Combinação de tensoativos traz benefícios

A combinação adequada de tensoativos deixa a pele e os cabelos mais limpos e saudáveis

– Combinação de tensoativos traz benefícios: A peculiar estrutura anfifílica das moléculas dos tensoativos, com uma extremidade solúvel na água e outra solúvel em óleos, os coloca como ingredientes principais dos xampus e condicionadores para cabelo. A escolha adequada desses ingredientes permite a obtenção de cabelos brilhantes, macios e facilmente penteáveis, sem prejuízo do volume. Produtos inadequados deixam os cabelos secos, eriçados e difíceis de pentear. Ou, ainda, escorridos e com aspecto grudento, um visual “pesado”.

Os xampus precisam de moléculas capazes de tornar as gorduras e sujeiras solúveis ou dispersíveis na água, limpando os cabelos. Essa remoção da gordura e das sujidades, porém, deve ser feita sem danificar os fios e nem o couro cabeludo. Além disso, um xampu moderno deve repor uma parte da gordura retirada, melhorando o brilho e a facilidade de pentear, bem como manter o equilíbrio lipídico da região.

Produtos para a pele contam com os tensoativos para formar emulsões óleo-água estáveis, formando cremes, pastas e loções de fácil aplicação e excelente cobertura da superfície a proteger. É o caso dos protetores solares, nos quais o desempenho do tensoativo é importante para o espalhamento adequado dos componentes protetores sobre a pele.

Do ponto de vista dos negócios, esse segmento de mercado apresenta um dinamismo interessante, apontando para a formação de conglomerados de porte global. Isso pode ser comprovado por negociações realizadas durante os cinco últimos anos, como a compra da Uniqema (ex-ICI) pela Croda, ou a aquisição da McIntyre pela Rhodia. Além disso, por se tratar de um mercado que valoriza a inovação, empresas de porte menor conseguem resultados surpreendentes.

A combinação adequada de tensoativos deixa a pele e os cabelos mais limpos e saudáveis

O mercado brasileiro de produtos cosméticos e de higiene pessoal cresce anualmente na casa dos dois dígitos desde o Plano Real, de 1993. A crise econômica de setembro de 2008 não interrompeu a sequência, mas seus efeitos podem redundar em uma desaceleração lenta, apontando para um crescimento próximo a 9% para 2009, marca ainda invejável. O Brasil já é citado como o terceiro maior mercado mundial desse setor, superado apenas pelos Estados Unidos e Japão. E, este último, por pouco.

Paulo De Biagi, Diretor para a América Latina da área de personal care da divisão Novecare, Tensoativos
Paulo De Biagi, Diretor para a América Latina da área de personal care da divisão Novecare, Tensoativos

A pujança do mercado brasileiro atrai investimentos produtivos. É o caso da divisão Novecare da Rhodia, que iniciará em 2010 a fabricação de amidoaminas e alcanolamidas em Santo André-SP, insumos usados como tensoativos secundários em xampus.

“Estudamos o mercado e verificamos ser essa a maior demanda dos produtores locais de cosméticos e artigos de higiene pessoal”, justificou Paulo De Biagi, diretor para a América Latina da área de personal care da divisão Novecare.

O investimento é importante para reforçar a participação da companhia no mercado local, muito aquém do share dominado por ela no mercado global. Essa produção usará instalações multipropósito do site, demandando pequenos investimentos de adaptação. A matéria-prima será o óleo de coco importado, por falta de oferta nacional estável.

Os produtos para cabelos – xampus, condicionadores, cremes e máscaras – são os maiores consumidores de tensoativos. No entanto, os insumos de maior valor são direcionados para as linhas para a pele, que têm o melhor potencial de introdução de itens mais sofisticados e caros.

“A suavidade e o baixo potencial de irritação são características mais críticas nos produtos para a pele, tornando mais fácil a aplicação de novos ingredientes de melhor desempenho e com custo mais alto”, explicou Sérgio Gonçalves, gerente de marketing para a América Latina da Croda do Brasil.

