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Biocombustíveis geram escala para projetos industriais

Marcelo Fairbanks
25 de junho de 2018
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    Embora os biocombustíveis sejam a porta de entrada para a biotecnologia industrial avançar. “O setor precisa sair do nicho de mercado que depende mais do preço internacional do petróleo, falta uma sinalização clara nesse sentido por parte do governo, pela via dos incentivos”, comentou. Atualmente, já estão desenvolvidas várias tecnologias alternativas ao uso de derivados de petróleo em vários mercados, mas nem sempre isso é valorizado pelos consumidores. “Os produtos biotecnológicos ajudam a reduzir o consumo de água e de energia, bem como a pegada de carbono dos processos”, afirmou.

    Quanto ao arcabouço legal, Silva considera que o Brasil conta com as normas mais atualizadas do mundo. “Acompanhamos o campo regulatório e podemos afirmar que nossa lei de biodiversidade é a mais moderna que existe, tanto que vários players internacionais estão investindo mais no setor”, considerou. Como deficiência, ele apontou o distanciamento entre academia, institutos de pesquisa e empresas.

    Evolução de conceitos – Ponto chave para a evolução da biotecnologia é o desenvolvimento científico nas áreas de química e biologia molecular, além dos esforços para aplicar todos esses conhecimentos em operações reais, a atividade tecnológica. O Brasil tem pessoal qualificado e estruturas adequadas para fazer essas pesquisas nas universidades, embora grande parte delas se concentre nas linhas ligadas à saúde humana”, considerou Gabriel Gorescu, diretor de pesquisa e inovação do Grupo Solvay (Rhodia) na América Latina. Ele considera a concentração em áreas de impacto social como natural, e isso também ajuda a desenvolver atividades industriais.

    Química e Derivados, Gorescu: aproveitamento da biomassa exige somar esforços

    Gorescu: aproveitamento da biomassa exige somar esforços

    Gorecu salienta que a região Sudeste do Brasil é a mais bem equipada para atividades em biotecnologia, por concentrar mais recursos humanos e materiais, especialmente no Estado de São Paulo. “É uma estrutura ainda pequena, muito focada em atividades acadêmicas”, disse. Faltam mecanismos institucionais para incentivar a maior colaboração entre universidades e indústrias, mas esse panorama está mudando.

    Gorescu informou que as agências de inovação adotaram posturas pragmáticas, com mais flexibilidade para conciliar interesses da academia e das empresas. “As indústrias nacionais também precisam se esforçar mais para entender melhor a pesquisa universitária, que visa gerar conhecimento e publicações”, comentou. Até a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) tem apoiado a interação entre esses elos e mantendo linhas de fomento para projetos de cunho tecnológico.

    Como avaliou o diretor do Grupo Solvay, há dois pontos cruciais nessa relação: propriedade intelectual e confidencialidade. Um acordo de patrocínio de pesquisas entre indústria e universidade precisa ser bem elaborado. “São pesquisas longas e não se sabe de antemão se haverá algum resultado útil, o risco é elevado, mas, ao mesmo tempo, pode ser que surja algo muito valioso; como estabelecer um valor para isso?”

    Como se trata de desenvolvimento demorado, não só na etapa de pesquisa científica, mas nas fases seguintes, pode ser ameaçada a proteção patentária da inovação de pesquisa, reduzindo a remuneração total da iniciativa. “Além das partes envolvidas, é preciso um esforço dos órgãos de concessão de patentes no Brasil, que estão melhorando, mas ainda há dificuldades”, comentou.

    Segundo Gorescu, a saída usual é adotar um modelo de remuneração à pesquisa com base em uma porcentagem do faturamento do produto desenvolvido comercialmente. “Paga-se um prêmio pela exclusividade do uso da inovação, mas isso precisa ser bem estabelecido”, afirmou.

    Ele também aponta dificuldades para indústrias bancarem projetos de prazos superiores a cinco anos. Na maior parte dos casos, os acordos são estabelecidos para dois anos, em projetos bem específicos. “Como a Solvay tem uma mentalidade estabelecida de longo prazo, até conseguimos lidar com períodos maiores, mas esses projetos acabam ficando muito caros, é uma limitação”, afirmou. Em geral, as universidades também não gostam de projetos muito longos, pois precisam dos resultados para alimentar teses, fundamentais para a formação de novos pesquisadores.

    Da mesma forma, interessa sempre aos pesquisadores publicar suas descobertas, mas isso pode gerar conflitos com o parceiro investidor. “Quando há um relacionamento estável, com um grau elevado de confiança, é mais fácil equacionar esse problema”, salientou. O acordo pode restringir a publicação de partes críticas da pesquisa ou exigir um atraso na sua divulgação, pelo menos até se registrar a patente.

    O laboratório mundial de biotecnologia da Solvay foi instalado em Paulínia-SP em 2015, contando com equipe própria de dez pesquisadores, atuando com fermentações, enzimas e exploração química da biomassa. “Temos foco em projetos para cinco anos, de modo a gerar resultados e justificar investimentos mais longos”, disse. Os projetos geralmente são ligados às áreas de atuação da companhia, com destaque em cuidados pessoais e domissanitários. A ideia é complementar o portfólio com itens gerados por biotecnologia, com alta agregação de valor. É o caso dos solventes Augeo, que são derivados de glicerina de biodiesel.

    O maior projeto biotecnológico da companhia é a produção de biobutanol (n-butanol) a partir de biomassa, que ganhou impulso com a aquisição da Cobalt, que já tinha avançado bastante nessa tecnologia. “Precisávamos de uma planta-piloto e a instalamos junto à unidade de etanol 2G da GranBio, com quem temos uma parceria”, comentou. “Há alguns problemas, está demorando um pouco para colocar nosso projeto em marcha.”



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