Cargas Minerais: Aditivos ampliam funções nas tintas

Aditivos evoluem e ampliam funções nas tintas para além do simples enchimento

Converse com qualquer representante de uma empresa de cargas minerais e tente extrair dele explicações rápidas sobre os seus produtos disponíveis para o segmento de tintas.

Missão impossível hoje em dia, tamanha é a variedade de itens existentes nos portfólios das companhias e também as inúmeras funções que esses ingredientes exercem sobre o produto final.

Sem contar a complexidade das operações logísticas envolvendo as remessas de produtos úmidos, dispersos em água, sistema conhecido no mercado como slurry.

Nem sempre foi assim.

Há pouco mais de uma década, os fabricantes de tintas no Brasil tinham uma visão mais restrita da contribuição dos minerais para suas formulações.

Chamados originalmente de “cargas”, esses insumos, agora promovidos a “aditivos”, eram utilizados apenas como enchimento e reverenciados somente como importantes redutores de custos, pois eles substituem em parte ingredientes mais caros, como o dióxido de titânio, aplicado como pigmento branco e agente opacificante.

Carbonato de cálcio, talco, alumina hidratada, diatomita, dolomita, mica, caulim e sulfato de bário são algumas das matérias-primas mais ofertadas atualmente pelos fornecedores de cargas, que atendem tanto as fábricas de tintas quanto as de outros setores, como as de papel e as de plásticos.

Cada um desses minerais, porém, pode dar origem a mais de uma centena de subprodutos, naturais ou sintéticos, graças ao emprego de diferentes processos de tratamento e beneficiamento, como classificação, britagem, moagem, flotação, peneiramento, aeroclassificação, calcinação, hidratação, carbonatação, precipitação, micronização e atomização.

Muitas vezes produzidas em laboratório especialmente para satisfazer uma demanda específica de um determinado cliente, essas fórmulas interferem em diversas propriedades do filme.

Entre as melhorias de desempenho mais comuns atribuídas ao uso de aditivos minerais estão: resistência mecânica do filme; resistência química e às intempéries; porosidade; alvura; fosqueamento, opacidade, permeabilidade; lavabilidade; poder de cobertura; brilho, lustre, dispersão, retenção, uniformidade de cor e sedimentação. Teoricamente, buscam-se com as cargas resultados que combinem a melhoria de qualidade das tintas com menores custos finais de produção, via redução de uso de outros aditivos, resinas e pigmentos.

“Antigamente, as cargas minerais eram vistas como o ‘primo pobre’ dos componentes da tinta. Hoje, não podemos dizer que esses aditivos são o ‘primo rico’, pois continuam sendo os mais baratos entre os insumos que compõem o processo de formulação, mas pode-se afirmar que eles são considerados agora ‘bons parentes’”, diz José Carlos Bartholi, diretor-comercial da Minérios Ouro Branco, que prefere chamar os seus produtos de “especialidades minerais”.

“Oferecemos aditivos de alto desempenho, que interferem em diversas propriedades do filme, como melhoria ao intemperismo, lavabilidade e resistência mecânica”, garante. Na carteira de oferta da Ouro Branco, com unidade industrial no bairro da Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, é possível encontrar as principais cargas minerais do mercado, como talco, dolomita, caulim calcinado, carbonato de cálcio precipitado, sulfato de bário e mica.

Na visão de Bartholi, as indústrias de tintas buscam cada vez mais aditivos com partículas menores e tratamentos superficiais. “A empresa que tem hoje um portfólio mais elaborado faz a diferença no mercado”, avalia o diretor da companhia.

A geoquímica Elaine Luciano, da J. Reminas Mineração, com fábricas em Cachoeiro de Itapemirim-ES e Guarulhos-SP, conta que, há menos de duas décadas, a empresa atuava no mercado apenas como uma simples portadora de jazidas, que extraía seus minerais, lavava, moía, ensacava e distribuía. “Antes, os minerais eram utilizados como uma espécie de farinha para confecção de um bolo: adicionava-se, sem quase nenhum critério, grandes quantidades de cargas brancas, principalmente carbonato de cálcio, para engrossar a tinta e baratear o produto”, lembra.

Com o avanço tecnológico das fábricas brasileiras, os compradores desses minerais passaram a exigir dos fornecedores produtos de melhor qualidade, descartando primeiramente as remessas de cargas impuras. Até então, era comum que as companhias entregassem aos seus clientes minérios contaminados com metais e outras impurezas, comprometendo a qualidade da tinta.