Entre as tendências de mercado para os tensoativos de uso cosmético, podem ser citadas a vegetalização e a eliminação ou redução dos compostos etoxilados e dos sulfatados. “Os europeus falam muito, mas isso está distante da realidade porque é difícil conseguir boa detergência e funcionalidade geral sem etoxilados e sulfatados”, ponderou Joãosinho Di Domenico, diretor técnico e industrial da Polytechno, conhecida produtora nacional de produtos químicos para o setor. Dos seus reatores saem ésteres, anfóteros, alcanolamidas, sulfosuccinatos, tensoativos não-iônicos e quaternários de amônio para a indústria de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Fornece também bases prontas de tensoativos e doadores de consistência para xampus e emulsões. Além da fabricação própria, oferece óleos e manteigas vegetais especiais da sueca AAK, bem como as especialidades da Bioextract, Dow Personal Care (polímeros celulósicos e quaternários), Exsymol Sam (peptídeos e silício orgânico) e Lucas Meyer (fosfolipídeos e bioativos).

Maior produtora regional de óxido de eteno e derivados, a Oxiteno também se destaca como a principal fornecedora de tensoativos e está em plena fase de ampliação e verticalização da produção. “Entre 2007 e 2009 estamos investindo US$ 550 milhões em expansão e em novas plantas, que resultarão em um acréscimo de 30% na capacidade produtiva de especialidades químicas, entre elas os tensoativos”, comentou Gerson Moacir Secomandi, gerente de mercado para cosméticos, detergentes e agroquímicos da Oxiteno. A companhia produz surfactantes aniônicos (sulfatados), nãoiônicos (etoxilados) e anfotéricos (betaínas) para diversos segmentos industriais, que contam com o apoio de dois centros de tecnologia (no Brasil e no México) e de treze laboratórios para o desenvolvimento de novas aplicações.

Neste ano, a Oxiteno inaugurou a unidade oleoquímica, produtora de álcoois graxos pelo método de substituição, alimentada por óleo de palmiste. “Trata-se de um insumo fundamental para a produção de cosméticos que, até então, era totalmente importado da Ásia”, disse Secomandi. A disponibilidade de álcoois graxos permitirá à Oxiteno verticalizar a produção de sulfatados, oferecendo garantia de suprimento e maior competitividade aos clientes.

Essa também é a expectativa de Di Domenico. “O preço deverá seguir os padrões internacionais, mas teremos uma logística mais econômica e confiável, sem perder a qualidade”, avaliou.

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Joãosinho Di Domenico, Diretor técnico e industrial da Polytechno
Joãosinho Di Domenico, Diretor técnico e industrial da Polytechno

Combinação de tensoativos: Xampus variados


O principal tensoativo usado nos xampus, encontrado na grande maioria dos produtos à disposição dos consumidores, continua sendo o lauril-éter sulfato de sódio, identificado pela sigla SLES ou LESS.

“É o mais polivalente dos tensoativos, pode ser usado em diferentes tipos de xampus e alcança os resultados que os usuários fi nais querem”, disse Di Domenico. Esse surfactante aniônico é obtido pela etoxilação do ácido graxo láurico/mirístico com posterior sulfatação e neutralização com soda cáustica. Essa neutralização, segundo o diretor, pode ser feita com trietanolamina, monoetanolamina ou amônio, porém essas alternativas são pouco adotadas no país.

A “polivalência” do LESS permite aos fabricantes trabalhar com menos itens no inventário, uma vantagem considerável. Também é preciso mencionar que se trata de uma commodity de preço muito atraente, porém esse aniônico apresenta uma considerável irritabilidade para a pele humana. O uso de combinação com outras famílias de tensoativos resolve o problema para o uso a que se destina, de forma mais econômica que a adoção de um surfactante mais sofisticado.

“A associação do tensoativo aniônico com anfóteros é bem conhecida, com os últimos apresentando menor irritabilidade, boa detergência e poder antiestático”, comentou Di Domenico. Ele salientou que a associação de isetionatos e/ou isocianatos com derivados de aminoácidos gera tensoativos primários de alto desempenho e isentos de sulfatados, mas com eficiência de limpeza inferior a estes.

“Não dá para fazer xampu com um só surfactante porque os consumidores finais querem muita espuma, embora ela não limpe nada”, explicou Edna Fernandes, especialista em desenvolvimento e aplicação da divisão personal care da Rhodia Brasil. Para ela, a melhor combinação de tensoativos reúne aniônicos, anfóteros e não-iônicos. Os anfóteros produzem espuma rica e densa, enquanto os não-iônicos são muito suaves, embora tenham elevado poder de detergência. A proporção entre esses componentes varia conforme o xampu a ser produzido. “Um produto infantil, por exemplo, leva mais não-iônicos, geralmente succinatos, do que outro para adultos porque se quer evitar a irritação dos olhos”, explicou.

