Papel e Celulose

Celulose & Papel: Competitividade setorial pede reforço ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras

Marcelo Fairbanks
6 de fevereiro de 2017
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    Unidades de tão grande porte (escala é relevante, no caso) requer grandes extensões de terra para o plantio de florestas capazes de suprir o empreendimento, com todos os custos logísticos disso decorrentes. “O Brasil ainda tem bastante terra disponível, mas a Europa e o Japão, não”, comparou, afirmando que além da terra, o país conta com clima e variedades de árvores bem adaptadas, constituindo uma vantagem considerável contra concorrentes. A entrada em operação de unidades gigantes também provoca fortes impactos no mercado global, gerando incertezas que prejudicam a atividade.

    Química e Derivados, Celulose & Papel: Competitividade setorial pede reforço ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras

    Farinha observa que o processo kraft admite o uso da lignina como combustível para caldeiras, aumentando a geração de energia, que pode ser reforçada com a queima de resíduos florestais, óleos e outros. As amplas áreas também podem receber painéis fotovoltaicos e torres eólicas, aumentando a geração de energia para venda ao mercado. “A incapacidade de aproveitar economicamente bem a lignina sobrante acabou por inviabilizar o processo Organossolv, criado no Canadá, que usava etanol como solvente”, apontou.

    Segundo o especialista, um consórcio europeu estabeleceu diretrizes para desenvolvimento de processos no setor com vistas a 2050, com o objetivo de reduzir emissões de gás carbônico em 80% e de aumentar em 50% o valor dos produtos obtidos. “Eles estão desenvolvendo na Holanda o processo Deep Eutetic Solvents (DES) como alternativa ao kraft”, informou. Trata-se do esforço combinado de vinte empresas, três universidades e dois institutos de pesquisas.

    Trata-se de um grupo de solventes de alto ponto de ebulição que são produzidos pelas próprias árvores para manter líquida a seiva em seus vasos durante o ano todo. Esses solventes são capazes de dissolver seletivamente a lignina, hemicelulose e celulose, de forma rápida e eficiente, com baixo consumo de energia e bom aproveitamento de subprodutos. Os insumos químicos consumidos nesse processo são baratos e recuperáveis. “O DES é um processo onívoro: pode ser alimentado por madeira, aparas de papel, resíduos agrícolas e outros similares”, disse.

    “Não creio que o processo kraft desaparecerá, mas as alternativas conviverão com ele e, em alguns casos, serão preferidas”, avaliou. “O setor precisa estar atento a esse tipo de mudança de paradigma.”

    Farinha critica a falta de esforços concentrados de pesquisa e desenvolvimento do setor no Brasil. “Aqui não se pesquisa para o longo prazo, nem há uma entidade que centralize esses esforços”, apontou. O país deveria desenvolver tecnologia própria, mesmo porque usa matéria-prima diferente em relação a outros lugares do mundo.

    “Sugiro ao setor elaborar uma agenda de trabalho para 2030, reunindo empresas, agentes técnicos (universidades e centros de pesquisa) e consultores que poderiam ser capitaneados pela ABTCP, com o intuito de identificar ameaças e oportunidades ao setor”, ressaltou.

    Para o curto prazo, o foco dos estudos deve ser dirigido à competitividade. No médio prazo, o interesse está em criar novas aplicações, enquanto para um futuro mais distante, tecnologias disruptivas.

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    Ex-presidente da ABTCP e conhecido especialista do setor, Lairton Leonardi endossa a sugestão de Farinha e lamenta a falta de união da cadeia produtiva do setor. “Cada empresa investe muito em suas próprias soluções, muitas vezes isso significa reinventar a roda, não é eficiente para o setor como um todo”, lamentou.

    Leonardi apontou para o fato de os investimentos mais recentes terem sido executados mediante a contratação de um único fornecedor de tecnologia. “Estamos ficando dependentes de soluções importadas, como acontecia nos primórdios do setor”, disse. “O gozado é que não montamos nossos clusters tecnológicos, mas compramos as tecnologias desenvolvidas por clusters de outros países”.

    Essa opção de adquirir o conhecimento produzido no exterior tem a implicação direta de reduzir a demanda pelos serviços de consultores e especialistas locais, bem como de universidades e instituições de pesquisa. “Precisamos de uma visão nova para desenvolver tecnologia no setor”, recomendou Leonardi.



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