Cosméticos: Anvisa prepara norma para aumentar rigor e ampliar tipos de produtos infantis

Química e Derivados, Cosméticos: Anvisa prepara norma para aumentar rigor e ampliar tipos de produtos infantis

Química e Derivados, Maria: alisantes e antitranspirantes continuarão a ser proibidos
Maria: alisantes e antitranspirantes continuarão a ser proibidos

Ainda este ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicará nova norma disciplinadora da produção e comercialização de cosméticos infantis, mercado atualmente regido pela RDC nº 38, de 2001. Para elaborar o novo documento, a agência se valeu das contribuições recolhidas em consulta pública, realizada no final de 2012.

A Anvisa não detalha o conteúdo da nova norma, pois ainda avalia as informações provenientes da consulta, mas Marcelo Garcia, especialista em regulação e vigilância sanitária do órgão, confirma sua publicação ainda no decorrer de 2014. E acrescenta: “entre outras coisas, a norma atualizará os testes de segurança e incluirá novas categorias de produtos”.

Atualmente, a norma com a qual Anvisa regulamenta cosméticos destinados a crianças abrange batons e brilhos labiais, rouge, blush, esmaltes e fixadores de cabelos. Itens como protetores solares e repelentes devem seguir normas específicas para essas categorias, e há também regulamentações válidas para todos os cosméticos, como a RDC 03/2012 – focada em substâncias de uso restritivo –, e as RDC 44/2012 e RDC 29/2012, que dispõem, respectivamente, sobre corantes e conservantes.

Mas a nova regra deve tratar também das sombras, hoje muito vendidas não apenas como cosméticos, mas muitas vezes como brinquedos. “Seguirão, porém, vedados para uso infantil produtos como alisantes e antitranspirantes”, adianta Maria Valéria Velasco, professora de cosmetologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, e integrante do grupo que estudou a nova regulamentação, como representante da Câmara Técnica de Cosméticos.

Química e Derivados, Hansen elogia fim de algumas restrições da legislação para ampliar o mercado
Hansen elogia fim de algumas restrições da legislação para ampliar o mercado

De acordo com Maria Valéria, além de vedar a oferta de determinadas categorias de produtos para esse público, a regulamentação dos cosméticos infantis requer testes adicionais de segurança, a exemplo dos testes de toxicidade oral para batons e brilhos labiais, e a apresentação de informações específicas nas embalagens.

No quesito rotulagem, aliás, a nova norma será “bem crítica”, como projeta a professora Maria Valéria: para dentifrícios, por exemplo, exigirá inclusive a informação da quantidade a ser aplicada na escova a fim de evitar a ingestão – no caso de produtos com flúor, deve determinar volume similar ao de “uma ervilha” – e, conforme a idade da criança, a necessidade de supervisão por um adulto.

Para João Alberto Hansen, presidente da ABC (Associação Brasileira de Cosmetologia), a legislação brasileira referente aos cosméticos e produtos infantis – e não apenas a nova norma a ser publicada pela Anvisa – começa a franquear à indústria oportunidades mercadológicas antes inexistentes no Brasil. “Em outros países, são trabalhadas nesse mercado infantil oportunidades aqui vedadas pela legislação”, ele destaca.

Hansen cita, como exemplo dessa tendência de abertura aos novos nichos a eliminação no ano passado, mediante o Decreto-Lei 8077, de restrições como a limitação ao máximo de 2% de fragrância e de 60% de álcool nas colônias infantis, e o pH de xampus infantis necessariamente situado na faixa entre 7 e 8,5.

Química e Derivados, Lopes: Oxiteno tem soluções para babies, kids e teens
Lopes: Oxiteno tem soluções para babies, kids e teens

Do nascimento à juventude – A nova norma da Anvisa chegará ao mercado dos cosméticos e produtos de higiene infantis em um estágio no qual ele se segmentou em três públicos distintos por faixas etárias, cada um deles alvo de apelos mercadológicos específicos: bebês – ainda o mais significativo em volume de negócios –, crianças e adolescentes. Na terminologia inglesa, muito usada no setor, as faixas são chamadas babies, kids e teens.

A segurança, obviamente, é requisito indispensável nos produtos destinados a qualquer um desses públicos, mas no caso dos bebês ela deve ser aliada principalmente ao conceito da suavidade. “No segmento infantil, a suavidade deve permanecer, porém aliada a benefícios maiores de limpeza, pois é uma fase na qual a criança se movimenta mais e, portanto, ela se suja mais”, destaca Maurício de Andrade Lopes, gerente global de negócios da Oxiteno. “No mercado teen começam a surgir mais segmentações, como produtos para meninos ou meninas, e é preciso agregar algum diferencial capaz de colaborar com a decisão de um consumidor que já começa a decidir ele mesmo qual cosmético usará, por exemplo, uma fragrância”, acrescenta.

A Oxiteno, destaca Lopes, disponibiliza soluções para todos esses segmentos. Os produtos para bebês, por exemplo, em busca da suavidade se valem de doses mais intensas de produtos utilizados como cotensoativos, próprios para acentuar essa característica. “Nesse caso, temos em nosso portfólio betaínas, alcanolamidas, modificadores reológicos e sulfosuccinatos”, detalha. “Temos também óleos minerais brancos – usados em óleos e loções para bebês –, e glicerina, importante umectante em algumas formulações”, complementa.

Para o mercado kids a Oxiteno disponibiliza, entre outras opções, ésteres emolientes, lactilatos, sulfosuccinatos, e óleos minerais, além do tradicional tensoativo primário lauril-éter sulfato de sódio (LESS). Nos produtos para bebês, predominam surfactantes primários mais suaves, geralmente anfóteros.

E, considerando o segmento composto pelos adolescentes, a oferta da Oxiteno inclui soluções especificamente desenvolvidas para formulações nas quais há fragrâncias. “A combinação adequada de tensoativos, emolientes e hidratantes pode promover a deposição (long lasting), ou liberação (blooming) de fragrâncias”, explica Lopes.

Ele cita, como produto de sua empresa com demanda crescente na indústria de higiene pessoal e cosméticos infantis ou mesmo para adultos, o Alkont EL 3645, um modificador reológico apto a também desempenhar funções secundárias em uma formulação, com a qual pode colaborar para acentuar características como emoliência, suavidade e hidratação. Derivado de milho, esse produto pode ser usado em diversas aplicações, de xampus, sabonetes líquidos e hidratantes até protetores solares e sabonetes íntimos. “Diferentemente de outras opções hoje existentes no mercado, ele pode ser utilizado em formulações transparentes”, ressalta Lopes.

Química e Derivados, Renata: produtos para restaurar o sebo da pele dos bebês
Renata: produtos para restaurar o sebo da pele dos bebês

Apelo natural – Sendo a suavidade e a segurança requisitos fundamentais dos cosméticos e produtos de higiene destinados às crianças, parece facilmente justificável o fato de estarem as empresas fornecedores de seus ingredientes associando de maneira cada dia mais incisiva sua oferta à crescente demanda por produtos qualificados como de origem “mais natural”, provenientes, na maioria das vezes, de vegetais (demanda essa, aliás, hoje vigente em toda a indústria de cosméticos e higiene pessoal, não somente para o público infantil).

Tal tendência é confirmada por Renata Solfredini, gerente de marketing da área de personal care da Croda. “Nesse mercado, os produtos de origem natural são hoje percebidos como mais adequados; exige-se, por exemplo, xampus livres de sulfatos, emulsionantes sem etoxilados e condicionadores de fontes naturais e biodegradáveis”, detalha.

Atenta a essa necessidade, a Croda, conta Renata, oferece uma linha muito extensa de produtos naturais: por exemplo, condicionantes à base de catiônicos behênicos e metossulfatos, e tensoativos suaves com base no lauril sarcosinato de sódio. Disponibiliza também emolientes de origem integralmente vegetal e emulsionantes especiais de baixo impacto em pele, para loções e lenços umedecidos. É o caso da linha NatraGem, desenvolvida com base em estearatos e óleos vegetais.

E é exatamente a oferta de produtos oriundos de fontes renováveis um dos mais relevantes diferenciais mercadológicos da Beraca, que fornece para fabricantes de cosméticos e também para outras indústrias, como a de alimentos, ingredientes oriundos da biodiversidade da Amazônia e de outras regiões brasileiras.

Química e Derivados, Vanessa: óleos de buriti e maracujá nas formulações
Vanessa: óleos de buriti e maracujá nas formulações

Em versões como óleo de buriti e óleo de maracujá, a Beraca fornece componentes de sua linha RainForest para a produção de cremes, condicionadores e sabonetes, entre outros itens posicionados para crianças (e em alguns casos, também para gestantes). “Sugerimos a utilização desses ingredientes em substituição aos óleos minerais e silicones”, informa Vanessa Salazar, gerente comercial da empresa.

Ainda de acordo com Vanessa, a Beraca provê manteiga de cupuaçu, utilizada em sabonetes e hidratantes – inclusive infantis –, e a chamada ‘argila branca da Amazônia’ para conferir a característica de secura a talcos para bebês (muitos desses talcos são hoje oferecidos em forma cremosa, para evitar a inalação).

Além disso, a Beraca oferece uma alternativa mais natural a componentes qualificados por ela como “críticos” no processo de desenvolvimento de cosméticos infantis: os conservantes, que apesar de presentes nas formulações em baixas concentrações, têm enorme potencial de irritação.

Atualmente, com explicou, prevalecem nessa função de conservantes opções como a metilisotiazolinona e os parabenos, que estão porém perdendo espaço pelo potencial de geração de efeitos indesejáveis. “Nós comercializamos no Brasil a linha da empresa Dr. Straetmans, composta por conservantes totalmente naturais: são ácidos orgânicos provenientes de fontes como cana de açúcar ou amido de milho”, enfatiza Vanessa.

