Bioenergia: Grupos investem neste setor

Bioenergia: Grupos nacionais investem para aproveitar fontes de bioenergia

A oportunidade do Brasil se consolidar na liderança global da bioenergia é cada vez mais possível de ser aproveitada. Com expertise, grupos nacionais capacitados para fazer altos investimentos em bioenergia, pesquisa própria e abundância de biomassas e resíduos agrícolas e florestais, o cenário é convidativo para atender a demanda de países ricos em substituir combustíveis fósseis, por exemplo na aviação, com o bioquerosene, chamado SAF (sustainable aviation fuel), ou mesmo para ampliar a troca do diesel fóssil por sua alternativa verde, o HVO.

A análise não está no campo hipotético, mas se explica pelos investimentos já iniciados de grandes grupos e em outros anunciados que demonstram um potencial muito grande a ser explorado. Neste último caso, há até mesmo a possibilidade de se aproveitar o que especialistas apelidaram de “pré-sal verde”, identificado na região Amazônica, onde a produção de biocombustíveis poderia se equiparar com a reserva do verdadeiro pré-sal de petróleo, aproveitando áreas degradadas para o cultivo da palma.

Bioenergia: próximos passos

O investimento em questão é da Brasil Bio Fuels (BBF), grupo que atua na produção de biodiesel de óleo de palma e de geração elétrica a partir de usinas termoelétricas na região Amazônica que utilizam esse biocombustível em sistemas isolados. A BBF vai colocar em operação até 2025 a primeira biorefinaria do País para produzir os combustíveis sustentáveis SAF e o diesel verde (HVO, do inglês hydrotreated vegetable oil), na Zona Franca de Manaus-AM.

Com capacidade inicial de produção para 500 mil metros cúbicos por ano dos dois biocombustíveis (que podem ser modulados conforme a demanda), a unidade utilizará o processo HEFA, o hidroprocessamento de ácidos graxos, a partir do óleo de palma produzido na região pela BBF.

O HEFA é tecnologia consolidada, que promove a reação, em uma primeira etapa, do hidrogênio com os óleos e gorduras, para remover o oxigênio, e em uma segunda etapa, realiza o craqueamento para gerar os hidrocarbonetos parafínicos livres de oxigênio e enxofre.

O resultado do processo é, em sua maior parte, de moléculas de diesel e em seguida de bioquerosene. Em participações menores, como subprodutos, há moléculas de propano, nafta, entre outros leves, que seguem para o reator de reforma a vapor para gerar o hidrogênio que será reutilizado no início do processo.

O projeto já conta com a transferência de tecnologia consolidada, como revelou em recente webinar da Unicamp o engenheiro químico Fernando Castro, consultor que atua no projeto. Embora não possa revelar qual delas foi a escolhida, apenas três fornecem para terceiros a tecnologia: a norte-americana Honeywell UOP (tecnologia Ecofinning), a dinamarquesa Topsoe (Hydrofex) e a Axens, que pertence ao Instituto Francês de Petróleo (IFP), com a tecnologia Vegan.

Melhor do que já ter decidido a transferência, porém, para viabilizar o projeto, a BBF tem contrato de fornecimento exclusivo com a Vibra Energia (ex-BR Distribuidora), que comercializará os biocombustíveis a princípio pela região Norte.

Segundo o CEO da BBF, Milton Steagall, em razão da produção elevada da biorefinaria, o grupo está expandido a área plantada de palma na região. Inicialmente, parte do óleo precisará ser de soja (25%) e milho (4%), mas com o aumento da plantação de palma e da produção do óleo a intenção é usar apenas esta oleaginosa. Bom acrescentar que a palma tem alta produtividade: cada hectare plantado gera 5 t de óleo, contra 900 kg/hectare da soja.

Atualmente a BBF produz 200 mil t/ano de óleo de palma, utilizados principalmente para a produção própria de biodiesel, em uma unidade em Rondônia e em outra que será inaugurada em março de 2024 em Manaus. esta bioenergia é empregada em 25 usinas termoelétricas da empresa na Amazônia, em sistemas isolados negociados em leilões oficiais.

Com a biorefinaria, porém, disse Steagall, será preciso duplicar a produção verticalizada para 400 mil t/ano, no mínimo. Hoje a empresa tem 80 mil hectares entre áreas plantadas e viveiros de palma, em ampliação para 100 mil hectares.

Bioenergia: O ‘pré-sal verde’

O movimento da BBF, a se guiar pelo potencial identificado por especialistas de mercado, seria apenas uma fração do que pode ser desenvolvido na região Amazônica com a exploração específica da palma, muito propícia para o cultivo nos estados do Norte.

De acordo com o engenheiro Fernando Castro, há um “pré-sal verde” na Amazônia, baseado apenas no potencial de uso de áreas degradadas que são permitidas por lei de serem ocupadas especificamente com plantação de palma.