A especialista também salienta uma característica importante: 70% da população brasileira tem cabelos secos. Por isso, um xampu não pode ser apenas um agente de limpeza, mas deve proporcionar algum cuidado capilar. Os formuladores precisam definir um mix de ingredientes, entre eles os polímeros naturais ou sintéticos, além de aminas/amidas, para depositar um pouco de condicionantes para melhorar a penteabilidade. A lavagem com xampus deixa os cabelos com cargas negativas, havendo a necessidade de aplicar um condicionador para neutralizá-las e ao mesmo tempo repor parcialmente a carga graxa. Um dos trabalhos dos formuladores consiste em ajustar a composição de xampus e condicionadores, formando os pares oferecidos aos consumidores.

Ela comentou que a preferência de mercado nos aniônicos se concentra no lauril éter sulfato de sódio, menos agressivo que o lauril sulfato. A Rhodia oferece aos clientes como anfótero o cocoanfodiacetato de sódio (Miranol), muito bem-aceito no Brasil. Esse tensoativo reduz a irritabilidade e produz mais espuma. “As betaínas também são muito usadas em combinação com o LESS, especialmente em xampus transparentes”, informou Edna, embora prefira o cocoanfodiacetato pela sua maior suavidade, o que permite a aplicação em lenços umedecidos para bebês e demaquilantes.

Além disso, esse anfótero aumenta a deposição dos aditivos poliméricos nos fios de cabelo, permitindo economia de aditivos usados para essa função, compensando a diferença de preço em relação às betaínas.

O mercado associa alguns efeitos à aparência do produto, embora isso nem sempre seja verdadeiro. Edna comentou que os fabricantes fazem xampus brancos quando querem enfatizar o tratamento dos cabelos. Xampus perolados enfatizam a alta qualidade. As linhas mais comuns geralmente adotam a transparência, também usada para indicar pureza.

Edna verifica o interesse crescente dos fabricantes de cosméticos e produtos de higiene pessoal em tornar mais racional seus inventários, que podem chegar, com facilidade, a dois mil itens. “Isso exige adotar insumos mais flexíveis, que possam ser aplicados em várias formulações”, comentou.

A Rhodia oferece misturas prontas de tensoativos com aprovação da Anvisa para várias aplicações. Essa combinação de tensoativos facilita o desenvolvimento de novos produtos finais, bastando colocar fragrâncias e alguns aditivos.

Em relação a outros países, o Brasil tem a peculiaridade de contar com águas geralmente mais leves (com menor teor de sais dissolvidos). Águas duras, como as predominantes nos Estados Unidos e Europa, com forte presença de sais de magnésio e de cálcio, inibem a formação de espuma. Para contornar a dificuldade, os formuladores são obrigados a aumentar a dose de tensoativos.

“Enquanto um xampu brasileiro leva 6% de LESS, 2% de betaínas e 2% de não-iônicos, uma carga total de ativos surfactantes de 10% em peso, xampus europeus usam 14% de LESS, 4% de betaínas e 4% de não-iônicos, com total de 22%”, informou.

Também é preciso mencionar que o Brasil é o único país do mundo em que podem ser encontrados todos os tipos de cabelos, do caucasiano ao oriental. Ressalte-se que cada tipo se subdivide em graus de oleosidade, de tingimento e nível de tratamento desejado. Isso explica o comprimento das gôndolas de produtos para cabelos nos supermercados.

Joãosinho Di Domenico, da Polytechno, também ressalta a diferença de hábitos entre brasileiros e os habitantes da Europa e dos Estados Unidos. “Por viver em um país tropical, o brasileiro toma dois ou mais banhos por dia, enquanto os europeus, que vivem em clima frio, tomam menos banhos”, comparou. Caso o xampu europeu, bem mais concentrado, fosse usado como no Brasil, em dois banhos diários, ele promoveria uma remoção excessiva da oleosidade.

Os tensoativos também são aproveitados para facilitar a produção. “As amidas, por exemplo, atuam na solubilização das fragrâncias, evitando a turvação do xampu”, comentou Edna Fernandes. Um aditivo produzido pela Rhodia, o Jaguar, um polímero de goma guar, aplicado em dose minúscula (0,1% a 0,3%) para melhorar a penteabilidade e aumentar em 30% a deposição de silicone nos cabelos, pode usar as amidas previamente selecionadas como molhantes. Isso facilita a sua incorporação, evitando a formação de pó. “Basta fazer uma pré-mistura”, explicou.

