Centrífugas: Melhora da economia agita fabricantes de centrífugas

Possível retomada de investimentos de clientes anima fornecedores dos vários tipos de separadores por ação centrífuga

Química e Derivados: Centrífugas: centrifugas_abre1. ©QD Foto - Cuca JorgeAs vendas de centrífugas são diretamente proporcionais aos investimentos dirigidos à expansão da capacidade produtiva da indústria. Dessa forma, as previsões otimistas sobre o atual momento da economia, que apontam para o início de um período de desenvolvimento do País, são vistas pelo setor com alento. Resta torcer para que o bom período não se transforme em mais um “vôo da galinha”, nome dado pelos especialistas às bolhas de crescimento da economia.

“Desde o Plano Collor estamos vivendo momentos de muitas dificuldades. Com a sucessão de crises, muitos fabricantes nacionais deixaram de existir e, os que resistiram, ficaram brigando com os importadores. Só nos últimos meses é que as vendas começaram a dar alguns sinais de recuperação”, conta Antonio Ribeiro, diretor comercial da Pana American, empresa criada em 1972 e uma das raras nacionais que sobreviveram às dificuldades do mercado – a empresa conta com fábrica no município de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo.

Uma das formas que a Pana American encontrou para enfrentar a sucessão de crises da década de 90 foi fazer um acordo operacional com a Grisanti, empresa brasileira criada em 1925 e com fábrica em Ribeirão Pires, também na Grande São Paulo. “Nós fabricamos exatamente os mesmos modelos e, nos momentos de dificuldade, nos socorremos”, conta o presidente Raul Grisanti, que mostra-se bem mais incrédulo em relação ao progresso do mercado nacional. “As vendas estão paradas, trabalhamos apenas para pagar impostos”, reclama.

Química e Derivados: Centrífugas: Takano - economia na hora da compra pode custar caro. ©QD Foto - Cuca Jorge
Takano – economia na hora da compra pode custar caro.

A Pana American e a Grisanti têm outra coisa em comum. As duas são representantes no Brasil da italiana Comi Condor, fabricante de centrífugas e de outros equipamentos. “Algumas máquinas que produzimos aqui têm tecnologia italiana. Também importamos equipamentos da Comi Condor sem similares no Brasil”, acrescenta Ribeiro. Entre os principais clientes das duas empresas encontram-se as indústrias químicas, farmacêuticas, têxtil, metalúrgica e alimentícia.

Outra empresa que participa desse mercado com destaque é a Alfa Laval. Criada há 110 anos na Suécia e presente no Brasil há mais de 40, a multinacional arrecada, com a venda de centrífugas, cerca de 30% de seu faturamento. “Nosso crescimento na venda de centrífugas no ano passado foi de 5% a 8%. Em 2004, no mínimo, esperamos ultrapassar a casa dos 10%”, avalia o gerente comercial Ricardo Chade. O executivo não descarta obter índice de crescimento bem mais expressivo, caso as coisas caminhem de forma positiva na economia. O motivo do otimismo encontra-se na composição da carteira de clientes da empresa que atende diversos segmentos, entre os quais merecem destaque indústrias dos setores automobilístico, sucro-alcooleiro, de celulose e papel, e naval, esses em momento favorável a investimentos.

No passado, a Alfa Laval produzia em sua fábrica localizada na capital paulista uma gama bastante ampla de equipamentos. Com a crise iniciada no início da década de 90, a fábrica nacional foi bastante desmobilizada. “Hoje produzimos apenas centrífugas de menor porte. Os demais modelos são todos importados”, revela Fabrício Navarro, engenheiro de vendas da empresa. Uma possível reversão desse quadro só ocorrerá no caso do País vir a apresentar índices de crescimento que permitam escala compensadora de produção das máquinas de maior porte.

Química e Derivados: Centrífugas: grafico_centrifugas. ©QDVários modelos – Virtualmente, em todos os ramos industriais, em algum ponto de seus processos de fabricação, sempre há a necessidade de realizar a separação de dois líquidos não miscíveis ou de um líquido com um sólido nele insolúvel – sejam as substâncias aproveitadas ou não após a operação. O processo mais natural para se realizar essa separação é o da decantação, que ocorre a partir da força da gravidade. Por esse método, as partículas mais pesadas de uma das substâncias se depositam no fundo da mistura depois de um período de repouso.

A decantação, no entanto, é um processo demorado, que raras vezes atende às necessidades da indústria. Para realizar essa operação com maior rapidez é que foram criadas as centrífugas, equipamentos já utilizados há muitas décadas. Com o auxílio de componentes mecânicos, elas imprimem às misturas acelerações milhares de vezes superiores à gravitacional, tornando mais rápido o processo. Os modelos de hoje são dotados de componentes mais modernos, mas a maior novidade dos equipamentos está presente em seus controles, fruto da automação industrial ocorrida graças à impressionante evolução da informática.

