Celulose: Setor precisa melhorar competitividade

ABTCP 2014 alerta para a necessidade de o setor melhorar competitividade

O 47º Congresso da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) confirmou a pujança do setor, um dos poucos em expansão no Brasil atualmente.

Porém, todos os participantes foram alertados sobre a necessidade de aumentar a competitividade da produção instalada no país, superando obstáculos conhecidos, como as deficiências de infraestrutura.

A avaliação dos especialistas, a exemplo de Carlos Farinha e Silva, vice-presidente da Pöyry Tecnologia, indica a supremacia dos brasileiros na produção de celulose de fibra curta, porém associada a custos elevados de transporte para dentro e para fora das unidades de produção (inbound e outbound).

“A produção de celulose do Brasil está se deslocando mais para o interior e isso permite reduzir custos de produção, mas as deficiências logísticas cobram um preço elevado”, afirmou.

“Os concorrentes internacionais do Brasil, mais bem situados, vivem na situação inversa: sua produção de madeira é mais cara, mas a sua estrutura logística facilita as negociações internacionais”, avaliou.

A mais recente unidade produtora nacional de celulose, do grupo Suzano, inaugurada este ano, está instalada no Maranhão, e o investimento anterior, da Eldorado (grupo JBS), foi instalado em Três Lagoas-MS, com partida em 2012.

Dados apresentados por Farinha mostram que, entre 2003 e 2013, o custo da madeira colocada na indústria no Brasil subiu 93% (em dólares). No mesmo período, os custos verificados no Chile foram incrementados em apenas 20%. Isso se traduz em perda de competitividade do produtor nacional, pois a madeira responde por 42% dos custos de caixa da produção de celulose.

O Brasil, segundo o especialista, sempre obteve margens maiores de lucro que seus concorrentes mundiais, porém essa distância está se encurtando. Ele estimou em US$ 555/t o custo de produção do produtor marginal (valor acima do qual não se consegue colocar mais produto no mercado) em 2013. E esse valor deve baixar para US$ 445/t até 2023. “O problema é que os custos de produção no Brasil tendem a aumentar”, afirmou. “Daí a importância de reduzir custos, desenvolver novos produtos com a mesma base florestal, a exemplo dos biocombustíveis ou da geração elétrica, e alongar a cadeia de produção, criando derivados viáveis para a celulose e lignina”.

Química e Derivados, Aguiar: setor precisa avançar na diversificação de produtos
Aguiar: setor precisa avançar na diversificação de produtos

“O setor de celulose e papel obteve bons resultados nos últimos anos, mas perdeu competitividade”, reiterou Carlos Aguiar, presidente do conselho deliberativo da Ibá – Indústria Brasileira de Árvores, entidade criada neste ano para combinar os esforços empreendidos pelas várias associações envolvidas com a cadeia produtiva florestal, como Bracelpa, Abipa, Abiplar. Abraf e Bracelpa, unificando a atuação de 70 empresas e associações estaduais.

Segundo Aguiar, no Brasil os investimentos produtivos pagam entre 17% e 18% de impostos durante a sua construção, além de recolher o imposto de importação sobre os equipamentos e insumos necessários aos projetos. Além disso, as notórias deficiências de infraestrutura encarecem as operações, também garroteadas pelos juros elevados dos financiamentos e pela taxa cambial administrada pelo governo. Nos últimos anos, somou-se ao rol dos problemas o aumento do custo da terra, fator de produção indispensável na atividade florestal.

Aguiar reconheceu que o governo federal desonerou a folha de pagamento e concedeu aos produtores de celulose e de painéis de madeira a devolução de impostos nas exportações (Reintegra). “Mas ainda falta muita coisa, inclusive criar uma política para florestas plantadas, assunto que foi transferido para a pasta do Ministério da Agricultura, mais capacitado para lidar com ele”, comentou.

Aguiar salientou que as florestas plantadas oferecem uma contribuição inestimável para o programa mundial de mudança climática, pela sua alta absorção e fixação de dióxido de carbono. “O setor florestal brasileiro já absorve mais de três vezes as emissões de todas as indústrias do país”, comentou.

Lairton Leonardi, diretor da Solvo Consultoria, apontou um panorama desafiador para o setor florestal daqui a alguns anos. “Os custos crescem, a energia e a água se tornam cada vez mais escassas, enquanto a economia nacional patina”, observou. “Esse ambiente de negócios altamente competitivo exige aumentar a competitividade, principalmente pelo aprimoramento da gestão dos empreendimentos.”

Mercado em transformação – A produção nacional de celulose (em todas as suas formas) somou 15,1 milhões de toneladas em 2013, ano em que foram produzidas 9,9 milhões de t entre janeiro e agosto. Em 2014, a estimativa preliminar para os oito primeiros meses chegou a 10,7 milhões de t, com um aumento de 7,7%. O crescimento está relacionado ao início das operações da Suzano em Imperatriz-MA, em março deste ano, com capacidade de produzir 1,5 milhão de t/ano de celulose de fibra curta para mercado.

