Cloro e Álcalis: Indústria investe no aumento da produção

O nó foi desatado. A produção de cloro e soda voltou a crescer depois de passar uma década, praticamente, estagnada. Pelo segundo ano consecutivo, o setor avançou, sinalizando fôlego para operar com patamares positivos e, assim, consolidar a sua retomada. As apostas são no Novo Marco Legal do Saneamento.

As medidas propostas por essa lei tendem a ser um importante propulsor da demanda, por conta dos investimentos necessários na distribuição de água e de serviços de saneamento que precisarão de tubos e conexões de policloreto de vinila (PVC). Além disso, a indústria de cloro-álcalis tem pensado, cada vez mais, na sustentabilidade e desenvolvido projetos voltados à redução de carbono e oferta de produtos verdes.

No ano passado, a produção de cloro atingiu 1.016 milhão de toneladas, o equivalente a 8,6% de crescimento em relação a 2021. A soda cáustica, por sua vez, teve alta de 8,9%, no mesmo período, totalizando 1.112,5 milhão de t. Esses índices positivos refletem a recuperação de alguns segmentos importantes para o setor, como o de alumínio e papel e celulose.

Até 2021, foram seis anos apresentando variação negativa. De modo geral, a produção de cloro e soda acompanha o desempenho da economia brasileira. Até por isso, o mercado não cresceu nos últimos anos. Vale lembrar que uma das características mais marcantes do setor dá conta da sua pluralidade, pois seus produtos são consumidos por segmentos muito diversificados: químico, saúde, alimentação, alumínio, petroquímica, papel e celulose entre outros.

Cloro e Álcalis: Indústria investe no aumento da produção ©QD Foto: Divulgação
Rego: ocupação das fábricas está crescendo desde 2021

“Estamos praticamente em todos os setores da indústria. Só o cloro está em mais da metade dos produtos químicos”, comenta Milton Rego, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Cloro Álcalis e Derivados – Abiclor.

Mas não foi só isso. Os cloros-álcalis também sofreram impacto da redução da produção, ocasionada pela parada de uma unidade da Braskem, em Alagoas, entre 2020 e 2021. Nesse período, no entanto, o mercado já apresentava sinais de recuperação e estava maior. O cloro encerrou 2021 totalizando 936,4 mil t (crescimento 23,5% sobre 2020), enquanto a soda cáustica somou 1.021,5 mil t, o equivalente a um avanço de 24,7%, em relação ao ano anterior.

Com esse desempenho, a ociosidade do setor sofreu uma queda. O nível de utilização da capacidade instalada do cloro passou de 65,9% para 72%, de 2021 para o ano passado. Segundo Rego, em 2023, esse número irá aumentar mais uma vez. “Ainda tem espaço para crescimento sem grandes investimentos. Mas, mesmo assim, as empresas estão investindo muito em função da expectativa do crescimento do mercado por conta do Marco do Saneamento”, afirma.

Cloro na cadeia na produção do PVC

Para os próximos anos, a mola propulsora do setor tende a ser o saneamento básico. O Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/20) tem sido apontado como um dos grandes responsáveis pela expansão do mercado. Anunciada no início deste ano, esta atualização da Lei nº 11.445/2007 tem a meta de promover a universalização do acesso da população brasileira ao saneamento básico no prazo de dez anos (com possibilidade de extensão por mais sete). Ou seja, 99% da população deverá ter acesso à rede de água tratada e 90%, à coleta e ao tratamento de esgoto, até 2033 (ou 2040). A saber: no país, hoje, 44% das pessoas não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto e algo em torno de 15% não recebem água tratada.

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Kerzner: produção regional de cloro reduz emissões de CO2

“O Novo Marco do Saneamento, sem dúvida, dará estímulo ao crescimento do mercado, que se dará, no nosso caso, a partir do aumento dos volumes de água e esgoto tratados no país”, afirma Alfredo Kerzner, CEO da Chlorum Solutions.

O cloro é o grande elo da cadeia na produção do PVC e sua fabricação será fortemente impactada pela procura por tubos e conexões feitos com essa resina. Além disso, o cloro e a soda cáustica são produtos e matérias-primas de vários insumos químicos utilizados no tratamento de água e esgoto.

Ambos são produzidos simultaneamente pela eletrólise do sal de cloreto de sódio obtido das minas de sal-gema. Da reação entre o cloro e o eteno, é gerado o dicloroetano (DCE), intermediário para a produção do monômero de cloreto de vinila (MVC) para posterior polimerização que resulta no PVC.

