Petróleo & Energia (gás, refino e gasolina)

Biodiesel – Governo estuda antecipar metas para reanimar os produtores

Marcelo Fairbanks
16 de março de 2009
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    Porém, no ano passado, antes da eclosão da crise mundial, as cotações da soja estavam muito altas e inviabilizaram o éster, situação agravada pela escassez e alto custo do metanol. Segundo Aboissa, quem entrou nos primeiros leilões da ANP pensando em usar óleo de soja barato, não conseguiu entregar os volumes contratados e ficou inabilitado para participar dos mais recentes. As outras oleaginosas também tinham preços altos e encontram usos na alimentação humana, como o girassol e o algodão. O óleo de mamona, inicialmente tido como o ideal para o biodiesel, embora não seja comestível, é produto nobre, com vastas aplicações químicas. “Dos óleos vegetais, o de mamona é o mais caro no mercado mundial”, disse.

    A glicerina, a princípio trombeteada como renda adicional para os produtores, revelou-se pouco atraente. “A glicerina bruta valia mil dólares a tonelada, mas atualmente não passa de US$ 130/t FOB Santos-SP”, comentou. A bidestilada caiu de R$ 4,50/kg para R$ 1,00/kg. “Isso não paga nem o frete de Mato Grosso para São Paulo”, calculou. Em peso, a glicerina é produzida na razão de 1:10 em relação ao éster. Com preço aviltado, alguns produtores estão queimando o coproduto em suas caldeiras.

    Aboissa aposta na soja como matéria-prima principal para o biodiesel por longos anos. Ele comentou que 92% da disponibilidade de óleos e gorduras no país vem da soja. Em valores médios dos últimos anos, da safra de 62 milhões de toneladas de grãos, a metade é esmagada no próprio país, ofertando óleo e farelo, este usado na alimentação animal. “A capacidade nacional de esmagamento chega a 50 milhões de t/ano, mas tornou-se ociosa desde a Lei Kandir, que favoreceu a exportação de grãos sem apoiar a agregação de valor local”, criticou.

    Das 31 milhões de toneladas esmagadas em média por ano, cerca de 20% são extraídas como óleo, ou 6 milhões de t. A metade disso é consumida no Brasil na forma de alimentos. “Perto de 3 milhões de t/ano de óleo são usadas industrialmente ou exportadas, isso é mais do que suficiente para fazer todo o B5 sem tirar comida de nenhum brasileiro”, afirmou. Se for preciso, basta reduzir a exportação de grãos e ampliar a ocupação das esmagadoras locais.

    Aboissa comentou que, enquanto a soja registrava picos de preços no ano passado, os produtores de biodiesel passaram a disputar o sebo animal com as saboarias. “Não há alternativas graxas para a fabricação de sabão”, explicou. “Os saboeiros puxaram o preço do sebo para cima, desestimulando o uso na produção do éster, situação já revertida.”

    A cadeia produtiva da soja está muito bem estruturada no Brasil, país onde se encontram alguns dos maiores produtores mundiais do grão. Há muitos anos esse ramo do agronegócio acompanha as tendências mundiais de preços, sabe negociar e planejar as safras futuras. “Os produtores são arrojados e o parque industrial reúne os maiores players globais”, comentou. Alguns deles já entraram na produção de biodiesel.

    Alternativas – Outros cultivos podem oferecer vantagens à produção do biodiesel. Embora a soja seja a alternativa mais viável hoje, é preciso salientar que ela não é a mais produtiva. “Um hectare de soja gera 450 kg de óleo, enquanto o pinhão-manso pode dar três vezes mais óleo em extração física sem solvente”, comentou Adam Gutz, coordenador de negócios de óleos especiais da Aboissa. O pinhão-manso ainda não está suficientemente desenvolvido para plantio no Brasil, gerando frutos de maturação desuniforme que impõem alto custo de colheita. O nacionalíssimo dendê, ou óleo de palma, também é mais produtivo que a soja, mas também é usado para fins alimentares e encontra bom valor de mercado.

    Gutz revela alguma preocupação com a tecnologia que está sendo aplicada nas unidades de transesterificação. “Há investimentos usando todos os tipos, desde as mais conhecidas marcas internacionais e desenvolvimentos da pesquisa universitária nacional, até instalações caseiras, sem nenhuma comprovação de resultados”, relatou. Geralmente, as do terceiro grupo não atingem as especificações da ANP (Resolução nº 7, de 19 de março de 2008) e sua glicerina exige purificação, acrescendo custos.

    A existência de vários tipos de produtores, muitos dos quais sem canais diretos de comercialização, está criando um mercado secundário. “As grandes companhias compram a produção das pequenas que não têm cadastro para entrar nos leilões”, explicou. O mecanismo dos leilões deve acabar até 2011. Depois disso, cada distribuidora de diesel deverá comprar o B100 para fazer a mistura em suas instalações. Por enquanto, essa operação está sendo feita nas refinarias.

    Produto da esterificação de ácidos graxos de origem vegetal ou animal com um álcool, geralmente o metílico, o biodiesel caiu nas graças dos investidores e produtores nacionais, a ponto de justificar a antecipação das metas estipuladas na Lei 11.097, de janeiro de 2005. A capacidade produtiva do éster puro (o B100) autorizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) supera a marca de 3,8 bilhões de litros anuais, muito mais que os 2,4 bilhões de litros projetados para abastecer o mercado de diesel com 5% de éster incorporado, formando a mistura B5.

    Embora as contas de oferta e demanda mostrem um panorama tranquilo, a realidade é menos animadora. Parte das unidades autorizadas pela ANP simplesmente não consegue obter o éster dentro das especificações técnicas oficiais estabelecidas pela mesma agência. Outra parte atinge a qualidade esperada, porém seus indicadores econômicos desaconselham a botar os reatores em operação. Apesar disso, o mercado vem sendo abastecido com a mistura B3 desde junho de 2008, com um consumo médio de 1,5 bilhão de litros de biodiesel puro por ano. A mistura B4 estava prevista para entrar em vigor a partir do segundo semestre deste ano, mas poderá ser antecipada para abril, dependendo de aprovação oficial. Isso representará uma demanda próxima de 1,9 bilhão de litros/ano do B100. Na letra da lei, o prazo máximo para a adoção do B5 estava marcado para 2013, mas poderá ser aplicado na segunda metade de 2010.

    A antecipação soa como boa música aos ouvidos dos produtores. No ano passado, segundo a ANP, foram produzidos 1,2 bilhão de litros do éster no país, volume suficiente para fazer do Brasil o terceiro maior produtor – e também consumidor – de biodiesel, sendo superado apenas pela líder Alemanha e pelos Estados Unidos. O volume também evidencia uma ociosidade no parque produtor da ordem de 70%.



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