A diversidade de aplicações faz com que os fabricantes do equipamento ofereçam ao mercado modelos bastante diferenciados, não só em termos de projeto das máquinas, mas também em relação às suas capacidades de separação. A diversidade é tão grande que algumas empresas fornecedoras de centrífugas não concorrem diretamente entre si. É o caso, por exemplo, da Pana American e da Grisanti, que não atuam nos mesmos nichos de mercado da Alfa Laval.

A seleção do equipamento mais adequado a determinada operação depende de uma série de variáveis, como a porcentagem de sólidos presente na mistura, o tamanho das partículas e a quantidade de mistura a serem separadas, entre outras. “Dependendo da aplicação, as centrífugas precisam ser dimensionadas caso a caso”, explica o engenheiro Jorge Takano, da Pana American. O técnico adverte que, em alguns casos, elas devem ser feitas em materiais especiais, compatíveis com o ambiente no qual vão trabalhar – como o aço inoxidável, por exemplo, indicado para trabalhar com produtos corrosivos. “Em determinadas ocasiões, uma pretensa economia por parte do usuário, que prefere adquirir equipamentos de menor custo mas fora das recomendações dos fabricantes, pode gerar grandes prejuízos e até acidentes graves, que colocam em risco a vida dos operadores”, adverte o engenheiro.

Química e Derivados: Centrífugas: Chade espera ampliar suas vendas em 2004. ©QD Foto - Cuca Jorge
Chade espera ampliar suas vendas em 2004.

Cesto, peeler e pusher – A Pan American e a Grisanti são especialistas na fabricação de três tipos de centrífugas, as de cesto, peeler e pusher. As de cesto são equipamentos dotados com um cesto, perfurado ou não, que ao girar faz com que as partículas a serem separadas sejam arremessadas para a sua periferia. Em média, elas são utilizadas quando o tamanho das partículas a serem separadas variam de 10 a 10 mil micrômetros, com porcentagem de sólidos para separação que varia de 10% a 60%. “Dependendo do tamanho das partículas, pode-se instalar um tecido de malha bastante fina dentro do cesto, no qual elas são retidas”, explica Takano.

Conforme a aplicação, os cestos podem ser instalados em eixos verticais ou horizontais e serem carregados por processos automáticos ou manuais. O carregamento também pode ser realizado com a máquina parada ou em movimento, dependendo do caso. Quando, por exemplo, o teor de sólidos for muito elevado, o que prejudica a fluidez da mistura, o carregamento é feito com o cesto parado. Quando for possível carregá-la em movimento, é lógico, há um grande ganho de produtividade, uma vez que a mistura passa a ser centrifugada desde o instante em que se inicia o processo de alimentação. “As centrífugas de cesto podem ser aproveitadas em operações as mais variáveis, como a secagem dos cavacos de usinagem e recuperação do óleo de corte, a secagem de produtos químicos e farmacêuticos ou as ações de secagem presentes na produção de açúcar cristal”, exemplifica o engenheiro da Pana American.

Química e Derivados: Centrífugas: grafico_centrifugas2. ©QDAs centrífugas peeler são muito utilizadas como hidroextratoras de soluções onde encontram-se cristais sólidos com tamanhos de 10 a 10 mil micrômetros, em misturas com porcentagem de sólidos a serem separados de 10% a 50%. Com descarga semicontínua, atuam com sistemas de controle de alimentação, lavagem e descarga dos cristais sem qualquer contato manual – as operações podem ser feitas de forma automática ou a partir do comando de um operador. Possuem uma faca raspadora, que proporciona ao sólido separado granulação homogênea, detalhe útil de acordo com o interesse dos usuários. Por suas características, é indicada para a secagem de substâncias que não podem ser contaminadas, casos, por exemplo, das presentes em vários produtos químicos, farmacêuticos e alimentícios.

Recomendada para aplicações onde se requer a separação de partículas maiores (de 100 a 50 mil micrômetros), com porcentagem de sólidos a serem separados na faixa de 20% a 50% e que necessitem de lavagem dos sólidos separados após a operação, as separadoras pusher contam com um cone alimentador do produto e um pistão hidráulico cuja função é descarregar os sólidos. Por trabalharem em regime de descarga contínua não necessitam do contato humano para operar, o que as tornam muito aproveitadas em plantas de produtos tóxicos ou venenosos.

Química e Derivados: Centrífugas: Linha Alfa Laval abrange vários modelos. ©QD Foto - Cuca Jorge
Linha Alfa Laval abrange vários modelos.

