Caldeiras: Previsões otimistas contam com várias justificativas

Necessidade de renovação das linhas antigas, termoelétricas e ampliações em papel e celulose fazem crescer o volume de pedidos nas caldeirarias

Química e Derivados: Caldeiras: Gerador de vapor por recuperação térmica da Mitsubishi, instalado no Japão.
Gerador de vapor por recuperação térmica da Mitsubishi, instalado no Japão.

Se depender das expectativas dos empresários brasileiros do setor de caldeiraria, 2002 será um ano promissor, compensando a queda de 5% nas vendas de geradores de vapor registrada em 2001. No ano passado, foram vendidas 60 caldeiras, divididas em cinco de recuperação química, 21 compactas (acima de 35 toneladas/hora), 16 de força e 18 de recuperação de calor. Os motivos para o mau desempenho foram a retração do mercado por causa da crise cambial, a oscilação político-econômica na Argentina, os atentados terroristas contra os Estados Unidos e a crise energética no Brasil. Além desses problemas, o País não colocou em prática todos os investimentos prometidos em termoelétricas.

Química e Derivados: Caldeiras: Cabral - tarifas incertas adiam conversões para gás.
Cabral – tarifas incertas adiam conversões para gás.

Os geradores de vapor representam aproximadamente 9% do faturamento de toda a indústria nacional de máquinas e equipamentos, segundo estimativa do vice-presidente da Câmara Setorial de Projetos e Equipamentos Pesados e Infra-estrutura, da Associação Brasileira de Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), João Bosco Cabral.

Como as vendas setoriais foram de R$ 30,1 bilhões em 2001, as caldeiras sozinhas representariam quase R$ 900 milhões. No ranking brasileiro das indústrias que mais venderam caldeiras do tipo aquatubulares compactas acima de 35 toneladas ficaram a CBC, com 58%; Confab, com 10,5%; Aalborg, com 15,5%; H. Brummer, com 0,5%; e os 15,5% restantes entre empresas menores.

A Aalborg foi responsável por 70% das vendas das flamotubulares e a americana Foster Wheeler, que opera atualmente no Brasil, comandou o mercado com a venda de caldeiras de força. Ela ganhou o projeto da planta da Alunorte, no Pará. Vendeu uma Power Boiler de 250 toneladas, para queima de orimulsion (óleo de natureza pobre, com muita sujeira, borra e água). Outro projeto conquistado pela Foster Wheeler foi uma caldeira de energia de 80 toneladas para termoelétrica vendida à VCP.

Atualmente, o tipo de caldeira mais procurada no País é a de recuperação de calor em processos de geração termoelétrica, devido ao alto custo de implantar novas hidroelétricas e a prioridade de geração de energia usando o gás da Bolívia.

Química e Derivados: Caldeiras: Rodrigues quer maior oferta de gás nacional.
Rodrigues quer maior oferta de gás nacional.

Pontos negativos – Pesquisa realizada pela Abimaq, sobre os efeitos do racionamento de energia no País, mostrou que a partir do primeiro semestre o setor passou a enfrentar alguns problemas, como a queda nas encomendas e contratos, solicitação de adiamento na entrega de pedidos em carteira, aumento nos custos de insumos, componentes e outros materiais e, finalmente, a diminuição da atividade no segundo semestre, invertendo a tradicional sazonalidade do setor.

Ainda assim, de acordo com João Bosco Cabral, também gerente comercial da Aumund Ltda., o Brasil tem um índice de produção razoável diante do mercado internacional. “Na América do Sul nosso País está em primeiro lugar e ganhamos competitividade no mercado externo”, garante Cabral.

Desde a década de 70, depois de inúmeros altos e baixos, 1999 foi o ano da virada. O aquecimento do mercado, na opinião de Cabral, foi significativo. Surgiram investimentos na siderurgia, petróleo e gás, papel e celulose, este com crescimento de mais de 100% e no qual a expectativa é bastante positiva. Se levar em conta que a matriz energética de um país industrial é um dos itens mais importantes e, no momento em que o risco de faltar energia é iminente, o uso do gás natural simboliza um novo tempo, tanto para quem vai utilizá-lo, como para as indústrias de caldeiras. Na opinião de Cabral, muitas empresas não se sentem seguras para trocar sua fonte de energia tradicional, óleo ou outro combustível, como o carvão, por gás.

Para ele, o entrave ainda está na questão da tarifação. Concorda com o vice-presidente da Abimaq o assistente comercial e de marketing da CBC Indústrias Pesadas Rodolfo Rodrigues.

“É preciso acabar com a dependência que temos hoje do gás da Bolívia. A Petrobrás precisa garantir a produção desse combustível”, alerta Rodrigues. Para Yusuke Honda, da Aalborg, o uso do gás está em crescimento e em escala positiva. “Hoje representa algo próximo a 40% das caldeiras vendidas. Há cinco anos esse número era em torno de 20% a 25%, apenas”, acentua Honda.