Novidades e inovações – A maior recorrência a insumos provenientes de fontes renováveis é percebida como tendência também por Lopes. Na Oxiteno, ele afirma, cerca de 20% de todo o portfolio já é composto por produtos com essa característica, entre os quais aparecem, além do Alkont EL 3645, a linha de ésteres emolientes Oxismooth que “é derivada de fontes 100% naturais e renováveis”, como disse Lopes.

O diretor da Oxiteno cita, como outro movimento hoje muito marcante no mercado dos cosméticos e produtos de higiene pessoal, a busca por produtos com a característica da ‘suavidade’, até mesmo por estar ela muito diretamente associada a conceitos como ‘natureza’ e ‘bem-estar’ (esse conceito da ‘suavidade’ será o tema realçado pela Oxiteno na próxima edição da FCE Cosmetique, em maio). “A suavidade é característica muito associada ao uso de cotensoativos e especialidades”, destaca Lopes.

Segundo ele, o segmento infantil tem também produtos específicos, como o ‘3 em 1’: xampu, condicionador e sabonete líquido. Combinando essas várias funções, esse produto exige uma solução bastante complexa, destaca Lopes: “Para ele temos, entre outras soluções, um xampu sulfate free, à base de sulfosuccinatos, lactilatos, tensoativos não-iônicos e emolientes”.

Mas para Renata, da Croda, o processo de inovação tecnológica dos itens de higiene e cosméticos infantis hoje tem como foco principal o segmento dos bebês, onde há, por exemplo, o desenvolvimento de produtos capazes de colaborar com a restauração do sebo da pele, ainda não totalmente formada nesses usuários. “E aí há o uso de materiais já tradicionais, como a lanolina – na Croda, disponível em produtos como o Medilan –, e de fitoativos como a Vitamina F e derivados de algodão”, relata.

No segmento kids, ressalta Renata, os produtos atuais exibem como principal apelo mercadológico – em detrimento de diferenciais tecnológicos –, o licenciamento de personagens capazes de despertar o interesse das crianças; por isso, nele há menos inovação. “Nesse segmento também são fortes os apelos lúdicos, como uma fragrância diferenciada, de uma frutinha, por exemplo, ou uma cor interessante”, acrescenta.

Renata percebe, no segmento kids, a inovação hoje limitada a artigos como sprays e séruns para facilitar o penteado, que por serem utilizados sem o posterior enxágue exigem agentes condicionantes suaves.

Química e Derivados, Esmaltes sem ftalatos, epóxis ou tolueno
Esmaltes sem ftalatos, epóxis ou tolueno

Nos protetores solares infantis, relata a professora Maria Valéria, uma tendência já bem estabelecida é o uso de produtos compostos com os chamados ‘filtros físicos’, entre os quais aparecem dióxido de titânio e óxido de zinco. Diferentemente dos filtros químicos, como o metoxicinamato de octila e as benzofenonas, mais comuns em protetores adultos, os filtros físicos são menos reativos e, assim, apresentam menor possibilidade de reações adversas e de absorção pela pele.

Já os esmaltes infantis, realça a professora, devem ser formulados com ingredientes de base aquosa, pois a RDC 38/2001 proíbe o uso de solventes aromáticos ou alifáticos em suas formulações. “Além disso, esses esmaltes devem ser facilmente removidos com água e sabão, e isso não ocorre com aqueles formulados com solventes, tóxicos tanto pelo contato como por inalação”, argumenta.

Nesse segmento atua a multinacional de origem italiana Coim, que fornece para a indústria de cosméticos a linha de poliésteres utilizada como base para os esmaltes hipoalergênicos. “Na linha infantil, esses poliésteres são usados na formulação de esmaltes nos quais não há a adição de agentes indesejáveis, como ftalatos, epóxis ou tolueno”, destaca José Paulo Victorio, CEO da Coim Latino America.

Tais agentes, explica Victorio, em algumas situações podem gerar irritações e alergias nas cutículas das usuárias. “Um esmalte convencional muitas vezes contém formaldeído e um epóxi, usando o tolueno como solvente o tolueno. O esmalte hipoalergênico, além de ter o poliéster como base, pode trabalhar com um solvente muito mais leve, como por exemplo o acetato de butila”, detalha Victorio.

Segundo ele, os esmaltes hipoalergênicos já compõem praticamente 100% dos mercados de esmaltes dos Estados Unidos e da União Europeia, mas aqui sua participação é de apenas cerca de 5%. Esses produtos começam, porém, a ganhar espaço também na indústria brasileira, não apenas pela demanda das consumidoras locais, mas também porque representam a base adequada para exportar para a Europa e para o mercado norte-americano. “Aqui, nossos negócios nesse segmento crescem em média 30% ao ano”, afirma Victorio. “E ainda este ano, a Coim lançará mundialmente um poliéster biodegradável, proveniente de vegetais”, acrescenta.

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