Carbono e o Destino da Amazônia – ABEQ

Olá, leitoras e leitores. Em 2021, este espaço discutiu as opções para captura, estocagem e utilização de gás carbônico (CCUS, na sigla em inglês), considerando a necessária diminuição da concentração de gases de efeito estufa (GEE, ou GHG em inglês) para desacelerar o aquecimento global antropogênico e as mudanças climáticas advindas desse aquecimento.

No momento em que escrevo este texto, as notícias sobre alagamentos, com mortes e prejuízos, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina se acumulam. Cidades inteiras foram destruídas. No último dia de setembro, Nova Iorque, a cidade que nunca dorme, perdeu sua cama na enxurrada, como se fosse um personagem de Adoniran Barbosa. Se alguém ainda tinha dúvidas, CEP e saldo bancário não vão proteger ninguém das consequências trágicas das mudanças climáticas.

Naquele texto de 2021, citei os dados mais atuais que o SEEG do Observatório do Clima disponibilizava sobre as emissões de GEE do Brasil, e concluí o texto escrevendo que “a captura geológica de CO2 é praticamente uma prerrogativa da indústria de óleo e gás, ou das usinas termoelétricas.

A captura por meio do reflorestamento seria mais simples. O Brasil se comprometeu com reflorestamento de 12 milhões de hectares. (…) se o Brasil por meio de sua indústria (química) recuperasse muitos hectares da nossa vegetação nativa por ano, certamente produtores nacionais e subsidiárias locais de multinacionais teriam um trunfo contra seus pares internacionais”.

Pois bem, o SEEG atualizou os nossos dados de emissão de GEE até 2021. De 2016 para 2017, quando reduzimos nossas emissões devido ao combate ao desmatamento (ilegal!) e o nosso total de emissões de GEE, foi o último ano em que tivemos algum progresso na área. Desde então, poluímos cada vez mais (Tabela 1).

Carbono e o Destino da Amazônia - ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto
Tabela 1 – Emissões brasileiras de GEE em toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e) por ano

Tabela 1 – Emissões brasileiras de GEE em toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e) por ano

Como signatário do Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu em reduzir as emissões de GEE em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, e 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030. No entanto, em 2021 emitimos 90% do total emitido em 2005. Ainda emitimos menos GEE em agropecuária e desmatamento do que em 2005, mas em todas as outras categorias emitimos mais do que em 2005. E desde 2011, aumentamos nossas emissões de carbono por agropecuária (10% a mais) e desmatamento (81% a mais).

Em 2021, 49% das nossas emissões de carbono foram devido ao desmatamento e 25% foram devido a agropecuária. Como toda terra desmatada acaba virando pasto, principalmente, ou lavoura, nossos concorrentes internacionais na produção de alimentos não hesitam em apontar nossa agropecuária como sendo a responsável pelo desmatamento da Amazônia. Não estão de todo errados.

CCS – as opções geológicas

Nem tudo é má notícia, porém. No texto de 2021, escrevi que havia apenas um projeto de reinjeção geológica de gás carbônico no Brasil, administrado pela Petrobrás para recuperar mais petróleo no campo de Lula. As pesquisadoras Daniela Costa e Suzana Borschiver, da Escola de Química da UFRJ, escreveram em agosto deste ano sobre as oportunidades e desafios do Brasil para a expansão da captura de carbono, e destacaram o novo projeto de CCS da Petrobrás em Macaé -RJ no início deste ano, com capacidade de capturar 100 mil t/ano de CO2.

Segundo as autoras, um levantamento de mais de 10 anos indica que o Brasil teria um potencial teórico para armazenar 2035 bilhões de t de CO2 em campos de óleo e gás, reservas de carvão mineral e aquíferos salinos. No entanto, precisaríamos de estudos mais detalhados sobre os reservatórios, de forma a construir um mapa brasileiro das áreas de armazenamento geológico, para conhecer a capacidade nacional de estocagem subterrânea de CO2, além de permitir a conexão entre as fontes de emissão e as áreas de armazenamento, minimizando as dificuldades logísticas da operação.