Edna também comentou que a seleção dos tensoativos pode considerar a redução dos custos de produção, característica desejada por pequenos e médios fabricantes. “Conhecendo as exigências de incorporação dos insumos, é possível evitar etapas de aquecimento e posterior resfriamento, proporcionando economia de energia”, disse.

No campo dos produtos pós-lavagem capilar, caso dos condicionadores, complementos para tratamento e cremes protetores, o Brasil consolida a liderança mundial em demanda. “A união dos produtos Rhodia com os da McIntyre aumentou nossa participação nesse mercado”, comentou Edna. A adquirida tinha relevante produção de amidados, MIPA, proteínas e amidas muito procuradas para a produção de máscaras, condicionadores e produtos de styling capitlar (géis, mousses etc.). Também agregou à Rhodia a liderança nos sulfosuccinatos.

Tendências


Em qualquer região do mundo, os apelos mais recentes da indústria de cosméticos e de artigos de higiene pessoal favorecem os insumos de origem natural e renovável, com preferência pelos derivados vegetais. A substituição de produtos sintéticos pelos de origem vegetal é denominada vegetalização.

Uma alternativa de vegetalização no campo dos tensoativos é a etoxilação direta dos óleos vegetais, originando produtos com boas propriedades sensoriais, porém com a possibilidade de formar produtos de aspecto turvo. Segundo Edna Fernandes, da Rhodia, a presença de glicerina (oriunda do triglicerídeo original) não é problema, podendo contribuir para a umectação da pele, embora possa abater a espuma caso esteja presente em quantidade muito alta. “O problema maior é controlar a quantidade de ácido graxo livre que chegará ao produto final, que pode ser agressivo”, explicou.

Ela explicou que algumas companhias evitam usar etoxilados. Nesse caso, a Rhodia oferece uma combinação de tensoativos “verdes” que dispensa etoxilação.

Edna Fernandes, Especialista em desenvolvimento e aplicação da divisão personal care da Rhodia Brasil
Edna Fernandes, Especialista em desenvolvimento e aplicação da divisão personal care da Rhodia Brasil

“O ácido graxo láurico poderia ser usado para fazer coisas mais nobres que o LESS”, comentou a especialista. Em geral, quando querem fazer outros tensoativos, os formuladores buscam outras fontes. Os ácidos graxos com cadeias entre 12 e 14 átomos de carbono são indicados para melhorar a espumação. Os ácidos com cadeias entre 16 e 18 carbonos oferecem melhor condicionamento capilar. Já as cadeias mais curtas, entre 8 e 10 carbonos, geralmente residuais, são pouco interessantes, por serem mais irritantes, conforme explicou.

Embora a vegetalização esteja na ordem do dia, Edna recomenda verificar se o óleo natural a ser usado foi bem extraído e processado. “Caso o óleo não tenha sido bem cuidado, as suas propriedades benéficas podem ser perdidas”, disse Edna.

A Polytechno mantém parceria com a sueca AAK, da qual importa manteiga de karité. Segundo Di Domenico, as sementes dessa planta são obtidas de forma sustentável em Burkina Fasso (África) e enviadas para a Suécia com muito controle para manter as características originais da manteiga. A  extração da manteiga e seu processamento posterior são feitos com precisão, para não destruir os compostos bioativos naturais (os insaponificáveis). Da manteiga de karité, a Polytechno produz derivados mediante o emprego de tecnologia própria, gerando anfóteros, ésteres, quaternários de amônio e tensoativos não-iônicos. “Alguns desses produtos são exportados para a AAK, que os vende na Europa, Ásia e EUA”, comentou.

A Polytechno também produz derivados especiais de óleo de babaçu e óleo de oliva, mas no mercado nacional tem seguido mais a linha do karité.

Além da preocupação técnica, o uso de produtos naturais também precisa considerar aspectos sociais. “A política de sustentabilidade obriga a ter produtos obtidos por comunidades preparadas para isso e com bom padrão de vida”, comentou Sérgio Gonçalves, da Croda. “Não basta olhar para o óleo em si mesmo, mas é preciso ser justo e correto nos campos ambiental e social.”

