Cosméticos: Desodorantes multifuncionais ganham preferência

Desodorantes multifuncionais de alto desempenho e com apelo natural ganham preferência do mercado

A multifuncionalidade dos insumos se impõe como atributo de peso no mercado de ativos com poder desodorante.

A busca por soluções completas avança e incentiva a criação de fórmulas mais eficazes, além de ampliar a demanda de ingredientes secundários.

O conceito da naturalidade também ganha força e abre espaço para o desenvolvimento de produtos mais suaves e seguros.

Além disso, novos formatos, como os sólidos, despontam como tendência, confirmando o dinamismo e o vigor dessa indústria.

Cada vez mais, amplia-se a disponibilidade do mercado de ativos com poder desodorante para a utilização de ingredientes multifuncionais.

A possibilidade dada ao formulador de desenvolver um produto com várias funções distintas, fazendo uso de uma lista enxuta de ingredientes, tem impulsionado novos investimentos.

Ísis Filippi, líder de negócios da BU F&F da Lanxess, explica que o consumidor final se beneficia de soluções químicas inteligentes que resultam em melhor desempenho do produto.

Julianna Gonçalves, coordenador técnica para Cosméticos e Ciências da Vida, da Colormix Especialidades, concorda.

Para ela, de forma geral, os ativos multifuncionais podem ser mais atraentes para os produtores, pois tendem a reduzir o número de ingredientes necessários para confeccionar um produto e, assim, diminuir o custo do processo de fabricação, gerando ainda mais conveniência e economia ao consumidor.

A indústria não hesita em investir no conceito e o reflexo desse movimento é o aumento da oferta de ativos que, além do poder desodorante, fornecem benefícios secundários, como hidratação e proteção da barreira da pele, redução da irritação, clareamento de manchas e minimização de danos pós-depilação, entre outros.

Cosméticos - Desodorantes: Multifuncionais de alto desempenho e com apelo natural ganham preferência do mercado @QD Foto: iStockPhoto
Julianna: hidroxiapatita com zinco substitui o alumínio

“Ativos hidratantes, calmantes e clareadores são fortes apostas multifuncionais para agregar valor ao produto”, Julianna pontua.

Os fabricantes de desodorantes, segundo Ísis, devem desenvolver uma abordagem holística para gerenciar a umidade e o odor das axilas, por meio do pH e equilíbrio microbiano, fragrância e mascaramento de odor e absorção do suor das axilas. Isso tudo sem a necessidade de usar diversos insumos que podem ter impactos negativos à saúde ou ao ambiente.

“As listas de ingredientes podem ser reduzidas e simplificadas sem comprometer o desempenho, usando insumos multifuncionais”, reforça.

No entanto, existem algumas especificidades a considerar. Quanto mais ativos forem incluídos em um desenvolvimento, maior deverá ser a atenção do formulador.

Segundo Julianna, este profissional precisará compatibilizar ingredientes e garantir seu desempenho e a estabilidade na bancada e na produção.

Além disso, há a necessidade de submeter o produto a mais testes clínicos para validar os apelos desejados e conquistar o consumidor.

Clean – Além desses pormenores, o setor não pode se desviar do apelo ambiental. “As tendências de mercado e de consumo apontam para a direção da sustentabilidade”, diz Julianna.

Até por isso, nos últimos anos, a indústria passou a considerar em massa as opções naturais de neutralização, absorção e disfarce de maus odores, para atender às requisições dos compradores.

Não por acaso, a busca crescente por alternativas naturais em substituição ao alumínio, triclosan, parabenos e outros ingredientes vistos como controversos dá o tom aos novos rumos do setor.

Além disso, o que se vê é a boa receptividade de ativos minerais absorvedores e o aumento do interesse dos fabricantes em criar produtos para atender ao mercado de clean beauty – beleza limpa, em tradução literal.

Ainda de carona na tendência clean beauty, segundo Julianna, os formatos sólidos em bastão (stick) já podem ser encontrados no mercado nacional e priorizam a adição de ativos lipossolúveis e abrem espaço para explorar a aplicação de emolientes multifuncionais, óleos diversos, modificadores de sensorial para absorção de umidade ou para despertar sensações e emoções (aquecimento ou refrescância, por exemplo), bem como modificadores de reologia e outros ingredientes que ajudam a estabilizar formulações inovadoras.