As pesquisadoras ainda apontam que se todos os projetos de CCS no Brasil fossem postos em funcionamento teríamos uma capacidade de reinjeção de 190 milhões de t de CO2, ou 8% do nosso total de emissões de GEE. Considerando o preço do crédito de carbono de US$ 70, isso representaria cerca de US$ 14 bilhões em receitas para o Brasil por ano. Contudo, este potencial depende de um marco regulatório para CCS no Brasil, proposto pelo Projeto de Lei 1.425/2022 em tramitação no Congresso Nacional.

Breve explicação: um crédito de carbono corresponde à remoção de uma tonelada de gás carbônico equivalente (CO2e) da atmosfera por qualquer meio. Créditos de carbono são negociados em bolsa. Hoje em dia, o preço de um crédito de carbono na Europa está em torno de US$ 90.

Cara, só deixa a Amazônia quieta

Carbono e o destino da Amazônia não é um título meu (claro!), mas de um artigo dos economistas Juliano Assunção e José Alexandre Scheinkman publicado na CPI (Climate Policy Initiative) há poucos dias. É um texto brilhantemente escrito, que chega a uma conclusão impressionante.

Como já escrevi logo acima, sabe-se que metade das emissões de gases de efeito estufa emitidos pelo Brasil se devem ao desmatamento ilegal e que a agropecuária responde por outros 23%. Como toda área desmatada no Brasil acaba virando pasto (de baixa produtividade!), seria possível concluir que a pecuária é a grande responsável pelo desmatamento no Brasil, e é dessa consideração que parte o trabalho dos autores.

O trabalho conclui que, na ausência de um mecanismo robusto de pagamento pelo carbono florestal, mesmo com os esforços existentes de combate ao desmatamento, ainda haveria incentivos para o aumento do desmatamento pela expansão da pecuária até o ponto de não-retorno da cobertura vegetal, em menos de duas décadas, emitindo aproximadamente 32 bilhões de toneladas de CO2 ao longo dos próximos 30 anos. Contudo, se o Brasil recebesse ao menos US$ 20 por tonelada de CO2 capturado por conta da recuperação natural da floresta, haveria um custo de oportunidade para o desmatamento suficiente para superar os ganhos projetados com a pecuária. Nesse cenário, o efeito combinado do carbono capturado pela restauração florestal em larga escala, com o desmatamento evitado (emissão evitada) é de, aproximadamente, 48 bilhões de toneladas de CO2 nos próximos 30 anos – 16 Gt CO2 provenientes do restauro florestal natural e outras 32 Gt CO2, do desmatamento evitado.

Em outras palavras, o que o estudo de Assunção e Scheinkman mostrou é que se o preço (valor líquido, na verdade) da tonelada de CO2 equivalente capturado for igual ou maior do que US$ 20, a regeneração natural de quase toda a Amazônia Legal seria mais rentável do que a pecuária. Hoje, o crédito de carbono, equivalente a uma tonelada de CO2e, é negociado a US$ 90 na Europa. Ou seja, se o Brasil parasse de desmatar e deixasse toda a Amazônia Legal “quieta”, se regenerando naturalmente, o faturamento com créditos de carbono superaria muito o faturamento da pecuária na região. Em números, US$ 320 bilhões em 30 anos, se o preço do crédito de carbono se mantivesse em US$ 20.

É importante explicar um pouco melhor, os autores consideram apenas a capacidade de regeneração comprovada da Amazônia. Ou seja, deixar a floresta quieta. Claro que projetos de reflorestamento acelerariam a recuperação, mas custariam mais caro. Também é possível o reflorestamento de outros biomas, como a Mata Atlântica. Os autores também se limitam à pecuária praticada nas fronteiras da Amazônia Legal, com a sua baixa produtividade. Neste espaço, já escrevemos sobre estudo da Embrapa que mostra que seria possível dobrar a produtividade média da pecuária do Brasil. Ou seja, o Brasil não precisa de pasto na Amazônia Legal para continuar produzindo carne. Para fins de comparação, o valor bruto da pecuária no Brasil foi de R$ 374 bilhões em 2022.

A receita está disponível. A regulamentação do CCS no Brasil, associada a linhas de crédito exclusivas no BNDES, e o não-uso (não-uso!) da Amazônia poderiam render ao país em valores de hoje, US$ 90 por crédito de carbono, US$ 63 bilhões, ou R$ 300 bilhões por ano. Dá para escrever de outro jeito também: considerando o preço do crédito de carbono atual, o Brasil queima R$ 240 bilhões por ano.