A tendência de aumentar o conteúdo “verde” dos cosméticos é inegável, segundo ele. Mas, mesmo assim, os clientes querem receber um insumo de qualidade homogênea, devidamente transformado, destilado e padronizado. Essas operações são feitas nos sítios da companhia espalhados pelo mundo. “Estamos em processo de globalização, com fábricas novas na América Latina, África e Ásia, embora as fontes para o Brasil ainda sejam as unidades da Europa e dos Estados Unidos”, disse. O país produz a linha Crodamazon de óleos vegetais oriundos da Amazônia, em associação com comunidades da região.

Gonçalves aposta na vegetalização das formulações, mas acredita que a mudança será feita por etapas. Isso se explica pela necessidade de modificar a formulação de cada produto, alguns dos quais atenuarão algumas propriedades hoje possíveis pela presença de componentes sintéticos. Além disso, a Croda se esforça para fixar no mercado a percepção de que os produtos de origem animal são também naturais. “O mel, a seda, as proteínas lácticas e também a lanolina são naturais”, explicou.

Ao mesmo tempo em que se mantém ligada aos desejos dos clientes, a Croda finaliza o processo de incorporação da Uniqema, antiga divisão da ICI, comprada há dois anos. “Neste ano terminaremos a racionalização das marcas e do portfólio, processo demorado porque a Uniqema tinha mais de dez mil itens”, comentou. O portfólio atual da Croda é capaz de suprir todas as necessidades dos formuladores. “Temos pelo menos um insumo em cada formulação de produtos cosméticos e de higiene pessoal”, informou. Ele prevê um crescimento de 8% desse mercado em 2009, afetado ligeiramente pela crise global.

A globalização também se reflete na velocidade de transmissão de conceitos, influenciando as solicitações dos clientes. “As novidades que aparecem na Cosmetique aparecem no Brasil em menos de dois meses, é um processo muito rápido”, salientou. A Croda, por sua vez, concentra esforços nas especialidades, normalmente suportadas por inovações capazes de diferenciar os produtos finais que as contenham.

A companhia busca atender à demanda de mercado por produtos menos agressivos pela mudança do tensoativo primário (o LESS) ou mediante a inclusão de cosurfactantes. Como a substituição do surfactante principal exigiria altos volumes, ainda indisponíveis, a melhor alternativa é a associação de insumos.

Sérgio Gonçalves, Gerente de marketing para a América Latina da Croda do Brasil
Sérgio Gonçalves, Gerente de marketing para a América Latina da Croda do Brasil

A Croda oferece a  ampla linha Crodasinic de tensoativos aniônicosobtidos de acil sarcosinas (ácidos de cadeia longa e origem natural, combinados com o aminoácido sarcosina) e sarcosinatos (sais). “Com um terço da concentração de ativos em base seca, o Crodasinic LS-30, indicado para xampus e cosméticos, consegue reduzir a irritabilidade do sistema”, explicou Gonçalves. O produto aumenta a formação de espuma por apresentar sinergia com outros tensoativos, como o lauril sulfato de amônio ou a cocoamidopropil betaína, oferecendo alta umectação e dispersão na faixa de pH entre 6 e 7.

Também prevê bons resultados para o Cromoliente SCE, diéster alcoxilado de ácido adípico e álcool mirístico propoxilado etoxilado, na atenuação da irritabilidade dos aniônicos primários nos quais é solúvel, admitindo posterior dispersão em água. É indicado para produtos transparentes, oferecendo sensação de suavidade e excelente penteabilidade após o uso, com propriedade desembaraçante. Pode ser usado para solubilizar a benzofenona-3. “É recomendado especialmente para xampus de bebês e artigos para peles sensíveis”, comentou Gonçalves.

O portfólio contempla ainda a linha de alcanolamidas Incromide, não-iônicos de amplo uso em formulações, atuando como promotores e melhoradores de espuma. A espuma é considerada de melhor qualidade quando as bolhas formadas têm menores dimensões e maior estabilidade. Isso confere um aspecto cremoso, muito apreciado pelos consumidores.

Entre os surfactantes especiais, Gonçalves destaca como promissor o Adinol CT-95, metilcocoil taurato sódico, indicado para pastas de dentes, antissépticos bucais e também em xampus neutralizantes e limpadores para pele e rosto. As sultaínas, como a Crosultaine C-50 (cocoamidopropil hidroxisultaína), superam as betaínas na formação de espuma e na suavidade, sendo aplicadas em xampus, condicionadores, tinturas capilares e produtos para limpeza de pele.

