Química

Água – Companhias de saneamento deixam sem controle os cancerígenos trihalometanos

Marcelo Furtado
24 de maio de 2010
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    Consumo e custo dos produtos químicos nas ETAS da Sanasa*

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    * Inclui as cinco estações da Sanasa em Campinas-SP

    E é nesse momento que se torna mais fácil compreender como a Sabesp norteia suas compras de coagulantes, um dos produtos mais utilizados no saneamento, junto com o cloro. Em 2009, por exemplo, o coagulante inorgânico mais empregado, o sulfato de alumínio, vinha de uma grande escalada de preços por causa da alta do ácido sulfúrico (que reage com a alumina para fazer o coagulante). A alternativa foi recorrer ao policloreto de alumínio, que está com oferta competitiva em várias unidades locais e se tornou o grande coagulante no momento. “Nossas estações estão prontas para operar com qualquer coagulante, desde que tenham o menor custo por metro cúbico de água tratada”, explicou o superintendente.

    Consumo e custo dos produtos químicos pela Sabesp

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    * Armazenamento em caminhões-tanque de fornecedores

    Essas variações de fornecedores e tipos de produtos são uma constante para a Sabesp. Foi o que ocorreu, por exemplo, recentemente com o coagulante sulfato férrico, fornecido pela Kemira, que contava com unidade produtiva em Camaçari, cuja rota química era baseada no resíduo (sulfato ferroso) da produção de dióxido de titânio da Millennium. Quando essa planta foi vendida para o grupo indiano Crystal, o resíduo deixou de ser fornecido e a unidade passou a depender de matéria-prima virgem, o que encareceu o coagulante. “Não aceitamos o novo preço e partimos para outras alternativas”, revelou. Daí se explica o maior consumo em 2009, em comparação com o ano anterior, de cloreto férrico (21 mil t/a contra 10 mil t), em detrimento do sulfato férrico, cujo consumo despencou de 39 mil t em 2008 para 13,9 mil t em 2009. Para tentar minimizar essas quedas e o aumento de preço do coagulante, segundo Mendes, a Sabesp chegou até a incentivar a qualificação de um novo fornecedor do sulfato férrico, a Indústrias Químicas Cubatão (IQC). “Gostamos de desenvolver e qualificar novos fornecedores, o que estamos fazendo no momento também com o cloreto férrico em uma empresa de Pindamonhangaba-SP (Vitta)”, disse.

    Química e Derivados, Fred Schuurman, Vice-presidente da Kemira, Água - Companhias de saneamento deixam sem controle os cancerígenos trihalometanos

    Schuurman oferece tecnologia sem algicida para limpar lagos

    A diversificação de fornecedores para a Sabesp se justifica pelas grandezas das suas compras. Mas em alguns casos ela não é possível. O maior exemplo é o cloro, consumido no volume anual de 14 mil t em 2009. Trata-se de fornecimento exclusivo da Carbocloro, de Cubatão-SP. “É a única empresa na região que fornece cloro para saneamento, as demais direcionam toda a produção para plástico (PVC e PU)”, disse. A Sabesp até já tentou desenvolver a compra de cloro da Canexus, unidade situada dentro da Aracruz Celulose, no Espírito Santo. “Mas a distância de 1.000 km encareceria muito o frete”, disse. Mesmo assim, apesar da dependência, a Sabesp consegue negociar um bom preço com a Carbocloro, segundo Mendes. “Compramos direto deles e em grande escala”, completou.

    A questão preço também foi fundamental para a Sanasa, de Campinas, hoje considerar o PAC o seu principal coagulante empregado em suas cinco estações de tratamento de água em uma média de 520 t/mês. “Ele caiu pela metade o preço e, por ser um polímero, seu consumo é até 50% menor do que os sais de ferro, gerando também 50% menos lodo”, explicou o coordenador Sidnei Lima Siqueira. Hoje apenas em situações pontuais a Sanasa emprega o cloreto férrico, quando tem proliferação de algas por causa do sol forte, normalmente entre março e maio ou setembro e outubro. Isso porque com o cloreto férrico é possível alterar o pH para 9 (o PAC opera entre 6 e 8), o que provoca o lise celular da alga, formando um floco maior na coagulação.

    Proativos – Ao se deparar com a política de custos dos clientes públicos, o trabalho proativo dos fornecedores, principalmente aqueles que contam com portfólio extenso de tecnologias, precisa ser paciente. É o que ocorre com a finlandesa Kemira, que tenta nacionalizar vários sistemas no Brasil – utilizando seu crescente market share – atendidos por unidades produtivas espalhadas nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. De acordo com o vice-presidente Fred Schuurman, a atual cartada é procurar convencer as companhias a adotar um programa da Kemira de recuperação de lagos e represas com base em coagulantes e em tecnologia de aplicação.

    “O sistema é uma tecnologia limpa, com vários casos de sucesso na Europa e Estados Unidos, que utiliza programa de GPS para aplicar as dosagens em locais corretos e manter os corpos d’água livres dos processos de eutrofização”, explicou. Segundo ele, a metodologia significaria um passo muito importante para regiões metropolitanas urbanas, como São Paulo, dependentes de represas bastante poluídas. “A primeira etapa é deixar de mandar esgoto in natura, depois o ideal é entrar com um programa de recuperação”, completou o diretor de marketing, Wanderley Ferreira.

    Iniciativas ecologicamente mais cor­retas para recuperação de represas realmente precisariam ser consideradas no Brasil. De modo específico em São Paulo, ainda é comum se utilizar o algicida sulfato de cobre para coibir os efeitos do excesso de nutrientes em represas como a de Guarapiranga – em 2008 a Sabesp consumiu 639 kg e 476 kg em 2009 do produto, gastando R$ 4,9 milhões e R$ 3,3 milhões respectivamente. Trata-se de expediente que, além de ser proibido pela portaria 518 do Ministério da Saúde – a qual veda o uso de algicidas em mananciais para o controle do crescimento das cianobactérias –, já foi abandonado nos países desenvolvidos há mais de trinta anos, pelo menos, por causa da sua toxicidade a peixes, plantas e ao ser humano (principalmente ao sangue, rins e fígado).



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