O papel da Engenharia Química na transição energética, desfossilização e circularidade da economia

Na semana passada ocorreram, entre os dias 1 e 5 de outubro, o 24º Congresso Brasileiro de Engenharia Química (Cobeq), e o 19º Encontro Brasileiro sobre o Ensino de Engenharia Química (Enbeq), ambos realizados pela Abeq (Associação Brasileira de Engenharia Química) e organizados pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), Senai Cimatec e Universidade de Salvador (Unifacs). Anunciei esses eventos mais de uma vez neste espaço, e é importante relatar tudo de relevante que lá ocorreu nesses dias.

Carbono e o Destino da Amazônia - ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto
Secretário Inácio Arruda abriu o encontro

Estiveram reunidas mais de 950 pessoas no Centro de Convenções do Fiesta Bahia Hotel em Salvador-BA. Os eventos foram patrocinados por empresas como Acelen, Supergasbras SHV Energy, Braskem, Confea e CFQ. Havia estandes do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico, da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, do Programa de Engenharia Química da Coppe-UFRJ, e de empresas como Eppendorf, Infors HT, Shimadzu, TNS Tennessine e Up Control, discutindo o papel da Engenharia Química na transição energética, desfossilização e circularidade da economia, e questões como a curricularização da extensão, a implantação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) nos cursos de Engenharia Química do Brasil, o ensino baseado em competências, a acreditação e certificação dos cursos de Engenharia Química no Brasil. Reunimos em uma mesma palestra Confea e CFQ para discutir o ensino de Engenharia Química.

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico
André Bernardo é Engenheiro Químico

Palestra de abertura foi proferida pelo Secretário de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social (Sedes), Inácio Arruda. Ao longo do evento, pesquisadores da Alemanha falaram sobre o gerenciamento de eletrolizadores movidos a eletricidade solar ou eólica para produção de hidrogênio verde e os desafios da produção de químicos pela reciclagem química. A reciclagem química de materiais plásticos foi tema da palestra do professor José Carlos Pinto, homenageado no evento. Pesquisadores do Reino Unido e Portugal apresentaram opções de enriquecimento de biometano, produção de GLP renovável, e tecnologia de tratamento avançado de efluentes líquidos. Representantes da indústria química discutiram greenwashing e produção de hidrogênio renovável. Pesquisadores brasileiros falaram de Ecologia Industrial, Governança Energética e Reindustrialização.

Imagens do Evento: abertura, fala do Secretário Inácio Arruda do MCTI, fala do diretor presidente da ABEQ André Bernardo, encerramento, com premiação dos melhores trabalhos e homenagem ao Professor José Carlos Pinto da Coppe-UFRJ (na foto também o comitê organizador dos eventos), apresentação de trabalho do dr. Leonardo Silva de Souza, da UFBA, coffee-break com apresentação musical.

Inúmeros trabalhos foram apresentados como pôsteres ou em apresentações orais nas áreas de

  • Petróleo, Gás e Biocombustíveis
  • Engenharia Ambiental e Tecnologias Limpas
  • Termodinâmica e Separações
  • Processos Biotecnológicos
  • Reações Químicas e Catálise
  • Materiais e Nanotecnologia
  • Fenômenos de Transporte e Sistemas Particulados

Quem se interessa pelo avanço da Engenharia Química ou pelo progresso da Indústria Química no Brasil tem que estar no Cobeq. Quem se preocupa com a qualidade da formação dos engenheiros químicos do Brasil tem que estar no Enbeq. Até 2025, em Belo Horizonte.

Referências

“Carbono e o Destino da Amazônia”. CPI, https://www.climatepolicyinitiative.org/publication/carbon-and-the-fate-of-the-amazon/. Acessado 10 de outubro de 2023.

“CCS: as oportunidades e desafios do Brasil para a expansão da captura de carbono”. agência epbr, 25 de agosto de 2023, https://epbr.com.br/ccs-as-oportunidades-e-desafios-do-brasil-para-a-expansao-da-captura-de-carbono/.

Emissões Totais | SEEG – Sistema de Estimativa de Emissão de Gases. https://plataforma.seeg.eco.br/total_emission#. Acessado 10 de outubro de 2023.

O AUTOR

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e Doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do departamento de Engenharia Química da UFSCar. contato: [email protected]

Química e Derivados -

ABEQ

A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.

Mais informações: https://www.abeq.org.br/

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