Farmacêutico e Biotecnologia

Biotecnologia: Micro-organismos selecionados abrem rotas mais sustentáveis para a indústria química

Marcelo Fairbanks
22 de abril de 2017
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    Nos alimentos, as enzimas permitem aumentar a digestibilidade e disponibilidade de nutrientes, aumentando a sua absorção no trato digestivo de suínos e aves, por exemplo. Para humanos, há enzimas que permitem gerar produtos isentos de lactose, muito procurados pelas pessoas com intolerância ao açúcar natural do leite.

    A produção de enzimas depende do cultivo de microorganismos especializados na sua produção. Trata-se de uma tecnologia limpa e sofisticada, exigindo esforços constantes de pesquisa para identificar novas linhas de produtos, além de modificar geneticamente alguns microorganismos para gerar as proteínas desejadas. A companhia oferece microorganismos especializados para tratamento de água e melhor aproveitamento de nutrientes do solos pelas plantas (nesse caso, por meio da BioAg, uma joint venture com a Monsanto). Fornece também coprodutos de fermentação para aplicações na indústria de cosméticos e farmacêuticos, a exemplo do ácido hialurônico.

    “Além de produtos diferenciados, também investimos muito no melhoramento contínuo do nosso processo produtivo, para que nossas soluções sejam cada vez mais competitivas”, comentou Vasconcelos. Ele comentou que a companhia possui alguns novos produtos em fase de estudos por parte da CTNBio, dentro do prazo regular de dois anos para avaliação. “Nós colaboramos com as autoridades e oferecemos todas as informações disponíveis”, disse. Em comparação com outros países, ele entende que a burocracia nacional poderia ser mais ágil, em especial no caso das patentes.

    Como atua em uma área de alta tecnologia, a Novozymes recruta profissionais das universidades e oferece a eles uma especialização. “O ensino universitário dá uma base para os alunos, mas falta um pouco de incentivo à especialização”, comentou. A empresa começou no ano passado a desenvolver trabalhos de doutorado em conjunto com o Senai e se esforça para se aproximar das universidades, em especial da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mais próxima das suas instalações. “No caso da BioAg, com fábrica em Quatro Barras-PR, há projetos em andamento com a Embrapa.” A Novozymes do Brasil também mantém um programa com alunos de primeiro e segundo grau, com objetivo de apresentar a eles o que é a biotecnologia e seus usos.

    Em termos comerciais, em 2016 a companhia obteve crescimento de vendas de 2%. Embora positivo, o resultado ficou abaixo das expectativas iniciais, fato justificado pelo péssimo desempenho da economia nacional. “Como atuamos em 40 segmentos de mercado, isso nos dá um pouco mais de segurança quanto à demanda, além disso, as enzimas são muito vantajosas para os clientes e é muito difícil substituí-las sem perder qualidade ou agredir o ambiente”, considerou.

    Fermentações avançadas – A engenharia genética e a seleção das rotas metabólicas das leveduras permite gerar insumos químicos sofisticados, com interesse muito maior do que os combustíveis. “O mercado de combustíveis automotivo é imenso, lida com volumes gigantescos e exige investimentos muito elevados para atuar nele, portanto não é um campo de trabalho adequado para uma empresa inovadora de pequeno porte, ainda mais com o petróleo sendo vendido a preço baixo”, considerou Eduardo Loosli, vice-presidente da Amyris Brasil, empresa de origem californiana (EUA) com foco em biotecnologia.

    Química e Derivados, Loosli (esq.) e Rossi: farneseno e fragrâncias feitas em Brotas

    Loosli (esq.) e Rossi: farneseno e fragrâncias feitas em Brotas

    O produto mais conhecido da companhia é o farneseno, molécula com 15 átomos de carbono que pode substituir o óleo diesel e o querosene de aviação sem a necessidade de alterar os equipamentos de combustão (motores/turbinas). Loosli informou que uma parte da frota de ônibus urbanos da cidade de São Paulo rodou com misturas entre 10% e 30% de farneseno no diesel, com excelentes resultados. “Pode até rodar só com o farneseno, sem problemas”, informou. Há companhias aéreas internacionais que usam esse combustível em misturas de 20% a 30% com o querosene tradicional. A ANP autorizou até 10% de incorporação do farneseno. “O produto é tecnicamente adequado, mas é preciso ter preço competitivo”, disse.

    A Amyris obteve, em 2016, o primeiro ano com vendas consistentes e contratos previsíveis com clientes, além de registrar aumento na lucratividade. “Conseguimos duplicar as receitas sem vender praticamente nada para uso em combustíveis”, informou o vice-presidente. “E temos a previsão de rodar com fábrica cheia em 2017, reforçando nosso projeto de instalar uma segunda linha de produção, essa voltada para itens de menor volume e maior valor.”



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