Luciene Nii, Responsável pelo atendimento técnico-comercial de especialidades para a América do Sul da Ajinomoto
Luciene Nii, Responsável pelo atendimento técnico-comercial de especialidades para a América do Sul da Ajinomoto

Aminoácidos crescendo


Tensoativos feitos com base em aminoácidos aliam suavidade e bom desempenho em formulações de xampus e, ao mesmo tempo, satisfazem os requisitos de origem natural e de elevada biodegradabilidade.

É o caso das linhas Amisoft e Amilite de tensoativos aniônicos da Ajinomoto, utilizadas no Brasil desde 1998. “Temos boa aceitação em xampus para cabelos, em especial nos produtos infantis que exigem mais suavidade”, explicou Luciene Nii, responsável pelo atendimento técnico-comercial de especialidades para a América do Sul da Ajinomoto.

Ela comentou que o mercado de produtos capilares no Brasil é muito amplo, com peso maior que os produtos de pele. Os aminoácidos também originam umectantes. “O mercado, porém, tem muitos lançamentos e está aberto a novos conceitos e matérias-primas”, avaliou.

Os produtos Amisoft são derivados de ácido glutâmico, obtido pela fermentação de melaço de cana e amido de batata com óleo de palma. Dois dos tipos têm certificação Ecocert, o CS-22 e o HS-11, sendo reconhecidos como naturais.

Ambas as linhas são usadas como tensoativos primários em xampus premium, na Europa, mas também atuam como surfactantes secundários, ou mesmo terciários, em linhas de produção em massa. Luciene comenta que esses produtos podem ser incorporados à conhecida dupla LESS e anfóteros na dosagem de 2% a 4% em peso, proporcionando melhor suavidade e formação de espuma. Os produtos Amisoft proporcionam sensorial mais agradável que os Amilites, estes derivados de glicina, um dos componentes do colágeno.

A Ajinomoto também produz o tensoativo catiônico CAE, derivado de arginina com ácidos graxos de óleo de coco, etanol e PCA (fator de hidratação natural da pele). “É um produto caro, nem divulgamos muito no Brasil”, afirmou Luciene. Ele atua mais como preservante em produtos finais classificados como orgânicos.

Tensoativos catiônicos


Os tensoativos catiônicos são usados na composição de condicionadores capilares. Por terem grande quantidade de cargas positivas espalhadas ao longo de suas moléculas, eles se ligam às cargas negativas dos cabelos, protegendo-os e, ainda, tornando-os mais macios, desembaraçados e fáceis de pentear. Isso porque os fios de cabelos ficam “isolados” pela camada de catiônicos.

Esse segmento de mercado é dominado pelo grupo dos sais quaternários de amônio. A facilidade para a obtenção de moléculas diferentes nesse grupo permite oferecer os diversos tipos de tratamentos e efeitos desejados pelo consumidor final.

“Cada catiônico tem uma função distinta para proporcionar maciez, redução de frizz (eriçamento), redução de volume, brilho, facilidade de pentear, entre outros”, comentou Ana Paula Ceolin, química de pesquisa e desenvolvimento da área de personal care da Clariant S.A. Ela ressaltou que a necessidade de tratamentos capilares se intensifica porque as mulheres danificam os cabelos o tempo todo ao fazer alisamento com chapinhas quentes, descolorações e tinturas frequentes. Além disso, os consumidores recebem grande volume de informações e exigem resultados melhores.

“O tratamento capilar é alcançado pela combinação sinérgica de moléculas, produzindo resultados mais suaves e de condicionamento mais profundo”, explicou a especialista. Isso é possível pelas variações qualitativas e das quantidades relativas dos tensoativos nas formulações, além da incorporação de outros ingredientes, como os silicones.

Considerando a linha de catiônicos Genamin, ela apontou que o tipo KDMP (cloreto de alquiltrimetil amônio) funciona muito bem na reparação de danos dos cabelos, enquanto o DSAC (cloreto de diestearil amônio) proporciona elevada maciez, sendo derivado de estearina animal. O CTAC (cloreto de cetiltrimetil amônio), por sua vez, atua bem em vários tipos de condicionadores. Esses três itens são produzidos em Suzano-SP.