Para acabar com esse problema, as empresas passaram a desenvolver processos de purificação das cargas, utilizando equipamentos como o eletroímã, responsável pela retirada desses metais, chamados no mercado de “pontos pretos”. “De dez anos para cá, as empresas conseguiram eliminar totalmente a presença de metais nas cargas”, garante a geoquímica da J. Reminas

Com o fim das contaminações, a indústria de tinta passou a procurar no mercado cargas mais leves, pois em muitos casos as tintas acabavam decantando (formação de uma espécie de barro no fundo das latas), influenciadas pelo peso desses minerais. Os fornecedores de cargas passaram então a micronizar os minérios, para diminuir a densidade das partículas e, com isso, deixá-las mais tempo em suspensão.

Não demorou muito tempo para que o mercado brasileiro vivesse uma verdadeira “febre dos micronizadores”, equipamentos cujo valor de aquisição pode superar facilmente os R$ 600 mil. Nesse tipo de máquina, as partículas se chocam conforme a regulagem de um jato de ar e depois se quebram até atingirem o limite máximo, que depende de cada tipo de pedra.

Os anos 2000, porém, também ficaram marcados pelo “boom” dos produtos sintéticos, que são obtidos por meio da calcinação, hidratação e carbonatação dos minerais naturais. Em 2007, a J. Reminas se viu obrigada a investir também na produção de minérios sintéticos, atendendo às novas exigências do mercado de tintas, conta Elaine. “Iniciamos os processos de análise de matérias-primas que não existiam no Brasil e começamos a produzi-las em laboratório, de acordo com as necessidades dos nossos clientes”, acrescenta.

A J. Reminas também passou a purificar os minérios existentes no país, como o sulfato de bário, hoje um dos carros-chefe da companhia. “Diferentemente de outros países, como a China e os Estados Unidos, não existem no Brasil jazidas de bário com 99% de pureza. Por isso, começamos a produzir em nossa fábrica grandes volumes de minério de bário-99%, para atender os clientes que antes tinham que importar, a custos mais altos”, explica.

Entre as várias parcerias da J. Reminas fechadas com empresas de tintas, Elaine destaca um recente acordo firmado com um fabricante (cujo nome ela não quis revelar) que envolve a nacionalização de uma tinta automotiva fabricada no Canadá, originalmente aplicada em aviões e produzida com carga de Wollastonita, minério inexistente no Brasil.

“Essa indústria tinha a fórmula da tinta e estava disposta a importar a Wollastonita dos Estados Unidos. Porém, como já tínhamos outras parcerias com essa empresa, acabamos assumindo o projeto, produzindo, ainda em fase piloto, a Wollastonita em nosso laboratório”, afirma.

Essa tinta de origem canadense tem como principal característica a sua grande resistência a extremos de temperaturas (calor e frio), sendo bem mais maleável que as tintas existentes no mercado brasileiro, descreve Elaine. “Trata-se de uma tinta com grande durabilidade e pouquíssima manutenção, que será aplicada no Brasil em veículos mais sofisticados.”

Pelo acordo com a fabricante de tintas, inicialmente a J. Reminas vai produzir em laboratório cerca de 300 quilos da carga Wollastonita, que serão testados em misturas com outros componentes da nova tinta. “Depois, pretendemos fabricar, em nossa unidade industrial, a Wollastonita em escala industrial, para um consumo inicial de 30 toneladas/mês”, revela a geoquímica. A J. Reminas pretende ainda inaugurar, em 2012, sua terceira fábrica de cargas minerais no país, em Barueri-SP.

Química e Derivados, Elaine Luciano, geoquímica da J. Reminas Mineração, Cargas Minerais - Aditivos evoluem e ampliam funções nas tintas para além do simples enchimento
Elaine: remoção de impurezas melhorou a qualidade das cargas

“Será uma unidade de calcinados para fundição, que irá atender, sobretudo, a Petrobras”, afirma Elaine, sem revelar o valor do investimento.

“Mas também teremos nessa fábrica a produção de caulim calcinado, esse voltado para o setor de tintas”, acrescenta. Além dessa nova unidade, a empresa vai construir no mesmo local um moderno laboratório, com equipamentos importados da Inglaterra, com capacidade para fazer todo tipo de análise de minérios não-metálicos e não-ferrosos.

