Álcool e Açúcar (usinas)

Biogás abre nova fronteira energética no interior – Meio Ambiente

Marcelo Furtado
19 de maio de 2020
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    Pré-sal caipira – As possibilidades abertas com o biogás para a indústria sucroenergética são muito grandes. E mesmo que o setor esteja endividado, com rombo próximo de R$ 100 bilhões, há muitos investidores, nacionais e estrangeiros, querendo formar parcerias com as usinas para aproveitar o que alguns chamam de “pré-sal caipira”, expressão justificada pelo fato de que, para cada litro de etanol, gera-se como subproduto 12 litros de vinhaça (a produção atual de etanol é de 33 bilhões de litros de etanol por ano no Brasil).

    Um projeto de aproveitamento desse potencial é liderado pela empresa Zeg, do grupo de comercialização de energia Capitale. A ideia da empresa, já colocada em prática, é até 2023 estar produzindo 1 milhão de m3 por dia de biometano mediante a construção, em sociedade com usinas de etanol e açúcar do interior paulista, de unidades que incluem biodigestor anaeróbico para aproveitar os resíduos e sistema de purificação do biogás. A empresa até já batizou seu combustível de GasBio, que será vendido nas formas comprimidas ou liquefeita, para transporte ou uso industrial.

    Segundo o CEO da Zeg, Daniel Rossi, o modelo apresentado para as usinas inclui opções de investimento em que a Zeg pode ser a investidora única, tornar-se sócia da usina ou então erguer a planta com o aporte único da sucroenergética. A condição inegociável, porém, segundo Rossi, é a de que a operação será exclusiva da Zeg.

    A preocupação em controlar a operação é porque a empresa já desenvolveu toda a rota, com parceiros tecnológicos e futuros possíveis consumidores, para obter um biometano que atende aos padrões exigentes principalmente da indústria automotiva. Nesse caso, o biometano gerado – com 96% de metano – já passou por testes conduzidos pela Scania, que começou no ano passado a produzir em sua fábrica de São Bernardo do Campo-SP caminhões movidos a gás natural, biometano e GLP. “O GasBio atende aos requisitos operacionais da montadora, que são muito elevados”, disse Rossi.

    Há duas usinas que já fecharam acordo com a Zeg para erguer as unidades, mas a primeira etapa do projeto para produzir o GasBio será via biogás de aterro. A unidade, com previsão de entrada em operação neste ano, ficará no aterro Ecourbis Sapopemba, na capital paulista, cuja meta inicial é produzir 30 mil m3 por dia de biometano a partir do biogás captado no aterro. Com investimento total de R$ 60 milhões, o planejado é triplicar a produção, para 90 mil m3, no decorrer do ano. Também no mesmo aterro, a Zeg colocou em operação no meio do ano passado uma miniusina de 8 MW para geração elétrica, que injetará na rede para venda 5 MW e o restante será direcionado para a unidade de purificação do biogás para gerar biometano.

    Começar os investimentos pelo aterro, porém, não diminui a expectativa em concretizar o planejamento de aportar R$ 500 milhões até 2023 nas unidades de biometano. O foco da Zeg é encontrar parceiros no chamado Corredor Azul, que envolve além do interior paulista parte dos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, que ficam na principal rota de escoamento da produção do agronegócio brasileiro pelo modal rodoviário até o Porto de Santos. Segundo Daniel Rossi, a ideia é de complementaridade com o a produção do gás natural do pré-sal, que pode abastecer os caminhões no litoral e regiões próximas para o retorno ao interior. “Os caminhões vão para o porto abastecidos com biometano e voltam com gás natural”, disse.

    Além da busca por parceiros no setor sucroenergético, outra parte do planejamento da Zeg é ajudar a gerar demanda em empresas de transporte e indústrias interessadas na versão liquefeita do biometano e, a partir daí, construir postos de abastecimento no Corredor Azul. A demanda firme é fundamental, segundo Rossi, para tornar viável a implantação de postos de alta pressão para abastecer os caminhões.

    Para as unidades de biometano, a Zeg firmou parcerias tecnológicas. Os sistemas são modulares com lagoas de biodigestão da vinhaça que, no caso de ampliação, podem ter suas biotas inoculadas em outras para aumentar a capacidade de geração do biogás. Também os sistemas de purificação do biogás para produção de biometano contam com parceiros tecnológicos internacionais.

    Outros modelos – O modelo pensado pela Zeg não é o único com promessa de ser replicado. Outro projeto muito bem estruturado envolve a concessionária de gás GasBrasiliano, do noroeste paulista, e a Usina Cocal, em sua unidade de Narandiba, a 60 km de Presidente Prudente-SP. Trata-se de investimento de R$ 160 milhões para criar uma rede independente de gasodutos de 65 km, construída pela concessionária com R$ 30 milhões, que visa distribuir biometano, gerado a partir dos resíduos da usina, para consumidores residenciais, comerciais e industriais de Presidente Prudente e da vizinha Pirapozinho.

    A Usina Cocal investe R$ 130 milhões na unidade de produção de biometano, purificado a partir do biogás gerado pela biodigestão de bagaço, vinhaça e palha de cana. A expectativa é a de que a rede dedicada, em construção, entre em operação no início de 2021. Como a região fica a 200 km do Gasoduto Brasil Bolívia (Gasbol), trata-se de solução de interiorização do gás sem necessidade de ampliação das conexões aos gasodutos, com potencial de ser replicado em várias outras regiões distantes dos ramais.

    Outro tipo de investimento que deve acelerar a importância da fonte na matriz energética é o de construção de usinas térmicas a biogás para gerar eletricidade com injeção na rede. Nesse caso, o mercado aguarda com expectativa a entrada em operação da unidade da Usina Bonfim, do grupo Raízen, em Guariba-SP, prevista para até o fim do ano, mas cuja obrigatoriedade é estar pronta em 2021, já que o projeto foi negociado no leilão A-5 de energia de 2016 (com prazo de entrega de cinco anos).

    A usina é uma joint-venture entre a Raízen (85%) e a Geo Energética (15%), empresa que tem uma planta demonstrativa de 4 MW na usina da Coopcana, em Tamboara-PR, onde a geração de biogás é feita em biodigestores que recebem a vinhaça e a torta de filtro da produção de etanol e açúcar. O modelo tecnológico será o mesmo da Bonfim, cuja previsão é gerar 138 GWh por ano. Do total gerado, 96 GWh foi contratado com distribuidoras no leilão de 2016 e o restante será negociado no mercado livre de energia.



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