvendo materiais nanoestruturados para aplicações no setor cosmético, e os financiamentos mais recentes, geralmente voltados ao aproveitamento da biodiversidade brasileira.

De 2006 até 2009, 845 projetos de inovação em todos os campos foram aprovados pelo órgão, sendo 742 projetos devidamente contratados, e que mobilizaram recursos da ordem de R$ 1,286 milhão. Em 2010, houve uma demanda de 993 projetos na Finep, mas apenas 122 chegaram a ser habilitados para análise. Desse total, apenas três empresas na área de biotecnologia envolvendo cosméticos foram inscritas e contempladas: uma microempresa, uma pequena empresa e uma grande empresa, sendo uma delas com projeto focado em nanotecnologia no valor informado de R$ 5.389.686,46.

Segundo a analista, as micro e pequenas empresas também podem pleitear recursos ao órgão e se beneficiar dos instrumentos de financiamento em valores até R$ 900 mil, sem juros e para pagamento em cem parcelas. Sob diferentes condições de financiamento, ela também destacou o Programa Inova Brasil, concebido para atender empresas brasileiras dedicadas a desenvolver inovações tecnológicas subvencionadas em projetos cujos valores ultrapassam R$ 1milhão.

Fotoprotetor nano – O primeiro fotoprotetor brasileiro desenvolvido com nanotecnologia foi tema da apresentação de Simone Sotto Mayor, médica dermatologista e diretora da unidade de dermocosméticos da Biolab, empresa farmacêutica com mais de trinta patentes registradas no Brasil e no exterior. Com laboratório para estudos e desenvolvimento de dermocosméticos ativo desde 2003, a empresa se lançou na busca de um protetor extremo contra as radiações solares (UVA/UVB) e que apresentasse níveis mais elevados de fotoestabilidade na pele, contrapondo-se à existência no mercado de protetores cuja efetividade diminuía 50% após duas horas de permanência sobre a pele.

“A nossa preocupação foi buscar uma fórmula para manter o FPS após a exposição por períodos mais longos e a partir de 2005/2006 fomos contemplados pela Finep com verbas para desenvolver nanoformulações, como a de proteção contra radiações UV; e assim chegamos à primeira formulação em nanocápsula em 2009/2010, conseguindo nanoencapsular filtros solares químicos, obtendo resultados mais efetivos, de maior transparência e menor oleosidade, bem como a liberação controlada dos filtros”, informou Simone.

Para afastar totalmente o risco de a nanopartícula adentrar no folículo piloso da pele, via de acesso à absorção dérmica e sistêmica, com o consequente depósito sobre os órgãos humanos, a dermatologista optou por fazer uso de partículas com 240 nanômetros, embora, de acordo com os parâmetros de segurança adotados pelos cientistas e pesquisadores, seja possível trabalhar com partículas desde 100 até 400 nm.

Outra preocupação foi assegurar que todos os lotes de produtos apresentassem o mesmo tamanho de nanocápsula. E foi com base nesses conceitos e critérios que a empresa lançou o primeiro fotoprotetor brasileiro com nanotecnologia, com nome comercial de PhotoProt FPS 100.

“O PhotoProt FPS 100 é o primeiro produto a utilizar o sistema nanométrico totalmente biodegradável e extratos naturais encontrados em biomas brasileiros, como o óleo de buriti, que atua como regenerador da pele e agente antioxidante com função emoliente, e o tocoferol, prevenindo a formação de radicais livres e protegendo a pele do envelhecimento cutâneo, e ainda atuando na redução do nível de expressão da colagenase, responsável pela degradação do colágeno”, informou Simone.

O produto apresenta três agentes nanoencapsulados: dois filtros solares orgânicos (avobenzona e octocrileno), responsáveis, respectivamente, pela absorção das radiações UVA e UVB, e óleo de buriti, que atua como antioxidante e emoliente. As substâncias protetoras foram encapsuladas com polímero, garantindo a liberação progressiva. O polímero da nanocápsula refletirá a luz solar, sendo essa inovação patenteada pela Biolab. “O sistema de nanoencapsulação dos filtros orgânicos permite a formação de um filtro solar híbrido que ao mesmo tempo absorve e reflete a luz solar”, acrescentou. Testes realizados com o produto revelaram que a formulação permanece intacta após quatro horas de uso e, após seis horas, a fórmula se mantém 95% ativa, portanto.

Expertise em nano – Responsável por Pesquisa e Inovação – Tecnologia de Produtos do grupo Boticário, Carlos Praes propagou aos presentes a necessidade de o Brasil criar expertise em nanocosméticos, como um diferencial competitivo e uma oportunidade de criação de valor para as indústrias, enaltecendo o potencial das aplicações.

Um dos projetos acompanhados por ele resultou na criação de Vitactive Nanoserum Antissinais, nanocosmético que possui sistema de liberação direcionada dos ingredientes ativos nas camadas da pele, formados por um complexo antienvelhecimento (Comucel), um complexo antioxidante (Priox-in), um clareador e atenuador de olheiras (Lumiskin), além de vitaminas A, C e K.

Segundo levantamento feito por Praes, no período de 1996 até 2006, a produção científica em nanociência evidenciava alguns países. Muito à frente dos demais, os Estados Unidos promoveram e publicaram nesse período mais de cem mil artigos em nanociência, enquanto o segundo colocado, a China, publicou mais de 49 mil artigos. Na sequência, aparecem: Japão (mais de 48 mil), Alemanha (mais de 36 mil), França (mais de 23 mil), Reino Unido (mais de 20 mil) – o Brasil também é citado, com 4.380 trabalhos.