Espera-se para o segundo semestre de 2015 a entrada em operação da segunda fase do Projeto Guaíba, da CMPC Celulose Riograndense, adicionando outras 1,75 milhão de t/ano à capacidade produtiva nacional, mediante investimento de R$ 5 bilhões.

No ano seguinte, será a vez de a Klabin colocar em marcha o Projeto Puma, de Ortiguera-PR, para 1,1 milhão de t/ano de celulose de fibra curta e 400 mil t/ano de fibra longa. Contando com a conclusão e partida desses dois projetos, a oferta nacional de celulose chegará perto das 20 milhões de t/ano.

Aguiar considera que o mercado mundial de celulose já está com sobreoferta, mas deve se equilibrar. “No momento, os preços estão baixos, mas há uma tendência de recuperação”, comentou. Segundo a consultoria Fitch, os preços da celulose variam de US$ 750 na Europa a US$ 640 na Ásia. Aliás, a demanda está concentrada na Ásia, continente que também apresenta o maior potencial de crescimento de consumo para o próximo decênio.

“Enquanto novas capacidades estão entrando em operação no mundo, fala-se em mais 4 milhões de t até 2016, é preciso salientar que muitas fábricas estão encerrando sua produção, ou convertendo suas linhas para outros tipos de celulose, como a solúvel, usada na fabricação de viscose e de insumos químicos, como acetato e éteres”, comentou Francisco Fernandes Campos Valério, consultor, ex-diretor industrial da Fíbria e presidente do 47º Congresso da ABTCP. Recentemente, saíram do mercado 600 mil t/ano, referentes a unidades de produção descontinuadas nos Estados Unidos e na Espanha. Dessa forma, as novas fábricas brasileiras terão espaço para comercializar sua produção.

Aguiar recomendar observar o comportamento desigual da demanda por derivados de celulose ao redor do mundo. “O consumo de papéis para imprimir e escrever está caindo na Europa e nos Estados Unidos, mas cresce na China e em outros países asiáticos”, considerou. No Brasil, esse segmento deve apresentar um pequeno crescimento, mas os papéis tissue (para toalhas, lenços e material de higiene) tendem a crescer rapidamente. Tendência semelhante é observada na Ásia, com uma evolução ainda mais explosiva. “É um consumo que reflete a qualidade de vida de uma população, essa demanda não volta para trás”, comentou.

Química e Derivados, Celulose Tabela: Oferta Brasileira 2014
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Ele também salientou que a redução no consumo de papéis para imprimir e escrever resulta na menor disponibilidade de papéis usados para reciclagem. Isso implica em usar mais celulose virgem para a produção de papel.

A celulose tipo fluff, indicada para fraldas descartáveis, não é fabricada no Brasil, mas tem previsão de crescimento de 4% ao ano no mundo. Novamente, a China é a grande locomotiva da demanda.

O comportamento do mercado chinês é o fiel da balança do mercado de celulose. O recente corte nos subsídios oficiais da China para os produtores de algodão levou os produtores de viscose a buscar substitutos economicamente viáveis, impulsionando o mercado de celulose solúvel. Esse produto poderá crescer por volta de 10% ao ano nos próximos anos. A Jari Celulose converteu sua linha de produção para esse tipo de celulose e ofertará cerca de 200 mil t/ano a partir de 2014. Até então, apenas a baiana BSC produzia o tipo solúvel no país.

A demanda mundial por papéis de embalagem é a mais promissora, com forte tendência de crescimento até 2020, pelo menos.

Aguiar lista ainda outros mercados mais específicos, como o farmacêutico, para a celulose, mas adverte: “são nichos que absorvem volumes muito pequenos, porém praticam valores elevados.” Ele também apontou a possibilidade de as operações florestais brasileiras considerarem investimentos em biorrefinarias, obtendo etanol e outros insumos químicos.

Dados da Ibá apontam que o Brasil possui 7,6 milhões de hectares de florestas plantadas, gerando receita bruta anual da ordem de R$ 56 bilhões, correspondentes a 5,5% do PIB industrial. Somadas, as exportações de celulose, papel, painéis de madeira e outros itens alcançaram o valor de US$ 7,3 bilhões em 2013, equivalentes a 3% do total exportado pelo país. A cadeia de produção de base florestal anunciou investimentos totais de R$ 53 bilhões entre 2012 e 2020.

As 15 milhões de t de celulose produzidas em 2013 colocaram o Brasil na quarta colocação no ranking mundial, liderado pelos EUA (50,4 milhões), China (18,2 milhões) e Canadá (17,1 milhões). No ranking dos produtores de papéis, porém, o país ocupa o nono lugar, com 10,4 milhões de t. A liderança é da China, com 102,5 milhões de t, seguida pelos EUA (74,4 milhões) e Japão (26 milhões). Apenas de janeiro a agosto deste ano, o Brasil exportou quase 2 milhões de t de celulose de fibra curta branqueada para a China, obtendo US$ 1,2 bilhões em divisas.

Congresso e exposição – Realizado no Transamerica Expo Center, em São Paulo, de 7 a 9 de outubro, o 47º Congresso da ABTCP, com sua exposição paralela de produtos e serviços, reuniu mais de 8 mil visitantes, entre eles 600 especialistas do setor, atraídos pela programação técnica selecionada.

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