Congresso – ABQ promove reunião do setor em Porto Alegre

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) quer ampliar a adoção das práticas de atuação responsável para todas as indústrias do setor no país, independentemente de filiação ou não à entidade.

Atualmente, apenas os associados participam do programa, que visa a minimizar o impacto ambiental da atividade química.

A informação foi dada por Marcelo Kós da Silva Campos, consultor técnico da Abiquim, durante palestra no 49º Congresso Brasileiro de Química, realizado pela Associação Brasileira de Química (ABQ) de 4 a 8 de outubro, em Porto Alegre-RS.

O tema central do evento foi “A Química e a sustentabilidade”.

Iniciado no Canadá, em 1985, e depois introduzido nos EUA, na Inglaterra, na Austrália e também no Brasil, o programa visa à melhoria efetiva das empresas participantes e contempla publicações anuais que trazem informações sobre o desempenho em quesitos como segurança e meio ambiente.

Os documentos incluem ainda os relatórios produzidos desde 2001 sobre volume de efluentes tratados, emissão de dióxido de carbono, acidentes no transporte rodoviário, parâmetros de saúde ocupacional e substituição de processos obsoletos por tecnologias de produção mais limpa e de eficiência energética. Segundo Campos, a atuação social também é compartilhada obrigatoriamente pelos associados da Abiquim.

Química e Derivados, Marcelo Kós da Silva Campos, Consultor técnico da Abiquim, Química
Marcelo Kós da Silva Campos: Atuação Responsável deve ir além dos sócios da Abiquim

Entretanto, esses são apenas duzentos para um universo setorial estimado em mais de cinco mil companhias, muitas das quais nunca passaram na frente da sede da entidade. Para o técnico, a indústria química deve ser referência em desenvolvimento sustentável. Ele lembrou que a preocupação com a evolução da segurança química remonta 60 anos atrás, quando foram iniciados os primeiros debates sobre o tema.

Por conta do despertar sobre a necessidade de corrigir o rumo ambiental dos processos, surgiram os marcos regulatórios em 1972, ano da primeira conferência mundial do meio ambiente. O segundo marco foi a ECO 92 no Rio de Janeiro, de onde saiu a Agenda 21. Em 2003, foi aprovado o sistema europeu Reach, que estará totalmente em vigor até o final de 2011.

A preocupação crescente diz respeito à poluição e segurança dos produtos. A meta para 2020 é praticamente zerar o impacto ambiental da indústria química mundial. De acordo com Campos, é dever do conjunto da indústria química discutir e garantir a segurança química dos produtos, o que passa pelo desenho do mapa da atuação responsável no país e da construção de um banco de dados com o ciclo de vida das substâncias, antes e depois do processo.

Para tanto, as auditorias precisam ser feitas no conjunto da indústria. Na Abiquim, essas medições já são corriqueiras desde 1988, e obrigatoriamente feitas por auditores externos desde 2005. Como forma de fazer cumprir as normas da atuação responsável, mesmo por parte de quem não faz parte de seus quadros, a Abiquim planeja lançar um manual simplificado de normas e procedimentos. O importante é fazer com que toda a cadeia química do país entenda e atenda à legislação ambiental mesmo dentro das suas limitações.

Como salienta Campos, a atuação responsável basicamente consiste em promover o monitoramento e a avaliação do processo, levantar indicadores de desempenho e suprir de informações as auditorias externas de agências ou organismos oficiais, assim como implantar e importar os elementos norteadores, os quais estão descritos em documentações internacionais e nacionais. Assim, qualquer empresa com vontade política poderá incorporar a cultura da segurança química com atuação responsável.

Os principais atributos apregoados pela Abiquim se relacionam com a proteção à saúde dos operadores e dos usuários dos produtos, qualidade de processos e de produtos e respeito ao meio ambiente. A entidade oferece documentos com 62 diretrizes revisadas entre 2003 e 2006 com base nas normas ISO, códigos ambientais e legais, critérios já consagrados na literatura.

Programas de apoio – Há recursos disponíveis para a atualização do setor. Durante o congresso da ABQ o presidente da Associação Gaúcha de Empresas de Tecnologia e Inovação (Ageti), Tarso Ledur Kist, salientou que existem diversos programas do governo federal relacionados com o desenvolvimento de bioinseticidas para controle de insetos-praga, transmissores de doenças (dengue, malária, febre amarela), processos biotecnológicos para cadeia de produtos agropecuários, dispositivos diagnósticos, prognósticos e ferramentas terapêuticas para doenças negligenciadas e de tratamento do câncer.