Decantadora e de disco – A Alfa Laval é especializada na fabricação das centrífugas decantadoras e de disco. As decantadoras, indicadas para separar partículas de 5 a 10 mil micrômetros, contêm um rotor horizontal acoplado a uma rosca transportadora com a função de descarregar continuamente o sólido separado – o líquido purificado sai por outra extremidade. A rosca, com o auxílio de um redutor, pode girar em rotação diferenciada da do rotor. O equipamento tem grande capacidade de processamento, mas a porcentagem de sólidos a serem separados na mistura não pode ser elevada, sob o risco de ocorrerem entupimentos – a concentração deve ser de, no máximo, 30%. Entre suas várias aplicações, encontram-se a secagem de sólidos de efluentes e a secagem de sais, só para citar alguns exemplos.

As centrífugas de disco, por sua vez, também podem trabalhar em regime contínuo e são ideais para uma ampla faixa de tarefas de separação para concentrações de sólidos menores (até 10%) e partículas de tamanhos bastante reduzidas (de 0,5 a 500 micrômetros), inclusive bactérias.

Elas promovem a separação tanto de líquidos e sólidos insolúveis quanto para dois líquidos não-miscíveis. As tarefas de separação mais difíceis realizadas pelas centrífugas de disco podem envolver até três fases, em misturas com dois líquidos e partículas sólidas minúsculas.

Elas são compostas por um rotor que atinge altíssimas rotações acionado por um motor elétrico. O rotor é composto por vários discos cônicos, que proporcionam uma área superficial adicional de sedimentação, acelerando o processo de separação. O design dos discos é um dos segredos do funcionamento das máquinas. Conforme o disco utilizado, elas realizam operações de clarificação, purificação ou concentração. Entre as aplicações mais comuns das máquinas de discos encontram-se o tratamento de óleos minerais, como diesel e lubrificantes, tratamento de óleos solúveis, a centrifugação de produtos das indústrias alimentícias, como o leite e óleos vegetais, por exemplo.

Modelos – Além de estarem disponíveis no mercado em diferentes tipos, as centrífugas também podem ser encontradas em tamanhos os mais variados. A Pana American e a Grisanti oferecem uma linha diversificada. O equipamento considerado o carro-chefe de seus produtos é a centrífuga de cesto com descarga automática modelo Quim-DRP. “Produzimos, em média, cinco ou seis unidades dessas máquinas por ano. Elas são fabricadas por encomenda, admitem carga máxima de 150 kg e custam cerca de R$ 250 mil. Por atuarem dentro de fortes padrões higiênicos, são muito procuradas pelas indústrias química e alimentícia”, revela Ribeiro.

Química e Derivados: Centrífugas: Navarro - cada caso requer um projeto específico. ©QD Foto - Cuca Jorge
Navarro – cada caso requer um projeto específico.

Um exemplo de modelo de grande porte também comercializado pelas duas empresas é a centrífuga peeler, com capacidade de separação de até 8 toneladas por hora de misturas. É um equipamento feito sob encomenda, caro – custa cerca de R$ 350 mil, valor que pode variar um pouco de acordo com o grau de automação requerido -, cuja venda sempre é motivo de comemoração para a empresa. “A centrífuga peeler tem sido procurada pelas usinas de açúcar, para projetos de defesa do meio ambiente”, explica o diretor comercial.

Entre os modelos menores, o destaque da dupla Pana American e Grisanti são as centrífugas de cesto recuperadoras de óleo. São produtos de pronta entrega, que custam de R$ 5 mil a R$ 7 mil. “Vendemos de cinco a seis unidades por mês dessas centrífugas.

Fabricamos esse modelo em lotes de 10 máquinas de cada vez”, explica o engenheiro Takano. O equipamento é muito utilizado pela indústria metalúrgica, em especial para recuperar fluidos de corte e refrigeração.

A linha da Alfa Laval também é diversificada. Além da linha de decantadoras, a empresa oferece centrífugas de disco voltadas para operações de clarificação, purificação e concentração. Com exceção da linha de concentração (chamada Alfa Pure), todas as demais máquinas são oferecidas em versões manuais (linhas MAB) ou automáticas (linhas PX).

“Vendemos desde máquinas pequenas, para uso em laboratórios, até modelos de grande porte”, revela Navarro. É interessante destacar que, para cada solicitação atendida pela empresa, é desenvolvido o projeto mais adequado de equipamento.

“No caso das centrífugas de disco, para cada tipo de fluido a ser separado são projetados designs especiais de disco, indicados para executar a operação de forma ideal”, acrescenta o engenheiro.

A Alfa Laval presta ainda serviços de engenharia para empresas interessadas em montar novas fábricas. Isso permite o projeto de equipamentos inusitados, voltados para funções pouco usuais. Um exemplo foi o de uma centrífuga projetada para a planta da Cadam – Caulim da Amazônia, localizada na cidade de Monte Dourado, no interior do estado do Pará. O caulim é uma argila de cor branca, usada pela indústria para dar ao papel características especiais, como brilho e textura. “Quando o caulim é extraído vem bastante contaminado e tivemos que desenvolver uma centrífuga um tanto diferenciada para purificá-lo”, explica o gerente Chade.

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