Novas plantas para favorecer o transporte do cloro e de outros produtos químicos

O aporte financeiro destinado a projetos de saneamento básico tem revelado um novo modelo de operação das companhias. Cada vez mais, são anunciados investimentos em unidades de pequena capacidade para atender às demandas de áreas mais afastadas dos grandes centros produtivos. O conceito também embute um forte apelo ecológico. “Estar junto aos clientes significa reduzir transporte, diminuindo, assim, a emissão de gases poluentes, como o CO2”, comenta Kerzner. Segundo ele, hoje, é imperativo que a indústria química reduza a geração de gases geradores do efeito estufa (GEE). “Ao longo do tempo, o valor maior será dado às empresas que realmente tenham uma preocupação com mudanças climáticas e ações sociais onde atuam”, reforça.

A Chlorum Solutions inaugurou fábrica em São Sebastião do Passé-BA, justamente, a fim de se aproximar das empresas de saneamento básico. A companhia atua com um modelo de plantas regionais, cuja proposta é favorecer a logística, reduzir os custos e minimizar a questão de riscos no transporte de produtos químicos com relação ao consumo do cloro-álcalis no saneamento. Um exemplo disso é a planta da Alliance Química (grupo Chlorum) em Pacatuba-CE, localizada dentro das instalações da Cagece (ETA Gavião) e, desde 2014, injeta cloro diretamente na água sem que este insumo seja comprimido e armazenado.

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Unidade de Pacatuba-CE trata água de 3 milhões de pessoas

Trata-se de um caso de sucesso no qual cloramos a água de aproximadamente 3 milhões de habitantes”, afirma Kerzner.

Nessa planta, utilizam-se as células de membranas. “É a melhor tecnologia disponível para a produção de cloro-álcalis no momento e tem sido o standard atual da indústria”, explica Kerzner. Ela tem a vantagem de apresentar maior eficiência energética e não usar metais pesados no processo produtivo, como acontecia na tecnologia de células com mercúrio. Além disso, permite maior facilidade para o reúso dos efluentes que a empresa gera.

A companhia possui unidades produtivas de cloro-álcalis operando no Maranhão, Ceará, Pernambuco, Bahia e no Uruguai, e também anuncia duas plantas em construção em Minas Gerais e Santa Catarina. A soda das plantas da Chlorum Solutions é vendida por aqui mesmo. “O Brasil é um importador de soda cáustica e com a produção de nossas unidades contribuímos, ainda que pequenos, para a redução da dependência externa brasileira”, diz Kerzner.

Impulsionada pelo Novo Marco Legal do Saneamento, a Unipar, maior produtora de cloro e soda e a segunda maior fabricante de PVC da América do Sul, anunciou investimentos de R$ 234 milhões em nova fábrica. A unidade, com capacidade para 20 mil t/ano de cloro e 22 mil t de soda cáustica, será erguida no Polo Petroquímico de Camaçari-BA e deve entrar em operação no segundo semestre de 2024.O objetivo é atender à demanda crescente por ácido clorídrico, hipoclorito de sódio e soda cáustica, em especial no Nordeste.

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Fábrica da Unipar em Cubatão-SP com grandes estoques de sal

A fábrica segue o projeto greenfield da estratégia de expansão geográfica da Unipar, cujo objetivo é crescer de forma sustentável através de novas unidades produtivas em regiões onde há expectativa de maior avanço do saneamento básico nos próximos anos. Segundo Rodrigo Cannaval, diretor-executivo da área industrial, da Unipar, a empresa busca oportunidades de crescimento em três verticais: expansão no negócio principal (cloro e derivados, soda cáustica e PVC) no Brasil e outras regiões; ampliação em negócios adjacentes ao core, e entrada em novos negócios na química básica e petroquímica.

Pela frente

Os investimentos, sem dúvida, movimentam o setor, positivamente. No entanto, apesar de reconhecer as benesses sinalizadas pelo Novo Marco do Saneamento, Kerzner não vislumbra só calmaria. Ele aponta a influência dos mercados internacionais. A soda cáustica é uma commodity precificada internacionalmente e passa por um momento de baixa. “O equilíbrio desses fatores é um desafio constante”, avalia.

Há ainda muitas dificuldades para superar. Milton do Rego, da Abiclor, explica que existe uma questão estrutural de competitividade, relacionada com o ecossistema no qual essa indústria opera. Nesse quesito, acrescenta-se o custo Brasil em toda a sua complexidade (ambiente macroeconômico, estrutura tributária, infraestrutura, custos de adequação, custos de capital e afins). “Vários são os desafios para o crescimento”, enfatiza.