Apesar dos avanços tecnológicos, a carga mineral ainda é um produto barato em relação aos outros insumos utilizados pela indústria de tintas. O baixo retorno financeiro da atividade, na visão das companhias de aditivos, acaba inibindo novos investimentos na linha de produção e/ou em equipamentos.

“É por isso que vendemos volumes muito grandes de cargas para poder ter alguma lucratividade”, afirma a geoquímica da J. Reminas.

Só de carbonato de cálcio, a empresa fabrica 7 mil toneladas por mês, sendo que 5,5 mil t/mês são direcionadas para a indústria de tintas. No entanto, a empresa já produziu volumes maiores de carbonato de cálcio no passado – em meados dos anos 90, a oferta mensal alcançava 17 mil toneladas/mês –, mas o insumo foi perdendo espaço para outras cargas consideradas mais sofisticadas.

“Hoje, o nosso carro-chefe é o sulfato de bário micronizado, que possui partículas mais lamelares, que conferem um acabamento superficial mais uniforme e boa cobertura”, afirma.

Segundo Elaine, a empresa planeja aumentar a produção de sulfato de bário, que atualmente gira em torno de mil toneladas mês na planta de Cachoeiro de Itapemirim. “Nossa oferta atual é insuficiente para atender a todos os pedidos dos fabricantes de tintas, sobretudo nos três últimos meses do ano, quando aumenta o interesse por este tipo de carga”, afirmou, revelando a intenção de duplicar ainda neste ano a produção mensal de sulfato de bário, chegando a 2 mil toneladas.

Sem tendência definida – A forte concorrência existente no setor de cargas minerais estimula as empresas a perseguir diferentes frentes de negócios dentro da mesma área de atuação, no caso, o setor de tintas. Não raro, as companhias seguem estratégias totalmente opostas umas das outras.

É o caso da Imerys e da Itatex Especialidades Minerais, duas importantes fornecedoras de cargas minerais para a indústria brasileira de tintas. A Imerys tem um portfólio enxuto, com uma linha ativa de menos de 20 produtos, e trabalha principalmente com o fornecimento de cargas na modalidade slurry. A Itatex, por sua vez, exibe uma carteira de oferta com mais de 160 tipos diferentes de cargas secas e concentra seus esforços na busca de soluções personalizadas para os seus clientes.

“Nós somos fundamentalmente uma empresa de slurry, que sobrevive de grandes contas, ou seja, vendemos grandes volumes de cargas minerais, principalmente para a indústria de papel e de tintas”, diz Leandro Bizarro da Rocha, gerente-técnico da Imerys, companhia de origem francesa, com quatro fábricas e quase dez jazidas espalhadas pelo Brasil.

Fornecedora de cargas minerais para as principais empresas de tintas, a Imerys mantém um portfólio ativo com seis tipos slurries, além de algumas variedades de produtos secos, esses negociados em quantidades bem mais modestas.

Já a Itatex, com fábrica em Campinas e sem nenhuma única jazida em seu poder – a empresa se abastece comprando matérias-primas em todo o território nacional –, é reconhecida no mercado pelas suas especialidades minerais vendidas em sacos de 25 quilos, cujo objetivo maior é agregar valor aos seus produtos e satisfazer os anseios individuais de cada um dos seus clientes.

Química e Derivados, Antonio Alonso Ribeiro, engenheiro, Cargas Minerais - Aditivos evoluem e ampliam funções nas tintas para além do simples enchimento
Ribeiro: caulins delaminados para tintas de altos sólidos

“O mercado procura cada vez mais aditivos minerais que desempenhem funções importantes como extender do dióxido de titânio, ajuste do brilho, facilidade de limpeza, dureza e permeabilidade do filme, controle de porosidade, ajuste da viscosidade, aumento da resistência química e propriedades elétricas”, afirma o engenheiro Antonio Alonso Ribeiro, diretor da Itatex.

Segundo ele, dentro dos mais de 160 produtos disponíveis na carteira da Itatex, os caulins modificados são os que representam a maior fatia. “Somos a única empresa da América Latina que domina as tecnologias de calcinação e tratamento superficial com organosilanos e ainda a delaminação controlada dos caulins.”

Na Imerys, o campeão de vendas é o slurry de carbonato de cálcio natural micronizado, mas a empresa destaca também os bons desempenhos obtidos com a comercialização de slurries de carbonato de cálcio precipitado, de caulim natural, de caulim calcinado e de mica.