Um decreto presidencial, o 7.172/2010, definiu que há 31,6 milhões de hectares de áreas degradadas no país indicadas como zoneamento agroecológico para a cultura da palma de óleo (ZAE). Isso significa que essas áreas são liberadas e propícias para o cultivo da oleaginosa como forma de reflorestamento, o que melhora ainda mais a pegada ambiental dos projetos.

Para chegar na comparação com o pré-sal do petróleo, Castro simulou que, caso todas essas áreas fossem ocupadas com plantações de palma, e depois do período de maturação de cerca de cinco anos até a extração ser possível, 1,15 milhão de barris por dia do óleo de palma seriam gerados e assim transformados em biocombustíveis.

Nesse caso, a produção seria levemente superior à capacidade dos 60,2 milhões de hectares equivalentes de exploração da reserva do pré-sal, cuja produtividade é para 1 milhão de barris por dia.

O engenheiro, porém, reconhece que os biocombustíveis ainda são mais caros do que o petróleo, com preço internacional por volta de US$ 1.300/t contra US$ 575/t do concorrente de origem fóssil. Mas, segundo ele, no próprio projeto da BBF dá para se desconsiderar essa comparação direta de preço. Isso porque a biorefinaria é integrada, com óleo de palma e plantações da própria empresa, o que diminui muito o custo de produção.

A usina também será rentável porque o consumo dos biocombustíveis se dará na Região Norte, segundo os planos da Vibra, o que gera uma vantagem logística muito grande ao se comparar com o diesel que precisa percorrer longas distâncias, muitas vezes de refinarias no Sudeste, para chegar na região”, disse.

Visão da Europa sobre bioenergia

A perspectiva para a produção de SAF e de diesel verde, a partir da palma, poderá atender o mercado interno, para ajudar o País em suas metas de descarbonização da matriz energética, e de vários países, incluindo asiáticos e os Estados Unidos.

O mesmo, porém, não deve valer para o mercado europeu, uma vez que a União Europeia, em recente diretiva técnica, passou a considerar que o óleo de palma (e todos seus derivados processados, a partir do biodiesel) não é renovável. A decisão foi tomada em resposta à forma como os maiores produtores globais, Malásia e Indonésia (responsáveis por mais de 80% da produção global), desmatam suas florestas nativas para ampliar o cultivo.

Essa decisão tira o apelo do SAF e do diesel verde de palma feito no Brasil para atender a demanda na Europa, onde há muitos projetos de SAF em elaboração. Ao não distinguir a procedência do óleo de palma na sua diretiva, o continente europeu também aproveita para criar uma barreira não-alfandegária para futuros concorrentes.

Com mesmo teor de limitação, a União Europeia também criou diretiva para não considerar como SAF os bioquerosenes de aviação feitos a partir da palma e, pior ainda, todas aquelas que utilizam matérias-primas de primeira geração, entre elas o etanol.

As medidas europeias, além de consideradas protecionistas, são também apontadas sem embasamento técnico suficiente, principalmente no caso do etanol de primeira geração. Tem essa opinião o economista Marcelo Moreira, sócio da consultoria Agroicone e também membro da delegação brasileira do programa Corsia, da Organização da Aviação Civil Internacional, da ONU, que tem meta de reduzir e compensar as emissões de CO2 provenientes dos voos internacionais.

Segundo Moreira, um trabalho de pesquisa da Agroicone, feito em parceria com a Embrapa e a Unicamp, provou, com uso de imagens de satélite e dados públicos, que o setor de etanol de cana de açúcar no Brasil retirou 9,1 bilhões de toneladas de CO2 por ano, entre 2000 e 2020. Para chegar ao número que prova a alta sustentabilidade da ativaidade, aliás publicado em artigo científico em revista internacional, foi utilizado modelo matemático da Embrapa e o padrão de expansão da cana no País.

Para o economista, a União Europeia desconsiderou esses e outros vários dados favoráveis do etanol de primeira geração e levou em conta apenas a questão do uso da terra (desmatamento indireto), também falaciosa, para colocar o biocombustível como não-renovável e, portanto, não apto para produzir o SAF. No caso do uso da terra, o argumento europeu já se desmonta com o fato de apenas 2,4% da área agriculturável do Brasil ser ocupada com a lavoura da cana.

A posição europeia contra os biocombustíveis de primeira geração não é compartilhada, por exemplo, pelos norte-americanos. Isso porque os Estados Unidos avaliaram recentemente como sustentável o etanol brasileiro para produzir o SAF. Em janeiro deste ano, a agência ambiental americana, a EPA, autorizou a classificação de sustentável a um bioquerosene de aviação produzido por empresa norte-americana que utiliza etanol de cana-de-açúcar brasileiro.

