Petróleo & Energia (gás, refino e gasolina)

Biodiesel – Governo estuda antecipar metas para reanimar os produtores

Marcelo Fairbanks
16 de março de 2009
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    Os preços recebidos pelo éster refletem a situação. A comercialização do produto está sendo feita por meio de leilões comandados pela ANP. A agência estipula um teto e os produtores oferecem lances para suprir lotes previamente determinados, vencendo quem pedir o menor preço. O leilão de 27 de fevereiro, por exemplo, comercializou 315 milhões de litros e tinha R$ 2,60/kg (quase R$ 2,36/l) como teto. O preço médio verificado ao final do certame ficou em R$ 2,15/litro, um deságio de 8,72%. Houve críticas à participação da Petrobras Biocombustíveis (PBio), subsidiária integral da Petrobras fundada em 2008 para atuar nas áreas de álcool e biodiesel. Afinal, só há dois compradores nesses leilões: a Petrobras e a Refap S/A (associação entre a estatal e a Repsol YPF).

    Química e Derivados, Tanques de armazenamento da usina da PBio em Guamaré-RN, Biocombustíveis

    Tanques de armazenamento da usina da PBio em

    “Não entramos no primeiro lote e vencemos o seguinte com o preço de R$ 1.815 por tonelada, suficiente para remunerar nosso custo variável, que era a meta deste leilão”, respondeu Alan Kardec Pinto, presidente da PBio. Ele comentou que o leilão estava superofertado. O primeiro lote tinha oferta de mais que o dobro do volume a negociar. O lote vencido pela estatal, de 63 mil m³, quase 20% do total, contava com o quádruplo de éster colocado em disputa.

    A PBio conta com três unidades de produção, em Candeias-BA, Quixadá-CE e Montes Claros-MG, com total de capacidade para 115 mil m³ (ou 115 milhões de litros) anuais. Opera também a unidade experimental de Guamaré-RN, para 57 mil t/ano. Quixadá e Montes Claros estão em desengargalamento para elevar o total instalado para 172 milhões de litros durante 2009, chegando a 195 milhões, em 2010. “Precisávamos dessa contratação para manter as unidades funcionando à plena carga para certificar a produção perante o licenciador e também para desengargalar as linhas”, justificou Kardec.

    Problema de origem – Algumas dificuldades do setor decorrem do planejamento inicial do Programa Nacional de Produção de Biodiesel. A ideia era obter o éster por meio de um parque descentralizado de pequenas usinas que seriam alimentadas por óleos vegetais extraídos por pequenos produtores rurais e pelo abundante etanol de cana. Seria uma forma de viabilizar economicamente a política federal de assentamentos. Isso também considerava o uso de múltiplas fontes de ácidos graxos, como mamona, dendê e outras oleaginosas. Na prática, não foi o que aconteceu.

    “Mais de noventa por cento da produção de biodiesel no Brasil usa a soja”, afirmou o empresário Munir Aboissa, proprietário da Aboissa Óleos Vegetais. Ele empreendeu recentemente uma viagem de sete mil quilômetros pelo Centro-Oeste brasileiro, a principal região produtora de soja e biodiesel, na qual visitou mais de cinquenta fábricas. “Os dez por cento restantes são feitos de algodão, óleo recuperado de cozinhas e sebo animal”, acrescentou. Ele explica a preferência pelo fato de a soja ser o único cultivo capaz de oferecer óleo suficiente para a produção do éster de boa qualidade sem provocar desequilíbrios.

    Na atual situação de mercado, o biodiesel é uma alternativa de mercado razoável. “Sem considerar a glicerina, o spread entre o óleo de soja e o biodiesel é razoável, considerando os R$ 2,60 estipulados como teto no leilão da ANP”, calculou. No fim de fevereiro, o óleo de soja bruto em Mato Grosso estava cotado a R$ 1,60 por kg.

    Porém, no ano passado, antes da eclosão da crise mundial, as cotações da soja estavam muito altas e inviabilizaram o éster, situação agravada pela escassez e alto custo do metanol. Segundo Aboissa, quem entrou nos primeiros leilões da ANP pensando em usar óleo de soja barato, não conseguiu entregar os volumes contratados e ficou inabilitado para participar dos mais recentes. As outras oleaginosas também tinham preços altos e encontram usos na alimentação humana, como o girassol e o algodão. O óleo de mamona, inicialmente tido como o ideal para o biodiesel, embora não seja comestível, é produto nobre, com vastas aplicações químicas. “Dos óleos vegetais, o de mamona é o mais caro no mercado mundial”, disse.

    A glicerina, a princípio trombeteada como renda adicional para os produtores, revelou-se pouco atraente. “A glicerina bruta valia mil dólares a tonelada, mas atualmente não passa de US$ 130/t FOB Santos-SP”, comentou. A bidestilada caiu de R$ 4,50/kg para R$ 1,00/kg. “Isso não paga nem o frete de Mato Grosso para São Paulo”, calculou. Em peso, a glicerina é produzida na razão de 1:10 em relação ao éster. Com preço aviltado, alguns produtores estão queimando o coproduto em suas caldeiras.

    Aboissa aposta na soja como matéria-prima principal para o biodiesel por longos anos. Ele comentou que 92% da disponibilidade de óleos e gorduras no país vem da soja. Em valores médios dos últimos anos, da safra de 62 milhões de toneladas de grãos, a metade é esmagada no próprio país, ofertando óleo e farelo, este usado na alimentação animal. “A capacidade nacional de esmagamento chega a 50 milhões de t/ano, mas tornou-se ociosa desde a Lei Kandir, que favoreceu a exportação de grãos sem apoiar a agregação de valor local”, criticou.

    Das 31 milhões de toneladas esmagadas em média por ano, cerca de 20% são extraídas como óleo, ou 6 milhões de t. A metade disso é consumida no Brasil na forma de alimentos. “Perto de 3 milhões de t/ano de óleo são usadas industrialmente ou exportadas, isso é mais do que suficiente para fazer todo o B5 sem tirar comida de nenhum brasileiro”, afirmou. Se for preciso, basta reduzir a exportação de grãos e ampliar a ocupação das esmagadoras locais.



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