Química

Comércio se esforça para compensar saltos do dólar

Marcelo Fairbanks
4 de maio de 2001
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    Química e Derivados: Comércio: Abreu - Bandeirante chega aos 50 anos com plano de expansão.

    Abreu – Bandeirante chega aos 50 anos com plano de expansão.

    “O impacto do câmbio sobre o comércio é bem maior que a falta de eletricidade”, avaliou Abrantes, da ICQ. A empresa está transferindo para os preços de venda dos produtos importados a variação cambial, pela taxa do dia. “O risco de sobrevalorização ou desvalorização entre ofaturamento e o pagamento faz parte do negócio, mas pode comprometer a margem de lucro”, informou. Desde exercícios passados, a ICQ procurou reduzir os prazos de recebimento, operando atualmente na faixa de 27 a 32 dias.

    Rubens Medrano, da Associquim/Sincoquim, ressalta a importância de conter a cotação do dólar. “As estatísticas oficiais e as da Abiquim mostram que o setor químico nacional é fortemente importador, com déficit comercial da ordem de US$ 6,5 bilhões por ano”, informou.

    Como conseqüência óbvia da crise cambial, desde 1999 os distribuidores voltaram a preferir acordos com fabricantes locais, ainda que estes também orientem seus preços pelas cotações internacionais. O problema está no baixo volume de investimentos da indústria química, cuja capacidade instalada apresenta índice de ocupação quase total, incapaz de ampliar o suprimento.

    “Por atuarmos com especialidades sem substituto local, repassamos toda a variação cambial, não há outro jeito”, disse Carlos Abreu, da Bandeirante. Mesmo nas linhas de solventes orgânicos, feitas em parte no Brasil, houve aumento de custos, como aconteceu com todos os derivados de petróleo. “A nafta, por exemplo, está sendo reajustada quase todos os meses, como em junho, quando foi majorada em 10%”, comentou.

    Cardápio novo – Cada empresa de comércio de produtos químicos define sua linha de produtos de acordo com a proposta de trabalho e com os objetivos estratégicos que alimenta. Esse mix de produtos varia segundo as circunstâncias de mercado, aumentando ou diminuindo o peso relativo dos itens importados e o balanço entre commodities e especialidades químicas. A adequação do mix à demanda é um dos fatores que determina a lucratividade das empresas.

    A desvalorização do real, de 1999 para cá, tornou mais atraente contar com número maior de itens de fabricação local. Isso é verdade, pelo menos nas commodities, vendidas com preços e margens reduzidas, nas quais o ganho se deve ao alto volume de operação. “O similar nacional acaba sendo preferido”, confirmou Rubens Medrano. Como não conseguiu repassar a variação cambial, dada a elevada competitividade do mercado nacional, o setor comercial deixou de importar. Com isso, se espera um novo período de escassez de alguns itens, proporcionando a elevação de preços a um patamar que volte a estimular as importações. “É um movimento cíclico, mas é preciso ter muita cautela para evitar prejuízos”, considerou. Para Medrano, o setor comercial está maduro, tendo superado vários períodos difíceis nas últimas décadas. Por isso, os empresários evitam apostar alto nas flutuações de mercado. “Ainda há alguns oportunistas, mas, em geral, o setor busca estabilidade.”

    Química e Derivados: Comércio: Atias abre novos mercados na área de especialidades químicas.

    Atias abre novos mercados na área de especialidades químicas.

    A garantia (hedge) natural da atividade comercial seriam os estoques de mercadorias, quase um anátema no setor. “Na atual situação brasileira, com as taxas de juros elevadas, os estoques já tinham sido reduzidos ao mínimo”, explicou o dirigente setorial.

    “Não é fácil substituir produtos e manter a qualidade do fornecimento, principalmente nas especialidades”, considerou Eugen Atias. O câmbio já mexeu no mix de produtos da empresa, hoje variando de 60% a 50% com produtos importados.

    Analisando séries históricas de preços internacionais, o empresário salienta que, em moeda forte, os preços dos produtos químicos estão em baixa, mesmo no caso das especialidades. “Os mercados europeu e americano estão estagnados e a China não cresceu no ritmo que era esperado”, explicou. O problema local é a desvalorização da moeda e a dificuldade de transferir essa variação para o preço final.

    Ante o quadro de elevada competitividade, a Atias Mihael já fez há alguns anos a opção pelas especialidades farmacêuticas e alimentícias. “Já tem muita gente qualificada e estruturada para atuar nas commodities”, avaliou Atias. A empresa acertou recente acordo de distribuição e representação comercial com a israelense Frutarom, que fabrica aromas e matérias-primas para aromas.

    “Vamos atuar na abertura de novos mercados e como prestadores de suporte logístico para as operações da Frutarom do Brasil, que continuará a atender seus clientes habituais”, explicou Atias.

    Ao mesmo tempo, a empresa investe junto com outros sócios na Globe Química, empresa farmoquímica que comprou fábrica da Sanofi na cidade paulista de Cosmópolis, negócio realizado no final do ano passado (Ver seção “Posto de Escuta” na pág. 10 desta edição). “Trata-se de unidade multipropósito que fabricará remédios, cosméticos e itens de química fina para terceiros, sob encomenda (tolling)”, afirmou. Constitui negócio independente, mas com sinergia possível com a empresa comercial, já que as indústrias preferem hoje contratar serviços a montar novas linhas de fabricação, embora sejam cada vez mais exigentes em qualidade e preço. Em muitos casos, a terceirização abrange até o fornecimento de matérias-primas, gerando sinergia com distribuidores especializados.

    Do ponto de vista da empresa comercial, Atias considera que o mix deve ser o mais abrangente possível dentro da área de atuação. “Os departamentos de compras dos clientes foram enxugados e o número de fornecedores, reduzido”, verificou.

    A variação cambial influenciou pouco a composição do mix da Agroquímica Maringá. “Não adianta trocar o importado por um nacional vendido por vários concorrentes e com preço dolarizado”, explicou Jacques Mosseri. A principal mudança consiste no incremento das vendas de especialidades químicas, em detrimento das commodities. “Até 1989 vender commodities dava um bom lucro, depois disso só perdeu rentabilidade”, disse. “Porém, vender especialidades exige esforço de venda muito maior.”



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