Farmacêutico e Biotecnologia

Biotecnologia: Micro-organismos selecionados abrem rotas mais sustentáveis para a indústria química

Marcelo Fairbanks
22 de abril de 2017
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    Na sua avaliação, o Brasil possui um arcabouço regulatório de boa qualidade para a inovação biotecnológica, alinhado com os países mais avançados do mundo. O cumprimento das normas é que sofre com alguns entraves e atrasos. “Há uma repartição saudável de competências: o CTNBio aprova a parte relativa à genética; a Anvisa cuida dos impactos à saúde da população, o Ministério da Agricultura, da alimentação animal e assim por diante”, comentou. Os problemas surgem quando é preciso alterar algum dado de produção ou estoque, além da necessidade de renovar as licenças (são várias) em prazos curtos, além da obrigação de mandar relatórios com periodicidade muito curta. “Isso poderia ser enxugado, sem prejuízo da segurança para a população.”

    Ele também considera que o ambiente para pesquisas no Brasil é burocratizado demais, afastando as empresas das entidades como universidades e centros especializados. Há dificuldades para importar os materiais necessários aos desenvolvimentos, licenças de importação para organismos geneticamente modificados são complexas, há proteções a fornecedores locais, impostos elevados para importar equipamentos, mesmo usados. “Some tudo isso e se tem uma noção das dificuldades para atuar em biotecnologia no país”, afirmou.

    Apesar disso, Loosli considera que o Brasil é o melhor lugar do mundo para o desenvolvimento da biotecnologia, pois há oferta ampla de cadeias carbônicas de origem sustentável e economicamente viáveis. “É preciso maior envolvimento com o setor agro, a oferta de cana e de eucalipto é fantástica, mas estamos ficando para trás nas pesquisas”, lamentou.

    Química e Derivados, Oliveira: fontes vegetais vão deslocar derivados de petróleo

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    Algas em crescimento – O cultivo de microalgas que transformam açúcares em óleos de alto valor, para uso em cosméticos, medicamentos e alimentos, é a estratégia criada pela Solazyme, atualmente denominada Terra Via, detentora dos direitos de propriedade intelectual. A Terra Via formou uma joint venture paritária com a Bunge para montar sua unidade de produção no Brasil, em Orindiúva-SP, contígua à Usina Moema (da Bunge). Essa joint venture é a Solazyme Bunge, única unidade de produção em escala comercial desse empreendimento.

    “As microalgas são micro-organismos unicelulares capazes de transformar açúcares em óleos e outros ingredientes especiais; elas são cultivadas em tanques de fermentação idênticos aos usados na produção de vinho e cerveja”, explicou Miguel de Oliveira, diretor da Bunge Global Innovation. A unidade de produção brasileira iniciou atividades comerciais em maio de 2014, gerando produtos para nutrição animal, alimentos e cuidados pessoais. Recentemente, segundo o diretor, a Solazyme Bunge iniciou a produção do AlgaPrime DHA, uma fonte inovadora e sustentável do ácido graxo docosahexaenoico (poli-insaturado, do grupo do ômega-3), até então obtido do óleo de peixe, apenas. “A demanda mundial por ômega-3 está crescendo rapidamente; já exige o processamento de um milhão de toneladas anuais de óleo de peixe”, considerou. A companhia já fornece o ingrediente para a produção de salmão e está expandindo a oferta.

    Na avaliação de Oliveira, o Brasil tem um grande potencial para atividades biotecnológicas por combinar uma vasta produção de matérias-primas (carboidratos e proteínas) com os recursos disponíveis em pessoas, materiais e fornecimento de energia. “Sempre há espaço para melhorias, já que a regulação tende a ficar atrás do desenvolvimento, mas tanto a CTNBio quanto o MAPA têm se mostrado receptivos para possibilitar novas capacidades de biotecnologia no mercado brasileiro. Em relação ao apoio financeiro, o BNDES tem sido muito proativo quanto a essas iniciativas e ampliou o crédito para apoiá-las em vários segmentos da indústria”, considerou. O banco de desenvolvimento, aliás, viabilizou a construção da planta no país.

    Química e Derivados, Em Orindiúva-SP, Solazyme Bunge usa microalgas para produzir óleos

    Em Orindiúva-SP, Solazyme Bunge usa microalgas para produzir óleos

    Oliveira explicou que, nos últimos anos, a economia do Brasil e os baixos preços globais do petróleo afetaram negativamente o desenvolvimento dos negócios. Ele acredita que a economia se recuperará e as melhores condições locais permitirão novamente o avanço da biotecnologia com maior impacto no país.

    “O futuro da biotecnologia está na colaboração entre a inciativa privada e o setor público, tanto no fomento de projetos, quanto na aproximação entre indústria e academia; esses esforços coordenados transformarão as oportunidades em realidade”, observou o diretor. Para ele, a biotecnologia é a base para o rápido desenvolvimento da bioeconomia, na qual cada vez mais materiais, óleos e alimentos serão produzidos de fontes vegetais e não de derivados do petróleo ou de origem animal.

    A Solazyme Bunge confirma a preferência pela plataforma tecnológica das microalgas, que está sendo continuamente atualizada e desenvolvida. “Nossa produção tem baixa pegada de carbono por se basear na cana-de-açúcar e contar com suprimento de vapor e energia fornecidos pela Usina Moema”, afirmou.



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