Corantes: Mercado da cor prioriza preço baixo

Corantes e pigmentos perdem rentabilidade e sofrem os efeitos da globalização, que fechou fábricas no Brasil para concentrar negócios na Ásia, enquanto a tecnologia de aplicações evoluiu a ponto de reduzir o consumo desses insumos

Química e Derivados: Corantes: Ilustração - Martinez. A produção brasileira de corantes e pigmentos reflete com clareza os efeitos da globalização de negócios e da instabilidade econômica local. Obediente ao cânone de produzir apenas as linhas nas quais seja absolutamente eficiente, complementando a oferta por meio de importações, o setor apresentou dramático fechamento de unidades produtivas, enquanto verifica participação crescente de produtos estrangeiros.

Em âmbito mundial, já se consolidou a transferência da produção da Europa, tradicional centro produtor de insumos básicos sintéticos do setor, para a Ásia, em especial para China e Índia, os novos líderes dos corantes têxteis e pigmentos inorgânicos. Apenas as valiosas especialidades permanecem na origem, embora sem o mesmo apelo do passado que lhes justificava orçamentos polpudos de pesquisa e desenvolvimento. A palavra de ordem agora indica rentabilidade para os investidores, a prazos mais curtos.

Química e Derivados: Corantes: Falzoni - corantes passam por processo de commoditização.
Falzoni – corantes passam por processo de commoditização.

Nesse panorama, o Brasil teve algumas condições para disputar com os asiáticos a “hospedagem” de sítios produtivos mundiais. “Mesmo nos corantes reativos e diretos, perdemos a oportunidade por terem faltado condições para produzir na escala suficiente”, comentou Jandyr Falzoni, coordenador do comitê de corantes e pigmentos da Abiquim e diretor-técnico da Enía, produtora de corantes no Brasil desde 1924, controlada a partir de 1988 pela holding Norquisa.

Não fossem essas dificuldades, o País, por ser tradicional usuário de fibras naturais, com destaque para o algodão, poderia ter se tornado referência mundial nas linhas dos reativos e diretos, os mais indicados para tingir esses materiais. Na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, o uso de fibras sintéticas predomina, impulsionando a demanda por outras famílias de produtos. “De 1995 para cá, dos 18 produtores de corantes e pigmentos no Brasil, só restaram nove”, disse Falzoni.

Pelo menos para a DyStar, gigante mundial em corantes têxteis que reuniu as linhas da Hoechst, Bayer, Basf e Zeneca (ICI), a posição fabril no Brasil se destaca nos reativos, com a ressalva do fechamento de unidades em 2001. “Manteremos apenas a fábrica de Suzano-SP [no sítio da Clariant] em operação”, disse o gerente de marketing para a América do Sul Laércio Ferragina. As instalações de Jacareí-SP foram fechadas em fevereiro, enquanto as de Guaratinguetá-SP encerram atividade em novembro.

“Só temos competitividade mundial nos corantes reativos vinilsulfônicos, a linha Remazol da antiga Hoechst”, explicou. Atualmente, as condições de mercado não justificam produzir, por exemplo, corantes dispersos em capacidades inferiores a 15 mil t/ano, segundo Ferragina. As produções descontinuadas serão transferidas para outras unidades da DyStar, principalmente na Ásia e também na Alemanha.

Química e Derivados: Corantes: Ferragina - só alguns reativos mantém competitividade.
Ferragina – só alguns reativos mantém competitividade.

“Houve uma ‘commoditização’ dos corantes. Durante anos o mercado selecionou as linhas de menor custo, exigindo produção em larga escala”, disse Falzoni. Esse processo começou na década de sessenta, no Japão, sucedido pela indústria coreana e de Taiwan. Atualmente, chineses, indianos e tailandeses atuam com força no mercado, mas é possível imaginar nova onda de transferências. “Egito e África do Sul já contam com produção própria a preços interessantes”, afirmou.