Há também programas para desenvolver novas moléculas com alto potencial no campo sanitário, produtos de uso em procedimentos de medicina humana, equipamentos de hemodiálise, aparelhos auditivos, radiologia digital, avaliação da qualidade de imagens médicas, segurança e desempenho de equipamentos eletromédicos, telemedicina e telessaúde, entre outros.

O financiamento contempla áreas como despesas de custeio, pagamento de pessoal próprio,  contratação de consultorias especializadas de pessoa física ou jurídica, material de consumo e aluguéis de equipamentos. Investimentos de capital não são financiados com subvenção, assim como despesas com universidades. A verba é de R$ 450 milhões a ser utilizada em três anos.

O valor mínimo solicitado à Finep por projeto é de R$ 1 milhão. No mínimo, 40% dos recursos serão destinados para micro e pequenas empresas com receita bruta até R$ 10,5 milhões e 30% para empresas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O prazo de execução do projeto é de até três anos.

As linhas dos programas dizem respeito ainda a materiais emissores de elétrons, de materiais de alta densidade energética e de processos industriais para a fabricação de peças e sistemas estruturais com materiais compósitos, semicompósitos e cerâmicas, desenvolvimento de tecnologias e artefatos de detecção de ondas eletromagnéticas, monitoramento, controle, interceptação e bloqueio de comunicações e imagens.

Nas regiões mais remotas do país, o governo vê como prioridade o desenvolvimento de tecnologias para facilitar a atividade laboral de pessoas portadoras de deficiência física, produtos e processos para transformação de vinhoto e aproveitamento da palha da cana na cadeia do etanol, equipamentos de extração de óleos de palmáceas e pinhão manso para a produção de biodiesel em pequena escala.

Nanotecnobiologia – Dentre as diversas palestras do 49º Congresso Brasileiro de Química de Porto Alegre, uma das mais concorridas foi a explanação do professor de nanotecnobiologia Nelson Durán, da Universidade de Campinas (Unicamp). Ele detalhou os aspectos, econômicos, científicos e tecnológicos das pesquisas com estruturas nano. Abordou ainda os possíveis impactos futuros da nanotecnologia na sociedade e as aplicações em curso.

Química e Derivados, Nelson Durán, Professor de nanotecnobiologia da Unicamp, Química
Nelson Durán: nanotecnologia abre novas possibilidades, mas tem seus riscos

Conforme Durán, a nanotecnologia se move num padrão comum industrial de ciclo de vinte anos entre a pesquisa e o começo da escala industrial, pois saiu dos laboratórios nos anos 80 e agora se consolida como alternativa para o mercado. “Quem achava que era uma palavra da moda se enganou redondamente”, assegura Durán.

Os produtos da atualidade são as fibras têxteis, as emulsões cosméticas, os novos materiais aplicados em equipamentos esportivos, produtos químicos de manutenção automotiva e produtos de limpeza. Verifica-se ainda uma grande evolução no campo dos fármacos de última geração. Durán dividiu a nanotecnologia em três categorias: saúde e ciências da vida; eletrônica e tecnologia da informação; e materiais de manufatura e industriais. Uma das características da nanobiotecnologia é a multidisciplinaridade. Reúne os conhecimentos da Medicina, da Química, da Biologia, da Física, da Computação e da Engenharia.

Como produtos consolidados no mercado, Durán cita os nanocosméticos empregados para proteger melhor ativos lábeis, tais como vitaminas, aumentar a permeação dos ativos até o sítio de ação, minimizar ou reduzir a absorção sistêmica de ativos, melhorar o poder de ação do protetor solar e maximizar a hidratação da pele. Outras aplicações do momento ocorrem na fabricação de cremes contra o envelhecimento, na melhoria da estabilidade química dos fármacos, e na manutenção do efeito sobre o alvo, solubiliza ativos lipofílicos, minimiza efeitos colaterais, reduz toxicidade, diminui o número de doses e o volume por aplicação.

Os nanofármacos podem ser administrados por via oral, parenteral rota dérmica. Lipossomas são formados por fosfolipídios. São as nanoestruturas mais empregadas em cosméticos. As nanopartículas lipídicas constituem a tecnologia de ponta da nanotecnologia por serem consideradas as mais seguras pela FDA. São de fácil escalonamento, mantêm liberação sustentada do ativo e atuam como oclusivos. As nanopartículas lipídicas sólidas aumentam a hidratação da pele em 32%, contra 24% dos produtos convencionais.

Os métodos de preparação ocorrem por microemulsão a quente, emulsificação ou evaporação do solvente, difusão de solvente, secagem por aspersão, homogeneização à alta pressão. Podem ser empregadas em filtros solares e em medicamentos como a rifampicina, indicada para tratar a tuberculose. Já as nanopartículas metálicas têm como método de preparação químico a óxidoredução, mas apresentam problemas na dispersão final, na estabilização das partículas e larga faixa de diâmetro das partículas. Há um método biológico alternativo por meio do fungo Fusarium oxysporum.