Seguindo o mesmo movimento, o setor também caminha na direção dos desodorantes mais suaves e não irritantes.

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Ísis: produtos sem água podem tem uma vida útil mais longa

“Isso exigiu a substituição do etanol, um ingrediente que ajudava a reduzir o tempo de secagem e a controlar os micro-organismos. Portanto, essas funções agora geralmente precisam ser executadas de outras formas”, comenta Ísis.

Um reflexo deste novo perfil do mercado pôde ser percebido, no mês passado, quando o SCCS (Comitê Científico de Segurança do Consumidor na União Europeia) publicou sua opinião final sobre a segurança do alumínio (cujos sais são frequentemente usados como ativos antiperspirantes).

Segundo a publicação, esse metal é basicamente seguro, mas “a exposição conjunta ao alumínio de fontes cosméticas e não cosméticas pode exceder os limites seguros para os consumidores, quando expostos aos limites máximos de uso”.

Ísis explica que, à medida que o conhecimento científico da indústria se desenvolve, com a maior compreensão de como opera o microbioma na axila, será possível escolher os ativos mais adequados para controlar o crescimento de bactérias causadoras de odor sem o uso de produtos químicos agressivos que afetam o equilíbrio microbiano natural.

Sustentável – Os consumidores também estão pedindo produtos que não contenham materiais persistentes no meio ambiente.

Em resposta a este movimento, tem sido ampla a substituição dos silicones, que apesar de serem materiais de alto desempenho, possuem na composição siloxanos, que são, segundo Ísis, extremamente bioacumulativos, incapazes de se decompor em materiais benignos, quando enxaguados e carregados para o meio ambiente.

Não por acaso, a Lanxess propõe a substituição de silicones por opções prontamente biodegradáveis, como o Purolan IDD (isododecano) e Purolan IHD (isohexadecano).

Para Ísis, esses insumos fornecem deslizamento e espalhabilidade excepcionais, características pelas quais os silicones leves são conhecidos, e além disso não provocam impacto ambiental por se decomporem rapidamente.

Outro sinalizador destes cuidados em prol da natureza é a procura pelo conceito waterless. A água pode adicionar muito peso a um produto, o que torna a logística mais complexa, cara e menos ecológica.

“O desenvolvimento de desodorantes que não sejam à base d’água possibilitam a redução do tamanho do produto e da embalagem, simplificando o transporte e apoiando os esforços de sustentabilidade”, comenta Ísis.

Segundo Ana, produtos waterless são procurados por consumidores que, normalmente, não querem utilizar ativos antitranspirantes, buscando pelo conceito apenas de desodorante.

Vale mencionar que desodorantes em barra são muito comuns em algumas regiões, como os Estados Unidos.

Ceras, óleos e amidos compõem a base desses produtos, por isso, é fundamental preparar formulações compatíveis com esses ingredientes, segundo Ísis.

“Os produtos sem água, geralmente, podem ser menos suscetíveis à contaminação microbiana, resultando em produtos com vida útil mais longa, o que significa menos desperdício”, afirma.

As indicações da Lanxess para esta aplicação são o Purolan IDD e IHD (oferecem rápido tempo de secagem), o Purolan OD (mantém a hidratação da pele) e o Solbrol TEC (citrato de trietila, para o controle de pH e o combate a odores).

Esse último é recomendado para produtos desodorantes em barra, roll-on e aerossol; ele funciona tamponando o pH da pele das axilas, mantendo um ambiente ácido que reduz a taxa de crescimento de micro-organismos causadores de odores.

A companhia também destaca de seu portfólio o Kalama 3PP (fenilpropanol). Segundo Ísis, ele é eficaz em mascarar maus odores e ajuda na proteção antimicrobiana.

Ela explica que a combinação de Kalama 3PP com Purox S (benzoato de sódio), um agente antimicrobiano de amplo espectro, pode ajudar a reduzir o crescimento de micro-organismos causadores de odor, enquanto protege o produto de contaminação microbiológica.