A seleção geográfica teria sido impulsionada também pelo aumento das pressões ambientais nos países desenvolvidos. “Isso não é mais verdade, pois mesmo a China e a Índia já estão adotando padrões internacionais de proteção ambiental”, comentou Falzoni. Segundo verificou, na China o tratamento de efluentes é feito em instalações estatais, enquanto na Índia algumas fábricas de corantes e pigmentos foram fechadas por serem poluentes. O Brasil já segue legislação restritiva há anos. “A construção da fábrica da Enía, em Itupeva-SP, começou pelo tratamento de efluentes de projeto avançado para a época, com segregação de fluxos, que até hoje serve de exemplo”, disse.

A seleção pelo baixo preço inibiu desenvolvimentos técnicos recentes e restringiu o mercado de algumas linhas. “Os corantes à tina, mais caros, só são usados quando se precisa de alta solidez”, explicou. No mais das vezes, segundo ele, os reativos são preferidos, por aliarem preço baixo com uso rápido e bom desempenho. “Não há novidades nesse mercado; hoje se procura melhorar o que já existe, principalmente para melhorar a aplicação”, comentou. Como comprovação, citou a notável redução de verbetes de cor no disponíveis Colour Index.

A própria Enía, pioneira na América Latina, deixou de operar com pigmentos e passou a revender corantes têxteis asiáticos, mantendo produção própria para couros e papel. Ainda assim, alguns materiais básicos são importados. “Como os corantes são iguais para todos, a diferenciação se dá no serviço prestado ao cliente”, afirmou Falzoni, relatando avanços na tecnologia de tingimentos, especialmente em automação e instrumentação de processos. Cabe aos vendedores-técnicos resolver problemas de aplicação, o que implica absorver custos de pós-venda. “O problema é manter a rentabilidade”, disse.

“O preço dos corantes está caindo ano a ano, em dólar”, avaliou Ferragina. Somado à já conhecida crise econômica, isso justifica a queda de 15% nas vendas prevista para este ano. Para 2002, ele espera manter as vendas no mesmo patamar. “Em toneladas, as vendas ficaram praticamente iguais”, comentou. Na sua opinião, o mercado têxtil brasileiro apresenta amplas vantagens competitivas apenas em denim (jeans azul, bom para o índigo) nos artigos para cama, mesa e banho. “A Ásia já responde por 50% do mercado têxtil mundial e até os Estados Unidos apresentam redução de 10% ao ano na cadeia têxtil”, afirmou.

Química e Derivados: Corantes: tabela01.A situação complicada do setor pouco deveria afetar os negócios da indústria química. “Os corantes conferem atratividade aos produtos e representam menos de 4% do preço dos artigos têxteis acabados”, ressaltou Ferragina.

No cômputo geral, as estatísticas indicam crescimento do consumo aparente de corantes e pigmentos no Brasil nos últimos cinco anos. “De dez anos para cá, o consumo praticamente dobrou no País”, apontou Falzoni. “O problema é que as importações passaram a representar mais de 50% do negócio.”

Deixando de lado os têxteis, segmento mais afetado pela importação, as vendas para outras atividades obtêm bons resultados. Em couros, a situação é boa, embora o País se destaque apenas como exportador de wet blue (apenas com tratamento inicial). “O Brasil conta com boa indústria de couros, espalhada geograficamente, mas a produção de artefatos precisa evoluir”, afirmou. A saída é aumentar a produtividade, porque o aumento de preços transfere mercado para o setor de plásticos. “Veja a fabricação sandálias, por exemplo”, disse Falzoni.

A fabricação de papel também garante negócios para a indústria nacional, em especial nos alvejantes ópticos sulfonados (linha Eniaphor), tanto para massa, quanto para superfície. O uso de papéis sanitários coloridos, bem difundidos na Europa, não pegou no Brasil. A linha de corantes para papel (Eniacel) lista produtos diretos, ácidos e básicos.

Pressão nos pigmentos – Também na área de pigmentos, as pressões da globalização são sentidas, com a agravante da preferência atual dos consumidores finais recair em poucas cores. Basta observar os carros mais novos nos estacionamentos para constatar o predomínio dos tons de preto, branco e cinza, com algumas concessões para o prata e o azul-marinho. As linhas de tintas decorativas imobiliárias também se ressentem do mesmo problema, acompanhado da redução de demanda verificada em 2001.

