Cosméticos, Perfumaria e Higiene Pessoal

Cosméticos – Combinações adequadas dos tensoativos deixam a pele e os cabelos mais limpos e saudáveis

Marcelo Fairbanks
15 de novembro de 2009
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    Em relação a outros países, o Brasil tem a peculiaridade de contar com águas geralmente mais leves (com menor teor de sais dissolvidos). Águas duras, como as predominantes nos Estados Unidos e Europa, com forte presença de sais de magnésio e de cálcio, inibem a formação de espuma. Para contornar a dificuldade, os formuladores são obrigados a aumentar a dose de tensoativos. “Enquanto um xampu brasileiro leva 6% de LESS, 2% de betaínas e 2% de não-iônicos, uma carga total de ativos surfactantes de 10% em peso, xampus europeus usam 14% de LESS, 4% de betaínas e 4% de não-iônicos, com total de 22%”, informou.

    Também é preciso mencionar que o Brasil é o único país do mundo em que podem ser encontrados todos os tipos de cabelos, do caucasiano ao oriental. Ressalte-se que cada tipo se subdivide em graus de oleosidade, de tingimento e nível de tratamento desejado. Isso explica o comprimento das gôndolas de produtos para cabelos nos supermercados.

    Joãosinho Di Domenico, da Polytechno, também ressalta a diferença de hábitos entre brasileiros e os habitantes da Europa e dos Estados Unidos. “Por viver em um país tropical, o brasileiro toma dois ou mais banhos por dia, enquanto os europeus, que vivem em clima frio, tomam menos banhos”, comparou. Caso o xampu europeu, bem mais concentrado, fosse usado como no Brasil, em dois banhos diários, ele promoveria uma remoção excessiva da oleosidade.

    Os tensoativos também são aproveitados para facilitar a produção. “As amidas, por exemplo, atuam na solubilização das fragrâncias, evitando a turvação do xampu”, comentou Edna Fernandes. Um aditivo produzido pela Rhodia, o Jaguar, um polímero de goma guar, aplicado em dose minúscula (0,1% a 0,3%) para melhorar a penteabilidade e aumentar em 30% a deposição de silicone nos cabelos, pode usar as amidas previamente selecionadas como molhantes. Isso facilita a sua incorporação, evitando a formação de pó. “Basta fazer uma pré-mistura”, explicou.

    Edna também comentou que a seleção dos tensoativos pode considerar a redução dos custos de produção, característica desejada por pequenos e médios fabricantes. “Conhecendo as exigências de incorporação dos insumos, é possível evitar etapas de aquecimento e posterior resfriamento, proporcionando economia de energia”, disse.

    No campo dos produtos pós-lavagem capilar, caso dos condicionadores, complementos para tratamento e cremes protetores, o Brasil consolida a liderança mundial em demanda. “A união dos produtos Rhodia com os da McIntyre aumentou nossa participação nesse mercado”, comentou Edna. A adquirida tinha relevante produção de amidados, MIPA, proteínas e amidas muito procuradas para a produção de máscaras, condicionadores e produtos de styling capitlar (géis, mousses etc.). Também agregou à Rhodia a liderança nos sulfosuccinatos.

    Tendências – Em qualquer região do mundo, os apelos mais recentes da indústria de cosméticos e de artigos de higiene pessoal favorecem os insumos de origem natural e renovável, com preferência pelos derivados vegetais. A substituição de produtos sintéticos pelos de origem vegetal é denominada vegetalização.

    Uma alternativa de vegetalização no campo dos tensoativos é a etoxilação direta dos óleos vegetais, originando produtos com boas propriedades sensoriais, porém com a possibilidade de formar produtos de aspecto turvo. Segundo Edna Fernandes, da Rhodia, a presença de glicerina (oriunda do triglicerídeo original) não é problema, podendo contribuir para a umectação da pele, embora possa abater a espuma caso esteja presente em quantidade muito alta. “O problema maior é controlar a quantidade de ácido graxo livre que chegará ao produto final, que pode ser agressivo”, explicou.

    Ela explicou que algumas companhias evitam usar etoxilados. Nesse caso, a Rhodia oferece misturas de  tensoativos “verdes” que dispensam etoxilação.

    Química e Derivados, Edna Fernandes, Especialista em desenvolvimento e aplicação da divisão personal care da Rhodia Brasil, Tensoativos

    Edna Fernandes: diversidade capilar dá trabalho a formuladores

    “O ácido graxo láurico poderia ser usado para fazer coisas mais nobres que o LESS”, comentou a especialista. Em geral, quando querem fazer outros tensoativos, os formuladores buscam outras fontes. Os ácidos graxos com cadeias entre 12 e 14 átomos de carbono são indicados para melhorar a espumação. Os ácidos com cadeias entre 16 e 18 carbonos oferecem melhor condicionamento capilar. Já as cadeias mais curtas, entre 8 e 10 carbonos, geralmente residuais, são pouco interessantes, por serem mais irritantes, conforme explicou.

    Embora a vegetalização esteja na ordem do dia, Edna recomenda verificar se o óleo natural a ser usado foi bem extraído e processado. “Caso o óleo não tenha sido bem cuidado, as suas propriedades benéficas podem ser perdidas”, disse Edna.

    A Polytechno mantém parceria com a sueca AAK, da qual importa manteiga de karité. Segundo Di Domenico, as sementes dessa planta são obtidas de forma sustentável em Burkina Fasso (África) e enviadas para a Suécia com muito controle para manter as características originais da manteiga. A  extração da manteiga e seu processamento posterior são feitos com precisão, para não destruir os compostos bioativos naturais (os insaponificáveis). Da manteiga de karité, a Polytechno produz derivados mediante o emprego de tecnologia própria, gerando anfóteros, ésteres, quaternários de amônio e tensoativos não-iônicos. “Alguns desses produtos são exportados para a AAK, que os vende na Europa, Ásia e EUA”, comentou.

    A Polytechno também produz derivados especiais de óleo de babaçu e óleo de oliva, mas no mercado nacional tem seguido mais a linha do karité.

    Além da preocupação técnica, o uso de produtos naturais também precisa considerar aspectos sociais. “A política de sustentabilidade obriga a ter produtos obtidos por comunidades preparadas para isso e com bom padrão de vida”, comentou Sérgio Gonçalves, da Croda. “Não basta olhar para o óleo em si mesmo, mas é preciso ser justo e correto nos campos ambiental e social.”



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