Química

Ciência – SBQ tem presença recorde de químicos

Marcelo Fairbanks
15 de junho de 2011
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    No entanto, durante sua palestra, transpareceu uma preocupação muito grande com as vedações impostas pelas leis criadas para combater a biopirataria. Alguns pesquisadores e empresas que aproveitam as descobertas deles em fármacos e cosméticos estão sendo processados e impedidos de coletar frutos e partes de espécies vegetais amazônicas para estudos. “Fazer ciência não pode, mas desmatar e queimar a floresta amazônica, isso pode”, criticou a pesquisadora. Uma de suas pesquisas, sobre a biossíntese de um indol alcaloide, foi interrompida por falta de autorização do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN, do Ibama).

    Diante da crítica, Oliva salientou que o CNPq avocou a competência para autorizar a realização de pesquisas com espécies nativas. Em 31 de maio, o CGEN liberou alguns tipos de pesquisas ligadas ao estudo genético de plantas de licença prévia.

    Catálise – Foi muito concorrido o workshop sobre a catálise nos tempos do pré-sal, realizado no dia 23 de maio. A meta proposta e atingida era apontar os trabalhos em andamento e os campos abertos para pesquisas na área de produção de petróleo e derivados, tendo como pano de fundo a expectativa de aumento de produção de óleo e gás com base no desenvolvimento dos campos da região do pré-sal.

    O pesquisador do Centro de Pes­qui­sas da Petrobras (Cenpes) e professor da Escola de Química da UFRJ Eduardo Falabella de Souza Aguiar iniciou o ciclo de apresentações abordando as reações envolvidas nos processos de transformação de gás natural em líquidos (GTL) e os catalisadores nelas envolvidos. A necessidade de estabelecer processos GTL que possam ser instalados em plataformas de exploração é iminente, dados os grandes volumes de gás associado. Como o transporte desse gás para a costa é muito caro, a conversão em líquidos se torna atraente, valorizando o produto e reduzindo custos.

    “Estamos desenvolvendo um conjunto de microrreatores que possa ser embarcado para converter gás natural em hidrocarbonetos líquidos, uma combinação de reforma catalítica com o conhecido processo de Fischer-Tropsch”, explicou o pesquisador. Microrreatores tubulares com paredes internas impregnadas com catalisadores adequados fazem o serviço. Não são nanoreatores, estes seriam adequados para modificar propriedades eletrônicas ou estéricas dos reagentes. Os microrreatores intensificam os fenômenos de transferência de calor e de massa, mexendo na engenharia dos fenômenos. “E um microrreator de bancada é exatamente igual a um de produção, para fazer o scale up basta colocar mais e mais tubos idênticos”, considerou.

    O catalisador de Fischer-Tropsch ainda é um desafio para os cientistas. O cobalto apresenta bons resultados, mas ainda é preciso melhorar a distribuição de partículas ainda menores (de seis a oito nanômetros) do elemento na superfície. Líquidos iônicos, como o butil-metil-imidazol (BMI), permitem melhorar a estabilização do cobalto nanoparticulado.

    Também os processos industriais a que serão submetidos esses hidrocarbonetos líquidos merecem atenção dos cientistas, de modo que ofereçam os derivados mais atraentes, como diesel e lubrificantes. “Esses hidrocarbonetos não contêm impurezas, como o enxofre, e apresentam um padrão de qualidade muito superior aos usuais”, afirmou Falabella. Também nesse caso, a catálise exige aprimoramento.

    A segunda palestra foi proferida pelo professor e pesquisador Cláudio Mota, da UFRJ, tratando da alquilação como caminho para agregar valor aos produtos do craqueamento catalítico fluido (FCC). “A gasolina de craqueamento tem uma octanagem muito baixa, embora possa ser usada em motores convencionais, principalmente em mistura com o etanol”, explicou. “Mas é possível melhorar a sua octanagem por alquilação.” Nesse caso, seria preciso adotar processos com catalisadores ácidos (fluorídrico ou sulfúrico). As olefinas presentes seriam convertidas a carbocátions, sendo a alquilação uma reação entre carbocátions terciários. “É um processo em cadeia, realizado em quatro etapas”, explicou. As zeólitas admitem formas ácidas, com bons resultados. Estudos mostram resultados mais interessantes quando se retira parte do alumínio das zeólitas, aumentando a sua atividade, um ponto ainda não esclarecido pela pesquisa.

    O uso de catalisadores em processos de hidrorefino (HDR) foi tema de palestra de José Luiz Zotin, pesquisador do Cenpes. Ele comentou que a indústria mundial do petróleo refina óleos cada vez mais pesados, mas convive com restrições ambientais mais severas e com demandas mais apuradas, geradas por motores mais exigentes. O hidrorefino entra em todas as correntes de derivados, mas exige caracterização perfeita dos fluxos e o uso de catalisadores adequados, geralmente sulfetos metálicos ou metais nobres.

    Os desafios que se impõem no uso dessa tecnologia começam na seleção de materiais para a síntese dos catalisadores, bem como na escolha de novos suportes, como os nanotubos de dióxido de titânio para receber níquel-molibdênio. Novos métodos de síntese de sulfetados e a caracterização dos catalisadores desse tipo, determinando o número preciso de sítios ativos, também exigem estudos adicionais.

    Atualmente, a Petrobras mantém 28 unidades de hidrotratamento, número que passará para 77 em 2020, das quais cinco serão de hidrocraqueamento (HCC). “A demanda de catalisadores da estatal vai ser multiplicada por sete”, alertou Zotin. Está em curso uma parceria com a Albemarle para a produção local de catalisadores para HDT no Brasil, nos mesmos moldes que originaram há algumas décadas a Fábrica Carioca de Catalisadores (FCC).



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