“As vendas de pigmentos em 2001 apresentaram queda de 3% a 4% em relação ao ano passado”, confirmou Eide Paulo de Oliveira, diretor da divisão de pigmentos e aditivos para a América Latina da Clariant. A redução de demanda foi constante durante todo o ano, mesmo antes da disparada do dólar e dos atentados terroristas em Nova York. “O setor de tintas e vernizes, nosso principal consumidor, fechará o ano em retração”, disse. Já para 2002, a previsão da Clariant é melhor, projetando crescimento de 3% a 4% em volume.

Química e Derivados: Corantes: Andrade - baixa rentabilidade retarda investimentos no Ti02.
Andrade – baixa rentabilidade retarda investimentos no Ti02.

Principal pigmento consumido nas tintas e em vários setores industriais, o dióxido de titânio também registra retração de demanda, segundo Manoel G. de Andrade, diretor-presidente da Millenium Chemicals no Brasil, companhia internacional que comprou a antiga Tibrás, na Bahia. Pelas suas estimativas, se tivesse sido mantido o ritmo de crescimento de mercado registrado nas décadas de 70 e 80, a demanda interna do pigmento no ano passado teria chegado a 160 mil t.

“O mercado verificado para 2000 ficou entre 113 mil e 115 mil t”, informou. Sua previsão para este ano não passa de 103 mil t.

O diretor credita a queda na procura pelo dióxido de titânio à evolução tecnológica da indústria de tintas, principal consumidora, hoje capaz de aplicar o pigmento com mais eficiência e, portanto, em menor dosagem. Ao mesmo tempo, o crescimento da “segunda linha” de tintas incentivou a oferta de produtos com menos TiO2 e mais cargas minerais, de modo a reduzir preços de venda.

O setor de celulose e papel também reduziu seu consumo de dióxido de titânio, adotando cargas minerais, como o caulim, de preços inferiores. “É um segmento altamente especializado, mas não é mais um grande consumidor do titânio”, comentou Andrade. Nos Estados Unidos, segundo informou, o setor papeleiro representava há alguns anos 20% da demanda do pigmento, percentual que caiu para 4% atualmente.

Já a transformação de plásticos tem reforçado o uso do pigmento, respondendo por 20% da demanda local, contra os 10% do passado. “Esse segmento talvez sofra impactos da guerra no Afeganistão”, avaliou. Ele critica a falta de incentivos à reciclagem e ao reuso de materiais plásticos no Brasil, fato que poderá alimentar futuras pressões negativas, de cunho ambiental. “Colocar plásticos nos lixões é um desperdício”, lamentou.

A produção nacional do dióxido de titânio foi criticada no passado exatamente pelos efeitos ambientais da atividade, geradora de subprodutos do beneficiamento mineral. “A Tibrás iniciou o saneamento ambiental em 1991”, disse Andrade, que liderou a operação. “Em 1998, quando a Millenium comprou a empresa, o problema ambiental já estava resolvido.” A antiga montanha de sulfato ferroso deu origem a uma unidade industrial que dele obtém produtos para tratamento de água.

Nem mesmo a crise de eletricidade afetou a produção. “Cumprimos a meta de redução de consumo, sem prejuízo para a produção”, informou o diretor-presidente, alegando operar com gás natural. Apesar disso, a empresa investe em projeto para co-geração de energia. Para 2002, outra novidade será a mudança do sistema de lavra do minério para dragagem, reduzindo custos. Aliás, a empresa conta com jazida própria na Paraíba para mais 17 anos de trabalho.

O grande problema do pigmento branco é o preço de venda. “A média de US$ 2 mil/t registrada nos últimos dez anos não permite margens satisfatórias e exige contínuo corte de custos”, comentou Andrade. “Basta verificar que foram raros os projetos de novas fábricas do pigmento nesse período em todo o mundo.” Na sua avaliação, o titânio transformou-se em commodity difícil de trabalhar, que enfrenta exigências ambientais crescentes, como acontece com toda a indústria química. “A oferta mundial do TiO2 é grande, obrigando alguns produtores a reduzir a produção”, disse.