Insumos – Existem diversas opções oferecidas pelos fabricantes. Prova disso se vê no portfólio da Colormix Especialidades.

Entre os produtos, um destaque fica por conta do DeoHap Dry, ativo mineral eco-sustentável baseado em hidroxiapatita biomimética, enriquecida com zinco (PCA, sal do ácido pirrolidona carboxílico), que realiza o controle de umidade e gases produzidos na axila e dispensa a necessidade de bloquear as glândulas sudoríparas, como fazem os sais de alumínio.

“Esse mecanismo alternativo é possibilitado pela tecnologia Smartsorbing do minério, que atrai e adsorve fluídos em seu interior devido à sua superfície porosa, além de neutralizar os gases com amônia e sulfeto que geram mau odor, sem alterar a fisiologia da pele”, afirma Julianna.

Segundo ela, por isso, trata-se de uma excelente opção para substituição de alumínio em antitranspirantes.

Julianna explica que o uso de combinações de ativos naturais que atuam por vias diferenciadas, como inibição de crescimento e adsorção física do suor do tipo Smartsorbing, também podem contribuir para a diminuição da formação de manchas amarelas em roupas brancas.

Vale dizer que estas se formam quando a transpiração possui alta concentração de compostos amínicos, que apesar de incolores, podem reagir com o ar ou com compostos de desodorantes antitranspirantes que serão metabolizados por bactérias naturais do microbioma e que causarão a formação dessa coloração amarelada e do mau odor.

Com o apelo da multifuncionalidade, o Cosphaderm Zinc Lactate, também da Colormix, se destaca por ser um ativo que reúne zinco e ácido lático, com propriedades antimicrobianas que inibem a proliferação de micro-organismos que causam o mau odor.

Além disso, ele pode diminuir sinais de inflamação devido à presença de zinco e acelerar a renovação das células pela ação do ácido lático, enquanto mantém a região hidratada, uma vez que é um fator de hidratação natural.

Julianna também menciona o Nio-Sensyl, ativo vetorizado que engloba compostos da magnólia e de mangostão, extrato de levedura enriquecido com zinco, encapsulados em vesículas anfifílicas ultradeformáveis.

“Esse sistema permite o gerenciamento eficiente e imediato de sinais de inflamação, alívio da pele sensível, coceira e vermelhidão, além de possuir estudo de performance em comparação com a hidrocortisona, corticoide sintético”, explica.

A companhia apresenta ainda o Cosphaderm Multimeg, ativo multifuncional de caráter preservante suave de amplo espectro, devido ao seu alto potencial antimicrobiano, criado a partir da combinação do extrato de magnólia com pentileno glicol e griceril caprilato.

O insumo exibe ação antioxidante e anti-irritante e pode ser aplicado em todos os tipos de formulação.

Por fim, Julianna destaca o Wala Moringa Oil.

Esse ativo da flora africana, obtido a partir da árvore de moringa oleífera, possui altos níveis de ácidos graxos instaurados em composição, sobretudo o ácido oleico, o que o torna ideal para repor lipídeos da barreira dérmica.

Atualmente, a Colormix trabalha em combinações para melhorar a capacidade antimicrobiana de antitranspirantes em emulsões.

“Em breve iniciaremos os testes de aplicação para sistemas sólidos anidros e waterless para elevar o nível de conhecimento da aplicação de ativos e de sua eficiência”, Julianna avisa.

Mais ativos – A Sarfam, que possui a representação exclusiva para a linha de antitranspirantes da Elementis, conta com um portfólio de ativos para todos os tipos de fórmulas e aplicações, segundo Ana Carolina Albertini, gerente técnica da Sarfam.

O Chlorydrol 50 é um deles.

Trata-se de matéria-prima na forma de solução com 50% de ativo, sendo a molécula mais tradicional do mercado, conforme Ana explica.

“Nosso diferencial é o teor de ferro reduzido, para evitar manchas nas roupas”, diz.