Revista Química e Derivados, Carlos Praes, Responsável por Pesquisa e Inovação/Tecnologia de Produtos do grupo Boticário, nanocosméticos
Praes: Brasil precisa criar expertise em nanocosméticos

Em depósito de patentes, os três primeiros colocados são Estados Unidos, Japão e França. No Brasil, em 2009, foram depositadas 25 patentes aplicadas em cosméticos e, em 2010, esse número se elevou para 45.

“Como terceiro mercado mundial, poderíamos lançar muito mais nanocosméticos, envolvendo nanoemulsões, nanocápsulas, nanoestruturas, enfim, mas hoje apenas 6% dos lançamentos correspondem a nanocosméticos”, afirmou Praes.

“Em 2011, porém, contamos com perspectivas mais promissoras, que apontam para uma estimativa de lançamento de quinze produtos com tecnologia nano, sendo a categoria skin care a que mobiliza os maiores esforços das pesquisas e inovações”, acrescentou.

Patentes em expansão – O termo nanotecnologia foi empregado pela primeira vez por Norio Taniguchi, em 1957, em relação às máquinas com níveis de tolerância inferiores a 1 micrômetro (ou 1.000 nm). Mas viria a se popularizar somente a partir dos anos 80, quando as nanopartículas começaram a ser manipuladas.

Considerada uma tecnologia interdisciplinar baseada em conjunto de técnicas originárias da física, química, biologia e engenharia, e aplicada em escala nanométrica, a fim de obter resultados diferentes daqueles conseguidos quando se utiliza a escala macrométrica, essa tecnologia apresenta grande potencial de crescimento e vem encontrando novos adeptos no país, tanto em empresas que incorporam nanotecnologias em seus produtos como nas que fabricam nanomateriais.

Embora não haja levantamentos apontando quantas patentes tenham sido depositadas no ano passado no país envolvendo nanotecnologia, mais de 30 mil pedidos de depósito foram solicitados ao INPI em 2010, a maior demanda desde a criação da Lei de Propriedade Industrial, em 1996. Desse total, foram concedidas mais de 3.600 patentes em 2010, o maior número dos últimos cinco anos, revelando o crescente interesse pelo desenvolvimento de inovações.

Segundo os registros, as pesquisas buscam oportunidades nos mercados de cosméticos e de produtos provenientes das indústrias químicas, como catalisadores, tintas e revestimentos, incluindo nesse rol também petroquímicos, plásticos, borrachas e ligas metálicas.

Atualmente, estima-se que mais de sessenta países já tenham adotado iniciativas para implementar estudos ligados a nanociências e à nanotecnologia, alocando altos investimentos.

Entre os setores que mais se destacam no lançamento de produtos obtidos por via nanotecnológica ou contendo nanotecnologia embarcada, especialistas acreditam que estejam os cosméticos e os fármacos. Em cosméticos, os melhores exemplos são os protetores solares, os produtos para rejuvenescer e recuperar a pele e as maquiagens. Em fármacos, destacam-se os delivery systems voltados às terapias contra o câncer.

Nanoséculo – Uma das presenças de maior destaque no Seminário foi a do professor e doutor Pedro Amores da Silva, diretor de mestrado em ciências farmacêuticas da Universidade Lusófona de Portugal, que considerou o século 21 como o nanoséculo em virtude do advento da nanotecnologia e do fato de os cientistas estarem conseguindo ampliar a sua utilização por vários campos, antes restrita aos laboratórios experimentais.

“Graças à nanotecnologia, desde o ano 2000 vimos surgir celulares cada vez com maiores capacidades e observamos muitas outras contribuições relevantes nas indústrias têxteis e na indústria química”, comentou.

De acordo com as definições aceitas na União Europeia, nanomaterial é um material insolúvel ou biopersistente, fabricado intencionalmente e dotado de uma ou mais dimensões externas ou de uma estrutura interna numa escala entre 1 nm e 100 nm. Mas as características mais importantes das nanopartículas utilizadas em cosméticos e produtos de higiene, segundo considerou o professor, são aquelas que se relacionam com a reflexão da luz, pois assim atribuem aos produtos transparência ou colorações com brilho diferenciado.

Revista Química e Derivados, Pedro Amores da Silva, diretor de mestrado em ciências farmacêuticas da Universidade Lusófona de Portugal
Amores: reflexão da luz é a meta das nanopartículas

Ao esclarecer alguns aspectos relacionados com o marco regulatório para nanocosméticos, com a entrada em vigor de novo regulamento marcada para 2013, na Comunidade Europeia, em substituição às antigas diretivas, Amores da Silva considerou a harmonização das condutas entre os 27 países do bloco como um dos principais aspectos, sob o ponto de vista até de economia de recursos, uma vez que as empresas vão poupar muitos milhões com os novos procedimentos porque terão a obrigatoriedade de fazer uma única notificação com validade em todos os países.

“A notificação de um nanocosmético deve incluir algumas etapas, como identificação do nanomaterial, incluindo a sua denominação química (Iupac); especificação do nanomaterial, nomeadamente o tamanho das partículas e as propriedades físicas e químicas; estimativa da quantidade do nanomaterial contido em produtos cosméticos destinados a ser colocados no mercado anualmente; perfil toxicológico do nanomaterial; dados relativos à segurança do nanomaterial e sua utilização nas categorias de produtos cosméticos; e condições de exposição razoavelmente previsíveis, sendo todos esses dados submetidos e analisados pelo Comitê Científico”, informou o professor.

O novo regulamento revogará a diretiva e traz algumas mudanças, segundo o professor, relacionadas com a exigência de notificação que estará centralizada e envolvendo autoridades e centros especializados. “O novo regulamento também estabelece a obrigatoriedade de elaboração de fichário com informações sobre cada produto e responsabilidades pelo desenvolvimento de cada cosmético, exigindo um responsável sediado na União Europeia, que será inspecionado e tributado.”

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