Não é o caso da Millenium no Brasil, que manteve a capacidade de 60 mil t/ano do pigmento. Porém, o acalentado projeto de ampliação de 10 mil t/ano foi indefinidamente adiado. Levantamentos de mercado apontam que o abastecimento de mercado é complementado pela Du Pont, que importa anualmente a média de 40 mil t de clínquer, fazendo o acabamento do produto em Uberaba-MG. “Outras companhias também vendem titânio no País, tanto em especialidades, quanto nas commodities, embora sem grandes ambições”, comentou Andrade. As importações brasileiras de pigmento acabado não passam de 5 mil t/ano. “Para acompanhar os custos e permitir novos investimentos, o produto deveria custar entre US$ 2,7 mil a US$ 3 mil por tonelada”, calculou.

Química e Derivados: Corantes: Oliveira - cresce a produção de pigmentos orgânicos em Suzano.
Oliveira – cresce a produção de pigmentos orgânicos em Suzano.

Cores disputadas – A pressão ambiental estimula substituir as linhas inorgânicas, nas quais se destacam os produtos com metais pesados, com exceção óxidos de ferro, pelos pigmentos orgânicos. “Podemos oferecer a mesma qualidade dos inorgânicos em poder de cobertura e solidez à luz, às intempéries e ao SO2”, afirmou Oliveira, da Clariant.

Ele ressaltou o bom momento por que passa a Linha 70 de pigmentos orgânicos, herdada da Hoechst, lançada no Brasil na década de 80. “As exigências ambientais favorecem muito os nossos produtos”, comentou. Oliveira explicou que Linha 70 é a denominação do tratamento especial dado ao pigmento para se obter o desempenho avançado nas aplicações, especialmente em tintas imobiliárias e automotivas. Os amarelos, laranjas e vermelhos , por exemplo, têm base química azo ou diazo. Já os azuis partem da ftalocianina. A linha se completa com semi-especialidades para a produção de esmaltes secos ao ar e com especialidades, como a crinacridona, indicada para alta cobertura de automóveis.

Do ponto de vista econômico, o diretor menciona vantagens por causa da elevada intensidade de cor, permitindo substituir inorgânicos na razão de 1 (orgânico):2,6, em média. Além disso, segundo ele, os inorgânicos ficaram com preços contidos durante muito tempo e, agora, é preciso acompanhar a evolução do mercado internacional, com tendência à elevação. Já os orgânicos da Clariant se beneficiam da reestruturação havida na companhia, pela qual todas as sínteses passaram a ser feitas na unidade de Suzano-SP, absorvendo as operações com pigmentos antes feitas na fábrica de Resende-RJ, agora dedicada aos corantes para têxteis, papéis e couros. “Os processos foram todos racionalizados ao máximo possível e permitido, e a fábrica foi atualizada tecnologicamente”, explicou. Isso permitiu produzir no site pigmentos antes de operação impossível.

Em Suzano já são feitos todos os produtos considerados “clássicos” da Linha 70, os mais vendidos. “A idéia é nacionalizar um pigmento sempre que for possível”, informou Oliveira. A produção nacional é suprida de intermediários importados, onerados com 2% de imposto de importação, acrescidos de 2,5% de taxa alfandegária. Em 2005, o total de ônus cairá para 2%, segundo previsão oficial. “Além disso, é preciso computar o chamado custo Brasil”, disse. Dessa forma, embora a taxa de câmbio ajude a vender pigmentos produzidos localmente, ela também pressiona os custos. “Como está difícil repassar a elevação de custos, acabamos comprimindo as margens de lucro”, explicou.

Dentro da estratégia mundial da companhia, a unidade de Suzano atende à demanda dos demais países da América Latina (exceto México). Como o peso relativo do Brasil chega a 65% das vendas da divisão de pigmentos, os resultados regionais tendem a acompanhar o comportamento nacional. “A Argentina está com sérios problemas, enquanto a Colômbia segue estável”, comentou o diretor, citando os principais mercados. No caso brasileiro, enquanto as tintas imobiliárias e automotivas apresentam retração, os sistemas gráficos revelam bom desempenho, sendo acompanhados pela cadeia dos plásticos. Um quarto mercado promissor é a produção de tintas para impressoras na linha desk-jet, usadas em escritórios e residências.