Porém, ele concorda com Cabral no que diz respeito ao custo. Na sua opinião, muitos ainda resistem, ou optam pelo uso da lenha, em função dos freqüentes aumentos nos preços de óleo e do gás natural.

Cabral explica que o impacto com a crise energética foi muito maior que o imaginado. Ele afirma que a indústria de base já havia desenvolvido, ao longo dos anos, soluções para redução do consumo de energia no seu processo interno. “A única forma encontrada para se alcançar a meta foi diminuir a produção”, lamenta.

Mesmo com todos esses problemas, empresas como a Aumund apostam em 2002. “A força da economia brasileira, a necessidade de investimentos em energia e petróleo, a questão da melhoria de competitividade contínua em alguns segmentos faz com que esperemos que este ano seja melhor que o passado”, afirma esperançoso Cabral.

Para que tudo isso se realize, ele aconselha: “O Brasil deve continuar atraindo o capital externo, pois parte do capital da indústria de base vem dele.”

Química e Derivados: Caldeiras: Honda - ganho de eficiência justifica troca de equipamentos.
Honda – ganho de eficiência justifica troca de equipamentos.

Honda também acredita em 2002. Ele espera um aumento nas vendas da empresa da ordem de 15%. Isso depende, evidentemente, do fim do racionamento de energia elétrica, de uma política econômica estável e do crescimento das vendas de caldeiras de recuperação de gases de combustão para pequenas e médias co-gerações de 1 até 15 MVA. Segundo Honda, nos últimos cinco anos, as vendas no mercado de caldeiras têm se mantido estáveis, porém, aquém do esperado. O fato é que, para haver crescimento, são necessários projetos de ampliações de fábricas ou o surgimento de outras indústrias. “Poucas empresas buscam substituições de equipamentos antigos pelos novos, embora isso represente uma economia de combustível considerável dentro de dois ou três anos de uso, por causa da maior eficiência das máquinas novas, de 91% contra 80% das antigas, com mais de 15 anos de uso”, explica Honda. Ele atribui isso à falta de perspectiva real de crescimento do mercado e outros fatores que causam preocupação, como taxas de juros, falta de energia elétrica e aumento de preços.

Mercado externo – Se todo o País passou por problemas, a CBC também enfrentou os seus, nos últimos cinco anos. Para driblar as dificuldades, ela decidiu ingressar no mercado externo. Nessa época, a empresa fechou a unidade de Varginha-MG e concentrou toda a sua produção em Jundiaí-SP, “a menina dos nossos olhos”, afirma orgulhoso Rodrigues. Hoje, a CBC opera com caldeiras compactas, tipo aquatubular, equipadas com fornalha pressurizada, sistema de tiragem forçada. Fabrica também as de médio e grande porte, que são unidades verticais tipo aquatubular, com sistema de tiragem forçada ou balanceada, auto-sustentada ou suspensa. Além dessas, a empresa tem as de leito fluidizado com tecnologia de combustão e as de ciclo combinado. As caldeiras são responsáveis por 60% do faturamento da empresa, sendo 59% compradas pelo setor de papel e celulose. O 1% restante fica para os setores têxtil e alimentício, com equipamentos de pequeno porte.

Química e Derivados: Caldeiras: Pessuto - queima do licor negro proteje o meio ambiente.
Pessuto – queima do licor negro proteje o meio ambiente.

Para a indústria papeleira chilena a CBC vendeu caldeiras de recuperação química. Negociou, também, segundo João Rubens Pessuto, coordenador de contratos da CBC, a primeira planta térmica já em operação, em Uruguaiana-RS, para a AES, empresa americana que comprou o terreno, instalou a rede, compra gás natural da Argentina, gera e vende energia.

Entre 1999 e 2001, a CBC vendeu nove caldeiras de recuperação de calor para os Estados Unidos. Em 2000, a empresa negociou três caldeiras para a indústria papeleira paulista: a Votorantin Celulose e Papel (VCP), em Jacareí; a Lwarcel, em Lençóis Paulista; e a Ripasa, em Limeira. Os três contratos só vão entrar em operação neste ano. Pessuto explica que são caldeiras próprias para queimar o licor negro, que resulta do ataque alcalino à lignina da madeira. “Por ser nocivo ao meio ambiente, esse licor deve ser queimado na caldeira, aproveitando a energia liberada para gerar eletricidade e o calor residual para o processo de fabricação de celulose e papel”, explica o engenheiro.

A máquina adquirida pela VCP, segundo Pessuto, é a maior do Brasil. Sua capacidade é de 2,5 mil toneladas de sólido seco (tss)/dia e foi negociada por R$ 104 milhões, em regime turn-key. Já a Ripasa que havia contratado apenas a engenharia da CBC, encomendou também a caldeira, com capacidade de 1,1 mil tss/dia, por um valor de R$ 52,5 milhões. A Lwarcel operava com dois fornos e precisou mudar para uma caldeira de 700 tss/dia, de R$ 20 milhões, com gerenciamento de outros recursos por ela mesma.

Química e Derivados: Caldeiras: Transportador de corrente submersa em água, para clínquer.
Transportador de corrente submersa em água, para clínquer.