Também compõem o portfólio o Reach 701L e o Reach 301L. O primeiro, Ana define como uma novidade em alta eficácia.

Cosméticos - Desodorantes: Multifuncionais de alto desempenho e com apelo natural ganham preferência do mercado @QD Foto: iStockPhoto
Ana: Chlorydrol 50 com baixo teor de ferro evita manchas nas roupas

“Permite performance superior, se comparado com os itens padrões de antitranspirantes, possuindo a molécula ativada e proporcionando efeito clinical e mais duradouro”, explica.

Enquanto o 301L, possui melhor desempenho entre os derivados de cloridrato de alumínio, por ser ativado com maior concentração de cloro.

Um destaque da companhia fica por conta do AACH 7172. Trata-se de um insumo na forma de pó, ideal para aerossol.

“É considerado a última geração, pois, além da melhor performance, possui a forma esférica, que possibilita melhor estabilidade em embalagem aerossol e menor resíduo”, Ana explica.

Há também dois produtos derivados de Al/Zr: o AZG 364 e o Rezal 67, este último na versão líquida. Ana afirma que os dois apresentam desempenho superior.

Aliás, ela conta que todos os derivados de zircônio agem assim devido ao efetivo processo de polimerização e maior eficiência na antitranspiração, já que são moléculas de alto peso molecular.

Ana apresenta ainda o Citrofol AI, ativo com ação de desodorante enzimático.

Com a liberação do suor, fisiologicamente ocorre o aumento do pH da pele que irá ativar enzimas específicas, responsáveis pela degradação da molécula do insumo, proporcionando novamente a diminuição do pH da região.

“Esse mecanismo de regular o pH da região é importante, pois para que ocorra a degradação do suor inodoro em mau odor é necessário ação das enzimas lipases, que são ativadas pelo aumento do pH.

Portanto, o Citrofol AI inibe a degradação do suor inodoro por inativar as enzimas responsáveis pelo processo”, explica.

Esses produtos dialogam diretamente com as demandas do mercado. Segundo Ana, o conceito clinical, por exemplo, tem sido muito procurado devido à garantia de performance e segurança.

Ele diz respeito a uma categoria de produto que promete desempenho superior no combate à transpiração.

Ana também observa a maior procura por formulações mais eficazes e minimalistas, assim como a tendência ao maior consumo de itens “sem gênero”, além da demanda por fórmulas para proteção 24/48/72 horas e dos tipos invisible e clareador de manchas.

Sobre as preferências na hora da compra, Julianna conta que, cada vez mais, o consumidor se mostra atento com o que usa e também desconfiado dos benefícios prometidos e em busca de saúde e sustentabilidade no seu dia a dia.

Vendas – Esta sintonia dos fabricantes com os anseios do consumidor, somada à ampla oferta de produtos, revela um grande potencial do setor.

“Espera-se que o interesse e o desejo de incluir ativos desodorantes e antitranspirantes inovadores aumentem em 2023, uma vez que ocorreu a flexibilização das medidas de contenção da pandemia e o retorno normal às atividades”, avalia Julianna.

A afirmação reflete os efeitos da pandemia que, por conta das medidas de confinamento da população, levaram a uma queda da demanda de alguns desses produtos.

Porém, ainda assim, as vendas de cosméticos dessas categorias atingiram a casa de bilhões, em 2020, o que colocou o Brasil na posição de segundo maior mercado consumidor de produtos desodorantes, posto este, que se manteve no ano seguinte, de acordo com os dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec).

O setor tem força. Até mesmo a redução do poder aquisitivo do consumidor conseguiu impulsionar a procura por desodorantes.

Relatório Consumer Insights, da Kantar, do ano passado, revelou que o alto preço dos perfumes levou uma parcela dos compradores a substituir o seu uso por desodorantes, com a intenção de se perfumar.

De qualquer forma, há espaço para inovações que exibam um perfil completo de proteção, tanto no controle de odor, como na absorção da umidade, sem incluir ingredientes controversos que acendem a desconfiança do consumidor.

“O mercado de cuidados pessoais está sempre em busca do que é inédito, sustentável e de alta tecnologia”, finaliza Julianna.

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