O mercado mundial de pigmentos orgânicos soma US$ 4,4 bilhões. A contribuição brasileira nesse montante é difícil de mensurar, segundo Oliveira, que a estima perto de 2,1%. Isso daria algo em torno de US$ 80 milhões/ano. O mercado de inorgânicos é avaliado, a grosso modo, pelo diretor em valor abaixo da metade das vendas dos orgânicos.

Como proposta de trabalho, a Clariant oferece sistemas e preparações de pigmentos adequados aos processos dos clientes. “A idéia é agregar valor, evitando que o usuário tenha processamentos in house dos pigmentos”, explicou. Em geral, os pigmentos são vendidos na forma de pó. Isso exige várias etapas de concentração e secagem. Vendendo dispersões, muitas sob medida, contendo aditivos, por exemplo, se obtêm várias economias, inclusive de energia. “Nesse caso, podemos repartir os ganhos com os clientes”, comentou.

Inorgânicos ativos – As vendas de pigmentos de cádmio no Brasil caíram 15% entre 1999 e 2001, segundo Eduardo Tedesco, gerente de distribuição da Multicel, única produtora local dessa linha de produtos, abrangendo desde o amarelo-limão ao vermelho-azulado e suas combinações. “Houve uma ligeira recuperação de vendas nos últimos dois meses”, comentou.

A diminuição da demanda no Brasil foi compensada pelo incremento das exportações, que começaram pela América Latina e hoje atingem a Europa e a Oceania, por meio de representantes comerciais. “Há apenas cinco grandes fabricantes de cádmio no mundo e eles estão meio acomodados”, disse Tedesco. “Nós nos apresentamos como alternativa de suprimento”. Para atender mercados diversificados, a empresa conseguiu certificação na norma ISO 9002 e promoveu algumas adaptações nos produtos. A Multicel possui capacidade produtiva para 600 t/ano de cádmio, mantendo nível de ocupação entre 75% e 80%.

Do ponto de vista ambiental, Tedesco lamenta as pressões sobre o pigmento, ressaltando sua inocuidade. “Além disso, os pigmentos representam apenas 2% do cádmio existente no ambiente, enquanto mais de 80% é oriundo de pilhas e baterias de equipamentos eletrônicos”, afirmou.

A crise energética exigiu alterações na fábrica nova, em São Bernardo do Campo-SP. “Nossas estufas foram convertidas para usar gás natural”, mencionou. Ao mesmo tempo, a crise teve um efeito benéfico para a Multicel. “As indústrias de cerveja ampliaram as vendas em garrafas, para contornar o alto custo do alumínio, grande consumidor de eletricidade”, explicou. Mais garrafas, mais garrafeiras plásticas para transporte, um dos principais mercados para os vermelhos de cádmio.

Além de sua linha tradicional, a Multicel começou recentemente a distribuir pigmentos da Basf (cromatos e molibdatos de chumbo), titanatos (Basf e Shepherd) e dióxido de cromo importados. “Vendemos pigmentos em pó e color matches (misturas de pigmentos para formar cores especiais)”, explicou. Tedesco acredita no rápido crescimento das vendas dos titanatos, substituindo cromatos e molibdatos no prazo de cinco anos. “O cádmio deve perdurar, pois é ambientalmente seguro, além de oferecer 20 anos de solidez à luz e elevada resistência térmica”, disse.

Há três anos atuando no Brasil com pigmentos, a Johnson Matthey (detentora da marca Cookson) dedica-se ao nicho de especialidades de cádmio e de óxido de ferro. “O mercado nacional de cádmio fica em torno de 250 t/ano, mas competir com o dólar a US$ 2,80 é inviável”, comentou James Russi, gerente de vendas e marketing para a América Latina. Mesmo nos Estados Unidos, Europa e Japão, mercado nos quais o cádmio atende a requisitos normativos, a demanda é estável, mas se exige contínuo desenvolvimento de aplicações. “O cádmio é competitivo em todos os mercados, mas está em uma faixa de qualidade superior”, explicou Russi. Como exemplo de aplicação nova, ele citou o uso em tintas em pó, curadas a altas temperaturas. O cádmio suporta as condições de secagem e também dispersa com facilidade, reduzindo custos. Mas o principias mercados são a fabricação de masterbatches plásticos a de tintas.