As nanopartículas de prata têm efeito antibacteriano. Podem ser aplicadas em roupas cirúrgicas e em roupas de uso comum como meias e camisetas como forma de subtrair odores de transpiração e evitar infecções cutâneas advindas de micro-organismos presentes no ambiente. Também denominada silvernano, vem sendo empregada ainda em fi ltros de refrigeradores de ar, em refrigeradores e lavadoras de roupa, e materiais para ferimentos, tais como curativos prontos, xampu e pasta de dente.

De acordo com o estudo “Nanotecnologia” (2007), coordenado pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, nos próximos quinze anos, o Brasil responderá por 1% do mercado nanotecnológico mundial, estimado em 1 trilhão de dólares. A nanotecnologia movimentará 10 bilhões de dólares no Brasil em 2015.

Os tratamentos com a tecnologia de ponta da nanociência ainda são caros. Um fármaco da Roche Farma Brasil em dosagem de 25 miligramas custa R$ 5.829,48. É usado no tratamento do câncer de cólon com custo total mensal de R$ 117 mil por mês. Outro remédio é o imunossupressor Rapamune, cujo tratamento completo não sai por menos de R$ 200 mil ao longo de dois meses.

O professor Durán advertiu que nem tudo são flores no desenvolvimento da nanotecnologia. Os impactos ambientais e de saúde pública ainda são desconhecidos, mas certamente implicam riscos de contaminação em operações de laboratório e na indústria, por meio de inalação de nanopartículas que podem gerar danos aos pulmões.

Nanopartículas também podem permear a pele e atingir a corrente sanguínea, caminhando pelo corpo e podendo atingir o cérebro. É o caso de algumas nanoemulsões empregadas em filtros solares ricas em titânio, as quais podem ocasionar doenças irreversíveis, pois partículas menores que 300 nanômetros podem atingir o sistema linfático e entrar na corrente sanguínea.

Créditos de carbono – O avanço da China no mercado de mecanismos de desenvolvimento limpo foi outro trema debatido em Porto Alegre. Na palestra “Impacto internacional do mercado de carbono, situação atual e perspectivas”, o professor Jaime Afonso Ibañez, pesquisador da Espanha, afirmou: “A China já detém 75% do mercado mundial de créditos de carbono.”

Um dos países mais poluidores do mundo surpreendentemente é agora o campeão mundial em venda de papéis relacionados com tecnologias limpas. Segundo Ibañez, os chineses expandiram em progressão geométrica os parques de energia eólica e passaram a converter todas as minas de carvão do país em usinas termelétricas, pois transformam o gás metano proveniente da extração do carvão em fonte de energia para mover turbinas de geração.

Química e Derivado, Jaime Afonso Ibañez, Professor e pesquisador da Espanha, Química
Jaime Afonso Ibañez: China investe pesado para obter mais créditos de carbono

Em 2008, dos US$ 30 bilhões comercializados em crédito de carbono no mundo, US$ 25 bilhões foram captados pela China. Os maiores compradores continuam sendo o Japão, a União Europeia e com adesão gradativa da Austrália, Nova Zelândia e EUA. A América Latina começou com força, mas arrefeceu. O novo quadro será definido a partir de 2012, com a possível adesão dos norte-americanos ao protocolo de Kioto.

Oitocentas inscrições – O congresso reuniu 800 participantes, abrangendo debates, palestras, cursos, exposição de pôsteres e mesas-redondas. Em documento lido pelo novo presidente da entidade, Antônio Carlos Magalhães, ficou claro que os representantes dos químicos, engenheiros químicos e bioquímicos farmacêuticos querem ser ouvidos em temas como políticas de sustentabilidade e gerenciamento de resíduos químicos empregados em laboratórios.

A ABQ quer influenciar ainda o debate sobre tecnologia de inovação, criação de programas de incentivo para a química verde, ou ambientalmente amigável. Pretende ser ouvida ainda sobre as questões pertinentes ao marco regulatório da exploração do petróleo na camada de pré-sal e exige que a operação de estações de tratamento de água seja realizada por profissionais habilitados nos Conselhos Regionais de Química ou no Crea, para habilitação de engenheiro químico. Outro tema que pautou o congresso foi a preparação do Ano Internacional da Química previsto para 2011, marcando o 100º aniversário da instituição do Prêmio Nobel de Química, evento do qual a ABQ quer ter participação ativa.

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