Camaçari: O grande pólo da Bahia pensa ainda em crescer mais

Ao festejar seu jubileu de prata, o pólo de Camaçari confia no potencial do Nordeste para acelerar o ritmo de expansão

Química e Derivados: Camaçari: camacari_abre.Sob a regência política do presidente Ernesto Geisel, o 2° Pólo Petroquímico foi criado para desenvolver a Bahia e o Nordeste – mas agora, 25 anos depois, está na dependência de que a Bahia e o Nordeste se desenvolvam para assegurar sua própria prosperidade.

“O Nordeste é a região do Brasil que mais crescerá nos próximos 25 anos, e é este crescimento que vai assegurar a dinâmica do pólo”, põe fé o vice-presidente de relações institucionais da Braskem, Alexandrino Alencar. “Nós vamos assistir no Nordeste um grande processo de agregação de valor, a Bahia deixará de ser Estado exportador de resinas para ser, em amplo sentido, exportador de produtos acabados”, profetiza.

Esta visão está associada à inevitabilidade da desconcentração industrial, que já levou para a Bahia o complexo da Ford e a fábrica da Monsanto, e principalmente ao sucesso de atividades que já encontraram condições excepcionais para formar clusters no Nordeste. São exemplos, na própria Bahia, entre outros, a agroindústria florestal e de celulose, os grandes projetos de turismo e hotelaria, a fruticultura irrigada no Vale do São Francisco, a agricultura no cerrado (soja e algodão), a ressurreição da cacauicultura, e o despertar da caatinga, onde a caprinocultura e outras atividades antes incipientes estão adotando novos métodos e viabilizando a versão regional da pequena propriedade que sustentou o desenvolvimento dos Estados sulistas.

A iminência de uma política industrial com um capítulo específico para a região, e a anunciada volta da Sudene focada no desenvolvimento do semi-árido, ampliam a boa expectativa. A convicção de que não é mais possível prescindir de políticas públicas consistentes, que realmente superem as questões das disparidades regionais e do agravamento social, conta positivamente, juntamente com uma certeza: aqui a expansão no consumo de plásticos, justamente por partir de uma base acentuadamente menor tende a superar à média nacional de duas vezes e meia a variação do PIB.

Investir na expansão do 2° Pólo Petroquímico para assegurar crescentes ganhos de escala é ir ao encontro desta futura realidade, pretensão que exige inicialmente, no âmbito da Braskem, a superação de dois desconfortos estratégicos, os situados, precisamente, logo antes e depois da produção. Logo antes, há a questão do suprimento de nafta; logo depois há o desconforto maior, justamente a até hoje renitente ausência de mercado local para a maior parte das resinas.

Suprimento – A construção de uma refinaria, com participações da Petrobrás e da Braskem, seria a solução mais lógica para assegurar o suprimento de nafta e outras matérias-primas, nas melhores condições de preço, qualidade e segurança, mas a possível execução de tal empreendimento depende, antes de tudo, da atitude que a Petrobrás adotar em relação à petroquímica. A prevista volta da Petroquisa à condição de investidor crescente, sem deter controles majoritários, mas assumindo papel relevante na co-gestão, como pleiteia a própria Braskem, seria incluída nesse tabuleiro.

Dependeria também de a Braskem acumular reservas e liquidez para garantir a contrapartida no capital, objetivo que passa pela amortização da dívida de R$ 5,6 bilhões (70% em dólar), correspondente a pouco menos da metade do valor dos ativos. Segundo previsão feita pelo presidente José Carlos Gubrisich em março, na apresentação do primeiro balanço anual, significativa amortização da dívida será alcançada nos próximos cinco anos.

Atualmente, o suprimento de nafta depende de importações do exterior, que já foram maiores e no primeiro trimestre representaram 23% da carga total de 857 mil t., e também das transferências que a Petrobrás faz de Duque de Caxias-RJ (Reduc) para. complementar o fornecimento da refinaria local, a Relam.

Química e Derivados: Camaçari: Silveira - gás natural pode aumentar competitividade.
Silveira – gás natural pode aumentar competitividade.