Projetos – A Aalborg comercializa caldeiras do tipo flamotubular para combustíveis líquidos, gasosos e sólidos, na pressão de operação de 10 kg/cm² até 21 kg/cm², para o vapor saturado ou superaquecido. Em maio de 2000, a Aalborg adquiriu o controle acionário da Ata Combustão Técnica S.A., que, segundo Honda, possui cerca de 10,5 mil caldeiras vendidas desde a sua fundação.

A Aumund, para Cabral, não tem do que reclamar. Em 26 anos de Brasil, 2000 foi o melhor ano de sua história. Ela opera com arrastadores de correntes, acoplados à caldeira. A caldeira quando queima o combustível, precipita e deposita resíduos que podem ser cinzas, pastas ou uma espécie de lama. A partir do momento em que começou haver uma preocupação maior com os problemas ambientais, tornou-se necessário fazer com que esse material fosse totalmente estanque.

Com o passar dos anos, esses “arrastadores” evoluíram no grau de exigência, em função dos materiais utilizados com questões ligadas à abrasividade. Eles têm contato direto com as cinzas e podem sofrer corrosão. Os transportadores, como são chamados, do mesmo modo que as máquinas para descarga de silos, são projetados para garantir uma operação livre de problemas.

A combinação de diferentes larguras de transporte e dos diversos tamanhos de correntes disponíveis, criam uma variedade de possibilidades para adaptar o equipamento a cada material e capacidade. De acordo com Cabral, desde que a Aumund adquiriu também a alemã Louise, há dez anos, se especializou nesse tipo de equipamento.

A estação de esticamento está sempre equipada com um dispositivo tensor para evitar afrouxamento da corrente, causado pela expansão térmica ou pelo desgaste. A estação de acionamento está equipada com um limpador de corrente para evitar o acúmulo de material ou desgaste na engrenagem de transmissão. Para impedir paralisações do equipamento, causados por emperramento ou ruptura da corrente, são instaladas chaves limitadoras de carga e detetores de movimento.

Química e Derivados: Caldeiras: Gerador de vapor aproveita energia da queima de biomassa.
Gerador de vapor aproveita energia da queima de biomassa.

Atualmente, os transportadores de corrente tipo TKF existem nas larguras de 1.800 mm, 2.000 mm e 2.600 mm, para manuseio de calcário britado, carvão e outros materiais, com capacidade de até 3 mil t/hora. Eles também operam em fornos de clínquer para a produção de cimento branco. Nesse caso, são projetados para resfriar e coletar o clínquer e para separar peças maiores do material, para britagem e secagem futura.

Expectativas – Em 2002, a meta da CBC é alcançar os US$ 72 milhões em faturamento. Não há grandes projetos em vista, mas a Jari, a grande empresa de papel e celulose do Norte, está comprando uma caldeira. “Não sabemos se ela vai recorrer ainda às empresas brasileiras, mas quem sabe…”, observa Pessuto. Além disso, a empresa faz up grades das máquinas. Recentemente, a Cia. Suzano de Papel e Celulose desembolsou R$ 19,5 milhões na transformação de uma caldeira de 960 tss/dia para 1,4 mil tss/dia.

“A unidade da VCP de Luís Antonio-SP tem uma caldeira que já não atende mais às suas necessidades. No Chile, já recuperamos a que foi vendida em 1988 e vamos fazer, agora, a melhoria da que foi negociada em 1991”, adianta Pessuto.

Aquecedores – A Konus Icesa além de operar com caldeiras para biomassa, óleo e gás, produz também aquecedores de fluido térmico. Segundo o diretor superintendente da empresa Joaquim Luiz Barros, desde 2000 o mercado começou a se aquecer. Em janeiro deste ano, a Konus vendeu três equipamentos para clientes da área têxtil e química. “Ficamos surpresos, porque janeiro não é um mês tradicionalmente comercial”, acentua Barros.

“Nossos equipamentos são preparados para queima tanto de biomassa, quanto gás natural ou óleo”, explica o diretor. Ele diz que estão fabricando sete aquecedores para ser entregues até abril deste ano. Quatro deles foram vendidos em 2001.

Para a Konus, o racionamento de energia gerou um resultado positivo. De acordo com Barros, os clientes passaram a ser mais exigentes e precisam de auxílio para ter um equipamento e instalação energeticamente eficientes. Por isso, a empresa procura vender o comando por Controlador Lógico Programável (CLP). Trata-se de dispositivo por meio do qual a Konus pode acompanhar e monitorar à distância todo o andamento do equipamento vendido. Ela pode controlar, quando necessário, limpeza, assistência técnica, ou se está caindo o nível de eficiência energética, entre outros itens.

A Konus desenvolve esse CLP desde 1998 e, de acordo com o diretor, ele se paga rapidamente. O programa é composto por várias telas em um sistema supervisório que possibilita ao gerente da indústria, por meio de um modem, obter todos os históricos do equipamento por turno, mês ou ano.

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