Química e Derivados, Victor Trevisani e Leandro Bizarro, gerente-comercial e gerente-técnico da Imerys respectivamente, Cargas Minerais - Aditivos evoluem e ampliam funções nas tintas para além do simples enchimento
Trevisani(esq.) e Bizarro: slurry é um caminho sem volta

“Somente para o setor de tintas, negociamos atualmente em torno de 7,5 mil t/mês de aditivos minerais na modalidade slurry, quase tudo para o setor imobiliário”, afirma Victor Trevisani, gerente-comercial da companhia.

A empresa também fornece outras 12 mil t mensais de slurries para o segmento de papel.

Segundo Trevisani, a adoção da modalidade slurry na fábrica de tintas é um caminho sem volta. “Nossos clientes que já possuem parte de sua indústria operando com esse sistema têm como meta conseguir trabalhar com 100% das cargas nessa modalidade”, garante.

No entanto, nem todas as operações envolvendo a modalidade slurry se mostram competitivas para os fabricantes de tintas. O alto custo do transporte desses aditivos minerais já dispersos em água, que precisam ser carregados em caminhões-tanques, é a principal barreira para o uso desse sistema. Também é preciso levar em conta os gastos com armazenagem própria, já que essas cargas necessitam de tanques exclusivos instalados dentro da unidade fabril.

“No nosso caso, a entrega de carga na modalidade slurry é competitiva porque a maioria dos clientes está situada a um raio inferior a 100 quilômetros de distância da nossa fábrica, em Mogi das Cruzes-SP, o que reduz o gasto com frete”, afirma Trevisani.

“Na Região Nordeste, por exemplo, a distribuição desse tipo de carga é inviável, porque as plantas de tintas estão muito longe dos fornecedores do insumo, com distâncias superiores a 400 quilômetros”, compara.

Segundo Leandro da Rocha, porém, o sucesso de sua empresa na venda de slurries não está só atrelado à questão da distância.

“Nossa competitividade vem também do tamanho da nossa planta, o que nos permite trabalhar com grandes escalas e, assim, oferecer preços mais atrativos aos nossos clientes”, enfatiza o gerente-técnico. Segundo ele, o uso de slurries proporciona redução nos custos finais das tintas.

“Se uma indústria resolve optar por esse tipo de carga é porque de alguma forma ela terá vantagens em relação ao sistema seco”, pondera Rocha, lembrando que a adoção da modalidade slurry reduz o tempo de fabricação das tintas, por eliminar a operação de dispersão das cargas.

“O uso dessas cargas também ajuda a eliminar a sujeira de dentro das fábricas e contribui com o meio ambiente, pois evitam o despejo de materiais na atmosfera e de resíduos gerados pelas sacarias”, ressalta.

Embora a Imerys concentre seus esforços em operações logísticas que envolvem grandes quantidades de cargas, a empresa afirma estar comprometida com a busca de inovações tecnológicas, seguindo a tendência de mercado de se trabalhar com produtos voltados para desempenhos específicos.

“E o slurry é o melhor caminho para seguir esse conceito de performance, pois o sistema possibilita uma maior flexibilidade para se elaborar blendas multiminerais, processo no qual se busca aproveitar de cada minério o seu maior desempenho”, afirma Rocha.

Assim como a Itatex, a Brasclay tem como diferencial o desenvolvimento de produtos minerais de acordo com a necessidade do cliente. “Nosso laboratório trabalha sempre em conjunto com o laboratório dos nossos clientes”, afirma Ricardo Pereira da Silva, representante comercial da empresa, que tem escritório em São Caetano-SP, e fábrica e jazida em Tapiraí, interior paulista.

Há mais de cinquenta anos no mercado, a Brasclay especializou-se na produção de vários tipos de caulins, que atendem os setores de tinta, plástico, agroquímicos e de borracha. Na área de tintas, a Brasclay mantém uma importante parceria com a Eucatex, com o fornecimento de caulins especiais que conferem maior resistência mecânica ao produto. “A cada dois meses, entregamos, de caminhão, as nossas cargas em pó na fábrica da Eucatex em Salto, que fica situada mais ou menos a 100 quilômetros de distância de Tapiraí”, conta Pereira da Silva.

Nanotecnologia no Brasil – Há quem diga que a bola da vez no mercado brasileiro de aditivos minerais sejam as cargas nanométricas, tecnologia que manipula materiais em uma escala de tamanho muito pequena, geralmente da ordem de 1 a 100 nanômetros.

Carlos Russo, diretor da Adexim-Comexim, diz que a sua empresa está aumentando as vendas de carbonatos de cálcio e sulfato de bário nanométricos, produtos que são importados prontos da Espanha e da China.

Química e Derivados, Carlos Russo, diretor da Adexim-Comexim, Cargas Minerais - Aditivos evoluem e ampliam funções nas tintas para além do simples enchimento
Russo importa nanocargas da China e da Espanha

“Para quase todas as cargas que vendemos hoje, temos também no mercado suas versões nanométricas”, afirma Russo.

Segundo o diretor da Adexim-Comexim, a utilização de produtos com partículas em dimensões nanométricas oferece maior produtividade para o fabricante de tinta, além de melhorar as características físicas do produto, como resistência, permeabilidade, aderência e recobrimento.

“Paga-se mais por esse tipo de carga, mas em compensação, em vez de gastar sete, oito e até dez horas em processos de moagem, em alguns casos, não é preciso utilizar nem moinho, bastando apenas uma hora de dispersor”, ressalta Russo.

Segundo Russo, não há ainda no Brasil produtores de cargas nanométricas. “O produto mais fino produzido no país que eu conheço tem o tamanho de partículas de 1,6 micrômetro, enquanto as cargas importadas que oferecemos ao mercado possuem apenas 0,5 micrômetro”, comparou.

A Brasilminas não só aposta nas cargas nanométricas como também vislumbra produzi-las em breve em seu parque industrial de Guarulhos-SP.

uímica e Derivados, Marcelo Cunha, diretor-comercial da Brasilminas, Cargas Minerais - Aditivos evoluem e ampliam funções nas tintas para além do simples enchimento
Cunha quer nacionalizar produção de cargas em escala nanométrica

“Já estamos nos preparando para entrar na era dos nanominerais”, diz Marcelo Cunha, diretor-comercial da Brasilminas, sem revelar, porém, quando a empresa pretende ingressar comercialmente nesse mercado.

“Estamos fazendo pesquisas e desenvolvimento em laboratórios”, afirma. Segundo o executivo, a companhia já possui alguns equipamentos para a produção de materiais próximos aos nanométricos.

“Esperamos que o mercado e, principalmente, o segmento de tintas entenda a diferença em relação aos custos desta nova tecnologia em comparação ao dos materiais hoje existentes”, comentou.

Na visão de Cunha, a produção de cargas minerais em escala nanométrica é viável no Brasil. “Nós temos o principal aqui, que são as matérias-primas. A tecnologia você importa e depois aprimora”, afirmou o diretor da Brasilminas, para quem o futuro dos aditivos minerais está na nanotecnologia.

Enquanto não põe em prática esse projeto, a companhia concentra seus esforços na venda de seus aditivos existentes, como os carbonatos natural e precipitado, silicatos, sílicas, diatomita, barita, estearatos, areias e óxidos. “Temos uma linha de mais de 30 aditivos minerais, que se ramificam para cerca de 200 subprodutos em diferentes granulometrias”, afirma. “Também temos condições de blendar materiais e prestar serviços de moagem a terceiros”, acrescenta Cunha.

Apenas um sonho – Para muitas empresas que atuam no mercado brasileiro, o uso de carga em escalas nanométricas em tintas ainda é um sonho muito distante. “Fora do país, a Imerys já dispõe e vende essa tecnologia, mas acreditamos ser ainda inviável a sua aplicação comercial na América do Sul, ainda mais se for levado em conta o perfil da nossa empresa, que é o de vender grandes volumes”, afirma Leandro Bizarro da Rocha.

Mesmo as empresas que atuam com volumes menores e especialidades minerais descartam a aplicação da nanotecnologia no país. “Trata-se de uma tecnologia ainda muito cara para ser aplicada nos minerais utilizados pelas empresas brasileiras”, observa Bartholi, da Minérios Ouro Branco.

Para ele, as cargas ultrafinas, que passam por etapas de micronização e outros processos, já são suficientes para satisfazer as necessidades atuais dos fabricantes de tintas. “Temos hoje produtos de alta performance, com preços bem mais acessíveis que os aditivos nanométricos e que, eventualmente, quando bem aplicados, podem dar resultados bem mais eficientes”, afirma.

Elaine Luciano, da J. Reminas, compartilha essa opinião. “Nós chegamos à conclusão de que ainda não há a necessidade de um produto tão nobre assim como é o caso dos nanométricos”, diz ela. Controlada pelo grupo inglês Wallis Kallium, a J. Reminas desenvolve cargas nanométricas na Europa e, por isso, chegou a estudar há dois anos a viabilidade de sua aplicação no Brasil.

“Essa ideia foi arquivada depois de a empresa constatar que os fabricantes de tintas presentes no Brasil estavam satisfeitos com as tecnologias então disponíveis para as cargas minerais”, afirma a geoquímica.

Elaine Luciano disse que é possível oferecer ao mercado cargas bastante finas, que atendam plenamente às necessidades dos clientes, sem precisar partir para a nanotecnologia. “Basta micronizar a carga e depois passar o produto em um aeroseparador para conseguirmos um material com uma leveza tão grande, que chega a ser um produto amorfo”, explica.

Ao micronizar os minerais, as partículas se quebram, mas não em partes iguais. Por isso, a necessidade de aeroseparadores, que também usam a força do vento para separar e colher as partículas finas conforme a necessidade dos formuladores. “Hoje é possível produzir cargas dez vezes mais finas do que as elaboradas no começo da década de 2000”, comparou.

A Itatex também ressalta a importância dos processos de micronização dos minerais, que cumprem funções diversas nas tintas, eliminando, assim, a necessidade de produtos nanométricos. Segundo Antonio Alonso Ribeiro, engenheiro da empresa, a Itatex fabrica caulins delaminados ultrafinos, da ordem de 300 a 500 nm. Para o segmento automotivo, destaca Ribeiro, estes caulins são utilizados nas formulações de altos sólidos, que usam menor quantidade de solventes hidrocarbonetos.

“Outra função igualmente importante é que esses produtos delaminados controlam o brilho do revestimento seco e melhoram a sua lavabilidade, como resultado da interação das partículas ultrafinas com a resina”, acrescentou o engenheiro. Os caulins delaminados ultrafinos possuem um papel importante na preservação da condutividade elétrica dos banhos de pintura automotiva, sobretudo quando as composições contêm negro-de-fumo.

“Esses caulins são ainda ligeiramente ácidos e, por isso, evitam a formação de microgéis, seja durante o processo de fabricação e/ou durante a aplicação da tinta”, completa. Os caulins, continua Ribeiro, também são muito usados em tintas de impressão, pois, além de permitir o aumento do teor de sólidos da tinta e o controle do brilho, não interferem negativamente na nitidez da impressão”, diz.

Atendimento pós-venda – O atendimento especializado ao cliente também se tornou peça-chave para o sucesso das empresas que trabalham com cargas minerais. “Poucas companhias de tintas conhecem a fundo a aplicação correta dos minerais”, afirma José Carlos Bartholi, diretor da Minérios Ouro Branco.

“O uso incorreto de um aditivo na tinta pode comprometer todo o resto da formulação, encarecendo o produto e diminuindo a sua performance”, acrescenta o responsável pela empresa, que dedica grande parte do seu negócio à área de prestação de serviços personalizados aos seus clientes.

A J. Reminas criou, há dez anos, um departamento técnico voltado unicamente para esclarecer aos seus clientes as diferenças e as funcionalidades de cada carga mineral disponível no mercado.

“Antigamente, era comum alguns clientes ligarem para os locais de revenda de cargas e solicitar apenas um ‘material branco e fino’ qualquer. Hoje, estamos aqui para mostrar, por exemplo, as diferenças entre calcita, calcário e dolomita, produtos que muita gente ainda acha que é a mesma coisa”, exemplificou Elaine.

O suporte técnico, segundo ela, garante ainda integridade dos fornecedores de cargas, pois em muitos casos o problema verificado na tinta não está nas cargas. Por isso, muitas vezes, técnicos da J. Reminas acompanham o cliente até a sua linha de produção com o objetivo de verificar item por item da formulação. Depois, verificam se houve alteração em algumas das matérias-primas enviadas por outros fornecedores.

“Às vezes, trata-se de uma tinta ruim mesmo, que precisa ser totalmente reformulada, mas o fabricante não tem um químico para fazer esse trabalho e, por isso, acaba utilizando os nossos técnicos, o nosso laboratório”, afirmou.

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