A idéia da refinaria não é nova. Há precisos cinco anos, em reportagem de Química e Derivados de junho de 1998 (edição 361) pautada no 20º ano do 2° Pólo, o superintendente da então Copene, Marco Antônio Ebert, revelou que já havia, preliminarmente, uma avaliação técnica e econômica. A refinaria, ao custo estimado de 800 milhões de dólares, poderia ser em Mataripe, no sítio da Landulfo Alves, ou no próprio Pólo, a 30 quilômetros. Responderia por cerca de 50% da demanda de nafta já ampliada (5 milhões t/ano) em função da cogitada instalação da terceira unidade de craqueamento, que elevaria de 1,2 milhão t/ano para 1,8 milhão t/ano a produção de eteno. Dois processos estavam sendo considerados: coqueamento retardado do resíduo a vácuo, ou hidrocraqueamento do gasóleo de vácuo. “O processo de hidrocraqueamento realmente consome quantidade expressiva de hidrogênio, porém permite produzir matérias-primas e combustíveis de excelente qualidade” justificou, na mesma matéria, um engenheiro da Copene. A refinaria supriria também os processos que exigem óleo, gases, combustíveis e coque de petróleo. Tudo isso estava vagamente previsto para estar materializado em 2003.

A condição de empresa que negocia ADRs na Bolsa de Nova York não permite especular, alega a Braskem para não comentar a fundo a questão do suprimento. Revela apenas que tal questão passa, primeiramente, pelo aproveitamento de gases de refino da Relam. Alexandrino Alencar confirma, sem prever data, que a instalação do terceiro cracker, “fator altamente estratégico”, está nos estudos preliminares que indicarão as alternativas de crescimento.

Há, também, a possibilidade de o gás natural fazer parte de um mix de suprimento, hipótese considerada interessante pelo ex-superintendente da Copene, Ary Silveira, hoje atuando como consultor e técnico em desenvolvimento. Silveira acredita que a soma das históricas reservas de gás do Recôncavo, correspondentes a 30 bilhões de m³, com o gás descoberto em 2000 na Bacia de Camamu, ao Sul do Recôncavo, avaliado em 20 bilhões a 25 bilhões de m³, poderá garantir suprimento diário de 10 milhões de m³ à Região Metropolitana de Salvador, dos quais um volume na ordem 800 mil m³ (8%) seria a fração do etano, cujo craqueamento resulta, quase exclusivamente, em eteno. Ele valoriza: “Seria mais um fator de vantagem da Braskem”.

Haveria então etano suficiente para 250 mil t/ano de eteno, sem a contrapartida de serem produzidos co-produtos que tendem a ser gravosos, como alguns aromáticos e olefinas mais pesadas resultantes da nafta. A Copene dispõe de flexibilidade na pirólise para craquear diferentes matérias-primas, incluindo o gás. Teria apenas de construir uma estação para separar etano das outras frações.

Em função do gás da Bacia de Camamu, onde ainda está concluindo os estudos, a Petrobrás anunciou investimento de 250 milhões a 350 milhões de dólares na produção do gás e implantação de 110 quilômetros de gasoduto, até São Francisco do Conde, na Grande Salvador.

Mercado local – A ausência de mercado local para a maior parte das resinas é causa do “turismo molecular”, como na Bahia chama-se a descida, até as fábricas de transformação localizadas no Sudeste, a bordo de caminhão, trem e navio, de cerca de 75% do volume destes petroquímicos de segunda geração, parte do qual volta para o Nordeste transformado em embalagens e produtos de consumo. O custo deste “turismo”, nos bons tempos desconsiderado e simplesmente somado ao preço final, hoje é acentuadamente gravoso – representa na descida 5% a 6% da receita, percentual não raramente superior ao lucro pós-Imposto de Renda.

Química e Derivados: Camaçari: Mascarenhas - erros estratégicos afugentaram transformadores.
Mascarenhas – erros estratégicos afugentaram transformadores.

Cogitar de mercado local e lamentar o turismo molecular eram atitudes incompatíveis com a dinâmica do 2° Pólo até o começo da década passada, quando a política quase xenófoba de substituir importação a qualquer preço assegurava, tonelada por tonelada, o melhor mercado do mundo para as resinas, em ambiente de oligopólio acrescido de intransponível barreira aduaneira para barrar excedentes do Primeiro Mundo. As regras de formação de preço, estabelecidas ou homologadas pelo Conselho Interministerial de Preços, asseguravam o retorno do investimento em seis anos, uma ofensa às leis do mercado, hoje impraticável. Era o “preço esquerdista” – a conta era da esquerda para a direita: somavam-se todos os custos e acrescentava-se a pretendida margem. Naquela situação de forte demanda, pouco importava aos acionistas, a começar pela Petroquisa, se havia ou não empresas de transformação no entorno do 2° Pólo. Tal sentimento prevaleceu até a abertura para o exterior, no governo Collor.

Um dos empreendedores do Pólo, pelo lado do governo baiano, José de Freitas Mascarenhas, hoje diretor da Abiquim e da Odebrecht, reconhece esta realidade e admite que faltou espírito de previdência. Poderia ter ocorrido um esforço baseado no suprimento de resina, a preço bonificado, para atrair empresas de transformação.