Para entender o comportamento do setor, é preciso considerar o preço do gás natural e da nafta, insumos básicos da indústria química em geral. Como o segmento é fortemente integrado a outros setores (ele produz a matéria-prima de cerca de 50% dos produtos químicos), o baixo crescimento da indústria química limita a expansão da produção de cloro e soda.

O preço da matéria-prima para fazer o PVC é um empecilho de grande impacto. Segundo Airton Andrade, diretor-técnico da Abiclor, o eteno lá fora (nos Estados Unidos e China, principalmente) é muito mais barato do que o do Brasil. “O nosso produto não é competitivo e não dá para crescer muito no PVC”, argumenta. Rego acrescenta que este custo está atrelado à disponibilidade de matéria-prima. No país, o gás natural é caro, comparado com os Estados Unidos, assim como a nafta, em comparação com os preços cobrados na Europa, Estados Unidos e China, por exemplo. “Basicamente, todas as matérias-primas estruturantes da indústria química são caras por aqui”, afirma.

Como informou Henrique Sonja, gerente-comercial de cloro-soda da Braskem, o PVC é o segundo termoplástico mais consumido no mundo, com demanda global da ordem de 50 milhões de t/ano, das quais 2% correspondem ao consumo brasileiro. Da demanda total, a América do Norte (sobretudo os Estados Unidos) consome algo em torno de 15%, enquanto Ásia e Europa, 60% e 15%, respectivamente.

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Unidade de cloro/soda da Braskem localizada em Maceió-AL

O PVC ganhou relevância maior com a atualização do Marco Legal do Saneamento. Essa resina chega a ter 60% de participação nas obras de adução de água tratada no Brasil, podendo superar os 75% nas linhas de distribuição de água, bem como nas redes coletoras de esgoto. “Importante ressaltar que aproximadamente 80% do volume estimado de químicos demandados a partir do Marco Legal do Saneamento vem de tubos e conexões”, afirma Sonja.

Além disso, há a questão da reciclabilidade deste plástico. Segundo Sonja, passado seu período de utilização no saneamento básico, ou em caso de troca das tubulações, as resinas podem retornar à cadeia produtiva por meio de reciclagem, fechando o ciclo de consumo. E isso torna o PVC uma das opções mais sustentáveis e seguras ao meio ambiente.

Além disso, a Braskem busca alternativas para aprimorar a produção de DCE, mediante parceria firmada com a Chemetry, empresa norte-americana de tecnologia ambiental para o setor químico. O acordo resultou na instalação de uma unidade demonstração de produção de dicloroetano (DCE) e soda cáustica. Com investimento compartilhado de US$ 18 milhões, a nova unidade emprega a tecnologia eShuttle (da Chemetry), que permite produzir DCE de alta pureza, sem a gerar cloro gasoso. Sonja destaca entre os seus principais benefícios a diminuição significativa do consumo de energia elétrica e dos custos de produção, além da possibilidade de expandir a capacidade operacional dentro da área física existente. “A tecnologia eShuttle é capaz de alinhar uma abordagem segura e ambientalmente mais correta para a operação petroquímica, com ganhos econômicos significativos”, enfatiza.

Como se sabe, a produção de soda cáustica fica limitada pelo consumo do cloro, pois o suprimento de um insumo é determinado pela demanda do outro. O processo industrial de produção de cloro e álcalis por eletrólise pode ocorrer com o emprego de três tecnologias, as células de diafragma, de mercúrio e de membrana. Os produtos obtidos são o cloro (Cl2), a soda cáustica (NaOH) ou a potassa cáustica (KOH, quando o sal processado é cloreto de potássio) e o hidrogênio (H2). Para cada tonelada de cloro, são produzidos 1,1 t de soda cáustica e 0,03% t de hidrogênio, segundo informações da Abiclor.

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Verde

Ainda sobre os custos operacionais, nota-se uma forte movimentação desse setor (eletrointensivo) para mitigá-los. “A energia elétrica é o principal componente do custo da produção”, comenta Rego. Segundo Andrade, todas as empresas estão atrás de projetos de geração de energia. E, mais do que isso: os novos investimentos estão sendo direcionados para a energia renovável, pois além de garantir uma oferta mais competitiva, essas indústrias estariam contribuindo com a descarbonização dos produtos.