“Somos os principais fornecedores desses produtos no mercado, temos laboratórios para desenvolver formulações e prestar assistência técnica aos clientes”, disse Guilherme Macedo, gerente de personal care para a América Latina da Clariant. A companhia vende os tensoativos isoladamente para os formuladores, geralmente de grande porte com os quais mantém acordos de suprimento global. Os clientes médios e pequenos são atendidos por meio de distribuidores especializados.

Além dos catiônicos, a Clariant conta com extensa linha de tensoativos aniônicos e cosurfactantes anfóteros, com destaque para a cocoamidopropil betaína, produtos de fácil incorporação e alto desempenho, com preço convidativo. Segundo Macedo, na região, a Clariant fabrica tensoativos no Brasil, na Argentina, Chile, México e Venezuela.

Química e Derivados, Ana Paula, Química de pesquisa e desenvolvimento da área de personal care da Clariant. Macedo, Gerente de personal care para a América Latina da Clariant. Belechuk, químico de pesquisa e desenvolvimento da área de personal care da Clariant. Tensoativos
Ana Paula Ceolin,Guilherme Macedo e Marcelo Belechuk (dir.): Inovação é maior nos catiônicos

“Os quaternários entram nos condicionadores, nas máscaras capilares e cremes de pentear, mas também há proteínas hidrolisadas de trigo, seda etc, que atuam muito bem como antiestáticos”, comentou Joãosinho Di Domenico.

A Polytechno comercializa cloretos de cetiltrimetil amônio, estearil dimetil benzil amônio, além de polímeros catiônicos multifuncionais. A linha também conta com cloreto de benzalcônio com efeito biocida, requisitado para desodorantes. “Para esse uso, o produto precisa seguir a Farmacopeia Americana [USP], ou seja, ter o mínimo de 40% de moléculas C12 e mínimo de 20% de C14, com a soma de C12 e C14 maior ou igual a 60%”, explicou.

Edna Fernandes comentou que os catiônicos apresentam resultados importantes, especialmente quando bem combinados com os tensoativos presentes nos xampus. Porém, seu uso apresenta efeito acumulativo que gera resultados indesejados. “Quando o mesmo produto é usado continuamente, os cabelos ficam sobrecarregados de catiônicos e se apresentam pesados, com aspecto ‘lambido’”, explicou. Ela recomenda aos consumidores variar de produtos com alguma frequência, ou usar um xampu antirresíduos, de alta detergência, para recuperar a aparência desejada.

Combinação de tensoativos: sabonetes melhorados


A moderna tecnologia de tensoativos permite produzir sabonetes mais compatíveis com a pele humana, sem prejuízo do poder de limpeza. Di Domenico explica que um sabonete comum tira 18% da água e 33% da gordura superficial da pele, cuja reposição demora entre quatro e seis horas. Nesse intervalo, a pele fica ressecada, perde elasticidade e reduz a atividade biológica. A Polytechno desenvolveu o Polysoap, aditivo adicionado na massa do sabão com a função de proteger a pele, manter equilibrado o manto lipídico e melhorar a produção de espuma, a qual adquire um aspecto cremoso.

“Com o aditivo, elimina-se a remoção de água e a retirada de gordura cai significativamente, mas é reposta em aproximadamente duas horas”, explicou. Ele também mencionou que o aditivo facilita a extrusão e a prensagem dos sabonetes. “A ideia veio da produção dos chocolates”, revelou Di Domenico. O produto foi recentemente aprovado por grandes clientes, após um longo processo de avaliação.

A produção de sabonetes também incorpora tensoativos betaínicos, cocoanfodiacetatos e cocoil isetionatos (Miracare Plaisant), segundo Edna Fernandes, da Rhodia. Ela indica a aplicação de poliquaternium 7 para evitar as rachaduras que aparecem nos sabonetes. “Temos uma patente para uso do Jaguar em produtos em barra, mas a dosagem é alta, entre  0,7% e 1%, dificultando a sua aceitação”, comentou.

A Croda recomenda a aditivação para os sabonetes premium. “Com pequenas mudanças na formulação é possível obter resultados muito superiores”, afirmou Sérgio Gonçalves. A umidade das barras pode ser mantida com a incorporação de Procetil AWS, que pode ser combinado com proteínas, na dose total inferior a 1% do peso da massa, com melhoria no produto final. Gonçalves indica a adição de óleos naturais para agregar propriedades diferenciadas e também mudar a cor do sabonete. Ele salienta que os sabonetes líquidos se comportam como xampus, com a diferença no aspecto sensorial, que precisa ser mais suave e proporcionar hidratação superior.

Produtos para a pele


O papel dos tensoativos nos produtos para a pele é mais variado. Em alguns casos pode se relacionar com a limpeza, a exemplo dos demaquilantes. Em outros, atua como promotor das emulsões óleo/água que constituem grande parte do portfólio do setor. Mas há casos em que os tensoativos também interferem no resultado final da aplicação, como acontece nos protetores solares.

“Feito com base no óleo de girassol, o recém-lançado Hostacerin SFO atua como estabilizador de protetores solares e não é etoxilado”, comentou Marcelo Belechuk, químico de pesquisa e desenvolvimento da área de personal care da Clariant.

O óleo reage com sorbitol com baixo consumo de energia, gerando um surfactante de excelente sensorial, promovendo uma emulsão estável com o concurso de outros tensoativos. Ele comentou que os protetores solares são considerados difíceis de estabilizar. Ressalte-se que um bom protetor deve resistir à água, aceitar bem os fi ltros orgânicos e inorgânicos da formulação e ainda ajudar a formar com facilidade um fi lme homogêneo sobre a pele.

A linha de ésteres fosfóricos Hostaphat, da Clariant, apresenta semelhança com os fosfolipídeos da pele, com a qual apresenta grande afinidade, além de promover a emulsão água/óleo. “São muito procurados para a produção de óleos bifásicos e trifásicos, capazes de retirar o excesso de óleo da pele sem prejudicá-la”, explicou.

A Clariant iniciou há seis anos a venda de tensoativos e bases emulsionantes para processamento a frio. Isso permite reduzir o consumo de energia, aumento de produtividade e simplificação do projeto das instalações dos clientes.

“Pelo fato de os produtos, em grande parte, serem fabricados na Europa, eles estão sendo registrados no sistema Reach”, comentou Guilherme Macedo. Isso é fundamental para empresas que desejam exportar para lá seus cosméticos. Os tensoativos feitos em Suzano que possam ser exportados também estão sendo submetidos a registro. As linhas dedicadas apenas ao mercado interno, não.

Sérgio Gonçalves, da Croda, avalia que a grade base do mercado de produtos para a pele é formada pelas ceras autoemulsionantes, sistemas completos que simplificam a formulação de emulsões água/óleo. “Nota-se o crescimento do uso de sistemas poliméricos”, comentou.

A produção a frio é um desejo evidente no mercado, ao lado do uso de insumos naturais renováveis. Como novidade, ele citou dois ésteres de açúcares da linha Crodaderm, tensoativos não-iônicos de origem natural e isentos de etoxilados, capazes de melhorar o aspecto sensorial, conferindo mais elasticidade e maciez à pele, sem deixá-la oleosa. “Derivados de proteínas vegetais também reduzem a irritabilidade das formulações e formam bolhas menores de espuma”, afirmou Gonçalves.

Joãosinho Di Domenico reconhece que os não-iônicos dominam o campo das aplicações sobre a pele, mas aponta para o crescimento do uso de tensoativos à base de aminoácidos nessas aplicações. “Eles são mais naturais e menos agressivos para a pele, além de oferecerem nutrientes”, explicou. Ele citou o caso do cocoilglutamato de sódio, que sofre a ação de enzimas, liberando o ácido glutâmico que é um precursor do PCA, um componente do manto lipídico de alto poder hidratante, mas os aminoácidos – são menos flexíveis – permitem obter um número menor de variantes.

Apesar da crescente oposição em algumas regiões do mundo, a produção de cremes ainda conta com o auxílio de álcoois graxos etoxilados. “A substituição dos etoxilados é difícil por causa do seu alto poder de emulsionamento e sua ampla disponibilidade”, avaliou.

Di Domenico avalia bem a oferta de produtos finais cosméticos e de artigos de higiene pessoal no Brasil. “A influência do código de defesa do consumidor, dos órgãos de classe e a pressão da Anvisa fazem com que os fabricantes mantenham um nível elevado de qualidade, tanto nos xampus quanto nos cremes e loções”, afirmou. Também a abertura das importações na década passada fez melhorar a qualidade dos produtos locais em comparação com os artigos europeus.

Química e Derivados, Ensaio realizado no laboratório da Clariant, Tensoativos
Ensaio realizado no laboratório da Clariant mostra o aumento do brilho, maciez e penteabilidade dos cabelos após a aplicação de creme com quaternário de amônio

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