Expansão – Entre os desdobramentos de negócios que são considerados pela Braskem no âmbito do novo modelo de produção verticalizada, o mais apontado preconiza a instalação de uma unidade de ácido tereftálico (PTA) em Camaçari, a peça que falta para viabilizar a produção de poliéster e impulsionar a formação do pólo têxtil, um imaginado cluster que aglutinaria fábricas de fios, tecidos planos, malharias, confecções, etc.

As matérias-primas do PTA, o paraxileno e o monoetileno glicol (MEG), já são produzidas localmente, o primeiro na Braskem, que supre com parte desse aromático sua própria produção de 60 mil t/ano de poliéster grau embalagem (PET); e o MEG, na Oxiteno (Grupo Ultra). À jusante, o pólo têxtil se apoiaria também na florescente cultura do algodão do cerrado, a fronteira agrícola. “A Bahia voltou a ser grande produtor de algodão e a qualidade só é comparável ao egípcio”, ressalta Ary Silveira. Neste ano, serão colhidas 100 mil toneladas. Ressalta também que a demanda de poliéster grau têxtil não atendida é superior a 300 mil t/ano. “Ou seja, equivale a uma planta de porte mundial”.

A região, precisamente o eixo Bahia-Alagoas, onde se produz a maior parte do PVC, reúne as melhores condições para a formação de um pólo cloroquímico

Estireno – Mas a expectativa mais imediata que há em Camaçari refere-se à possível formação da joint-venture entre a Dow Química e a Basf para a implantação de uma planta de estireno, investimento de 250 milhões de dólares, que pode ficar em Camaçari, São Paulo ou Rio Grande do Sul, a depender das negociações com a Braskem e outros supridores de matéria-prima. Seria uma planta de 500 mil t/ano, escala que exige 370 mil t/ano de benzeno, aromático disponível na Braskem, e 120 mil t/ano de eteno.

Já no horizonte próprio de expansão da Braskem, confirmou em março o presidente José Carlos Grubisich, há o projeto de construção de uma fábrica de polipropileno, que pode ser em Camaçari ou no interior de São Paulo, a depender dos estudos de viabilidade.

Há também a possibilidade de a Braskem, que herdou da Copene autorização para comercializar a gasolina que produz na condição de subproduto, em vez de devolvê-la para a refinaria, criar uma distribuidora com sua própria marca, que ocuparia 20% do mercado local.. “É uma possibilidade”, admitiu Grubisich.

ENTREVISTA

Química e Derivados: Camaçari: Carlos Eugênio Bezerra de Menezes
Carlos Eugênio Bezerra de Menezes

Cetrel expande operações ambientais para o Sudeste

Enquanto não dispuser dos excedentes de hidrocarbonetos que poderão no futuro proporcionar vantagem comparativa no item dos recursos naturais, a competitividade da petroquímica no Brasil depende mais de recursos artificiais como fator de atração. No 2° Pólo, quem responde mais por esse item é a empresa de proteção ambiental, a Cetrel, cuja eficiência é reconhecida por empresários e técnicos. Para o superintendente Carlos Eugênio Bezerra de Menezes (foto), o destaque da Cetrel é a capacidade de atuar como fator de atração de empreendimentos.

Q&D – Como o senhor avalia o padrão de proteção ambiental praticado no 2° Pólo?

Bezerra de Menezes – Quanto à questão ambiental, a situação do 2° Pólo está alinhada às práticas dos complexos petroquímicos mais avançados, a exemplo dos pólos da Basf e Hoechst. Nestes 25 anos, a Cetrel passou por constante processo de atualização nos seus sistemas de gestão operacional, conferindo ao 2° Pólo o estado da arte na área de proteção ambiental. Ao longo desse tempo, vem se atualizando em todos os campos da engenharia ambiental.

Q&D – A Cetrel pesou decisivamente na localização de quais empresas?

Bezerra de Menezes – Entendo que a Cetrel é fator estratégico e relevante para captar investimentos nos mais diversos segmentos industriais. Além de empresas da petroquímica, indústrias de outros segmentos aqui se instalaram considerando as vantagens proporcionadas pela estrutura de proteção ambiental. São exemplos uma metalúrgica, a Caraíba Metais; uma fábrica de celulose, a Bacell; a Cervejaria Antartica; uma indústria química, a Monsanto; e a Ford. O 2° Pólo Petroquímico tende a ser também o diversificado pólo industrial de Camaçari.

Q&D – A Cetrel, que já atua em outros Estados, tem planos de crescer além dos limites de Camaçari?