“A indústria têm muitos projetos pensando em sustentabilidade. Há programas de ESG (governança ambiental, social e corporativa) para curto, médio e longo prazo”, afirma Andrade. De forma geral, o mercado vem adotando estratégias para a redução de carbono, muitas delas, aliás, com a proposta de alcançar a neutralidade até 2050. “Essas empresas querem ser ofertantes de insumos verdes para no final da conta você poder ter um produto verde”, diz Rego.

Com foco direcionado para a eficiência energética, a Braskem anunciou parceria com a Veolia para a produção e a geração de energia renovável, usando vapor obtido pela queima de biomassa de eucalipto para suprir as suas operações em Marechal Deodoro-AL, onde retomou a produção em abril de 2021, alcançando a plena carga em meados do ano passado. O site abriga a produção integrada de cloro, soda, hipoclorito de sódio, ácido acrílico e DCE/MVC/PVC, e recebeu R$ 60 milhões em investimentos para adequações tecnológicas e de infraestrutura na linha industrial e na logística rodoviária e portuária, pois passou a utilizar somente sal seco adquirido de terceiros, paralisando definitivamente a extração de sal em Alagoas em 2019.

As duas empresas assinaram um acordo de R$ 400 milhões em investimentos para a iniciativa, que deve gerar 900 mil t de vapor/ano, durante duas décadas. “Significa uma redução de um terço nas emissões de gases causadores do efeito estufa (aproximadamente 150 mil t/ano de CO2) na nossa operação, com base nas emissões de 2020”, afirma Henrique Sonja, da Braskem. Segundo ele, a partida dessa unidade está prevista para o próximo ano.

Milton do Rego enfatiza que o mercado de cloro-álcalis tem potencial para ser a principal fonte de hidrogênio verde, considerada a energia do futuro no mundo. “A produção de hidrogênio é amplamente conhecida pelas nossas plantas que possuem expertise em eletrólise e já o produzem há décadas”, comenta.

Ele explica que nesse processo, o hidrogênio que estava contido na molécula de água é separado e formado como subproduto. Uma vez que a fonte energética das plantas é limpa, porque a energia elétrica vem do grid e de outras formas de energia limpa (algumas empresas têm projetos de energia eólica e fotovoltaica), esse hidrogênio pode ser considerado verde.

Em 2022, o setor produziu cerca de 40 mil t de hidrogênio. Esse montante se deu a partir da produção de 3,2 milhões de t de álcalis e cloro. Essas plantas também são as de melhor performance energética, na avaliação de Rego. Ele conta que a energia necessária para produzir hidrogênio nessas plantas é “dividida” com o cloro e álcalis. Dessa forma, a necessidade energética por quilograma de gás é menor do que a de uma planta de eletrólise dedicada apenas ao hidrogênio (aqui não está sendo feita uma comparação com a produção de hidrogênio a partir de combustíveis fósseis).

No entanto, como não tem mercado, as plantas “queimam” hidrogênio verde para obter energia (porque a alternativa – gás natural – é mais cara) ou o consomem para a produção de produtos da cadeia. “Poderíamos ter uma destinação mais nobre se tivéssemos uma logística de utilização desse hidrogênio”, diz Rego. Aliás, uma questão importante é justamente a logística. “As nossas empresas já produzem o hidrogênio verde. Mas vai fazer o que com o hidrogênio?”, indaga Rego. Segundo Andrade, o mundo está pensando nisso e cita que uma possibilidade seria transportar o hidrogênio contido em outras substâncias, como a amônia. “Tem vários estudos. Ainda é um negócio muito caro, mas está evoluindo rápido”, diz.

De qualquer forma, independentemente dessa questão, o presidente-executivo da Abiclor está confiante com os rumos do setor. Segundo ele, para 2023, a expectativa é de mais um ano de crescimento. “Seria o terceiro consecutivo, impulsionado, entre outros fatores, por uma participação bastante relevante do setor de saneamento básico”, diz.

Segundo Kerzner, o aumento do poder aquisitivo do brasileiro – atrelado ao crescimento econômico – também deve favorecer o uso dos produtos relacionados com cloro-álcalis, Ele ainda vislumbra um setor mais competitivo, com novos players atuantes. “Tudo isso somado nos leva a boas perspectivas de crescimento”, conclui.

fonte: Revista Química e Derivados – Edição número 645 –Ano LV – página 10 –  Cloro e Álcalis: Marco do saneamento faz indústria investir no aumento da produção –  ©QD

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