Nos tons amarelos, por exemplo, a concorrência é feita com o cromato de chumbo e com o óxido de ferro hidratado convencional. “São produtos de baixo desempenho, mas com preços muito inferiores aos do cádmio”, disse o gerente. “O cádmio amarelo é três a quatro vezes mais caro que o cromato de chumbo”, concordou Tedesco, da Multicel.

No Brasil, a Johnson Matthey administra as importações diretas dos clientes (vendas Indent), além de distribuir seus produtos de cádmio por meio da Ferro Enamel do Brasil, que se encarrega de elaborar os color matches locais. Dessa forma, detém aproximadamente 25% do mercado nacional.

A par do cádmio, a empresa traz para o Brasil o óxido de ferro transparente, uma especialidade consumida nas tintas automotivas e na indústria de madeira. “Todos os óxidos de ferro [amarelo, vermelho e marrom] possuem a mesma estrutura cristalina”, explica Russi. “É preciso controlar a precipitação a fim de obter cristais muito pequenos, que conferem a aparência transparente.” A companhia é uma das três maiores do mundo nesse tipo de produto, tendo comprado a Houghton-Davies (EUA) e transferido a tecnologia para a fábrica da Inglaterra.

Segundo Russi, o óxido transparente atua como protetor contra radiação ultravioleta, substituindo aditivos orgânicos mais caros. “Por ser inorgânico, ele fica mais tempo na película seca”, disse. O material serve para a produção de stains, sistemas protetores de madeira, que evitam manchas em contato com a água. “Os stains deixam madeira ‘respirar’”, comentou.

A Johnson Matthey produz dispersões para aplicação em sistemas base solvente ou base aquosa, com uso também como tingidor de madeira, antes da aplicação do verniz final (acrílico ou poliuretânico). “Estamos encontrando boa aceitação pela indústria de madeira”, afirmou Russi. Essa era uma aplicação cativa dos corantes, que, por serem muito potentes em tingimento, exigem controle apurado de aplicação para manter o ponto correto de cor. Além disso, os sistemas com corantes costumam esconder os veios naturais da madeira. “O óxido de ferro dá uma cobertura mais suave, deixando ver os veios”, explicou.

Outra linha de pigmentos da companhia é denominada Colourplex, inicialmente pigmentos cerâmicos que se mostraram promissores para tintas e plásticos. “São complexos inorgânicos que resistem a altas temperaturas, podendo ser usados em tintas em pó e na injeção de plásticos, sem deformar peças, como acontece com as ftalocianinas em contato com polietileno e polipropileno”, explicou. A indústria automotiva e de autopeças é o destinatário preferencial dessa linha, por ter banido os pigmentos de metais pesados, além de atuar com polímeros mais sofisticados como as poliamidas.

No caso dos Colourplex, os amarelos são obtidos com a síntese de óxidos de titânio, antimônio e cromo (trivalente, não cancerígeno). Os verdes e azuis partem de óxidos de cobalto e níquel, cobalto e titânio, ou alumínio, zinco e cobalto. Já os pretos são oriundos de óxidos de cobre e cromo.

Como exemplo de aplicação, Russi menciona as lonas de PVC usadas para revestimento de piscinas, antes tingidas com ftalocianinas. “Na piscina pronta havia a degradação das ftalocianinas em contato com o cloro e a radiação UV”, comentou. Há sete anos, foi desenvolvido pigmento azul de cobalto para essa aplicação, hoje em franca expansão. “Estamos entrando no cimento com esse pigmento, pois o cobalto resiste à alcalinidade, permitindo fazer telhas azuladas”, comentou. As massas de rejunte de azulejos para piscinas já usam o cobalto.

Nas linhas de óxidos de ferro transparente, cobalto e dispersões, a distribuição de produtos ficará a cargo da Foothills, ficando a Johnson Matthey com os negócios Indent com os clientes de maior porte. “A Foothills trouxe em outubro o primeiro contêiner da Inglaterra com produtos para distribuição”, informou Russi.

Na linha dos cromatos e molibdatos de chumbo, a Basf, que os produz em São Caetano do Sul-SP, ressalta que esses pigmentos continuam a ser comercializados regularmente na Europa, embora admita a tendência atual de substituição. A própria companhia oferece produtos substitutos, inclusive na América Latina, onde já se nota a iniciativa de algumas companhias internacionais de deixar de lado esses materiais. Para 2002, a Basf promete lançar pigmentos para várias aplicações, porém declinou de fornecer detalhes por motivos estratégicos. A companhia espera crescimento do mercado nacional de pigmentos acima dos índices de avaliação de desempenho econômico nacional, principalmente por causa das inovações a introduzir.

A variação cambial impactou os negócios da Basf em pigmentos, uma vez que a maioria das matérias-primas dependem de importações e não se consegue repassar imediatamente o custo. Em relação à concorrência com os asiáticos, a companhia identificou na variação cambial uma proteção, embora limitada, à concorrência predatória. Diferentemente do ocorrido com os corantes têxteis, nos quais o avanço oriental foi enorme, os consumidores locais de pigmentos apresentam-se mais conservadores, evitando riscos desnecessários de ruptura de qualidade ou de abastecimento. Por manter produção local e confiável, além de oferecer assistência técnica, a Basf torna-se muito competitiva contra importados.

Química e Derivados: Corantes: Pinheiro - fábrica de dispersões no Brasil.
Pinheiro – fábrica de dispersões no Brasil.

Dispersões – O uso de sistemas tintométricos, as chamadas mix machines, nos pontos de venda de tintas exige a fabricação de dispersões pigmentárias de alta precisão, a fim de garantir o perfeito funcionamento da alternativa de vendas. “Temos 65% do mercado mundial de sistemas tintométricos”, afirmou Gilmar Pinheiro, gerente de produto da Degussa Brasil Ltda., empresa que assumiu a participação da antiga Hüls. Enquanto nos EUA esses sistemas respondem por 80% das vendas de tintas, no Brasil essa participação não passa de 15%, sendo mais notável na linha de repintura automotiva. A Degussa importa todas as dispersões para o Brasil, mas já prepara para final de 2002 a inauguração de fábrica em Americana-SP.

“Com a nova unidade será possível pensar em redução de preços”, disse Pinheiro. Afinal, as dispersões pagam alíquotas maiores de imposto de importação que os pigmentos em pó, afora os ganhos logísticos. “Estamos negociando com fornecedores de outros insumos para ter ingredientes adequados à qualidade internacional que vamos manter”, afirmou. Além disso, a companhia inagurará, em abril, uma fábrica de negro-de-fumo em Paulínia-SP.

Além dos custos imediatos, há um ganho adicional em manter fábrica no País, por permitir a tropicalização das dispersões. Dentro dos planos da Degussa, a fábrica nacional de dispersões, que recebeu investimento de US$ 25 milhões, responderá por todos os produtos da linha decorativa (imobiliária), enquanto os tipos especiais continuarão a depender de importações.

As indústrias também estão preferindo operar com dispersões e pastas pigmentárias, de modo a eliminar trabalhos internos. “As indústrias estão abandonando essas verticalizações e cedendo espaço para o conceito de linha de montagem”, afirmou Mohamed Nabil Mouallem, diretor da Chemipol, produtora de sistemas tintoriais e pastas pigmentárias em Itaquaquecetuba-SP. Esses produtos permitem aos clientes maior flexibilidade e repetibilidade, além de menores custos. A Chemipol produz sistemas tintoriais para tintas imobiliárias acrílicas e alquídicas; concentrados para base aquosa; concentrados de corantes; dispersos formulados em poliol, epóxi, cetônicos, alquídico, arílico, vinílico, poliéster, DOP, óleo mineral e outros.