Bezerra de Menezes – Nos recentes três anos, a Cetrel foi muito requisitada para prestar serviços fora de Camaçari, dada a alta qualificação do corpo técnico e da tecnologia que detém em todas as áreas da engenharia ambiental. Nesses três anos, cresceu a taxas de 30% a 40%, o que nos levou a uma mudança no planejamento estratégico e indicou a necessidade de constituir a filial São Paulo para prestação de serviços nas áreas de consultoria, análise laboratorial, incineração, disposição de resíduos da classe 2, e monitoramento do ar e também na investigação e remediação de áreas degradadas, ramo em que a Cetrel já atua de maneira extremamente forte em todo o território nacional. A Cetrel já formou uma carteira com mais de mil clientes, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, com forte presença no Sudeste. E tem o privilégio de ter em sua carteira empresas como Embraer, Shell, Esso, Petrobrás e Vale do Rio Doce, dentre outras.

Q&D – E em Camaçari, como tem atuado e crescido?

Bezerra de Menezes – Na última década, os investimentos nos sistemas de efluentes orgânicos alcançaram 100 milhões de dólares. A capacidade foi duplicada, hoje é de 148 mil m³/dia. O sistema de disposição oceânica, para onde esses efluentes são conduzidos depois do tratamento pelos lodos ativados, é constituído de um emissário terrestre de 11 quilômetros e de um emissário submarino de 5 quilômetros mar a dentro, à profundidade de 25 metros. A empresa faz anualmente duas campanhas oceânicas, em conjunto com o Conselho de Recursos Ambientais (CRA) e o Instituto de Biologia da UFBA, para checar o ecossistema marinho na zona de influência do emissário. As campanhas permitem garantir não haver qualquer impacto ambiental. Lembro também que em Camaçari há o maior programa de monitoramento e gerenciamento de águas subterrâneas do País e para isso furamos mais de 700 poços, além dos 26 postos de extração que formam a barreira hidráulica que permite conferir a qualidade da água no lençol freático e nos seis rios que banham a região. Dispomos do maior parque de incineração do Brasil, composto por três incineradores: um de líquidos organoclorados, com capacidade de 10 mil t/ano; um de sólidos, para resíduos classe 1, com capacidade para 4.400 t/ano; e um terceiro para borras oleosas, com capacidade para 36 mil t/ano. A Cetrel é a única empresa no Brasil que dispõe de um parque de incineração com essas dimensões. Há ainda uma área de 80 hectares para aterros industriais, com capacidade de 100 mil t/ano, onde são dispostos os sólidos inertes.

Q&D – Recentemente foram anunciados investimentos no sistema de monitoramento do ar…

Bezerra de Menezes- A rede de monitoramento do ar, que demandou investimentos de 2 milhões de dólares, é composta de duas estações fixas, um radar acústico e sistema de telemetria. Monitoramos a qualidade do ar no pólo e áreas circundantes, em tempo real. O Pólo é o único complexo industrial no Brasil que dispõe de uma rede de equipamentos de última geração para monitorar o ar. Estamos fazendo o up-grade nessa rede, mediante investimento de 600 mil dólares. A Cetrel também se orgulha de representar no Brasil a Lakes Environmental, empresa canadense líder mundial na área de monitoramento do ar que detém e desenvolve diversos softwares nessa área. Todos esses sistemas são certificados pelas normas ISO 9002 e o ISO 14001. Fomos a primeira empresa ambiental do mundo a obter a ISO 14000 e a OHSAS 18001, que trata da segurança, higiene e saúde ocupacional.

Q&D – Como avaliar as atividades do laboratório?

Bezerra de Menezes – Temos, hoje, o mais completo e moderno laboratório do País nas áreas de monitoramento e diagnóstico ambiental, certificado pela norma ISO 17025, o que confere padrão de confiabilidade nas análises e ensaios. É composto de laboratórios de ensaios físico-químicos, biologia, óptica, cromatografia gasosa, cromatografia iônica e caracterização de resíduos. Muitos dos nossos ensaios e análises estão credenciados pelo Inmetro pela norma IS0 17025.

Q&D – Como a Cetrel está se preparando para a onda da tecnologia limpa?

Bezerra de Menezes – A Cetrel já desenvolve em Camaçari um forte programa em busca de tecnologias mais limpas. Acreditamos que o mercado da tecnologia limpa é o que mais crescerá nesta primeira década, pois a água já constitui um dos maiores problemas da humanidade, considerando que hoje cerca de 1,5 bilhão de pessoas não tem acesso à água potável. Temos, formalmente, algumas alianças estratégicas com as principais empresas do mundo na área da engenharia sanitária, a exemplo da DHV, da Holanda, com 3 mil empregados, dos quais 2 mil com formação em engenharia e atuação na área da água. Estamos observando nos últimos anos uma redução relevante na carga de efluentes orgânicos recebidos na estação de tratamento.

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