Além de o bioquerosene de cana-de-açúcar também já ter sido avaliado e aprovado pelo Corsia, para Marcelo Moreira, mesmo que a autorização da EPA tenha sido nesse primeiro momento para a empresa interessada no produto brasileiro, a aprovação deve abrir portas para produtores brasileiros de SAF a partir de etanol.

Meio ambiente: Grupos nacionais investem para aproveitar fontes de bioenergia ©QD Foto: iStockPhoto
Moreira: veto europeu carece de fundamentos técnicos

“Dificilmente uma única empresa ou cultura agrícola conseguirá dar conta sozinha dos enormes desafios de redução de emissões que o mundo precisa. O ganho de escala necessário traz oportunidades para muitas empresas e vai necessitar de um conjunto de tecnologias, desde que sejam eficientes em termos de uso da terra (como o uso de áreas degradadas, alta produtividade, produção em múltiplas safras e aproveitamento de resíduos), consigam aproveitar o potencial bio que o Brasil possui e estejam completamente desassociadas do desmatamento”, afirma.

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Raízen no E2G

Independentemente de a visão europeia ser “eco-radical” ou uma estratégia velada para criar barreiras comerciais, a Raízen, maior produtora de biocombustíveis do País, prefere ser pragmática e está executando plano para construir 20 unidades produtivas de etanol celulósico de segunda geração (E2G) no Brasil até 2030. O produto, que deve ser em parte utilizado para produzir SAF, tem as portas abertas na Europa, para onde a empresa já tem assinado contratos de venda.

Sob investimento total para o plano de R$ 24 bilhões, a Raízen já tem uma usina de E2G em operação desde 2015, a Costa Pinto, em Piracicaba-SP, que na safra 2022-2023 produziu 30 mil metros cúbicos. Mas há no momento três usinas em construção e mais duas foram anunciadas, tudo dentro da estratégia de inaugurar duas plantas por ano.

Até o fim de 2023, será inaugurada a segunda planta, na Usina Bonfim, em Guariba-SP, com capacidade de produção de 82 mil m3/ano. As obras devem ser concluídas no segundo semestre e consumirão ao todo R$ 1,2 bilhão em investimentos. Cerca de 80% da produção está comprometida com contratos de longo prazo com europeus, parte deles com a Shell, que assinou acordo com a Raízen (de quem inclusive a Shell é uma das acionistas, junto com a brasileira Cosan) para ter 3,3 milhões de m3 de E2G até 2037.

A terceira e quarta plantas, já em construção, estão nas usinas Univalem, em Valparaíso-SP, e na Usina da Barra, em Barra Bonita-SP. Serão investidos R$ 2,4 bilhões nas duas e cada uma delas terá capacidade para 82 mil m3/ano de E2G, com planejamento para entrar em operação em 2024. Neste ano, foram anunciadas mais duas, as que vão cumprir o cronograma de 2025. Uma será na Usina Gasa, em Andradina-SP, e a outra na Vale do Rosário, em Morro Agudo-SP, com investimentos e capacidade similares às da Univalem e da Barra.

Com todas as 20 usinas em operação, na safra 2030-2031, a Raízen mira capacidade total de produção anual de 1,6 milhão de m3 de etanol celulósico, obtido da biomassa não aproveitada no processo de fabricação do etanol de primeira geração. Toda a produção, segundo o vice-presidente de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen, Francis Queen, terá como destino a Europa, mas haverá também mercado nos Estados Unidos.

Da produção atual da Costa Pinto, aliás, o produto já é comercializado para abastecer os carros da italiana Ferrari na Fórmula 1, na qual o etanol celulósico atende a mistura E10 (10% de biocombustível e 90% de gasolina), uma iniciativa da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), que almeja utilizar combustível totalmente sustentável até 2025. Também na temporada atual da fórmula Indy NTT, nos Estados Unidos, todos os carros de corrida utilizarão combustível 100% renovável fornecido pela Shell, no qual há o E2G da Raízen no mix.

Meio ambiente: Grupos nacionais investem para aproveitar fontes de bioenergia ©QD Foto: iStockPhoto
Queen: etanol de biomassa não afeta a produção de alimentos

Mas no médio e longo prazo a produção do biocombustível de aviação (SAF) deve consumir boa parte da produção, tendo em vista ser uma “das poucas alternativas de insumos para fabricação realmente capazes de promover a descarbonização, dado que é produzido a partir de um resíduo, ou seja, não deixamos de produzir alimento para produzir combustíveis, um requisito importante para os europeus”, disse Queen.

Em 2022, a Raízen também assinou carta de compromisso com a Embraer para estimular a bioenergia, mais especificamente o ecossistema de produção de SAF no Brasil. A rota para produção via etanol é pela tecnologia Alcool To Jet (ATJ), que parte do etanol para o eteno, processo, aliás, que ainda não é considerado totalmente viável comercialmente.

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