Alimentícios seguem normas

O mercado de corantes alimentícios, cosméticos e farmacêuticos segue estável, apesar das bruscas variações cambiais influírem diretamente no preços, por serem quase todos os produtos importados. “Não há grandes novidades nesse campo”, comenta Eduardo Rodrigues, diretor da Eskisa, representante no Brasil há 40 anos da Warner Jenkinson, líder mundial no segmento de sintéticos artificiais. Pela legislação local, sintéticos são os corantes obtidos por síntese orgânica, enquanto artificiais se referem a itens não encontrados em produtos naturais.

Falta ao País uma regulamentação específica para corantes alimentícios. “A norma segue a Farmacopéia nacional, que admite alguns corante já proibidos para uso alimentício nos Estados Unidos”, disse Rodrigues.

Para ele, cosméticos, remédios e alimentos exigem regras diferenciadas. “A Resolução nº 44, de 1997, revisada em 1978, da CNNPA

[Comissão de Normas e Padrões para Alimentos, do Ministério da Saúde] definia muito bem os produtos proibidos e os permitidos, por isso a aprovação de uso era rápida”, afirmou.

As normas atuais instituem processo demorado de aprovação. Ele salientou que a Eskisa mantém linha de corantes aprovados pelo FDA americano, além de insumos farmacêuticos em geral, especialidades minerais e pectinas.

Química e Derivados: CorantesNo sistema antigo, havia praticamente quatro amarelos, dois vermelhos e dois azuis permitidos, cabendo ao cliente fazer as misturas para obter as cores desejadas. “Seria melhor liberar o fornecedor de corantes para fazer as misturas”, afirmou Alessandro Cesana, também diretor da Eskisa. Hoje o número de opções é bem maior, pois é possível usar todos os artigos relacionados na Farmacopéia Brasileira.

Ao mesmo tempo, as linhas de corantes naturais estão perdendo terreno para os artificias e sintéticos. “Sou entusiasta dos naturais, principalmente do carmim e do beta-caroteno, que suportam bem a luz”, disse Rodrigues. Os naturais sofrem com a variabilidade dos teores de ingredientes ativos nas plantas das quais são extraídos.

O maior mercado da Eskisa consiste nos produtos alimentícios, em especial dos doces e confeitos, que desbancaram a fabricação de bebidas, apensar da febre das tubaínas que assola o País. “Nos refrigerantes, o a venda de corantes está mais próxima dos fornecedores de essências e das indústrias fornecedoras de xaropes para diluição”, explicou Cesana. A Eskisa também vende equipamentos italianos da Alberto Bertuzzi, para fabricacão de sucos naturais, e da Marzocchi, para enchimentos de ampolas.

No campo farmacêutico, altamente especializado, a tecnologia de aplicação exige conhecimento especializado. “Às vezes a má aplicação gera defeitos atribuídos, erradamente, a algum problema do corante”, disse Rodrigues. Cada apresentação de medicamento pede produto específico. Comprimidos muitas vezes devem ser laqueados e depois tingidos, com corantes especiais. “Do contrário o corante vai penetrar na massa, sem dar o efeito desejado”, informou. Atualmente, ele verifica elevada rotatividade de pessoal técnico na indústria farmacêutica, exigindo que os fornecedores de insumos ofereçam suporte para seleção e aplicação.

No campo internacional, os diretores identificam o surgimento de concorrentes indianos, com potencial de venda ampliado pelo crescimento da produção de medicamentos genéricos no Brasil. “Eles têm preços baixos, mas a qualidade é insatisfatória”, disse Rodrigues. Os tradicionais concorrentes japoneses mantêm a boa qualidade, mas seus preços são altos, não justificando a substituição.

Um Comentário

  1. Em 2001,eu era operador especializado da empresa Dystar em Jacareí SP.Conhecia tudo sobre corantes,cores,e secagem final(spray).Ainda me lembro bem do anúncio do fechamento da unidade que me deixou muito abalado.Com certeza nunca vou esquecer a empresa,mas já superei a perda.Um abraço a todos que fazem parte das unidades espalhadas pelo Brasil.

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