Química

Comércio se esforça para compensar saltos do dólar

Marcelo Fairbanks
4 de maio de 2001
    -(reset)+

    Também a Ipiranga Comercial Química (ICQ), maior distribuidora de produtos químicos do Brasil, cumprirá a meta de economia de energia, por meio de otimização de operações, exceto nos casos que afetem o quesito segurança. “O maior consumo está ligado à iluminação, portanto restringimos a operação noturna nas bases”, explicou o diretor de marketing Fernando Rafael Abrantes. A sede administrativa, em São Paulo, conta com gerador próprio, utilidade que está sendo providenciada para todas as bases. “Algumas delas já contam com geração elétrica de outras operações do grupo Ipiranga”, mencionou.

    A ICQ pesquisou junto aos principais fornecedores e clientes os efeitos esperados da crise energética na oferta e demanda de produtos químicos. “Os grandes e médios fornecedores e clientes já equacionaram o problema e devem superar essa fase sem grandes dificuldades”, comentou Abrantes. Já os clientes de menor porte, em especial os pequenos transformadores de resinas plásticas, poderão apresentar problemas sérios.

    Química e Derivados: Comércio: Medrano - importação se tornou operação de alto risco.

    Medrano – importação se tornou operação de alto risco.

    “Nós temos gerador próprio, mas nem todos os clientes estão preparados para reduzir o consumo de energia sem cortar a produção”, teme o diretor de negócios da Bandeirante Química, Carlos Fernando de Abreu. Os pequenos e médios clientes adotaram práticas, como eliminação de um turno, que redundam em redução no consumo de insumos químicos. No campo dos produtos eletroeletrônicos a redução de demanda é grande. Nesse caso, o impacto se estende por outros setores, por exemplo, na indústria gráfica, que deixa de imprimir embalagens e manuais de operação.

    Até os portais eletrônicos de negócios se previnem quanto a eventuais cortes de fornecimento de eletricidade. “Nosso sistema está hospedado na IBM, que conta com geradores e sistemas de no-break capazes de suportar o funcionamento pleno por até 30 dias, independente do fornecimento da rede elétrica”, comentou o diretor comercial do setor químico do Webb – Negócios On Line.

    Apagão cambial – Além da crise de eletricidade, Rubens Medrano salienta que a oferta de alguns itens também sofrerá restrições por causa da variação cambial. “A volatilidade elevada das cotações torna a importação uma operação de alto risco”, mencionou. Como exemplo, citou uma venda, em meados de abril, de produtos importados, faturada para 30 dias. Da data do pedido, que fixou o preço em reais pelo câmbio do dia, até o pagamento da fatura, o dólar pulou da faixa de R$ 2,10 para R$ 2,40. “Essa venda representou um prejuízo de quase 20%”, afirmou, salientando que as margens do setor não são suficientes para absorver essa variação. “É difícil suportar uma variação de 20% em prazo tão curto”, comentou Eugen Atias, sócio-gerente da Atias Mihael, tradicional importadora de especialidades químicas.

    Há várias formas de realizar operações de importação. Em cenário relativamente tranqüilo, como estava o Brasil no final do ano passado, tornou-se hábito usar as linhas de financiamento do vendedor internacional, que permitem prazos de pagamento de 180 dias, com juros baixos. “Depois da disparada do dólar, estamos pedindo mais prazo para esses fornecedores, que estão concordando, sem maiores dificuldades”, informou. A ampliação de prazo já foi feita antes, na crise cambial de 1999.

    Atias ressaltou que o grande problema está na diferença de cotação do dólar entre a data de venda e a do pagamento da fatura. “O ideal seria vender pelo dólar do dia do pagamento, mas isso é inviável”, disse. Com alguns poucos clientes ele conseguiu um acordo de ajuste de preços para compensar a variação cambial. “Alguém dentro da cadeia de produção precisa absorver a variação do dólar, porque se houver repasse para os preços voltaremos a ter inflação, o que ninguém deseja.”

    A disparada das cotações do dólar é considerada descabida pelo empresário. “O mercado trabalhava com a expectativa de o dólar chegar a R$ 2,50 só em dezembro”, explicou Atias. Em junho, a intervenção do Banco Central fez retroceder as cotações da moeda americana para a faixa de R$ 2,30, ainda elevada. Desde o ano passado, as cotações do dólar prejudicaram o desempenho da importação de produtos químicos. “As margens de lucro com produtos importados já foram reduzidas em 2000”, explicou Atias. Para 2001, a expectativa inicial era de recuperação, alcançada nos primeiros meses do ano. Infelizmente, a variação cambial somada à crise de eletricidade e à instabilidade política nacional turvaram o horizonte de negócios. “Há muita incerteza quanto ao futuro do País e isso inibe investimentos, derrubando o consumo e a produção de artigos químicos”, ponderou.

    Algumas empresas de comércio químico, como a Maringá e a Morais de Castro, adotaram como regra o pagamento imediato das importações, sem recorrer aos financiamentos internacionais. “Não me agrada correr o risco da desvalorização cambial”, comentou Eduardo Castro, diretor da soteropolitana Morais de Castro, empresa com mais de 40 anos de atuação. “Já perdemos dinheiro no passado por causa dessa variação.” Além do pagamento à vista, a Morais de Castro também limitou a participação de itens importados a menos de 10% do seu faturamento.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *